UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS CENTRO DE LETRAS E COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS – MESTRADO ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: LITERATURA COMPARADA

Dissertação de Mestrado

AS IDEIAS RACIAIS NA OBRA DE MONTEIRO LOBATO: FICÇÃO E NÃO FICÇÃO

Rafael Fúculo Porciúncula

Pelotas, 2014

Rafael Fúculo Porciúncula

AS IDEIAS RACIAIS NA OBRA DE MONTEIRO LOBATO: FICÇÃO E NÃO FICÇÃO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Letras – Mestrado do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Letras – Literatura Comparada.

Orientador: Prof. Dr. Alfeu Sparemberger Co-orientador: Prof. Dr. Uruguay Cortazzo González

Pelotas, 2014

Dedico este trabalho à minha amada esposa Siane Bianchi Porciúncula, por fazer parte de mim, por ser tudo o que eu sempre sonhei e tudo que eu quero para toda a minha vida, por ser o impulso que me lança em direção aos nossos sonhos, a luz que me guia, a água que bebo, o ar que respiro, por ser o grande amor da minha vida.

Agradecimentos

À minha esposa, pelo apoio incondicional, pelo colo nos dias exaustão, por ter sido a força que me manteve em pé nos momentos de aflição, pela compreensão mesmo nos dias e nas noites que sacrifiquei, por ter sido minha motivação, porque sem ela nada disso teria sido possível. À minha mãe, por ter sido, durante toda a vida, um espelho de garra e de coragem e por ter me ensinado que a vida é feita de batalhas, que ora se ganham ora se perdem, mas que a vitória só é alcançada com empenho e perseverança. Ao meu pai, que mesmo não estando mais presente entre nós, certamente estará orgulhoso por minha conquista, por ter me ensinado a encarar a vida com humildade e caráter. Ao meu orientador, Alfeu, pelas aulas excelentes, pela amizade, pela paciência e compreensão de sempre, por acreditar na minha capacidade e na viabilidade desta pesquisa. Ao meu co-orientador, Uruguay, pela amizade, por ter aberto as janelas da minha vida para o mundo encantado da literatura, pela paciência com os infindáveis e-mails, por ter guiado o meu olhar para uma temática tão apaixonante e humana.

Resumo

PORCIÚNCULA, Rafael Fúculo. As ideias raciais na obra de Monteiro Lobato: ficção e não ficção. 2014. 199 f. Dissertação (Mestrado em Letras - Literatura Comparada) - Programa de Pós-Graduação em Letras, Centro de Letras e Comunicação, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2014.

A discussão suscitada nos últimos anos a respeito da possível presença de ideais preconceituosos nas produções do escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948) instigou a análise de seu ―pensamento racial‖, com o intuito de averiguar se, de alguma maneira, o seu discurso não ficcional dialoga com as representações dadas à mesma temática em suas criações literárias. O estopim da polêmica supracitada foi a acusação, relatada em Parecer do Conselho Nacional da Educação (CNE), de que a obra pertencente ao Programa Nacional Biblioteca da Escola, Caçadas de Pedrinho (1933), de Monteiro Lobato, representava o ―negro‖ e o ―universo africano‖ de maneira estereotipada e preconceituosa. Por conseguinte, diante das múltiplas interpretações constatadas, essa investigação buscou analisar a evolução do pensamento lobatiano sobre a questão racial de acordo o contexto histórico-social em que Lobato viveu e as ideias às quais se afiliou. Assim, o exame de seus enunciados revela distintas associações a teorias sobre o tema, ora com uma visão crítica sobre a miscigenação, ora com a aderência aos projetos sanitaristas ou eugenistas do início do século XX. Através de suas declarações, observou-se que o criador do ―Sítio do Picapau Amarelo‖ acreditava na existência de uma superioridade branca em relação às outras ―raças‖, relacionando-a, por diversas vezes, a um suposto arquétipo intelectual, cultural e fisionômico. Paralelamente, examinou-se suas narrativas literárias desde uma perspectiva que visasse averiguar como o racialismo está representado em seu discurso ficcional. Por conseguinte, constatou- se que os ideais raciais presentes na obra literária do escritor coincidem com suas concepções sobre o tema. Seja através das palavras do narrador, seja pela caracterização física e psicológica dada às personagens ou pelas relações estabelecidas entre elas, nota-se que o ―negro‖ e o ―mestiço‖ são, constantemente, associados à subalternidade, à fealdade, à ignorância e ao atraso cultural, em oposição à autoridade, à beleza, à inteligência e à cultura avançada do ―branco‖.

Palavras-chave: Literatura Brasileira; Monteiro Lobato; Racialismo.

Abstract

PORCIÚNCULA, Rafael Fúculo. The racial ideas in the work of Monteiro Lobato: fiction and nonfiction. 2014. 199 f. Dissertation (Master of Arts in Comparative Literature) - Programa de Pós-Graduação em Letras, Centro de Letras e Comunicação, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2014.

The discussion raised in recent years about the possible presence of prejudicial ideals in the productions of Monteiro Lobato (1882-1948) prompted the analysis of his "racial thinking" in order to ascertain whether, somehow, his nonfictional discourse is linked with the representations given to the same theme in his literary creations. The reason of the controversy aforementioned was the charge reported in the National Education Council Report (CNE), that the work which belongs to the National School Library Program, Caçadas de Pedrinho (1933), written by Monteiro Lobato, represented the ―black‖ and ―African universe!‖ in a stereotyped and prejudicial way. Therefore, given the multiple interpretations noted, this study aimed at analyzing the evolution of Lobato‘s thinking about race according to historical and social context in which he lived and the ideas to which he was affiliated. Thus, the examination of his enunciations reveals distinct associations to theories on the subject, sometimes with a critical view of miscegenation, and sometimes with adherence to the sanitary or eugenicists projects of the early twentieth century. Through his statements, it was observed that the creator of Sítio do Picapau Amarelo believed in the existence of white superiority over other ―races‖, relating it several times to a supposed intellectual, cultural and physiognomic archetype. In parallel, we examined their literary narratives from a perspective that aims at ascertaining how racialism is represented in his fictional discourse. Therefore, it was found that racial ideals present in the literary work of the writer coincides with his views on the subject. Both through the words of the narrator and the physical and psychological characterization given to the characters, or the relationships established between them, it is possible to note that the ―black‖ and ―mestizo‖ are constantly associated with the concepts of subordination, ugliness, ignorance and cultural backwardness, as opposed to authority, beauty, intelligence and advanced culture of the ―white‖.

Keywords: Brazilian Literature; Monteiro Lobato; Racialism.

Sumário

1 Considerações iniciais...... 9 2 Caçadas de Pedrinho e a polêmica...... 13 2.1 Os Pareceres do Conselho Nacional da Educação...... 13 2.2 As distintas interpretações e a polêmica...... 18 3 As discussões raciais entre o final do século XIX e início do século XX 51 3.1 Produção literária e sociedade...... 51 3.2 O contexto abolicionista e republicano...... 54 3.3 A questão imigratória e o “branqueamento”...... 62 3.4 A teoria de purificação da raça...... 67 3.5 A eugenia brasileira...... 71 4 As ideais raciais de Monteiro Lobato I...... 82 4.1 As primeiras epístolas...... 82 4.2 Lobato articulista...... 91 4.2.1 “Uma velha praga”...... 92 4.2.2 “Urupês”...... 94 4.2.3 A questão da guerra...... 100 4.3 Primeiros contos...... 102 4.3.1 “A vingança da peroba”...... 102 4.3.2 “Bocatorta”...... 104 4.4 A união aos projetos sanitaristas e a ressurreição do Jeca Tatu...... 106 4.4.1 Sanear é preciso...... 106 4.4.2 Jeca Tatu – a ressurreição...... 111 4.5 Negrinha...... 113 4.5.1 A beleza angelical branca...... 113 4.5.2 “O jardineiro Timóteo”...... 116 4.5.3 “O bugio moqueado” e “Os negros”...... 118 5 As ideais raciais de Monteiro Lobato II...... 124 5.1 O presidente negro ou O choque das raças...... 124 5.1.1 Os Estados Unidos em 2228...... 125 5.1.2 Um grito de guerra pró-eugenia...... 137

5.1.3 Estados Unidos e Ku-Klux-Klan...... 144 5.2 O Sítio do Picapau Amarelo...... 146 5.2.1 O negro: subalternidade, fealdade, ignorância e atraso cultural...... 147 5.2.2 O branco: autoridade, beleza, inteligência e cultura avançada...... 162 5.2.3 O Sítio e seu criador...... 171 5.3 Últimas impressões...... 174 5.3.1 Zé Brasil...... 175 5.3.2 O enorme canteiro baiano e o candomblé...... 178 6. Considerações finais...... 183 Referências...... 194

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1 Considerações iniciais

Iniciou-se, no ano de 2010, uma discussão a respeito das ideias raciais presentes na obra do escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948). No referido ano, o Conselho Nacional da Educação (CNE) relatou a acusação de Antônio Gomes da Costa Neto, de que a obra Caçadas de Pedrinho (1933) representava o ―negro‖ e o ―universo africano‖ de maneira preconceituosa e estereotipada. O motivo da denúncia teria sido a inserção da obra literária no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e sua consequente distribuição nas escolas públicas do Distrito Federal. O documento foi divulgado nos meios de comunicação e, como resultado, provocou a manifestação de diferentes vozes sociais a respeito do seu teor. Logo, formou-se uma polêmica em torno da questão devido às diferentes interpretações tanto do objetivo do Parecer quanto do próprio pensamento racial de Lobato. A investigação que aqui se desenvolve nasceu em virtude dessa controvérsia. Assim, inicialmente, analisa-se o conteúdo apresentado na acusação de Costa Neto e suas alterações por solicitação do Ministério da Educação (MEC). Sequencialmente, busca-se examinar os diferentes posicionamentos gerados em função da denúncia, com o intuito de perceber quais são os argumentos utilizados como concordância ou oposição às solicitações relatadas pelo CNE. Além disso, averiguam-se quais são as interpretações existentes sobre os ideais raciais no pensamento de Lobato e das representações acerca da mesma temática presentes em suas obras literárias. As declarações analisadas não se restringem a pesquisadores da área literária, mas englobam as opiniões de diferentes segmentos sociais, ligados aos mais variados interesses. Essa escolha contribui para a compreensão de que a obra literária não se encerra entre as paredes acadêmicas, mas circula entre as distintas camadas da sociedade. Em seguida, com base nos estudos de Antonio Candido (2000) e de Daniel Madelénat (2004) sobre a relação entre a literatura e a sociedade, objetivou-se verificar de que maneira esses dois campos dialogam no momento da elaboração do produto artístico. Com isso, constatou-se a legitimidade do estudo que vise à

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comparação entre as concepções de um autor sobre a problemática racial e a representatividade ficcional desses princípios em sua literatura. Dada essa viabilidade, resgata-se o final do século XIX e início do século XX, com o esforço de perceber qual o contexto histórico-social em que Monteiro Lobato desenvolveu seus ideais. Período de distintas inovações no terreno científico, principalmente na esfera da biologia, além de câmbios políticos e de práticas sócio-laborais no Brasil, o recorte temporal apresenta debates intensos sobre a questão da ―raça‖. Expõe-se, assim, as discussões referentes à problemática da escravidão e dos caminhos trilhados até a promulgação da Lei Áurea e a libertação dos escravos. Ademais, apresenta-se a realidade social com a qual se depararam os ex-escravos quando libertados e a sua trajetória visando à inserção em uma sociedade que, a muito, já se organizava de forma hierárquica. A respeito da racialidade brasileira, examinam-se as diferentes teorias que ora questionam a mestiçagem ora a tomam como solucionista se guiada pelas concepções corretas, ou ainda, formulações científicas que visam o aperfeiçoamento da ―raça‖ de acordo com a interferência nas uniões, nos direitos de procriar e com a tentativa de controle de fatores supostamente degenerativos. Para os fins destacados, toma-se como fundamento os trabalhos de Thomas Skidmore (2012), de Pietra Diwan (2007) e de Nancy Stepan (2005), aos quais se intercalam outros estudos que, em diálogo com os citados, contribuem para a formação de um panorama consistente sobre aquele período, no que se refere à temática central desta pesquisa. Depois de caracterizado o cenário que se tinha proposto, esta investigação centraliza a sua análise em Monteiro Lobato, mais precisamente em seus enunciados a respeito da esfera racial. Opta-se por não separar, em sua totalidade, o exame de seu discurso não ficcional da apreciação de sua produção literária, não por uma equiparação da natureza desses textos, mas por considerar-se mais favorável para a avaliação do possível diálogo entre eles. Entretanto, no decorrer do texto, procura-se demarcar essa distinção discursiva, ou seja, busca-se salientar se as manifestações em análise se referem à própria voz de Lobato ou se está inserida em uma obra literária e a sentença derive de uma entidade ficcional, como o narrador ou alguma personagem. Além disso, no mesmo viés organizativo, esforça- se por abordar esses materiais seguindo uma ordem cronológica de produção, com o intuito de perceber a modificação ou conservação de um ideal, tanto no nível

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artístico quanto nas suas concepções pessoais. Obviamente, algumas obras são constituídas por textos escritos em datas que não coincidem com a de sua publicação e, por conseguinte, sempre que possível, procura-se demarcar o período em que foram produzidas. Para o exame do pensamento racial lobatiano, recorre-se às suas produções não literárias, com a finalidade de constatar quais foram as declarações feitas pelo escritor sobre o assunto. Como objetos pertinentes a essa averiguação, utiliza-se materiais de caráter jornalísticos, como artigos ou crônicas de sua autoria e entrevistas cedidas à imprensa, além de prefácios elaborados para outrem e, também, sua correspondência pessoal. Nota-se, desde agora, a bipartição entre o que Monteiro escreveu para se tornar público e o que foi elaborado com finalidade particular. Ainda assim, mesmo dentro do conjunto de textos, inicialmente, tidos como privados, encontra-se uma nova divisão, pois a grande maioria dessas cartas foi publicada com o consentimento de seu criador, mas algumas delas apenas foram divulgadas após sua morte, através da disponibilização das mesmas em instituições de preservação da memória não somente do remetente, mas também de seus interlocutores. Essa cisão contribui para a constatação de qual imagem Lobato gostaria que fosse pública e qual preferia que se mantivesse em sua confidencialidade. Nascido no final do período escravista, Monteiro cresceu em meio às mudanças decorrentes da alteração de regime laboral e da alteração no campo político. Diante da realidade social em que estava inserido, o escritor paulista presenciou as diferentes teorizações sobre a questão racial e este trabalho procura constatar como ele encarou cada uma dessas formulações, se com aceitação ou negação. Ademais, objetiva-se perceber se o escritor optou por afiliar-se a alguma dessas correntes de pensamento e defendê-la ou por manter-se imparcial em relação às discussões sobre o tema, as quais permeavam os meios intelectuais daquela época. No âmbito literário, primeiramente, analisa-se suas criações para adultos, constituídas por alguns contos e por um único romance. Dentre as narrativas curtas, filtram-se apenas as que apresentam características relevantes para esta pesquisa. Ainda que a questão racial não ocupe espaço central na maioria dessas produções, a perspectiva de análise que se adota é guiada pela síntese do enredo narrativo e a

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convergência para a esfera racial, com o propósito de destacar se a temática exerce alguma função para a economia do texto. Por outro lado, o único romance lobatiano – desde seu título, O presidente negro ou O choque das raças (1926) – apresenta de maneira efetiva o conteúdo que conduz essa investigação. Antes de qualquer análise, a titulação antecipa que a questão racial ocupará papel central na narrativa. Para todas as manifestações ficcionais de Monteiro Lobato, considera-se a caracterização racial dada às personagens, seja pela voz do narrador ou pela descrição feita por outro indivíduo atuante na história apresentada. Ademais, busca- se o exame das relações entre essas personagens, tendo em conta a configuração intelectual e psicológica das mesmas, com o propósito de observar como a questão racial influi no modo de interação dessas personagens. Nessa mesma direção, contempla-se a literatura infantil de Lobato, que, apesar do elevado número de obras, se unificam pela relação de continuidade apresentada, tanto no que se refere aos acontecimentos narrados quanto às personagens que compõem o que se pode chamar de grupo de protagonistas. Por conseguinte, toma-se esse conjunto como constitutivo de uma possível grande narrativa do ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖, ainda que, para fins de localização, se faça a referência a cada uma das obras. Com a mesma perspectiva supracitada, o estudo que se apresenta pretende observar de que modo a questão racial é apresentada na literatura infantil de Monteiro Lobato. Para tanto, tenciona-se a análise da representação dada aos ―negros‖, através das figuras de Tio Barnabé e de Tia Nastácia; e aos ―brancos‖, por intermédio de Dona Benta e seus netos. Obviamente, esse exame se estende a atuação de outras personagens centrais, como Emília e Visconde de Sabugosa, e também das secundárias, cuja conduta, de alguma maneira, venha ao encontro dos objetivos propostos por essa pesquisa. Assim, fomentado pelas diferentes interpretações sobre as ideias raciais de Monteiro Lobato e sobre a representação literária do tema, este estudo busca evidenciar o que o escritor paulista pensava a respeito desse assunto e perceber se essas concepções pessoais expressas em sua obra não ficcional dialogam com a aparição da temática em suas produções literárias. Tanto a dissonância quanto a aproximação entre as duas esferas discursivas são perfeitamente possíveis e, nesse sentido, o estudo do pensamento racial de Lobato contribuiria para a leitura de suas obras ficcionais segundo a própria intencionalidade que projetava para as mesmas.

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2 Caçadas de Pedrinho e a polêmica

2.1 Os Pareceres do Conselho Nacional da Educação

Em 30 de junho de 2010, o Conselho Nacional da Educação (CNE), na Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, recebeu uma denúncia de autoria de Antônio Gomes da Costa Neto, Técnico em Gestão Educacional e, no momento, mestrando em Educação pela Universidade de Brasília. O processo gerado, relatado em Parecer aprovado pelo Conselho em 1º de setembro do mesmo ano (BRASIL, 2010), objetivava solicitar que a Secretaria de Educação do Distrito Federal se abstivesse da utilização de materiais – sejam eles didáticos, literários ou de qualquer funcionalidade – que contivessem expressões de cunho racista. Na denúncia, o autor apresenta uma análise embasada em seu campo de pesquisa, a Educação para as Relações Étnicorraciais, da obra infantil Caçadas de Pedrinho (1933)1, do escritor Monteiro Lobato, na qual declara que a obra citada apresenta múltiplas passagens que se referem de maneira estereotipada ao negro e ao universo africano. Além disso, ressalta que esta produção lobatiana é utilizada como referência em escolas públicas do Distrito Federal, faz parte da coleção selecionada para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e, por conseguinte, foi distribuída para as escolas públicas de ensino fundamental. O Parecer destaca trecho da nota técnica enviada sob aprovação do Diretor de Educação para a Diversidade, Armênio Bello Schimdt, a qual se mostra a favor do denunciante. Dentre os pontos analisados, Neto salienta que a editora se preocupou em enfatizar que o texto apresenta revisão das novas regras de ortografia e que, referindo-se à parte do conteúdo textual, ainda não existiam leis de proteção aos animais silvestres, além de a onça pintada não estar em risco de extinção na época em que a obra foi escrita. De acordo com ele, em consequência,

1 A primeira edição de Caçadas de Pedrinho data de 1933. Entretanto, a análise apresentada se refere à republicação pela Editora Globo no ano de 2009.

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caberia a editora responsável inserir uma nota explicativa justificando a presença de estereótipos na literatura, através da contextualização da obra no período histórico em que foi produzida. Ademais, mesmo sem deixar de reconhecer a importância da utilização de clássicos literários na educação, o mestrando apresentou as leis e as diretrizes que vêm em favor de sua manifestação, em defesa do cumprimento, por parte do Ministério da Educação (MEC), das normas antirracistas que o próprio órgão estipula. Além da solicitação de inserção de nota explicativa, não só em Caçadas de Pedrinho, mas também em todas as obras pertencentes ao acervo que apresentem as mesmas características, o requerente considerou necessária a execução de outras medidas decorrentes da avaliação do processo: primeiramente, a criação de políticas públicas voltadas aos cursos de ensino superior, visando à formação de profissionais da educação que estejam aptos a lidar crítica e pedagogicamente com essa temática; posteriormente, a indispensabilidade de orientação às escolas, por parte da Secretaria da Educação do Distrito Federal, objetivando o real cumprimento das Diretrizes Nacionais da Educação para a Educação das Relações Étnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (BRASIL 2004). O Parecer 15/2010 destaca que a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, ao ser questionada sobre o assunto, declarou que a obra será lida sempre sob a supervisão de um professor, dotado de uma experiência leitora, mas não deixou de afirmar que um dos critérios de avaliação no momento da seleção é a ausência de preconceitos, estereótipos e doutrinações. Na ―Análise‖ da denúncia, afirma-se que é passível de compreensão que a adoção de Caçadas de Pedrinho para compor o acervo do PNBE siga o legado de pôr à disposição de alunos e professores obras clássicas para o estudo da literatura infantil. Não obstante, considera-se que a obra supracitada não se enquadra com o método avaliativo anteriormente destacado, pois as características não foram evidenciadas apenas nessa obra, mas também em outras produções lobatianas, o que demonstraria que não se trata de um exame de fragmentos isolados, mas da própria ideologia racial presente nas obras do escritor. Advoga-se, então, pela necessidade de prevenir a adoção de novos materiais que não condigam com o princípio de não selecionar obras que possuam estereótipos e preconceitos de qualquer tipo e, nas seleções subsequentes, de fazer-se cumprir, pela Coordenação Geral de Material Didático do MEC, as normas estabelecidas.

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O documento publicado pelo CNE resultou em distintas interpretações, pois, em princípio, aparentou não expor com clareza alguns de seus propósitos, o que, por conseguinte, levou seus receptores a diferentes inferências, como, por exemplo, a solicitação ou não de censura e proibição do uso da obra no contexto escolar. Devido a tal entendimento ambíguo, o MEC solicitou que o Conselho reexaminasse a denúncia e seus pormenores, o que acarretou na produção de um segundo Parecer (BRASIL, 2011), revisto e corrigido. Em seu ―Histórico‖, o Parecer 6/2011 procura esclarecer que a polêmica gerada resultou de más interpretações sobre o teor do Parecer anterior, pois o documento não objetiva vetar a obra de Monteiro Lobato. Em contraponto, a relatora, Nilma Lino Gomes, procurou comprovar que este não havia sido o único entendimento, ao trazer à discussão trecho de nota enviada ao Ministro da Educação pelo intelectual, político e ativista do Movimento Negro, Abdias no Nascimento (1914-2011), solicitando a homologação e cumprimento das orientações do Parecer de 2010 (BRASIL, 2011, p. 2). No decorrer na ―Análise‖, o novo documento desfaz a ambiguidade referente à edição da obra de Monteiro Lobato ali reportada, pois a análise direciona-se a republicação no ano de 2009, pela Editora Globo, a qual se tratava de aquisição direta no mercado editorial por escola particular do Distrito Federal, enquanto a inclusão da obra no acervo do PNBE havia sido feita entre os anos de 1998 e 2003, em edição anterior. Além disso, reelabora alguns trechos anteriormente apresentados e acrescenta outras fundamentações à discussão, baseando-se em leis, decretos e convenções que destacam o dever do Estado de promover às crianças um ambiente vivencial e educacional sem qualquer forma de preconceito ou discriminação (p. 5). No anseio de uma base teórica mais eficaz, são aliados à discussão outros estudos sobre a presença do negro na literatura e sobre as ligações entre literatura infantil e ideologia. Ademais, busca-se legitimar a representação negativa do negro nas obras lobatianas com os estudos de Pietra Diwan sobre a história da eugenia, no qual a historiadora afirma que Monteiro Lobato esteve ligado a projetos de ―purificação racial‖ do povo brasileiro e que as ideias raciais presentes em sua obra coincidem com as ideologias às quais estava relacionado. Diferentemente do documento anterior, onde a denúncia se referia mais propriamente à Secretaria de Educação do Distrito Federal, o Parecer de 2011

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amplia sua manifestação, conduzindo-a a todo sistema de ensino do país, sob supervisão do Ministério da Educação. Percebe-se, também, a substituição ou supressão de alguns termos. Tinha-se como objetivo ―exigir‖ que a editora responsável inserisse uma ―nota explicativa‖ a fim de dar a conhecer ao leitor os atuais estudos sobre a presença de estereótipos na literatura (BRASIL, 2010, p.5). O primeiro termo destacado foi substituído por ―recomendar‖, enquanto o segundo foi suprimido, mantendo-se somente a referência ao texto introdutório da obra. Foi citado trecho do ―edital de convocação para inscrição de obras de literatura no processo de avaliação e seleção para o PNBE‖ para o ano de 2011, no qual é ressaltado em seu ―Projeto gráfico‖ que: A biografia do(s) autor(es) deverá ser apresentada de forma a enriquecer o projeto gráfico-editorial e promover a contextualização do autor e da obra no universo literário. Igualmente, outras informações devem ter por objetivo a ampliação das possibilidades de leitura, em uma linguagem adequada ao público a que se destina, e com informações relevantes e consistentes (BRASIL, 2009, p. 15).

Percebe-se um esforço ainda maior, por parte do segundo Parecer, em demonstrar que suas orientações estão de acordo com a legislação e normas publicadas e vigentes. Além disso, advoga-se pela contextualização acerca das circunstâncias histórica, política e ideológica nas quais foram produzidas as obras literárias, com a finalidade de promover uma leitura fundamentalmente crítica. A ligação, na obra de Lobato, entre o âmbito literário e fatores externos (históricos, sociais, políticos, etc.) é fundamentada em estudo da pesquisadora paulista Marisa Lajolo sobre a ―Figura do negro em Monteiro Lobato‖ (1998), no qual afirma que: [...] analisar a representação do negro na obra de Monteiro Lobato, além de contribuir para um conhecimento maior deste grande escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se olham os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura, literatura e política e similares binômios que tentam dar conta do que, na página literária, fica entre seu aquém e seu além. (LAJOLO apud BRASIL, 2011, p. 8).

Percebe-se que Lajolo, uma empenhada investigadora da vida e da obra do escritor paulista, evidencia a possibilidade dialógica entre a literatura, mais especificamente a representação do negro nas produções de Lobato, e os diferentes âmbitos extratextuais da contemporaneidade lobatiana. Entretanto, apesar do resgate do trabalho da pesquisadora pelo Parecer 06/2011, ver-se-á, posteriormente, que o posicionamento de Marisa Lajolo difere das postulações e acusações apresentadas nos dois documentos encaminhados pelo Conselho Nacional da Educação.

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Em maio de 2011, a discussão renovou suas forças quando o jornalista Arnaldo Bloch publicou, na seção ―LOGO/A página móvel‖ do jornal ―O Globo‖ (Bloch, 2011), trechos da correspondência de Monteiro Lobato com o higienista Arthur Neiva. Em uma delas, enviada de Nova York, em 10 de abril de 1928, o escritor faz referência à organização racista norte-americana Ku-Klux-Klan, declarando a necessidade da existência de uma organização de mesmo fim no Brasil. Tanto essa como outras declarações retiradas de sua correspondência serão retomadas e analisadas no decorrer deste trabalho. No ano seguinte, um mandado de segurança foi encaminhado ao Supremo Tribunal de Federal (STF) e relatado pelo ministro Luiz Fux, sob autoria de Antônio Gomes da Costa e do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA), no qual é questionado o uso de Caçadas de Pedrinho no âmbito escolar. No mês de setembro do mesmo ano, a primeira audiência de conciliação acabou sem acordo, levando a decisão ao plenário do STF. Ademais, o IARA entrou com uma ação junto à Controladoria Geral da União (CGU), em 25 de setembro de 2012, na qual destaca que uma segunda obra do escritor (Negrinha, 19202), que também fez parte do acervo do PNBE, contém trechos igualmente preconceituosos. Segundo Humberto Adami, presidente do Instituto na ocasião, a obra utilizada pelo Programa, publicada pela Editora Globo, possui uma nota de apresentação que afirma que a obra não é racista, o que, a seu ver, é uma contradição se comparada ao conteúdo da mesma. Na continuação, Adami declara que, ―ao contrário do que se diz que queremos censurar a obra, a obra tem que circular com o esclarecimento para desconstruir o racismo" (ADAMI apud MENDES, 2012). Para o presidente do IARA, a questão ultrapassa a esfera literária (ADAMI apud QUESTÃO, 2012), problemática comum quando entram em discussão duas esferas distintas, como literatura e política. O resultado dos processos permanece pendente de decisão pelo Supremo Tribunal Federal. Humberto Adami põe em discussão um ponto importante para análise: as inferências tiradas por muitos de que a ideia defendida pelas acusações era a de censura às obras destacadas, ponto negado pelos acusadores. Por conseguinte, percebe-se que tal conclusão alcançada pelos opositores serviu, por diversas vezes,

2 A republicação da obra pela Editora Globo foi adquirida pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola no ano de 2009 e distribuída às escolas públicas brasileiras.

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como argumento-chave para legitimar a sua postura contrária. Torna-se necessário examinar as diferentes vozes sociais manifestadas e envolvidas no debate, repetidamente tido como polêmico. Para tanto, analisar-se-á a postura dos meios de comunicação, bem como declarações e produções de intelectuais e interessados publicadas em outras fontes digitais ou impressas. Complementarmente, examinar- se-á uma série de entrevistas feitas pela ―Univesp TV‖, em 2012, as quais procuram demonstrar as opiniões em conflito no debate gerado. Com mais profundidade, buscar-se-á centralizar a investigação nas postulações dadas por um dos entrevistados, a professora e pesquisadora Marisa Lajolo, devido à multiplicidade de estudos referentes ao escritor.

2.2 As distintas interpretações e a polêmica

As diferentes conclusões e manifestações referentes aos ideais raciais de Monteiro Lobato e da influência destes em sua produção literária suscitou uma discussão que perdurou por longo período, pois considerar racista o criador do ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖ pareceu ofensivo a alguns e justo a outros. Estudiosos das Ciências Humanas e Sociais, imprensa, políticos e interessados apresentaram diferentes posicionamentos em favor e contra a acusação, dos quais, ao serem examinados, se pode extrair três pareceres centrais em relação à problemática, partindo de uma visão analítica mais ampla. O primeiro deles compartilha as conclusões expostas no Parecer do Conselho ao destacar uma ideologia racista presente nas obras do autor, legitimada nas comprovações do íntimo vínculo com o médico paulista Renato Kehl e a Eugenia, além das declarações feitas a Arthur Neiva e a Godofredo Rangel, as quais serão analisadas nos capítulos seguintes. O segundo juízo reconhece a presença de trechos racistas não só em Caçadas de Pedrinho. No entanto, expõe como argumento que Lobato foi ―filho de sua época‖ e que apenas não se afastou do pensamento predominante da elite de seu tempo, o que demonstra a ideia de um determinismo ditado pelo período histórico e pela classe social a que pertencia, onde o negro ocupava uma posição secundária em relação ao branco. Finalmente, o último parecer contrapõe as opiniões defendidas pelo relator da denúncia, o qual considera que a produção literária de Lobato valorizou o negro em um período em

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que sua posição na sociedade ainda era inferior. De acordo com eles, esse reconhecimento se deu através da inserção do negro como protagonista em uma de suas obras, da equiparação de valores sociais e da valorização da cultura popular. Os manifestos contrários às acusações apresentadas pelo CNE eclodiram rapidamente após a divulgação do primeiro parecer. A Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) se pronunciou em ―Carta Aberta‖ publicada em 5 de novembro de 2010. Segundo a instituição, seu pronunciamento objetivava o ―apoio a entidades e especialistas da área dos estudos literários e culturais que já haviam intervindo naquele debate ressaltando as mesmas posições‖ (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA, 2010). No parágrafo que dá início ao documento, nota-se o intuito de demarcar a esfera intelectual em que se insere aquele posicionamento. Além disso, põe-se em destaque que a apreciação em evidência é compartilhada por grupos e por sujeitos com aptidões que lhes permitem um olhar diferenciado sobre os fenômenos literários e culturais, o que, por conseguinte, demonstraria certa uniformidade nas interpretações dos indivíduos pertencentes a esse meio. Em seguida, através da apresentação de seis tópicos, a Associação expõe sua postura frente à problemática, os quais podem ser citados em sua integridade: 1. nosso repúdio a quaisquer formas de censura às manifestações estético- culturais; // 2. nossa recusa a formas de abordagem da literatura e da arte que se limitem a uma dimensão estritamente conteudística, minimizando a relevância de sua função estética; // 3. nossa rejeição a tendências que submetam os repertórios literários a formas de revisionismo pautadas por propósitos higienizadores de qualquer ordem; // 4. nossa resistência a procedimentos que produzam artificialmente o apagamento da diversidade e complexidade das representações da sociedade presentes na produção literária de qualquer época; // 5. nossa condenação a ações que camuflem as insuficiências do sistema de formação dos professores, julgando reparar tais problemas com notas editoriais ou recomendações pontuais; // 6. nosso desapreço por posições que subestimem a força humanizadora da leitura do texto literário, por sua capacidade de propiciar a experiência do deslocamento do ser humano para além de suas vivências individuais ou grupais, uma das formas relevantes para o combate à ignorância e superação dos preconceitos (Idem, Ibidem).

Percebe-se que, em nenhum dos tópicos, faz-se referência direta ao Parecer relatado pelo Conselho Nacional de Educação, pois, através do uso de vocábulos como ―formas‖, ―tendências‖, ―procedimentos‖, ―ações‖, ―posições‖, as afirmações elencadas se direcionariam a qualquer manifestação que apresentasse tais características, sem se dirigir de maneira explícita às declarações expostas pela entidade educacional. Tal procedimento discursivo parece ter sido usado a fim de

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evitar uma relação direta ao ―Parecer 15/2010‖, mas, obviamente, não deixa de transparecer essa ligação ao mencionar o motivo da publicação daquela ―Carta Aberta‖. Vê-se que, em todos os pontos listados, as frases estão marcadas pela negação a determinadas procedimentos analíticos que supostamente teriam sido adotados por Antônio Gomes da Costa Neto e o CNE na interpretação da obra lobatiana. A primeira observação da ABRALIC é exemplo da linha de análise que caracterizou as orientações do CNE como tentativas de censura da produção literária de Monteiro Lobato. Além disso, salienta a exiguidade da apreciação do fenômeno literário que se detenha na esfera do conteúdo e, consequentemente, desvalorize sua importância estética e representativa. Nesse viés, ressalta-se o terceiro enunciado, no qual a Associação frisa sua discordância ao que denomina ―revisionismos pautados por propósitos higienizadores‖. Aparentemente, a sentença utilizada estaria direcionada ao estudo da obra literária preocupado em localizar características julgadas como sendo inoportunas e que, por conseguinte, objetive a limpeza dessas produções ou trechos tidos como inadequados. Não obstante, o reconhecimento da existência de métodos analíticos guiados por tais tenções, implicitamente, demonstra considerar legítima a inferência de que, de alguma forma, a literatura pode estar relacionada à esfera racial e que essa ligação é, no mínimo, problemática, dada a possibilidade de representação positiva ou negativa do tema. Além disso, a simples oposição a tais procedimentos não implica, necessariamente, uma recusa à interpretação de que, na obra de Monteiro Lobato, essas representações surjam de maneira depreciativa ao negro e ao universo africano. Pelo contrário, a declaração parece reforçar essa inferência, mas, ao enfatizar a importância do caráter estético da obra em detrimento de suas outras possíveis condições, acaba por desvalorizar a complexidade dos diálogos plausíveis da mesma com essas outras esferas, como a social ou, mais especificamente, a racial. A supervalorização do âmbito estético gera, por conseguinte, a ideia de autonomia da produção literária, ou seja, a obra passa a independer de qualquer ação externa em direção ao texto e o sentido que veicula torna-se único e imodificável. Esse congelamento hermenêutico impediria, por exemplo, a existência de releituras das obras literárias desde uma perspectiva contemporânea e atualizada, além de desconstruir a teoria da recepção, em cujo alicerce está o papel

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ativo do leitor. A partir dessa constatação, vê-se que a expressão ―revisionismo‖ não se referiria apenas à crítica que busca localizar características reprováveis a fim de censurá-las, mas a toda orientação que venha a questionar essa suposta autonomia do texto. A entidade considera, também, que as indicações dadas pelo Conselho Nacional da Educação sobre a necessidade de uma interferência editorial para solucionar os segmentos considerados reprováveis apenas mascaram a ineficácia dos cursos superiores de licenciatura. Cabe destacar que, apesar de negar a solução apresentada, essa crítica negativa à formação docente também é encontrada no ―Parecer 15/2010‖. Por fim, a ABRALIC retoma a defesa à liberdade de expressão e ao acesso de educadores e educandos ―a toda forma de produção literária‖, além de frisar a relevância da figura do professor para a formação de leitores ativamente críticos. Não obstante, o último tópico deixa transparecer, novamente, a defesa de certa autonomia do texto literário, cuja leitura seria dotada de uma ―força humanizadora‖, a qual estaria sendo subestimada com as referidas solicitações dadas pelo CNE. A questão da autonomia do texto acaba por conflitar- se com a ideia da necessidade e da importância do docente como mediador da leitura. Essa dicotomia põe em debate a problemática de onde começa e de onde termina a fronteira entre uma autossuficiência do leitor e a dependência de mediação desse processo. Outro documento que manifestou oposição ao Parecer 15/2010 foi o ―abaixo- assinado‖ elaborado pelos escritores Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós, Lygia Bojunga, Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ziraldo. É cabível, aqui, a reprodução total do conteúdo apresentado pelos autores: Os abaixo-assinados, escritores brasileiros que, como Monteiro Lobato, têm suas obras destinadas às crianças brasileiras, vêm, através deste documento, apresentar seu desagrado e desacordo ao veto do Conselho Nacional de Educação ao livro As Caçadas de Pedrinho, do nosso grande autor. Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. // A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, tem conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais (MACHADO et al., 2010).

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Vê-se, neste primeiro momento, uma manifestação contrária ao primeiro documento, formulada por escritores consagrados do campo literário infantil e infanto-juvenil. Esses escritores objetivam realçar a importância de Monteiro Lobato como modelo seguido, durante longo período, pelos, por eles considerados, ―melhores‖ escritores do ramo. Percebe-se a exaltação da obra do escritor, considerando-a como ensinamento de como benquerer o país e confiar na prosperidade do porvir. Certamente, para os autores, a importância do criador do ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖ está em outro patamar, levando em consideração sua relevância para o surgimento de uma literatura infantil originalmente brasileira. No ano seguinte (2011), um bloco carnavalesco do Rio de Janeiro se serviu da discussão e adotou a temática para o seu samba-enredo. A letra da música (BANDOLIM et al., s/d) apresenta diferentes associações nas quais personagens literários, folclóricos etc. são ligados a ações que, no viés da suposta tentativa de censura a Lobato, também seriam tachadas de não aceitáveis, como o ―Cravo‖ brigar com a ―Rosa‖, o ―Saci‖ fumar, o ―Boi‖ malvado ter a ―cara preta‖ ou ―atirar o pau no gato‖. Em seus refrões, aparece o vínculo direto à polêmica: ―Tia Nastácia, sai da cozinha! Vem sambar! Pra ser destaque em Ipanema. A Dona Benta acende o fogo em seu lugar [...] É carnaval e ninguém vai me censurar‖. Os versos demonstram uma tentativa de igualar as duas personagens, ao afirmar a possibilidade de que Dona Benta desempenhasse uma função de Tia Nastácia, além de uma crítica direta a postura considerada censuradora presentes nos pareceres do CNE. A cada ano que passa, o bloco elabora uma camiseta diferente e relacionada à temática apresentada no seu samba-enredo. Em 2011, a vestimenta continha uma ilustração feita pelo cartunista e escritor Ziraldo, na qual aparece Monteiro Lobato abraçado em uma mulher ―mulata‖ e a um gato com um pau nas mãos, acompanhados por um cravo e uma rosa e da frase que nomeia o bloco – ―Que m* é essa?‖. O cartunista declarou a intenção de sua produção dizendo: Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista (ZIRALDO apud CARVALHO, 2011).

Segundo Ziraldo, sua produção tencionava a desconstrução das postulações sobre um ideal racista na obra do escritor paulista. O cartunista menciona e exalta o

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conto ―Negrinha‖, publicado em livro de mesmo nome, e conclui que uma manifestação é considerada racista somente quando esta é guiada pelo ―ódio‖. Certamente, seria interessante a definição teórica do termo ―racismo‖ para análise da declaração do cartunista e da significação que dá ao termo. Entretanto, deixar-se- á tal demarcação terminológica para o capítulo seguinte e analisar-se-ão, neste momento, somente os resultantes de sua afirmação. Em fevereiro do mesmo ano, a escritora Ana Maria Gonçalves, militante do movimento negro, publicou uma ―Carta Aberta ao Ziraldo‖ (GONÇALVES, 2011)3, na qual expõe sua avaliação sobre a ilustração feita para o bloco carnavalesco carioca e sobre a intencionalidade da mesma na declaração anteriormente citada. O texto de Gonçalves é pertinente para a exposição de um posicionamento central no debate sobre a obra lobatiana, pois condiz com a opinião de um dos extremos centrais na discussão, cuja avaliação designa Monteiro Lobato como possuidor de um pensamente racista, justificado por discursos proferidos em cartas enviadas a amigos e que condizem com suas manifestações literárias. Grande parte do texto elaborado por Ana Maria Gonçalves traz citações de trechos da correspondência do escritor com seu amigo e também escritor Godofredo Rangel, com o médico e eugenista Renato Kehl e com seu companheiro sanitarista Arthur Neiva. Intencionalmente, essas produções não serão examinadas neste momento, pois farão parte do corpus a ser analisado quando resgatados os discursos lobatianos referentes às suas ideias raciais. Primeiramente, com falas direcionadas ao criador do ―Menino Maluquinho‖, a escritora questiona o conhecimento de informações a respeito do posicionamento de Lobato sobre os ―mestiços brasileiros‖, bem como a definição dada por ele para o termo ―racismo‖. Gonçalves afirma que, mesmo o seu ―humor negro‖, consequentemente ―sem ódio‖ também é uma forma de racismo e declara que: Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior (Idem, Ibidem).

Para Ana Maria, sempre que ―Monteiro Lobato se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta de própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje‖.

3 Com o objetivo de evitar a repetição da referenciação, destaca-se que todas as citações aqui expostas com referencia a Ana Maria Gonçalves estão relacionadas a este mesmo texto.

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É mencionado, por ela, o fracasso de Lobato ao tentar publicar nos Estados Unidos seu único romance – O choque das raças ou O presidente negro (1926) – o qual recebeu rejeições pelos possíveis editores por seu conteúdo textual considerado ofensivo. Gonçalves alega que Lobato possuía grande interesse mercadológico com suas obras, manifestado com a expectativa de venda de seu romance nos Estados Unidos e anulada pelo repúdio editorial no país. Segundo ela, para o literato, mais importavam os lucros de suas produções do que a ―exasperação dos ofendidos‖. Ademais, afirma que o interesse financeiro do escritor aparece, também, na ligação de sua personagem ―Jeca Tatu‖ às propagandas da empresa farmacêutica de Cândido Fontoura. A escritora questiona a interpretação de Ziraldo de que o objetivo do movimento estabelecido pelo CNE era o de ―censurar‖ as obras de Monteiro Lobato, ao perguntar-lhe porque não foi contestada a censura feita pela prefeitura do Rio de Janeiro quando solicitado ao bloco carnavalesco que não utilizasse por extenso uma palavra ofensiva que compunha o seu nome, mas a abreviasse: ―Que m* é essa?‖. Para ela, o que se defende não é a censura, mas a defesa dos Direitos Humanos, e o acusa de desrespeitá-los, mesmo tendo sido o artista convidado a ilustrar uma cartilha acerca da temática, sob encomenda da Presidência da República. Por diversas vezes, Ana Maria remete a produções de Ziraldo. A escritora problematiza as relações entre as personagens centrais na obra O menino marrom (1986) e utiliza como estratégia a comparação dos discursos do criador do ―Menino Maluquinho‖ e de Monteiro Lobato. Constata-se que a autora da Carta Aberta procura salientar os problemas do racismo no Brasil, mais especificamente, no próprio ambiente escolar onde as obras desses escritores estão inseridas. Obviamente, nem todas as conclusões se mantiveram fixas e imutáveis. Em entrevista a Arnaldo Bloch, alguns dias antes de completar seu 80º aniversário, Ziraldo falou sobre diferentes aspectos de sua vida e mostrou ter mudado de opinião quando perguntado sobre o debate a respeito da possível presença de racismo na obra de Monteiro Lobato. Como justificativa, declarou: Quando fiz a camiseta para o bloco Que Merda é Essa, não conhecia ainda as cartas e os textos para adulto que seriam publicados pela imprensa em seguida. Mudei de ideia, claro. A prova de que Monteiro Lobato era racista é exuberante e bem documentada. Ele era eugenista. Chega a dizer que o Brasil não atingiu o nível de civilização para ter uma Ku-Klux-Klan. Só não fiquei mais triste porque, na verdade, nunca fui realmente um fã. Sempre fui mais de Super-Homem e Fantasma. Agora, na obra infantil ele continua a ser o criador de alguns dos personagens mais emblemáticos da literatura.

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Emília, junto com Capitu, Rê Bordosa e, agora, Carminha, é das personagens femininas mais importantes. E Tia Nastácia é a mais simpática e a mais querida do ―Sítio‖. Não precisamos proibir livros. Precisamos é melhorar a capacidade dos professores para discernir. Num país que tem 90% de analfabetismo funcional o pessoal devia era estar preocupado em fazer uma revolução em que nenhuma criança cresça sem aprender a ler, escrever, contar e interpretar (ZIRALDO, 2012).

Percebe-se que o escritor utiliza como argumento o desconhecimento das declarações de Lobato, em epístolas e outros textos, publicadas nos últimos anos. Para Ziraldo, esses documentos comprovam que o literato possuía ideais racistas e que era adepto da teoria eugênica. Nota-se a ambiguidade discursiva de sua resposta à pergunta de Bloch quando comparada as declarações expostas no manifesto por ele assinado, em 2010, elaborado por um grupo de escritores de literatura infantil. Na manifestação, é perceptível um alto grau de exaltação, a partir da utilização de termos como ―grande autor‖, ―maravilhosa obra‖ ou até a consideração de que Monteiro Lobato ainda tem servido de ―modelo para a formação dos melhores escritores do país‖. A ambiguidade se forma quando o cartunista afirma que sua tristeza não foi maior com a sua percepção do pensamento lobatiano porque ―nunca foi, realmente, um fã‖, o que destrói toda construção exaltante anteriormente apresentada. Essa ambivalência é reforçada quando, por fim, projeta uma cisão entre ―obra adulta‖ e ―literatura infantil‖, onde profere elogios às personagens Emília e Tia Nastácia. Diferentes órgãos mostraram mobilização contrária aos argumentos apresentados pelo Conselho Nacional da Educação, dentre eles a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 2010, o presidente da OAB, Ophir Cavalcante, em discurso na sede da OAB-PR, declarou que o CNE ―necessitava rever o documento enviado e deveria desculpar-se com o país‖ e complementou a afirmação dizendo que a manifestação era um insulto à cultura brasileira e à memória daquele ―grande escritor‖, pois ―nós, que nos sentimos filhos literários do autor do Sítio do Pica-pau Amarelo, cuja sensibilidade indicou que um país se faz com homens e livros, não podemos aceitar tamanho absurdo‖ (CAVALCANTE apud OAB, 2010). A pesar do furor das declarações, a notícia, publicada no jornal ―Folha de S. Paulo‖, não apresenta argumentos fundamentados para a indignação de Cavalcante. Com o mesmo propósito, outra entidade manifestou desacordo com a acusação: a Academia Brasileira de Letras. Em notícia publicada no portal ―Folha de S. Paulo‖, os acadêmicos da instituição

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afirmaram que: Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que Tia Nastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Pica-pau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex- escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica (ACADEMIA, 2010).

Segundo os representantes da Academia, as referências à personagem Nastácia como ―negra‖ e ―ex-escrava‖ são resultantes da própria realidade, não somente sua, mas dos afrodescendentes no período. Sua postura demonstra certa generalização ao considerar que essa era a condição de todos os negros do período, pois, mais de trinta anos após a abolição – levando-se em consideração que as obras infantis de Monteiro Lobato começaram a ser publicadas na década de 1920, é perceptível a existência de algumas gerações que já não tinham vivenciado o período escravista. Era possível que as descendências dos ex-escravos alforriados já tivessem ultrapassado algumas décadas, visto que o feito da ―Abolição da Escravatura‖, em 1888, não inaugurou o ato de libertação, o qual já havia sido alcançado por diferentes motivos mesmo antes da efetiva proibição da escravidão4. Além disso, afirma-se que as referências dadas à personagem do ―Sitio do Pica-pau Amarelo‖ não são insultuosas, mas uma percepção da realidade brasileira, tida como ―vergonhosa‖, perspectiva que denota o diálogo entre as produções literárias do escritor e a sociedade do período em suas relações étnicorraciais. Sequencialmente, os acadêmicos destacaram a necessidade do conhecimento e familiarização dos professores para com as obras de Lobato, assim: Então saberiam que esses livros são motivo de orgulho para uma cultura. E que muito poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento. Raros autores estimulam tanto os leitores a pensar por conta própria quanto Lobato, inclusive para discordar dele. Dispensá-lo sumariamente é um desperdício. A obra de Monteiro Lobato, em sua integridade, faz parte do patrimônio cultural brasileiro e apelamos ao senhor ministro da Educação no sentido de que se respeite o direito de todo cidadão a esse legado, e que vete a entrada em vigor dessa recomendação (Idem, Ibidem).

Aparentemente, a interpretação demonstra que um indivíduo que se aprofunde na leitura das obras lobatianas inevitavelmente reconhecerá o seu valor, o que, consequentemente, julga as conclusões díspares a apresentada como sendo

4 Leia-se o capítulo seguinte, o qual está direcionado à contextualização do período que compreende o final do século XIX e início do século XX.

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leituras errôneas. A declaração é finalizada com um apelo ao então Ministro da Educação, Fernando Haddad, em prol da não efetivação das sugestões dadas pelo CNE, o que recorda um ponto relevante para a discussão: caso fosse necessária a inserção de notas explicativas como solicitado pelo Conselho, o que estas deveriam apresentar? Certamente, cada lado do debate teria seus critérios para a formulação dessa nota, o que, por conseguinte, levantaria uma nova discussão sem desapegar- se do problema central. Os portais de notícias on-line se destacam pelo acompanhamento e difusão das informações sobre o andamento da polêmica por possuir a capacidade de alcançar um maior número de leitores em menor tempo. Dentre os materiais publicados nos sítios da ―G1‖ e da ―Folha de S. Paulo‖ percebe-se, tanto em seus títulos e subtítulos como em seus conteúdos textuais, frequentes utilizações dos verbos ―banir‖, ―vetar‖ ou ―censurar‖. Obviamente, essas palavras, por seu peso semântico historicamente construído, trazem a tona o repúdio ao período de regime ditatorial brasileiro (1964 – 1985) e as suas privações do direito de expressão. Apesar da tentativa, no segundo parecer elaborado pelo CNE, de esclarecer que o documento não objetivava as ações de ―banimento‖, ―veto‖ ou ―censura‖, os materiais de caráter opinativos ou informativos referentes ao caso continuaram a fazer uso dessas palavras em seus discursos. A imprensa desempenhou papel fundamental para os fins alcançados pelos debates decorrentes das acusações aqui mencionadas. Toma-se como base o levantamento e a análise feitos por João Feres Júnior, Leonardo Fernandes Nascimento e Zena Winona Eisenberg (2012), dos materiais sobre a problemática publicados por jornais e revistas de maior circulação no país. A investigação apresenta gráficos com estudos de diferentes dados. O primeiro deles se refere às instituições com maior publicação de textos sobre o tema, dentre as quais se destacam ―O Globo‖ e ―Folha de S. Paulo‖. O segundo gráfico apresenta os meses dessas publicações, onde se salienta o mês de novembro de 2013 como o período de maior produção de materiais direcionados a discussão. Por fim, o terceiro apresenta uma análise das opiniões expressas nessas fontes sobre os Pareceres e os rumos por eles acarretados, separando-as em ―contrárias‖, ―a favor‖ ou ―informativas (neutras). De acordo com os autores: 68% das matérias pesquisadas sobre o assunto apresentam posições contrárias aos pareceres. Se descontarmos as matérias meramente

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informativas (26%), e tomarmos somente as opinativas, vemos esta proporção aumentar para 92%, enquanto meros 6% expressam opinião favorável. Importante também é notar que quase metade das matérias opinativas (42%) abordam a questão do politicamente correto para comentar o caso. Dessas, todas menos uma são críticas ao que identificam como politicamente correto, e esta única matéria é neutra (FERES JÚNIOR; NASCIMENTO; EISENBERG, 2012, p. 76).

Os dados demonstram uma maior incidência de opiniões voltadas à contraposição das acusações apresentadas nos pareceres de 2010 e 2011: 68% do total analisado. A porcentagem aumenta consideravelmente (passa a 92%) quando descartadas as opiniões destacadas como meramente informativas ou neutras. Sequencialmente, a investigação procura interpretar com mais profundidade essas contraposições, no intuito de averiguar as justificativas dadas para tal posicionamento em oposição. O título desse trabalho prontamente abre caminho para um elemento central na análise que propõe: ―Monteiro Lobato e o politicamente correto‖. O estudo constata que, por diversas vezes, os julgamentos remetem as acusações a exageros do politicamente correto. De acordo com os pesquisadores, é constante a aparição de postulações que caracterizam as manifestações contra Lobato como sendo excessos ideológicos, por vezes, correlacionando-as a ações do Partido dos Trabalhadores (p. 77-78). Outro dado demonstrado corresponde às constantes acusações de imitação servil, por parte do movimento que considera racista o escritor taubateano, dos modelos estadunidenses de ―falsas políticas de afirmação‖. Essa seria a opinião compartilhada por Aldo Rebelo, deputado federal e um dos poucos políticos que optaram por pronunciar-se sobre o caso (p. 79). Cabe destacar a existência de uma separação de opiniões entre os que discordam dos pareceres do Conselho Nacional da Educação. Há, primeiramente, os que acreditam que o autor possui ideais raciais totalmente opostos aos que foram apresentados nas acusações. Não obstante, há, em outro extremo, defensores de que não se pode condená-lo porque o racismo era ideal predominante no início do século XX. Assim, percebe-se o reconhecimento de um pensamento racista no discurso lobatiano ao mesmo tempo em que se repudiam as soluções dadas pelos acusadores. Pode-se resgatar o texto escrito pelo colunista do portal ―Folha de S. Paulo‖, Hélio Schwartsman, o qual considera como ―analfabetismo histórico‖ toda leitura que não é localizada histórica e socialmente. De acordo com ele, não se pode ―aplicar critérios contemporâneos para julgar o passado‖ (SCHWARTSMAN, 2012). Assim como assinalaram Feres Júnior, Nascimento e Eisenberg (2013), há certa

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concordância entre os estudiosos em considerar a necessidade de contextualização para ―entendimento de um conceito ou uma linguagem do passado‖ (FERES JÚNIOR; NASCIMENTO; EISENBERG, 2013, p. 82). Segundo Schwartsman, em sua publicação para o periódico paulista, não se pode chegar a nenhuma inferência sobre Monteiro Lobato sem ter consciência do período em que viveu. Para o colunista, Lobato fazia parte de uma sociedade na qual ―quase todo mundo era racista‖ e conclui que todas as pessoas são ―prisioneiras da mentalidade de sua época‖ e que existe um ―horizonte de possibilidades morais além do qual não é possível enxergar‖ (SCHWARTSMAN, 2012). Seu posicionamento, exemplo da variação da opinião dos que se opõem às acusações a Lobato, mescla aceitação e negação e configura a possibilidade da existência de certo determinismo histórico das ideias, uma generalização a qual considera que uma época não é formada por um grupo complexo de ideologias às quais os indivíduos se afiliam deliberadamente, mas que é passível que certo pensamento impere significativamente, apesar da presença considerada irrelevante de ideias contrárias, e imponha sua crença aos indivíduos da sociedade na qual está presente. Outros literatos avaliaram a problemática, dentre eles está Luis Fernando Veríssimo. Em setembro de 2012, publicou-se, no blog do colunista do jornal ―O Globo‖ Ricardo Noblat, um texto intitulado ―No contexto, por Luis Fernando Veríssimo‖ (VERÍSSIMO, 2012), no qual o escritor analisa a questão. Veríssimo destaca que sua filha ―optou pela censura‖ quando se deparou com o trecho que descrevia à Tia Nastácia em uma obra de Lobato, enquanto a lia para sua neta. Assinala não ter na memória a lembrança de ter lido as obras do criador do ―Sítio‖ para seus filhos, mas acredita que sua atitude não teria sido a mesma: Não me ocorreria que o texto era racista. Ou talvez ocorresse e eu o desculpasse, pois seria apenas um detalhe que em nada diminuía o imenso prazer de ler Monteiro Lobato. E escrito numa época em que o próprio autor não teria consciência de estar sendo ofensivo, ou menos que afetuoso com sua personagem (VERÍSSIMO, 2012).

A postura do escritor gaúcho se aproxima das colocações dadas por Hélio Schwartsman no que se refere à predominância de um ideal em determinado tempo histórico e à necessidade do deslocamento no processo de leitura. Schwartsman legitima suas afirmações ao destacar que a época em que viveu Lobato era racista, o que lhe imporia, se a metáfora é cabível, ser escravo de ideais de superioridade

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racial branca. Luis Fernando Veríssimo traz à discussão a existência de uma inconsciência da negatividade destes ideais, uma inocência cegante que lhe ocultava a possibilidade de pensar de maneira distinta, inocência que sustentaria as suas qualidades literárias. Luis Fernando Veríssimo discorre, complementarmente, a respeito das mudanças no contexto das relações etnicorraciais e das manifestações culturais, as quais demonstram que, em outras épocas, certas atitudes tidas como não aceitáveis nos dias atuais eram toleráveis, pois esses preconceitos herdados e hábitos culturais não eram questionados (Idem, Ibidem). Segundo ele, há não muito tempo, o humor televisivo se utilizava de estereótipos raciais e das minorias que, partindo desta inocência com os fatos e por se tratar de humor, não era feito com maldade. Essa falta de consciência de estar sendo ofensivo, destacada por Veríssimo, possibilita a retomada da fala do cartunista Ziraldo quando analisa a ilustração feita para o bloco carnavalesco carioca: ―Racismo sem ódio não é racismo‖. Sobre as soluções apresentadas pelo Conselho Nacional da Educação, declara: [...] minha posição sobre como o autor deva continuar sendo leitura deliciada das crianças apesar dos trechos abomináveis é um decidido ―Não sei‖. / Fala-se que nas edições adotadas nas escolas conste uma explicação que coloque os termos repreensíveis no contexto. Não sei. O essencial é que não se prive nenhuma criança brasileira de ler Monteiro Lobato (Idem, Ibidem).

Percebe-se o caráter, aparentemente, inconclusivo de Veríssimo ao reforçar o seu ―não sei‖. Entretanto, sua fala demonstra com clareza a concepção de que o reconhecimento da presença, na obra de Monteiro Lobato, de características tidas como racistas nos dias atuais não deveria impedir o acesso das crianças brasileiras a ela e, menos ainda, seria capaz de rebaixar a importância por ela alcançada. Contrariamente, essa ingenuidade por ele apresentada não é perceptível pelo escritor carioca Alberto Mussa. Em ensaio ao jornal ―Rascunho‖, o escritor mencionou ter declarado, em outro trabalho, que ―a obra infantil de Monteiro Lobato, embora genial como concepção, é imprestável como leitura de crianças‖ e problematiza a análise da polêmica ao tentar analisar com profundidade as características dos posicionamentos em favor da obra de Lobato, caracterizando-os como ―reações personalistas‖, ―reações estéticas‖ e ―reações democráticas‖, além de afirmar que, por determinadas vezes, essas manifestações aparecem interligadas

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em um mesmo discurso (MUSSA, 20105). De acordo com ele, as ―reações personalistas‖ se referem às argumentações proferidas por indivíduos que ―leram as histórias do Pica-pau Amarelo e se encantaram com aquele universo mágico, fascinante, profundamente brasileiro e original‖. Neste mesmo viés estariam, também, os admiradores do ―homem Monteiro Lobato‖, por seus ideais nacionalistas, suas ações em prol do livro e da leitura e de suas reflexões e lutas pelo petróleo brasileiro. Para Mussa, encaixam-se nessa tendência as declarações de sujeitos que afirmam não ter se tornado racistas depois da leitura da obra lobatiana ou que essas críticas demonstram falta de ―auto-estima e desvalorização de um grande personagem histórico‖. Consequentemente, declara que: [...] o caráter ou a intenção do autor não importam para o julgamento ideológico da obra; e experiências individuais de leitura são, obviamente, individuais: não podem se presumir de representantes do conjunto social. É mesmo muita pretensão pensar que ―se algo não foi nocivo para mim, não será para outros‖ (Idem, Ibidem).

Em um primeiro momento, percebe-se, na opinião do escritor, a existência de duas cisões: uma entre autor e obra e outra entre produção e recepção. Segundo tal crença, o conhecimento da personalidade do escritor seria dispensável para a análise do âmbito ideológico de sua produção literária, bem como a intencionalidade projetada por ele a esse produto não remeteria ao fim alcançado pelo mesmo. Ainda no âmbito da recepção, Alberto Mussa defende a individualidade da leitura, segundo a qual uma mesma obra não é lida da mesma maneira por diferentes indivíduos, ou seja, é falha a concepção de que alguma expressão em uma obra que não tenha sido ofensiva para um também não o será para o outro. Já as ―reações estéticas‖ seriam aquelas articuladas por sujeitos os quais defendem que, se adotadas tais atitudes em prol do barramento do racismo nas artes, a cultura brasileira estaria comprometida. Segundo Mussa, essa postura demonstra certa sacralização da literatura, cujo cerne define obra e escritor como pertencentes a um grau elevado em comparação às outras pessoas, o que possibilita que esses indivíduos ―digam o que queiram‖. Nesta linha, caberia a associação ao comentário de Luiz Fernando Veríssimo ao afirmar que, se percebesse algum trecho racista ao ler uma obra do criador do ―Sítio‖, o perdoaria,

5 Com o objetivo de evitar a repetição da referenciação, destaca-se que todas as citações aqui expostas com referencia a Alberto Mussa estão relacionadas a esse mesmo texto.

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pois seria apenas ―um detalhe que em nada diminuía o imenso prazer de ler Monteiro Lobato‖ (VERÍSSIMO, 2012). Complementarmente, o escritor carioca relaciona aos que manifestam esse tipo de parecer a ideia de que estes sujeitos defenderiam a necessidade de contextualização da obra, principalmente se tratando de um escritor renomado, ideia mencionada em alguns posicionamentos anteriormente apresentados. Além disso, para Alberto Mussa, a análise das circunstâncias em que a obra foi produzida é ineficiente quando se refere à literatura infantil e possível, somente, quando a produção literária está direcionada a um adulto. Advoga pela supressão ou pela reescrita de todos os trechos considerados racistas na obra infantil de Monteiro Lobato, ou, no mínimo, uma advertência do tipo: ―Este livro contém pensamentos e expressões que configuram discriminação racial‖. Vê-se que, no que refere à literatura infantil, Mussa defende a interferência editorial para resolução da problemática, seja através de modificação textual, seja com a explicitação do caráter discriminatório da obra de forma paratextual. Por fim, a ―reação democrática‖ seria aquela que toma como princípio a defesa da liberdade e manifestação do pensamento. Para esta reflexão, o autor elabora uma suposição, na tentativa de expor qual seria a reação da sociedade frente à determinada problemática. Sua hipótese é apresentada da seguinte forma: Suponhamos uma obra, um livro nazista, escrito por um ariano careca, muito pálido, de olhos azuis, com um metro e noventa e cerca de 40 quilos de massa muscular. Não acredito que a justiça brasileira permitisse que tal livro circulasse, menos por medo do autor que de sua ideologia. E ficaria eu decepcionado se soubesse ter havido alguém que reagisse contra a censura, em defesa do careca (MUSSA, 2010).

A declaração parece contraditória se comparada à fala anterior, onde menciona que ―o caráter do autor não importa para o julgamento ideológico da obra‖, pois todas as descrições, não só morais como físicas, do suposto escritor ariano demonstram interligação entre autor e obra. Ademais, expõe a certeza de sua decepção caso alguém contestasse a censura da obra, levando em consideração a ligação ideológica entre os ideais do autor e o seu resultante literário. Em outra instância, sua suposição é complementada por possibilidades de substituições do autor e da obra: ―um pedófilo, um violador de garotinhas, que publicasse um álbum ilustrado com fotografias e legendas elucidativas‖ ou, em âmbito mais brando, ―uma biografia vulgar não autorizada, com indiscrições picantes, mexericos e coisas proibidas ou vexatórias sobre um protagonista famoso ou que pertença a uma família fica e poderosa‖. Para ele, apesar da certa objeção gerada por muitos, em

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alguns desses casos o poder judiciário concorda com as ações que visam tirar essas obras de circulação. Em contraposição, acredita que, na sociedade brasileira, o ―racismo‖ é menos grave que o ―nazismo‖, a ―pedofilia‖ ou a ―invasão da privacidade‖, graças à crença de que se vive em um país onde a democracia racial impera. Em síntese, Alberto Mussa crê na ineficácia da tentativa de mediação por parte dos professores quando se tratar de obras que contenham teor racista, como também da inocência de esperar que uma criança seja capaz de uma contextualização histórico-social para melhor entendimento da obra. Segundo ele, o Brasil não dispõe de profissionais da educação preparados para lidar com o ―racismo‖ e, menos ainda, com o ensino na ―História e da cultura africana‖ previsto em lei. Sobre Monteiro Lobato, afirma que o ―leitor negro e infantil não estava no horizonte do escritor‖, mas sim o branco, pois cria no total branqueamento da população brasileira até o ano 2000, devido à política de promoção e financiamento da imigração europeia (Idem, Ibidem). Nos meses de setembro e de outubro de 2012, a ―Univesp Tv‖ realizou quatro entrevistas a fim de expor os diferentes posicionamentos na discussão sobre o racismo em Monteiro Lobato. Dentre os entrevistados está o Frei David Raimundo dos Santos, fundador do projeto Educafro; o fundador do Instituto Afro-brasileiro de Ensino Superior e reitor da faculdade paulista Zumbi dos Palmares, José Vicente; o pesquisador e professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis, João Luís Cardoso Tápias Ceccantini e a pesquisadora e professora das universidades Mackenzie e UNICAMP, Marisa Philbert Lajolo. Prontamente, percebe-se a existência de duas áreas de atuação para a discussão: primeiramente, indivíduos envolvidos na esfera da educação e no movimento negro e, posteriormente, dois sujeitos da área dos estudos literários, investigadores da obra de Monteiro Lobato, os quais publicaram, em 2009, uma análise da obra infantil lobatiana, intitulada Monteiro Lobato: livro a livro. Analisar-se-á essas entrevistas em ordem não cronológica de realização e publicação, dada a constatação de semelhanças nas áreas e nas argumentações. Inicialmente, resgata-se o diálogo com David Raimundo dos Santos, o qual começa seu discurso afirmando a consciência de que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo. Não obstante, acredita que o escritor, por fazer parte da

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intelectualidade daquele período, tinha como dever elaborar um olhar crítico sobre as incoerências de seu tempo, o que, a seu ver, não ocorreu. Além disso, o fundador da Educafro alega que o autor era sectário de movimentos racistas, como a Ku-Klux- Klan, e esse partidarismo pode ser comprovado através de declarações em sua correspondência. Consequentemente, acredita que Lobato ―quis transmitir uma visão pejorativa da comunidade negra‖ de forma intencional. Santos demonstra ser favorável a que as produções literárias destacadas continuem à disposição de todos, desde que as obras enviadas às escolas apresentem uma nota explicativa para auxiliar a leitura das crianças e o trabalho dos professores, no intuito de salientar que aquelas manifestações se referem a um tempo em que aquelas atitudes eram comuns, mas que não devem ser reproduzidas. Em seguida, David Santos cobra dos órgãos competentes que cumpram a legislação por eles elaborada sobre o respeito à diversidade. Neste viés, demonstra estranheza quanto ao posicionamento do Ministério da Educação, por se preocupar com a contextualização ecológica e a atualização ortográfica presente em Caçadas de Pedrinho, mas negligenciar-se a respeito ao negro. De acordo com ele, é inaceitável a justificativa de que a atualização da obra neste viés da representação do negro na literatura ―fere a obra‖ na qual a nota seria inserida. Para o militante da causa negra, a comparação de Tia Nastácia a uma macaca de carvão demonstra claramente ―um espírito de chacota com o povo negro‖. Em seguida, expõe o constrangimento que sentia quando trechos como este eram lidos na escola onde estudava: ―Eu lembro, quando criança, ao ler Monteiro Lobato em sala de aula, onde eu era um dos poucos negros, o quanto era incômodo para mim [...]‖. Segundo Santos, as demais crianças o olhavam imediatamente e, por conseguinte, ele não sabia ―onde enfiar a cabeça‖ (SANTOS, 2012). Sequencialmente, o frade culpa o MEC por aceitar pressões advindas da Editora Globo para o não cumprimento das indicações dadas no Parecer 15/2010. Ao analisar as mudanças efetuadas após a revisão feita pelo Conselho Nacional da Educação, demonstra que o cerne do problema visto pelos que criticaram o primeiro Parecer era a defesa da ―exigência‖ para com as editoras de inserirem a nota explicativa nas obras citadas, o que, ocasionalmente, resultou em um segundo documento onde o verbo ―exigir‖ foi substituído pelo verbo ―recomendar‖. De acordo com Santos, diversas leis no país são regidas por ―exigências‖ e, ainda assim, não

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são cumpridas. Consequentemente, um Parecer, que já não tem força de lei, ser regido por ―recomendações‖ é aceitar que as mudanças sejam feitas por escolha própria das editoras. Essa alteração verbal nos pareceres é relacionada por ele ao debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial, no qual os partidos PSDB e DEM afirmaram que o estatuto seria aprovado somente se os verbos que indicavam ―determinação‖ fossem substituídos por ―recomendações‖, o que teria tornado o documento ineficaz ―porque não é lei, é uma recomendação e recomendação‖, afirma ele, ―não pega no Brasil‖ (Idem, Ibidem). Por fim, expõe uma dinâmica realizada com dez crianças negras de uma creche, todas com cinco anos de idade. Estas crianças foram levadas a uma sala onde haviam sido colocadas nove bonecas negras e uma branca. Depois de uma explicação sobre a importância de se brincar com a boneca, se pediu para que, uma de cada vez, se levantasse e escolhesse uma delas e com ela interagisse. No momento final, as duas últimas crianças se depararam com uma boneca branca e uma negra, que haviam restado depois das primeiras oito escolhas. A última menina, deduzindo que a penúltima escolheria a boneca branca, travou uma disputa com a companheira. O Frei David dos Santos interpreta essa reação da seguinte maneira: ―a sociedade, através da televisão, dos meios de comunicação, onde a criança vê programa onde o negro está sempre em situação negativa, a criança negra já cresce tendo vergonha de pertencer ao povo negro (Idem, Ibidem)‖. Resumidamente, pode-se se concluir que David Raimundo dos Santos toma como princípio de seu discurso as informações apresentadas pelos pareceres encaminhados pelo Conselho Nacional da Educação em 2010 e 2011. Faz uso, também, de referências a trechos de cartas escritas por Monteiro Lobato na tentativa de demonstrar que o escritor elaborou suas obras literárias levando em consideração uma crença de que os negros eram inferiores aos brancos, a qual acabou por fazer parte dessas representações. Evidencia-se a tentativa de anular as interpretações de que se objetivava a censura às obras lobatianas, ao ponto que defende a contextualização das mesmas através de nota explicativa sobre o período em que viveu o criador da Emília e sobre as ideias pelas quais advogava. Para Santos, tem-se formado indivíduos com complexos de inferioridade pelas diferentes menções negativas feitas, por variados meios, não só ao negro, mas ao universo afro-descendente.

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As próximas considerações a serem examinadas são as do advogado, doutor em Educação e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente. Inicialmente, Vicente salienta a singularidade do alcance da discussão sobre Monteiro Lobato, pois é a primeira vez que questões desse gênero chegam ao Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, isso decorre das mudanças que estão ocorrendo no país, onde discussões que antes passavam despercebidas, agora são colocadas como valores importantes, devido a uma demanda de reivindicações sociais que se erguem. Vicente afirma que a construção do racismo não data de hoje, mas é resultante de um regime escravocrata que perdurou por mais de 350 anos, cujos ideais de dominação e crença na superioridade de uns e inferioridade de outros se manteve arraigada na história do país. A Proclamação da República e a mudança de regime não teriam sido capazes de alterar essa mentalidade, a qual, consequentemente, teria se manifestado em todos os setores da sociedade (VICENTE, 2012). O reitor da Zumbi dos Palmares declara que a presença de um pensamento racial que levava em consideração a existência de superioridade e inferioridade entre os homens era corrente no início do século XX e cita a postura de outro conhecido intelectual da época, Nina Rodrigues (1862-1906), o qual, segundo José Vicente, cria na ―degenerescência decorrente das relações entre brancos e negros". De acordo com ele, a ideia de que os negros eram racial, estética, cultural e religiosamente inferiores se reproduzia nas diferentes esferas sociais, até mesmo nas escolas, onde essa inferioridade era apresentada textualmente nos livros didáticos. Entretanto, reforça a ideia de que o mundo está entrando em fase de mudanças, nas quais as questões do negro, da discriminação, do racismo entram em discussão (Idem, Ibidem). No âmbito da legislação, expõe a existência do ―direito de livre expressão do pensamento ou artística‖, mas o contrapõe ao dizer que esse não é um ―direito soberano‖, nem ―autônomo‖ e necessita ―convergir e interagir com um conjunto de outros direitos‖. Por essa liberdade não ser ilimitada, afirma fazer-se necessário levar em consideração o direito à ―dignidade, à honra, à imagem pessoal ou coletiva: valores estes definidos e determinados na Constituição Federal‖ (Idem, Ibidem). Na contemporaneidade lobatiana, segundo ele, era possível expressar essas concepções, porém, os valores sociais atuais questionam esses princípios e não

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somente Monteiro Lobato, mas em ―qualquer livro didático [...] que traga qualquer tipo de insinuação, ou qualquer tipo de manifestação [...] desses fundamentos‖ (Idem Ibidem). O doutor em Educação alega que a legislação educacional vigente determina que obras que contenham qualquer tipo de manifestação dessa natureza não podem ser selecionadas para ―compor o acervo de livros didáticos que serão usados em sala de aula‖, pois é nesse espaço que são formadas ―as consciências, as mentalidades, os fundamentos da cidadania‖. Assim, seria dever do Estado intervir nessa discussão, uma vez que é na escola que se deva capacitar os indivíduos para o ―respeito a todo tipo de diferença e os valores de todos os grupos sociais que compõem a sociedade‖. Para esse fim, acredita ser necessária a contextualização das obras utilizadas, independentemente do autor que a escreveu, ainda que, por dois motivos, não se possa assegurar que essa contextualização seja feita de maneira correta: primeiramente, porque não há uma ―exigência‖ legal que a torne obrigatória e, em segundo, porque os professores, de uma maneira geral, ―não estão qualificados para tratar de questões dessa natureza na sala de aula‖. O apresentador e entrevistador da Univesp Tv, Ederson Granetto, lança a problemática de que, nesse sentido, irão surgir interpretações distintas para uma mesma obra e cita o livro de contos Negrinha, sobre o qual há conclusões de que se trata de um livro antirracista exatamente por expor as crueldades sofridas pela menina, ao ponto que outros afirmarão que se trata de uma obra com conteúdo racista por esses mesmos motivos. Segundo José Vicente, faz-se necessário formar uma equipe de estudiosos que seja capaz de interpretar essas obras de maneira correta e ―a academia tem capacidade de elaborar um grupo de avaliação, para realizar estudos dessa natureza‖ (Idem, Ibidem). O terceiro parecer a ser analisado é o do professor do Departamento de Literatura da Unesp de Assis, João Luís Ceccantini. O professor frisa, prontamente, que a classificação da obra de Monteiro Lobato como racista é resultado de uma conclusão exagerada, a qual não consideraria a produção literária do escritor em sua totalidade. Essa conclusão parte do pressuposto de que determinadas expressões encontradas nessas produções são frutos da época em que viveu Lobato, sendo que o autor teria nascido no final do século XIX, o que propiciou a vivência do momento de transição entre o regime escravagista e o surgimento da

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República, período no qual o preconceito estava intrincado na sociedade brasileira (CECCANTINI, 2012). Segundo o pesquisador, principalmente no que se refere à obra infantil lobatiana, a qualificação de ―racista‖ é absurda. Em situações, como em Caçadas de Pedrinho, em que Tia Nastácia é comparada a uma ―macaca de carvão‖, considera possível a equiparação a outro trecho em que uma ―mulher branca‖ sobe em uma árvore e o autor também a chama de macaca, o que eliminaria o entendimento da sentença como ―pejorativa‖. Ademais, afirma que, para expressões como ―negra beiçuda‖, classificação dada à mesma personagem em outras circunstâncias, é fundamental considerar que, naquela época, o termo ―beiço‖ possuía significações diferentes das que se possui hoje e era usado, muitas vezes, com o sentido de ―lábios‖, o que poderia ser comprovado a partir da análise de outras obras do mesmo período. Consequentemente, o pesquisador defende que Lobato não pode ser ―julgado com padrões ou critérios atuais‖, dado que estas manifestações fazem parte de um período sócio-histórico específico e deve, então, ser lido a partir dessa localização espaço-temporal (Idem, Ibidem). Ceccantini considera que um estudo da personagem Nastácia tem que analisar a sua função no decorrer das narrativas, pois essas verificações fazem referência apenas ao âmbito linguístico. Segundo ele, a obra infantil de Monteiro Lobato desconstrói alguns padrões existentes nas histórias infantis relacionados às ―famílias tradicionais‖ e seus personagens adotam atribuições significativas nas histórias, como, por exemplo, Dona Benta como a ―mulher sábia‖ e Tia Nastácia como a responsável por ―cuidar das questões práticas e representante de tudo aquilo que está ligado ao nacional, à tradição oral, ao popular, ao folclórico‖. Para o professor, é possível notar a representação de uma recíproca afetividade entre Nastácia e o resto do grupo. Além disso, uma confirmação da importância da personagem Nastácia seria comprovada ao perceber-se que, por vezes, ela possui uma ―função narrativa fundamental‖, como, por exemplo, quando salva o sítio de um Minotauro com sua ―sabedoria de cozinheira‖ e com alguns bolinhos por ela preparados. Considera ele que essa relevância é percebida em diferentes momentos e que, por conseguinte, a ―colocação dessa etiqueta racista na obra de Monteiro Lobato seja um equívoco‖. Em contrapartida, sobre a mediação e receptividade desses textos por parte das crianças, Ceccantini declara que:

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Se um mediador, um professor, um pai observa esses traços, esses resquícios que sobraram lá, de uma sociedade que era profundamente racista, escravagista, etc. e tal, o papel é exatamente esse: de discutir isso, de mostrar ―olha, que pena, no momento do Lobato era assim; [...] mudamos, isso não pode mais acontecer. Agora, isso não pode eliminar todo o papel incrível, criativo, ousado do projeto literário do Lobato. E a criança, isso a minha experiência mostra muito, ela está muito ligada nessas questões. [...] Se você é filho de uma família militante, que está muito ligada nessas questões e está discutindo, muito provavelmente, uma criança um pouco mais velha – sete, oito ou nove anos – ela pode perceber isso e se sentir mal. De um modo geral, quando você não está nesses ambientes, vamos dizer assim, já bem politizados e esclarecidos, o que eu tenho visto [...] [é que] as crianças não se atêm a isso (Idem, Ibidem).

O trecho demonstra a função dada por ele ao mediador no processo de leitura infantil, ao mesmo tempo em que evidencia uma interpretação autônoma, pelas crianças, da obra literária. De acordo com o autor, o âmbito ficcional e as possibilidades imaginativas que proporcionam são mais relevantes e perceptíveis para o público infantil do que questões relacionadas a problemáticas sobre trechos com caráter malicioso, sexual, de gênero, de violência, etc., os quais seriam, muitas das vezes, uma demasia elaborada pelos adultos. Além disso, segundo o professor da UNESP, cada indivíduo tem ―uma história de leitura, um repertório‖, o qual é ativado no momento do encontro com o texto e resulta em distintas interpretações do mesmo. Assim, a proximidade desses sujeitos a informações sobre a questão do negro e dos movimentos de militância em prol da questão daria luz a percepções não evidenciadas em crianças que estão afastadas dessas discussões (Idem, Ibidem). No que se refere ao âmbito escolar, o pesquisador lobatiano, ao comentar ter trabalhado com projetos em escolas públicas, afirma não lembrar-se de nenhum caso em que essas discussões ou comentários tenham surgido a partir das leituras das obras por parte dos alunos. Entretanto, acredita que um bom professor é aquele que proporciona esses debates antes mesmo que eles surjam. Entretanto, faz-se necessário perceber se os alunos estão maduramente preparados para tal abordagem, postura defendida por muitos psicólogos que, segundo ele, discutem o momento certo de levantar determinados temas na educação. Ceccantini frisa que, obviamente, caso esse assunto surja, não se pode ocultá-lo, mas, pelo contrário, deve-se procurar demonstrar que ―esse tipo de representação do negro está superado‖ e que há autores contemporâneos que apresentam postura ―completamente oposta‖, como Ana Maria Machado, em Menina bonita do laço de fita (2000).

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Sobre as medidas a serem tomadas com relação aos livros adotados pelo MEC, alega que ―não é a questão de ficar censurando, recriminando, colocando na fogueira o escritor e a sua obra. [...] A questão é outra, quer dizer, são os mediadores, como você vai trabalhar com isso, não subestimar o leitor [...]‖ (Idem, Ibidem). Para ele, além disso, ao contrário do que defende o senso comum, a leitura de uma representação racista ou qualquer outro posicionamento negativo não produz indivíduos com as mesmas características, ou seja, a transposição de ideias do campo ficcional ao real não é, de maneira alguma, ―mecânica‖. Sobre a inserção de notas explicativas nas obras que apresentam conteúdos considerados racistas, como solicitado pelo Conselho Nacional da Educação, João Luís conclui que: [...] hoje você tem uma tendência editorial forte de subestimar o leitor em nome da crise da leitura, em nome de facilitar a vida do professor e você ir inchando e colocando tantas notas e tantos paratextos: prefácios, posfácios, orelhas, hipertextos, marginálias, etc. e tal, que você também começa a induzir a leitura. E você pode, também, distorcer, atrofiar essas leituras. Então, não me parece uma coisa muito saudável [...] (Idem, Ibidem).

Claramente, o professor demonstra ser contra a colocação de qualquer paratexto que possa influenciar a leitura da obra. Não obstante, observa que o acréscimo de textos desse feitio é viável somente se esta for a única solução encontrada para a contínua utilização das obras lobatianas no contexto escolar e se esses textos forem elaborados de forma ―inteligente e sem excessos‖. No que diz respeito ao livro de contos Negrinha, declara que a inclusão de alguma orientação é ―mais problemática‖. Segundo ele, o movimento negro achou, na obra, ―um bom pretexto‖ para mobilização e considera a acusação ―equivocada‖. Tanto ele quanto seus colegas, quando se levantava, no contexto acadêmico, a discussão sobre a presença de racismo na obra lobatiana, usavam como justificativa de defesa a indicação de leitura do conto central da obra – ―Negrinha‖ – o qual sempre foi lido por eles como ―um conto de denúncia do horror que era o racismo [...] e que isso podia contaminar o interior de uma família, o microcosmos‖. Observa que existem, no conto supracitado, certas descrições e referenciações não mais aceitáveis nos dias atuais, mas que se tem caído constantemente em anacronismos e se tem julgado esses autores com valores de hoje. Cita, então, o artigo de Hélio Schwartsman publicado no ―Folha de S. Paulo‖6, no qual destaca a existência de

6 Possivelmente, o artigo citado seja ―Analfabetismo histórico‖ (SCHWARTSMAN, 2012), cujo posicionamento foi analisado anteriormente (p.28-29).

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posicionamentos sobre a polêmica que tomam como base uma leitura descontextualizada da obra de Monteiro Lobato. Sobre a divulgação de trecho de uma carta enviada por Monteiro Lobato, na qual defende a criação de uma ordem como a Ku-Klux-Klan no Brasil, Ceccantini considera que seja essencial analisar outros aspectos com cuidado, como um ―jogo de datas‖ dessas correspondências e em que contexto aquelas palavras foram ditas. Afirma acreditar na possibilidade de que o autor tinha certa restrição de informações sobre essa organização no momento. Assim, estranharia se ―Monteiro Lobato fosse alguém que endossaria os horrores da Ku-Klux-Klan, [sendo] uma pessoa que construiu toda uma obra, de fio a pavio, profundamente humanista, o tempo todo lutando por valores democráticos, o respeito ao próximo‖ (Idem, Ibidem). Cita A chave do Tamanho (1942) como exemplo de obra que questiona os valores vigentes, opondo-se à insensatez da guerra e suscitando a reflexão sobre a necessidade de um novo começo com base em ―outros valores‖. Com essa interpretação, crê que a imagem criada sobre o escritor paulista hoje é ―exorbitante, exagerada, falsa e descontextualizada‖ (Idem, Ibidem). Finalmente, destaca que não se pode sobrepor autor e obra automaticamente, como se fossem a mesma coisa, e que essa postura ―politicamente correta‖ de interferência nas obras afetaria toda a literatura, desde a Antiguidade. Reafirma que o homem é ―produto de sua época‖ e que acompanha as mudanças de pensamento decorrentes do passar dos anos. A exemplo disso, menciona a personagem ―Jeca Tatu‖ e sua representação inicial como atraso ao progresso brasileiro e o surgimento da personagem ―Zé Brasil‖, cujos problemas são relacionados exatamente a estrutura econômica e social do país. Além disso, acredita que Tia Nastácia foi representada de maneira cada vez mais positiva ao longo da carreira de Monteiro Lobato. Depreende-se, dessas declarações, um posicionamento voltado ao campo das Letras, com justificativas sempre relacionadas a estudos sobre a literatura e, de maneira mais específica, a teorizações sobre a leitura e a recepção. João Luís Ceccantini relaciona a linguagem de Monteiro Lobato, com suas expressões mais particularmente direcionadas ao negro, como sendo produto da época em que viveu, como efeito das constantes mudanças ocorridas entre os séculos XIX e XX. Afirma a deficiência das leituras descontextualizadas e com base em uma perspectiva atual

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para análise das obras do escritor. Reforça, também, que a leitura infantil, na maioria das vezes, não se direciona a problemáticas tão específicas, pois sua atenção é tomada pelo universo imaginativo das histórias e acabam por absorver somente o que lhes é proveitoso, a não ser que esse leitor esteja imerso em um contexto de discussões sobre a temática do negro. Ademais, observa variações na maneira como Lobato representava não só Tia Nastácia, mas o próprio povo brasileiro, de maneira mais específica, com Jeca Tatu, ou mais ampla, com Zé Brasil, o que demonstra que um pensamento não é fixo e imutável, mas, pelo contrário, flexível a variações, oscilações e etc. O último e não menos importante entrevistado é a professora e, também, pesquisadora de Monteiro Lobato, Marisa Philbert Lajolo. Inicialmente, a professora destaca que, já há algum tempo, se interessa por Monteiro Lobato como objeto de pesquisa, o que considera um prazer por ter sido um escritor lido com gosto por ela enquanto criança. Desde o princípio, afirma acreditar que ―Lobato não insufla o racismo‖, ou seja, que ―não transmita ideias preconceituosas‖, mas, pelo contrário, que as ―pessoas leem Lobato e passam a ter uma perspectiva bastante positiva da Tia Nastácia‖ (LAJOLO, 2012). Lajolo declara, posteriormente, que ainda não se sabe ao certo qual é a receptividade, por parte das crianças negras, da obra lobatiana analisada nos pareceres do Conselho Nacional da Educação, mas que seria interessante uma investigação que desse conta de analisar se esses leitores consideram ofensivos os trechos citados como sendo preconceituosos. Além disso, a pesquisadora reitera que Lobato não compara somente Tia Nastácia a uma macaca e menciona o conto publicado em livro de mesmo nome, ―O macaco que se fez homem‖7, o qual apresenta a história de um macaco que, acidentalmente, bate com a cabeça. Desse momento em diante, o primata começa a pensar e daquela fatalidade teria surgido o homem. Segundo ela, cabe observar, no entanto, que esses fragmentos sobre Caçadas de Pedrinho estão sendo lidos de forma isolada do restante do livro e, na tentativa de demonstrar o valor dado à personagem negra, antecipa um trecho do final da obra no qual Nastácia declara a Dona Benta: ―Tenha paciência [...]. Agora chegou a minha vez. Negro também é gente, sinhá...‖ (LOBATO, 2009a, p. 71). Marisa defende, assim, a necessidade de uma ―leitura mais atenta‖ e de maior

7 A obra O macaco que se fez homem data de 1923.

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―confiança nos leitores‖, pois acredita que ―o texto é autossuficiente para colocar de forma adequada questões de racismo e preconceito na sociedade brasileira‖ (LAJOLO, 2012). De acordo com a professora, essa autossuficiência torna desnecessária, também, a nota introdutória explicando que a obra foi escrita em um período em que as onças não estavam em perigo de extinção, nem possuíam proteção pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente. No que se refere a essa temática, lembra que, durante a história, após a morte de uma onça, os animais decidem, em uma assembléia, invadir o Sítio, devido a ―pouca responsabilidade do ser humano em relação ao Planeta Terra‖. Essa postura seria, então, capaz de gerar a discussão sobre essas questões ecológicas sem a necessidade de uma interferência de uma nota explicativa, a qual teria sido inserida por simples atendimento às exigências do Ministério da Educação. Para Marisa Lajolo, não somente esta nota, cujo teor poderia ter sido demonstrado no próprio texto, mas a grande maioria das notas editoriais acaba por dirigir a leitura com sua intervenção. Alega, por conseguinte, que a ―ideia de que a leitura precisa ser gerenciada por notas de roda-pé e advertências [...] é contraproducente, ela sugere a minha ideia de leitor como alguém absolutamente incapaz de entender um livro‖ (LAJOLO, 2012). Para a pesquisadora, atualmente, nenhum sentido elaborado a partir de uma interpretação textual está equivocado, o que demonstra que é falsa a crença de que um leitor sem esse suporte fará uma leitura errada do texto, ainda que esses sujeitos sejam crianças, pois eles necessitam tornar-se independentes e capazes de dar sentido às suas leituras. Caso a inserção de alguma nota fosse necessária, acredita que a mesma deveria conter a seguinte frase: ―Se você se incomoda pelo tratamento recebido por Nastácia, leia até o fim a história e pense no assunto‖, juntamente com uma referência as últimas frases do livro. A pesquisadora menciona uma colocação feita por uma professora, na qual afirma que se faria, então, necessário ―censurar‖, também, a Machado de Assis, pois, em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), teria se referido de maneira preconceituosa a uma mulher que possuía um problema na perna, ao dizer: ―Porque bonita, se coxa? Porque coxa, se bonita?‖. Para Lajolo, essas tentativas de constatar trechos controversos em obras literárias são discutíveis, pois, no caso de Machado de Assis, a inserção de uma nota explicativa seria problemática e os

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leitores, mesmo crianças, seriam capazes de lidar com esse dinamismo do narrador. Consequentemente, a pesquisadora expõe a indispensabilidade de formar melhor os professores, para que sejam capazes de lidar com eficácia com as questões referentes à leitura. Para ela, um educador que saia da academia com uma formação eficiente será capaz de ―ler e de trabalhar qualquer obra com seus alunos‖, pois considera o esforço por formar leitores que interpretem textos de forma independente como sendo um dos deveres da educação. Por fim, Lajolo tenta demonstrar que não é a primeira vez que Monteiro Lobato sofre ―perseguições‖, ao relembrar que o escritor foi preso por discordar – e manifestar essa discordância – da política do petróleo durante a ditadura getulista, oposição exposta em sua obra O escândalo do petróleo (1936); e que seus livros foram queimados em escolas católicas por serem considerados como propagandistas do ateísmo. Segundo ela, essas manifestações contrárias se justificam porque ―o valor maior da obra do Lobato é a independência e a irreverência e todos os poderes constituídos têm medo disso‖. Ademais, crê que questões pertinentes à cultura não devam ser solucionadas por legislações, mas, entretanto, ―se esse episódio do Lobato servir para uma conscientização da necessidade da formação do professor como um excelente leitor, para que ele seja um excelente guia de leitura para os alunos, valeu a pena‖ (Lajolo, 2012). Em síntese, Marisa destaca que as expressões aparentemente preconceituosas indicadas são derrubadas por trechos ou acontecimentos dentro do próprio texto ou do conjunto da obra de Monteiro Lobato, pois indicariam uma ideia totalmente oposta à presente nas acusações contidas nos pareceres do CNE. Além disso, ponto que se assemelha em diferentes aspectos do posicionamento de João Luis Ceccantini, a professora ressalta a ineficiência dos paratextos que, de alguma maneira, influenciariam a compreensão do texto e resultariam em um atrofiamento da leitura. Essas dimensões acabam por defender certa autonomia do texto, no qual o professor atua somente como mediador da leitura. Percebe-se que, nessas entrevistas, tanto Lajolo quanto Ceccantini acabaram por não adentrar no tema da correspondência de Monteiro Lobato. Entretanto, em ano anterior, a professora declarou, em pronunciamento à Revista Nova Escola (LAJOLO, 2011), além das informações similares as dadas, posteriormente, à ―Univesp TV‖, sua opinião referente a essas cartas contendo trechos que problematizam a discussão sobre

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racismo em Monteiro Lobato. A pesquisadora de Monteiro Lobato acredita na importância do conhecimento, divulgação e análise desses materiais. Segundo ela, as cartas, cujos trechos foram divulgados nos últimos anos, realmente foram escritas pelo criador do ―Sítio do Pica- pau Amarelo‖. Além disso, afirma que o escritor, de fato, esteve envolvido com ―um grupo ligado a questões de eugenia‖, teoria a qual se cria ter uma base científica. Não obstante, Lajolo destaca que Lobato reescreveu a sua obra por diversas vezes e defende que ―as pessoas tem direito a errar, tem direito a voltar atrás, a dizer: ‗- Perdão, leitores. Esqueçam o que eu escrevi‘‖ (LAJOLO, 2011). De acordo com a professora, a partir dos anos 30 ou 40, Monteiro Lobato demonstrou mudança de opinião sobre diferentes posturas tomadas anteriormente. Ademais, o escritor teria selecionado as suas cartas que seriam publicadas, a fim de transmitir uma imagem específica sobre si: Lobato, quando editou a correspondência dele, claro, como toda pessoa que edita a correspondência, ele escolheu qual era a imagem que ele queria que fosse pública. Eu acho que essa imagem [...] é uma imagem ―x‖. Agora, essas outras cartas, esses outros documentos, mostram, também, uma imagem ―y‖, mas não é que o ―y‖ anula o ―x‖ ou que o ―x‖ anula o ―y‖. Lobato é isso, ele é muitos, e é, exatamente, por isso que ele é bom (LAJOLO, 2011).

Nota-se que, para Lajolo, o escritor idealizou uma vida pública, parcialmente, em dissonância com sua vida privada. Em outras palavras, procurou não transparecer certos ideais nos quais acreditava e defendia. Para Marisa, Lobato é um sujeito com mobilidade de pensamento e essa capacidade de variação é o que agrada o público infantil. Essa característica seria também perceptível, segundo ela, a partir da análise dos próprios personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, onde cada um possui uma personalidade distintamente definida: ―Visconte‖ e sua inteligência; ―Pedrinho‖ e sua liderança; ―Narizinho‖ e sua parvalhice; ―Emília‖ e sua imprevisibilidade e irreverência; Dona Benta e Tia Nastácia como as ―matrizes adultas no Sítio‖ (LAJOLO, 2011). Lajolo trata de destacar, também, que essas duas últimas personagens são, além disso, mulheres, onde uma é branca e a outra é negra, o que, aparentemente, demonstraria uma equiparação que desconstrói a entendimento de que Monteiro Lobato propunha uma hierarquia entre as ―raças‖. Os estudos de Marisa Lajolo abrem espaço para que a análise se alargue a outras esferas ligadas à problemática sobre as ideias raciais de Monteiro Lobato. Percebe-se que uma das justificativas principais de acusação ao escritor é a história

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apresentada em seu único romance – O presidente negro, cujo enredo apresentaria uma defesa explícita do preconceito racial e, segundo declarações epistolares do autor, um propósito propagandista da teoria eugênica8. Nesse viés, torna-se relevante evidenciar qual a leitura feita por Lajolo dessa obra no que se refere à presença de ideais preconceituosos. Em sua obra Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida (2000), a pesquisadora analisa as intenções de Lobato ao escrever seu primeiro e único romance. Primeiramente lançada em forma de folhetim, no jornal A Manhã, em 1926, a obra foi produzida com o objetivo de ser publicada nos Estados Unidos, país para o qual Monteiro seria transferido devido a sua nomeação como adido comercial brasileiro. A respeito desta criação literária, Marisa Lajolo afirma: O enredo escandaliza. E entre as razões do escândalo pode se incluir a atualidade da temática, a um tempo em que o conceito de ―eugenia‖ era evocado acima e abaixo do Equador para justificar políticas de exclusão e marginalização. / Sem happy end, o livro tem um narrador desinteressado em discutir aspectos éticos da história que conta e parece ter sido planejado por Monteiro Lobato como uma espécie de passaporte para suas pretendidas atividades de escritor e editor nos Estados Unidos. [...] / Assim, no projeto que Monteiro Lobato tem para O presidente negro não há mais lugar para a imagem ingênua do escritor para quem a produção de um texto corresponde a uma necessidade de expressão íntima, como reza a tradição romântica. Pois, por mais que O presidente negro apresente elementos fundamentais para o estudo das ideias lobatianas a respeito de sociedades melhores e piores [...], esse romance foi feito sob medida, de acordo com a imagem que Monteiro Lobato tinha do público norte-americano (LAJOLO, 2000, p. 68). [grifos do autor]

As considerações apresentadas por Marisa Lajolo destacam que Monteiro Lobato havia incorporado o espírito de editor e que havia elaborado seu romance com fins meramente mercadológicos. Segundo a autora, o então adido comercial, ao compor a história de um choque entre as raças branca e a negra, teria cogitado um público leitor que presenciava a separação racial no país e que, possivelmente, aprovaria o resultado final do conflito existente no enredo de sua obra, mas encontrou resistência dos editores mais conservadores. Além disso, segundo Lajolo, esse propósito de conquistar o público norte-americano estaria desassociado de qualquer posição do autor com relação ao tema. Em estudo anterior, Marisa Lajolo analisa a ―figura do negro‖ na produção literária lobatiana (LAJOLO, 1999). A pesquisadora resgata Tia Nastácia como ponto de partida e afirma que a personagem ―desfruta da afetividade da família matriarcal

8 A obra será analisa com maior profundidade no Capítulo ―As ideais raciais de Monteiro Lobato II‖ (p. 124)

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branca para a qual trabalha‖ (p. 65), com exceção de Emília, cujas falas direcionadas a Nastácia são, na maioria das vezes, desrespeitosas. De acordo com o estudo, esses discursos de Emília são interpretados, por alguns estudiosos do tema, como indicação clara do preconceito do seu criador. Marisa põe, então, em contraposição as funções desempenhadas por Dona Benta, em Peter Pan (1930) e Dom Quixote das crianças (1936), e Tia Nastácia, em Histórias de Tia Nastácia (1937), como contadoras de histórias. Nas três obras, as duas personagens tomam a palavra do narrador principal e narram histórias às crianças do Sítio do Pica-pau Amarelo. De acordo com a pesquisadora, Dona Benta, nas duas primeiras obras supracitadas, fala de um lugar mais elevado em relação a seus ouvintes e utiliza-se da oralidade nas narrações apenas para instigar o interesse do público pela cultura escrita e, consequentemente, pela leitura (p. 68). Por outro lado, Nastácia, a qual, segundo a professora da UNICAMP, encontra no cômodo da cozinha o seu lugar de atuação e o registro de sua posição social (p. 65), ganha novo espaço em Histórias de Tia Nastácia, obra constituída por uma série de contos populares narrados por ela. Entretanto, diferentemente das histórias proferidas por Dona Benta, as de Tia Nastácia, em vários momentos, recebem rejeição dos seus interlocutores. Segundo Lajolo: [...] quando Tia Nastácia assume a posição de contadora de histórias, a relação de forças entre ela e sua audiência (a mesma das histórias de Dona Benta) é completamente outra. Tia Nastácia transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso...), por contar histórias que vêm da tradição oral, não desempenha a função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna à de seus ouvintes, consumidores exigentes da cultura escrita [...] (LAJOLO, 1999, p. 68).

No caso das histórias de Nastácia, a oralidade deixa de ser usada apenas como mediação do estímulo à cultura escrita e passa a ser o cerne da transmissão das histórias através da cultura popular, representada pela personagem. Não obstante, ao considerar o projeto modernista de Monteiro Lobato, Marisa Lajolo questiona ―que lugar podia haver, nesse mundo moderno, para tias nastácias e as culturas que elas representam?‖ (p. 71). Além disso, propõe a consideração de que Dona Benta fosse, nessas circunstâncias, a alter ego de seu criador e as produções anteriormente ressaltadas como objetos de conflito entre a cultura negra, representada por Tia Nastácia, e a modernidade branca, representada por Dona

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Benta e as crianças. Já sobre a receptividade dos leitores dessas produções lobatianas, a pesquisadora considera que, dificilmente, optarão por apoiar a Nastácia, apesar do possível afeto pela personagem: Ao ir lendo a reação dos ouvintes às histórias que Tia Nastácia vai contando, o leitor de Lobato sente-se tentado a tomar partido. E só por estar lendo, são muito pequenas as chances de que sua solidariedade vá para a preta velha que desfia histórias por quem, na melhor das hipóteses e como os pica-pauzinhos, ele (leitor) nutre sentimentos de afeto mas que, nem por serem autênticos, deixam de ser uma das expressões que racismo assume na cultura brasileira (LAJOLO, 1999, p. 74).

O trecho destacado demonstra que essa afetividade coincide com uma das formas de preconceito racial, no qual vingava um sentimento paternalista em relação aos negros. Ainda entre os personagens do Sítio, Lajolo destaca que ―Tio Barnabé‖ é ―versão feminina de Tia Nastácia‖ e detentor de papéis secundários nas histórias de Lobato. Além disso, se a personagem negra mantinha como característica a sua situação no espaço da cozinha, ―a marginalidade narrativa de Tio Barnabé concretiza-se no detalhe de sua cabana localizar-se nos confins do Sítio‖ (p. 76). Para Marisa Lajolo, todas as vezes que Nastácia acompanha os outros personagens em ações fora do Sítio é para desempenhar funções semelhantes às que executava dentro dele, como, por exemplo, ao fazer ―bolinhos para o Minotauro‖ ou fritar ―batatas para o príncipe Codadad‖. Para a investigadora, essa imobilidade ficcional de Nastácia ―parece combinar bem com a representação da imobilidade social a que estão confinados os segmentos dos quais ela pode ser o emblema‖ (p. 76). As considerações anteriores parecem demarcar um terreno de marginalização dos integrantes negros e da própria cultura popular na obra infantil de Monteiro Lobato. Por conseguinte, levando em consideração os projetos lobatianos, Lajolo indaga: ―se já não havia lugar para os dois negros no sítio da Dona Benta como haveria lugar para eles no Brasil de Lobato?‖ (p. 76). Com base na colocação, a pesquisadora acredita que o lugar do negro na obra infantil lobatiana pode representar o espaço a ele destinado nos projetos modernistas ansiados pelo escritor. A professora da Universidade Mackenzie acredita que essas características não são restritas a literatura infantil de Monteiro Lobato, mas sim reforçadas na sua obra adulta. Assim, tanto Timóteo, no conto ―O jardineiro Timóteo‖, e Leandro, em ―Bugio moqueado‖, seriam representantes da ―impossibilidade de sobrevivência de certos segmentos da população brasileira a partir da instauração do processo de

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modernização‖ (p. 77). Lajolo menciona também o conto ―Negrinha‖9 e o caracteriza pela ―dramática denúncia do narrador lobatiano do racismo do qual Negrinha é vítima‖. Vê-se que, para esse conto, o narrador é qualificado como denunciante das atitudes preconceituosas perpetradas sobre a menina negra, o que demonstra um caráter de rejeição dessas ações e certa ambivalência se tomado como queixa dos direitos dos negros. Marisa conclui que essas representações de cunho mais violento se diferenciam do ―paternalismo afetuoso‖ com que o negro é tratado na obra infantil de Lobato (p. 77). Nesse estudo, refere-se ao romance lobatiano – O presidente negro – demonstrando, primeiramente, o antes comentado interesse de publicação nos Estados Unidos. Não obstante, afirma que tanto em Histórias de Tia Nastácia quanto no seu único romance: [...] a representação do negro e de sua inserção no seio de uma sociedade que se quer branca, não hesita no realismo das soluções narrativas adotadas, inscritas ambas na moldura da oralidade. Quer na chave do realismo fantástico da história norte-americana, quer na do realismo miúdo e cotidiano do sítio de Dona Benta, o conflito é violento porque ele não era menos violento na vida real, nem abaixo nem acima do Equador (LAJOLO, 1999, p. 80).

As obras estariam, assim, fundamentadas em uma representação compromissada com a realidade racial do período, conflitualmente violenta, de acordo com Lajolo. Entretanto, apesar da análise em retrocesso dos estudos de Marisa Lajolo, é possível perceber certa ambiguidade nas colocações da pesquisadora, principalmente no que se refere ao papel de Tia Nastácia na obra de Lobato. Nesse primeiro estudo afirma que o leitor dificilmente optaria por apoiar a personagem na defesa de sua cultura popular e oral, mas, posteriormente, em meio à polêmica atual, afirma que esse mesmo leitor, ao conhecer a obra infantil de Monteiro Lobato, acaba por obter uma impressão bastante positiva de Tia Nastácia, ou seja, que as colocações postuladas nas narrativas não acarretavam em visões preconceituosas em direção aos personagens negros. Considerou, primeiramente, que a atuação de Nastácia ao preparar ―bolinhos‖ ao Minotauro era o reforço de sua posição subalterna de cozinheira, mas, posteriormente, considerou que, na interação entre as personagens, tenta-se demarcar a igualdade entre as os sujeitos, como em Caçadas de Pedrinho: ―Negro também é gente, sinhá...‖. Além disso, a própria

9 Os três contos citados aqui fazem parte da coletânea Negrinha (1920).

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afetividade paternalista antes considerada passou a significar uma nova equiparação de valores entre as ―matrizes adultas no sítio‖, como sendo, as duas mulheres, uma branca e uma negra. A prolongada análise do posicionamento de Lajolo e dessa aparente ambiguidade, talvez resultante de mudança de opinião não informada no desabrochar da discussão ou mera contradição, serve para demonstrar o quão problemático é o debate sobre as ideias raciais em Monteiro Lobato, os quais acabam por geram controvérsias até mesmo dentro do discurso de um mesmo pesquisador. As opiniões sobre a suposta existência de racismo em Lobato se fundamentam em políticas públicas, em teorias literárias e linguísticas, na opinião pública, etc., expondo discursos que ora se opõem ora dialogam, mas que, no final, deixam sem respostas as indagações sobre quais realmente eram os ideais raciais do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo. Cruzou, por praticamente todos os pareceres, a conclusão de que sua posição era resultante de um período histórico-social problemático no âmbito das relações etnicorraciais. Torna-se, então, relevante averiguar se é legitima a abordagem que põe em diálogo a literatura e a sociedade, ou seja, a possibilidade de análise da obra literária em função de sua inserção em um contexto histórico, social e político específico. Consequentemente, verificar qual a leitura que o escritor paulista fez sobre a questão racial e como interagiu com essa problemática socialmente. Ademais, não se pode, obviamente, afirmar que seus discursos, não literário e literário, são de mesma natureza, nem que os ideais presentes no primeiro, sejam eles positivos ou negativos, se reproduzem automaticamente no segundo, mas é possível analisar em que medida esses discursos se relacionam na esfera dessas relações. Os próximos capítulos objetivarão responder a essas indagações.

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3. As discussões raciais entre o final do século XIX e início do século XX

3.1 Produção literária e sociedade

Viu-se, no capítulo anterior, os distintos posicionamentos e manifestações referentes à acusação de racismo nas produções literárias de Monteiro Lobato, os quais puseram em diálogo diferentes vozes sociais e apresentaram justificativas fundamentadas nas mais variadas vertentes. Quer fosse para acusações quer para defesas, por diversas vezes, evocou-se a necessidade de contextualização do período em que o escritor paulista viveu, formou seu pensamento intelectual e escreveu suas obras. É indiscutível que os ideais do escritor a respeito do negro estejam relacionados, de alguma maneira, a concepções correntes na sua contemporaneidade, podendo essa relação ser, obviamente, de repulsa ou de afeição. Monteiro Lobato não escreveu apenas textos literários, mas também investiu em reflexões sobre diversos aspectos do país, como a sociedade, a saúde, a economia, a política, etc., algumas publicadas apenas em jornais outras em livros. Muitas das suas avaliações foram discutidas com amigos por meio de correspondências, algumas delas disponíveis em obras editadas por ele mesmo, outras em entidades que preservam documentos herdados dos interlocutores do escritor – como a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e o Instituto Biológico de São Paulo, as quais guardam cartas enviadas por Lobato a Renato Kehl e a Arthur Neiva respectivamente. A partir da análise dessas variadas produções é possível averiguar quais eram os ideais raciais nos quais cria e de que maneira essas concepções interagem com as discussões sobre o tema que vigoravam no período. Entretanto, no que se refere ao âmbito literário, que relação é possível entre a dimensão social da primeira metade do século XX e a literatura lobatiana? Em outras palavras, seria legítimo um estudo que abordasse o texto literário em diálogo com os aspectos sociais do período no qual foi elaborado? Daniel Madelénat, a respeito do estudo comparativo entre ―Literatura e Sociedade‖ (MADELENÁT, 2004),

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afirma que: A arte é uma atividade social; a obra estética não se isola de um contexto religioso, político, cultural, económico e até mesmo técnico, resumindo, de um conjunto de instituições, de mentalidades, de ideologias, de saberes, de atitudes propriamente sociais: eis a evidência, ou o postulado, que inaugura toda a reflexão sobre as relações sobre a literatura e a sociedade (MADELÉNAT, 2004, p. 101)

Assim, a abordagem sociológica da literatura não se desfaz do caráter estético da obra literária, negando-o ou obscurecendo-o, mas, pelo contrário, busca averiguar de que maneira os fenômenos sociais surgem esteticamente representados. No mesmo viés, cabe destacar que essa ligação entre os universos social e literário não se dá de forma automática e involuntária, ou seja, não existe um determinismo que imponha ao literato a necessidade de apresentar uma realidade social com extrema exatidão, pois: [...] a obra é um mundo em si mesmo, cosmos ou mónada, com a sua linguagem, as suas normas, as suas imagens; os signos que a compõem obedecem à sua própria lógica, autotélica ou autocentrada, longe de copiar servilmente ou mesmo fotografar, uma realidade social. Nenhuma causalidade directa, mecânica, tiraniza o escritor, a escrita ou o leitor; nenhuma servidão flagela os temas. A sociedade propõe, condiciona, apresenta um repertório (monumentos, formas, acontecimentos, tradições...): o criador dispõe, combina, organiza esses dados segundo os seus fantasmas, as suas intenções estéticas, as suas possibilidades pessoais (Idem, Ibidem, p. 102).

A afirmação de Madelénat pode ser posta ao lado da consideração de Antonio Candido de Mello e Souza, em Literatura e Sociedade (1965), ao destacar a necessidade de ―consciência da relação arbitrária e deformante que o trabalho artístico estabelece com a realidade, mesmo quando pretende observá-la e transpô- la rigorosamente, pois a mimese é sempre uma forma de poiese‖ (CANDIDO, 2000, p. 13). Essas postulações apresentam o caráter ―transformador‖ da produção literária. Ela é a criação de um ―microcosmo paralelo ao macrocosmo‖ (MADELÉNAT, 2004, p.102), onde o social deixa de ser ―realidade‖ e passa a ser ―representação‖. Assim, segundo Candido, a interpretação que parta do princípio de que, para entender-se uma obra, faz-se necessário apenas transpô-la à realidade ―corre o risco de uma perigosa simplificação causal (p. 13). Para Antônio Candido, a obra de arte é, acima de tudo, ―comunicação expressiva, expressão de realidades profundamente radicadas no artista‖ (p. 20), além disso, ―os impulsos pessoais predominam na verdadeira obra de arte sobre quaisquer elementos sociais a que se combinem‖ (p. 33). Assim, a sociedade

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disponibiliza um apartado de temas, conteúdos e ideias para a elaboração da obra artística, mas predomina sempre a intencionalidade criativa, que no momento da feitura se combina com os elementos sociais a fim de gerar o objeto final. Sobre isso, Candido destaca, também, a existência de questionamentos que buscam compreender ―se a obra é fruto da iniciativa individual ou de condições sociais, quando na verdade ela surge na confluência de ambas, indissoluvelmente ligadas‖ (p. 23-24). No mesmo caminho, Daniel Madelénat destaca que ―quer o artista se integre harmoniosamente numa civilização ou se lhe oponha (num conflito latente e violento), ele testemunha os desenvolvimentos, as repressões, as regras ou os costumes que caracterizam uma sociedade‖ (p. 101). Consequentemente, assim como seus contemporâneos, ele ―pertence a um meio (grupo etário ou geracional, classe social, província, bairro, círculo, capelinha ou cenáculo) cujas preocupações, interesses, preconceitos, sensibilidades e fantasmas ele exprime‖ (p. 119). Assim, o projeto estético de um escritor estaria interligado às suas várias inquietações e ideais, formadas no seio das relações sociais de sua contemporaneidade. Entretanto, cabe ressaltar que dependerá de escolhas por parte do escritor a inserção ou não dessas concepções pessoais como componentes de sua produção literária. Além disso, qualquer tipo de representação pode não coincidir com as aspirações pessoais e não literárias do artista, pois a literatura não é reflexo da vida do escritor e essa correlação entre autor e obra pode apresentar desconexões ou contradições. Para a problemática que compõe o cerne desta pesquisa, faz-se necessário cogitar as mais variadas possibilidades, desde a consideração de que o pensamento de um escritor sobre determinada temática está em harmonia com sua produção literária quanto a de que essa comparação possa apresentar oposições. Como exemplificação da possibilidade de dissonância entre discurso não ficcional e ficcional, pode-se retomar a colocação de Anatol Rosenfeld (1912-1973), em ―Arte e fascismo‖ (ROSENFELD,1993), ao considerar a relação entre os ideais do escritor norueguês, Knut Hamsun (1859-1952), e a sua produção literária. Segundo Rosenfeld, Hamsun ―se colocou com decisão e paixão no lado do nazismo‖ (p. 189), mas sua produção literária não apresenta a ―decadência moral de seu criador‖ (p.197), ou seja, a sua afiliação ideológica ao nazismo não repercute em seu

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trabalho artístico, com representações em defesa do partido, originalmente, alemão10. Obviamente, o social entra em cena não apenas no processo de produção dos textos literários, mas também na fase de recepção desses textos, pois a sua interpretação também é situada sócio-historicamente e essa constatação é o que elucida as novas leituras da obra lobatiana, com novas interpretações e perspectivas. Por fim, as exemplificações expostas anteriormente servem para demonstrar que a literatura e a sociedade ora apresentam ligações ora intersecções. Em meio a essas complexas relações de interação e desconexão, a investigação que aqui se desenvolve buscará averiguar de que maneira Monteiro Lobato assimilou as discussões sobre a questão racial brasileira e, consequentemente, se sua produção literária apresenta características que possibilitam a aproximação com seu pensamento intelectual sobre a mesma temática. Para tanto, far-se-á necessário traçar um panorama do período que compreende o final do século XIX e início do século XX, levando em consideração as tensões geradas pelas mudanças ocorridas no país com a alteração de regimes e de forma de governo e os variados debates originados sobre o âmbito racial.

3.2 O contexto abolicionista e republicano

Serão traçadas, aqui, breves considerações a respeito do contexto pré- abolição, no intuito de melhor visualizar os projetos ansiados por grande parte da intelectualidade brasileira entre o final do século XIX e o início do século XX, no que se refere a sua constituição racial. Para a contextualização que se propõe tanto neste tópico como no seguinte, toma-se como fundamento o estudo de Thomas Skidmore (2012) sobre a temática racial. A partir desse embasamento, resgatar-se- ão outros materiais que, em dialogo com o anterior, venham a contribuir para os objetivos supracitados. Constantemente preocupada com as opiniões vindas do exterior, parte da intelectualidade brasileira adotou teorias científicas contemporâneas que supunham a existência de uma superioridade do branco com relação às outras raças, a fim de

10 Para uma fundamentação teórica sobre a relação entre ―autor‖ e ―narrador‖, leia-se Genette (1979), Aguiar e Silva (1988) e Leite (2005).

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implantar projetos de branqueamento da população, primeiramente, através da miscigenação e, posteriormente, com os ideais de melhoria da raça ditados pela teoria eugênica. O Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravatura. Apesar da persistência no mantimento da escravidão, a adoção do sistema de trabalho livre se tornaria inevitável, graças ao fim do tráfico de escravos, sob pressão da Inglaterra, em 1850. Assim, a falta de indivíduos para a reposição da mão de obra se tornou um problema para a manutenção escravagista. Na década de 1870, no Rio Grande do Sul, iniciou-se uma busca de imigrantes que suprissem essa falta, resultado de uma previsão de que tão logo não haveria como recompor o grupo de escravos necessários para o trabalho. Este seria o primeiro passo para que se repensasse a situação brasileira no âmbito da escravidão. Paralelos a esses acontecimentos e às discussões que deles nasciam, surgiram, também, debates que questionavam a ineficiência do regime monárquico. Uma corrente filosófica francesa mudou as orientações de grande parte da intelectualidade brasileira na segunda metade do século XIX. Criados por Augusto Comte, os ideais positivistas contrariavam todo o sistema vigente no país: a monarquia, a escravidão, a religião, etc. Os intelectuais que se debruçaram sobre as considerações de Comte acabaram por se tornar empenhados republicanos. O pensamento republicano e o abolicionista sempre andaram intrincados. O Partido Republicano, inicialmente, se absteve de um envolvimento com o abolicionismo com o intuito de conquistar o apoio de fazendeiros influentes, sobretudo na província de São Paulo, onde a economia em torno do café se expandia rapidamente. Entretanto, posteriormente, o abolicionismo conquistou grande número de intelectuais adeptos ao republicanismo. Outros intelectuais, como André Rebouças (1838-1898), preferiam não investir contra o Império e deixaram as ideias republicanas de lado. Em 1866, d. Pedro II recebeu um pedido de abolicionistas franceses, para que usasse de sua autoridade como imperador e acabasse com a escravidão no país. Na mensagem enviada pela ―Junta Francesa de Emancipação‖, o apelo visou convencer o Imperador de que o fim do tráfico foi uma medida incompleta e que já eram muitas as vozes que se levantavam em favor do fim da escravidão. No documento, a entidade destacou: 1 O número de escravos é menos que os dos homens livres; e quase /3 já existe nas cidades exercendo ofícios ou servindo de criados, e é fácil elevá-

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los a condição de assalariados. A emigração dirigir-se-á para as vossas províncias, desde que a servidão tiver desaparecido. A obra da abolição, que deve atender aos fatos, interesses, situações, parece menos difícil no Brasil, onde aliás os costumes são brandos, e os corações humanos e cristãos (BROGLIE et al., 2005, p. 53-54).

Percebe-se que a manifestação intentou tranquilizá-lo sobre a possível falta de mão de obra decorrente da libertação dos escravos, pois a vinda de imigrantes certamente começaria a partir do momento em que o trabalho forçado cessasse. Além disso, tratou de lembrá-lo que era grande o número de alforriados que já haviam se adaptado sem problemas ao trabalho livre e remunerado. E, por fim, recorreram à exaltação das ―grandezas‖ do país, as quais não condiziam com o regime que ainda adotava. Naquele momento, as preocupações do Império estavam voltadas para a Guerra do Paraguai (1864 – 1870), que já durava mais de um ano. No entanto, esse conflito teve um vínculo indireto com a problemática da escravidão, pois revelou ao país a falta de homens preparados para desempenhar a função militar. Em consequência, escravos foram enviados para as frentes de batalha, recebendo como promessa por bom desempenho a liberdade. O Brasil demorou a formar um grupo expressivo de partidários ao abolicionismo e, consequentemente, seus resultados também tardaram. Somente em 1871 foi possível notar uma atitude abolicionista objetiva. Nessa data, foi assinada a Lei do Ventre Livre, a qual dava liberdade a toda criança nascida, daquele momento em diante, em berço escravo. A abolição adquiria, assim, cada vez mais inevitabilidade. No fim da mesma década, o projeto abolicionista ganhou um engajado reforço que mudaria os rumos da discussão: Joaquim Nabuco (1849- 1910). Parte da intelectualidade cria que o país não resistiria ao fim do regime escravista. Em contrapartida, Nabuco afirmava que era preferível submeter-se a tais provas do que ser uma nação incapaz de sobreviver sem o lastreamento da escravidão. A abolição libertaria não só os escravos, mas também o Brasil do atraso decorrente do trabalho forçado e o estimularia a dar uma guinada em direção a uma verdadeira independência (Nabuco apud Skidmore, 2012, p. 60-61). No tocante à raça, os abolicionistas demonstravam ser contraditórios. Para Nabuco, no Brasil, diferente do que em outros países escravagistas, a escravidão nunca gerou ódio entre os escravos e seus senhores (Nabuco, 2003, p. 40). Para grande maioria da população, não existia preconceito racial no país. Além disso, segundo Skidmore, ―os abolicionistas no Brasil raramente se viam obrigados a

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discutir a questão da raça em si, porque os defensores da escravidão praticamente nunca recorriam a teorias de inferioridade racial‖ (p.62). Ao mesmo tempo, imperava entre os adeptos do movimento a crença no ―evolucionismo‖, o qual postulava que, no final, a ―raça superior‖ predominaria sobre a ―inferior‖, inevitavelmente. Nos primeiros anos da década de 1880, ano em que foi fundada a ―Sociedade Contra a Escravidão‖, foi possível observar a existência de um movimento mais significativo objetivando o alcance da abolição. As críticas estrangeiras em direção à escravidão, até mesmo dos Estados Unidos, que há pouquíssimas décadas havia abolido o trabalho escravo, era o argumento mais utilizado entre os abolicionistas. Para eles, o atraso brasileiro nesse tocante afetava sua integridade moral e impedia a chegada do progresso. Ademais, os abolicionistas se beneficiavam desse repúdio para solicitar a intervenção de homens influentes junto a d. Pedro II, o que, muitas vezes, soava com um antipatriotismo. Percebe-se que o discurso de grande parte dos abolicionistas, por trás da máscara humanitária que agia em prol do negro e de uma democratização racial, visava muito mais o melhoramento da visão que se tinha do Brasil no exterior. Em consequência, o país começaria a ser visto como um lugar conveniente para investimentos por parte das potências europeias. O incremento do sistema industrial brasileiro atrairia, também, a vinda de imigrantes, os quais visavam melhores condições de vida nos países do Novo Mundo, em constante desenvolvimento. Ver- se-á, mais adiante, que esse investimento na promoção da imigração europeia objetivava suprir a carência de mão de obra qualificada no setor agrícola e, por conseguinte, o aumento do número de indivíduos ―brancos‖ considerados ―superiores‖ desde uma categorização racial. Quando os seus ideais já haviam atingido o âmbito nacional, o abolicionismo deu novo passo rumo ao seu objetivo. Em 1885, foi assinada a Lei do Sexagenário, dando liberdade a todo escravo com mais de sessenta e cinco anos. Os que estavam na faixa entre os sessenta e sessenta e cinco deveriam cumprir mais três anos de serviço aos seus ―proprietários‖. Alguns anos mais tarde, alguns fazendeiros conservadores, que antes haviam defendido arduamente o mantimento da escravidão, mobilizaram-se para dar fim ao regime escravista. Com isso, tinham como objetivo evitar a ascensão ao governo de abolicionistas que viessem a desfavorecer a classe agrária, mantendo, assim, o domínio em suas mãos. Em 13

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de maio de 1888, substituindo seu pai d. Pedro II, na ocasião, doente, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que dava liberdade a todos os escravos sem qualquer indenização aos antigos senhores. Vários foram os motivos que levaram muitos brasileiros a se tornarem adeptos ao republicanismo. Um deles foi a consciência de que o país carecia de qualquer perspectiva de desenvolvimento econômico, além da ligação problemática entre o Estado e a Igreja, que conturbava a muitos conservadores, gerando atritos constantes. Por outro lado, no último instante, o republicanismo ganhou novos defensores, os chamados ―republicanos de 13 de maio‖, devido à insatisfação dos fazendeiros que não receberam ressarcimentos pela perda de seus escravos. Resultante desses e de outros descontentamentos com a monarquia, em 15 de novembro de 1889, uma frente militar, conduzida pelo Marechal Deodoro da Fonseca, depôs o imperador e proclamou a República Brasileira. No Brasil, em momento algum se havia pensado em barrar o contato do branco com o negro, com o índio ou, mesmo ainda, com o próprio mestiço. Mesmo antes da abolição, era perceptível uma imensidade de matizes de cor da pele entre a população brasileira, pois, até então, uma infinidade de escravos já havia sido liberta e, distante das concepções dadas pelo racismo científico em voga na segunda metade do século XIX, a miscigenação havia se dado sem tentativas de intervenção. Além disso, desde o período colonial, alguns negros e mulatos alcançaram um nível diferenciado dos escravos que desempenhavam trabalhos pesados. Devido à necessidade de mão de obra para determinadas atividades, esses indivíduos desfrutavam de privilégios negados aos que não compartilhavam as mesmas funções. Consequentemente, a grande maioria ganhava a liberdade, mas era constante que permanecesse prestando serviços a seus antigos senhores. Segundo Skidmore: É plausível que uma carência mais que centenária de mão de obra branca qualificada e semiqualificada no Brasil colonial obrigasse aos conquistadores europeus a legitimar a criação de uma categoria de negros libertos que fossem capazes de executar essas tarefas. O mesmo processo provavelmente continuou durante o século XIX (SKIDMORE, 2012, p. 83).

Essa prerrogativa, usufruída na maioria das vezes por mulatos, acabou gerando um nível intermediário de indivíduos, entre a elite branca e os escravos negros, os quais obtiveram a possibilidade de mobilidade e ascensão social, mesmo antes do fim da escravidão. Esse pode ser considerado o primeiro passo em direção

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a uma democratização racial brasileira. No século XIX, o número de libertos aumentou significativamente. Cada novo liberto se deparava com uma hierarquização racial que interferia diretamente nas possibilidades de crescimento na sociedade. Quanto mais clara a cor da pele, mais possibilidade de ascensão social e, consequentemente, quanto mais escura, a probabilidade de ascensão era menor. Assim como afirma Thomas Skidmore, não só aspectos físicos – como, por exemplo, a cor da pele, a textura do cabelo e os traços faciais – interferiam na avaliação do observador, mas também sociais e econômicos, tais como: os círculos sociais, os patrimônios, a educação, as boas maneiras, etc. (p. 81-82). Muitos desses libertos buscavam migrar para outras regiões para ocultar suas origens familiares. De acordo com Donald Pierson, para destituir-se das cicatrizes oriundas de sua ascendência escrava, ―mulatos claros, de origem escrava, conseguiam muitas vezes, em áreas distintas de seu nascimento, passar por descendentes de pessoas livres‖ (PIERSON, 2005, p. 207). Essa mudança territorial permitiu que estes sujeitos utilizassem as habilidades que possuíam para uso profissional, garantindo uma melhoria na sua situação econômica. Por conseguinte, esse importante passo possibilitou um avanço ainda maior posteriormente, com o crescimento econômico de algumas regiões. Segundo Pierson, com o surgimento das Academias depois da Independência, esses homens tiveram a oportunidade de elevar as suas qualidades intelectuais. Os títulos de doutores ou bacharéis davam a eles a ocasião oportuna para um avanço no âmbito social (p. 208). O autor afirma, também, que, outras vezes, pela própria vantagem de possuírem um pai branco ou por contarem com parentes ou amigos influentes na classe dominante, acabavam conseguindo conquistar carreiras promissoras em suas áreas de estudo. Alguns obtiveram a chance de estudar no exterior e, ao regressarem, proporcionaram novas perspectivas à camada que aos poucos garantia um status mais elevado. Em 1888, depois da Abolição, os ex-escravos se depararam com uma sociedade em que os afro-descendentes se encontravam nos mais diversos degraus da escala social. Além disso, a norma estipulada na Lei Áurea não impôs aos antigos escravagistas nenhuma obrigatoriedade de auxílio, em qualquer instância, aos seus antigos escravos. Os alforriados foram largados a mercê de suas deficiências econômicas e, por conseguinte, alguns preferiram continuar prestando

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atividades laborais a seus antigos proprietários, submetendo-se às condições de trabalho e aos baixos salários oferecidos pelos fazendeiros que os haviam libertado. Muitos dos ex-escravos se mantiveram envolvidos com o trabalho agrícola, mas em um sistema de subsistência. Outros procuraram deslocar-se para outras regiões em busca de trabalhos nas lavouras, mas acabaram por ter que competir com os recém chegados imigrantes. Os movimentos em prol da imigração, começados mesmo antes da Abolição, haviam ocasionado um crescimento no número de trabalhadores estrangeiros com mão de obra especializada. Além disso, as teorias contemporâneas que davam ênfase a ―inferioridade negra‖ e promoviam o branqueamento os deixavam em desvantagem, dada as considerações de superioridade dos imigrantes europeus. Outra camada desse grupo de forros migrou para as grandes cidades, mal prevenidas para a sua chegada. Thomas Skidmore afirma que alguns se juntaram em bandos conhecidos como ―capoeiras‖, os quais, com ―uma forma de luta com os pés [...] aterrorizavam as cidades‖. Esse risco a segurança pública fez com que essa categoria de ―criminosos‖ fosse incluída no Código Penal de 1890. Além disso, afirma que essa ―violência reforçava a imagem do negro como elemento atrasado e antissocial, e com isso a elite ganhava mais um incentivo para trabalhar no sentido de um Brasil mais branco‖ (p.89-90). Grande parte dos que defendiam a escravidão cria que a libertação dos escravos produziria uma desordem social incontrolável e temiam que ela ameaçasse o poder adquirido pela elite até então. Entretanto, para a sua tranquilidade, os resultados foram exatamente o contrário. O antigo regime havia produzido nos ex- cativos um sentimento de submissão que fez com que se sujeitassem a realidade social e cultural dos brancos. O contexto do pós-abolição acabou por revelar a verdadeira face dos movimentos que defendiam o fim da escravidão. O lado humanitário da liberdade tão solicitada ao negro foi diluído e nem mesmo os mais empenhados abolicionistas demonstraram mover esforços para garantir qualquer direito aos escravos alforriados. Ao se submeterem à condição de elemento alheio que lhes foi imposta, os libertos se colocaram à margem da sociedade. Os que partiram em direção às cidades em desenvolvimento se uniram à classe baixa já existente e a grande maioria se aglomerou em periferias insalubres, correndo riscos constantes de

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contrair doenças devido à falta de saneamento. Os que almejavam alcançar um crescimento econômico se deparavam com as condições impostas por uma sociedade culturalmente branca, onde o preconceito, agora legitimado pela ciência, imperava em todos os setores. Devido às escassas possibilidades de acesso à educação e à formação profissional, o atraso econômico se mantinha e a elite legitimava o seu poder perante as classes desfavorecidas. As campanhas eleitorais tinham como característica o elitismo e a fraude. A Constituição de 1891 restringiu a interferência eleitoral da grande maioria da população, pois proibia o voto de analfabetos. Segundo Neres, Cardoso e Markunas (2006), a nova Constituição ―garantiu direitos civis e políticos e praticamente não tratou dos direitos sociais‖ (p. 131). Além disso, afirmam que a República: [...] trouxe a expectativa de participação das camadas antes excluídas do jogo político. Entre 1889 e 1930 houve intensa mobilização de diversos setores sociais – Revolução Federalista, Canudos, Contestado, Revolta da Chibata, Levante de Sargentos –, além de diversas greves operárias. Contudo, os diversos conflitos foram resolvidos pelo autoritarismo dos grupos que estavam no poder, que resistiam em ampliar a cidadania (NERES; CARDOSO; MARKUNAS, 2006, p. 131).

A Marinha Brasileira abria espaço para a entrada de negros e mulatos para o posto de marinheiro. Entretanto, essa tentativa de ascensão social era barrada pelos baixos salários, pelos trabalhos pesados em ambientes desprovidos de higiene. Além disso, os autoritários oficiais, filhos da aristocracia, desrespeitavam o terceiro decreto do governo provisório da República, o qual abolia o castigo corporal na armada. Os marinheiros, na grande maioria das vezes, negros e mulatos, levavam chibatadas pela desobediência às ordens superiores. Em 1910, sob o comando de João Cândido (o ―Almirante Negro‖), um motim foi armado ao chegarem à Baía de Guanabara. Os marinheiros ameaçaram bombardear as localidades onde residiam a elite caso seus pedidos não fossem atendidos. O motim, conhecido como Revolta da Chibata, resultou no aumento dos soldos, na redução das atividades pesadas e, obviamente, no fim das chibatadas. O autoritarismo da elite já havia se manifestado alguns anos antes com a urbanização da capital e o ―bota-abaixo‖ e com as políticas sanitárias de combate a epidemias. Assim como outras revoltas populares, ora campesinas, como a Guerra de Canudos, ora urbanas, como a Revolta da Vacina, cujos desfechos serão analisados posteriormente, manifestaram-se os primeiros esforços das camadas desfavorecidas da sociedade contra a prepotência da elite brasileira.

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Negros e mulatos buscavam, aos poucos, alcançar um reconhecimento maior na sociedade. Uns gozavam de possibilidade de expressão cultural e cunharam espaços das áreas das Letras, das Artes e da Política, enquanto outros viabilizavam seu lento crescimento econômico com pequenos comércios. Entretanto, os movimentos ideológicos do final do século XIX e início do século XX, os quais partiam do pressuposto de que o branco era ―superior racialmente‖, reforçariam a marginalização do negro e dos mestiços na Primeira República. Com o advento do conhecimento biológico, uma série de teorias foi criada, seguindo caminhos diferentes, mas com o objetivo comum de ―branquear o povo brasileiro‖. A análise racial da questão nacional teve como primeira atitude, dentro das tendências denominadas ―de branqueamento‖, o controle imigratório.

3.3 A questão imigratória e o “branqueamento”

Esse trabalho pretende dar conta do período em que essas discussões alcançaram o meio intelectual e se legitimaram como teorias científicas. Esses estudos ganharam força a partir de meados do século XIX, quando diferentes formulações foram criadas na busca de justificar a existência dessas diferenças entre os humanos, adaptando-se, na maioria das vezes, ao contexto e às necessidades de cada país. Nesse período, grande parte da intelectualidade europeia acreditava que todos os avanços econômicos, sociais, políticos e, também, filosóficos por eles alcançados até então eram resultado de sua superioridade com relação aos outros povos. Essa divisão ocorreu, primeiramente, dentro do próprio continente. Os europeus do Norte afirmavam que seus caracteres herdados geneticamente, em conjunto com as condições climáticas em que estavam inseridos, os faziam detentores de uma supremacia. Em consequência, os povos que dispunham de um clima mais quente e possuíam a pele mais escura viveriam sempre no atraso decorrente de sua ―inferioridade‖. Essa linha de pensamento postulava a existência de uma hierarquia dentro da própria categoria racial ―branca‖, definindo escalas de brancura entre o povo europeu. A ideologia de superioridade nórdica não tardou a migrar para outros territórios e encontrou forte aceitabilidade nos Estados Unidos. Não obstante, cabe

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ressaltar que, a cada nova formulação, os estudiosos centravam a discussão, cada vez mais, na questão da ―raça‖. Se a aplicabilidade dessas considerações tinha muito a dizer a respeito dos próprios brancos, o que diria com relação às outras raças? Esse ideário determinista fez nascer nas nações uma preocupação com relação a sua constituição racial. Nas décadas de 1840 e 1850, alguns intelectuais tomaram como base a teoria poligênica da criação humana, a qual sustentava que o homem teria surgido a partir de diferentes espécies. Pesquisadores norte-americanos analisaram diversas mostras de ossadas humanas egípcias e destacaram diferenças métricas nas estruturas dos corpos. Partindo dessa constatação, pressupuseram que tais diferenças podiam ter ligação com outras distinções entre os povos, como, por exemplo, culturais. Um dos mais empenhados estudiosos da teoria no contexto americano foi o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), o qual assinalou a existência de diferentes espécies humanas para cada região climática. Esses ideários fundavam a existência de um determinismo climático e genético entre os seres humanos. O racismo começava a ganhar o amparo da ciência. No Brasil, assim como nos outros países do Novo Mundo, a formação racial tinha forte influência indígena, em virtude dos nativos que já habitavam o território; branca, principiada com a chegada dos colonizadores no início do XVI; e negra, em consequência do desgovernado tráfico de escravos africanos que perdurou até 1850. No século XIX, o país presenciou o surgimento das múltiplas correntes de pensamento que se ocupavam em discutir a questão racial. A intelectualidade brasileira recebeu as críticas à miscigenação com preocupação, pois, naquele momento, o Brasil já apresentava fortes traços de uma sociedade multirracial, com uma população predominantemente mestiça. O francês Arthur de Gobineau (1816 -1882) foi um representativo porta-voz desse posicionamento. Tornou-se amigo de d. Pedro II ao ser enviado ao país como diplomata, em 1869, e não poupou esforços para menosprezar a constituição racial brasileira. Assim como afirmou Skidmore (p.70-71), para Gobineau, a mistura entre as raças havia degenerado a população brasileira da pior forma possível, afetando todas as classes sociais. Consequentemente, tal insucesso levaria o povo ao gradativo desaparecimento. Segundo ele, somente as raças europeias eram capazes de tonificar a nação brasileira e livrá-la do ―trágico fim‖ ao qual se dirigia.

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Outro conhecido teórico que reprovou a situação racial do país foi Louis Agassiz. Para o suíço, a miscigenação eliminava os atributos positivos das raças puras. Os movimentos intelectuais que visavam discutir as questões raciais do Brasil se viram perturbados com as colocações vindas do exterior. Como anteriormente mencionado, em nenhum momento se havia pensado, no Brasil, em controlar os relacionamentos entre as ―raças‖. Inevitavelmente, seria necessário adotar uma postura que condissesse com a realidade brasileira e a crença na superioridade do branco fez com que o pusessem como meta a ser alcançada: acreditavam ser necessário ―branquear o povo brasileiro‖ de alguma forma. Alguns estudiosos manifestavam concordância com as teses estrangeiras que consideravam a mestiçagem perniciosa. Outros preferiam acreditar que a promoção da mistura do negro, do índio e do mestiço com o branco levaria a um gradativo branqueamento da população e, junto a ele, a permanência dos caracteres positivos da ―raça superior‖. Tal pensamento se firmava na teoria evolucionista e pretendia apressar os resultados inevitáveis de uma vitória do branco decorrente de sua suposta superioridade. Não obstante, como seria possível promover a mestiçagem com o branco se, assim como afirmou Skidmore, até então, ele nunca tinha sido maioria em nenhuma parte do Brasil (p. 83)? Em consequência, tornou-se indispensável estudar uma maneira de fazer crescer o número de indivíduos detentores de ―qualidades raciais elevadas‖. Paralelo a isso, o país começava a sentir as consequências do fim do tráfico de escravos, o que havia acarretado a falta de indivíduos para a substituição e para a ampliação da mão de obra. Em São Paulo, o crescimento das lavouras de café exigia cada vez mais dos cafeicultores o aumento no número de trabalhadores agrícolas. Além disso, o fim da escravidão, no final da década de 1880, veio a problematizar ainda mais esse déficit. Essa dupla necessidade, racial e laboral, estimulou a ideia de que o Brasil precisava de reforços. Era indiscutível entre os que criam na existência de uma supremacia racial branca que, numa escala global, o branco europeu era detentor dos melhores atributos. Assim, se era necessário elevar a quantidade de brancos no país, que se buscasse estimular a vinda de imigrantes daquele continente. É possível observar, também, que a ideia de que a Europa teria muito a contribuir para uma reconstituição racial para o Brasil é percebida intrinsecamente à fala dos

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abolicionistas. Os discursos de abolicionistas, como Joaquim Nabuco, se mostraram intensamente contraditórios no que se refere à questão racial. Nabuco, em sua obra O abolicionismo, publicada pela primeira vez em 1883, declara que a raça negra não é ―uma raça inferior, alheia à comunhão ou isolada desta‖, mas ―um elemento de considerável importância nacional, estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte integrante do povo brasileiro‖ (Nabuco, 2003, p. 39). De acordo com ele, o propósito pelo qual lutavam era levantado em nome de uma raça que renunciou o seu direito de acusação. Entretanto, na mesma obra o pensador abolicionista expõe os propósitos do projeto que promoviam, os quais parecem representar uma ambiguidade, dado o que foi acima mencionado: Compare-se com o Brasil atual da escravidão o ideal de pátria que nós, abolicionistas, sustentamos: um país onde todos sejam livres; onde, atraída pela franqueza das nossas instituições e pela liberdade do nosso regime, a imigração européia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásio vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça; um país que de alguma forma trabalhe originalmente para a obra da humanidade e para o adiantamento da América do Sul. (Idem, Ibidem, p. 205).

O paradoxo se forma quando Nabuco, ao falar da importância da imigração, declara que o ―sangue caucásico‖ europeu acrescentaria ao brasileiro as propriedades fundamentais para a evolução do país: vivacidade, energia e saúde. Para a grande maioria dos intelectuais que a promoviam, a busca de imigrantes europeus tinha como objetivo dar suporte às necessidades de mão de obra agrícola do país, reforçar a presença do "branco superior" e, consequentemente, ―fortalecer o sangue brasileiro‖. Acreditava-se que, na mistura, os caracteres da ―raça superior‖ prevaleceria e, por conseguinte, as ―raças inferiores‖ seriam suprimidas. O rechaço ao imigrante chinês representa uma reposta às propostas vigentes de substituir a escravidão negra pela asiática. Esse desprezo, não só de Nabuco, mas de grande parte dos abolicionistas, comprova que a questão racial permeava a ideologia abolicionista, ainda que eles mesmos a negassem. Por acreditarem na existência de uma inferioridade dos chineses, assim como outros avaliavam as qualidades do negro, impuseram-se contra a tentativa, depois fracassada, de promover a substituição da mão de obra negra.

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Segundo Skidmore, em 1886, um grupo de fazendeiros criou a ―Sociedade Promotora da Imigração‖, uma associação que objetivava estimular a vinda de imigrantes europeus destinados a trabalhar nas lavouras de café. Mesmo não sendo uma entidade governamental, recebia subsídios da província de São Paulo para manutenção de suas atividades, como, por exemplo, o pagamento de passagens aos imigrantes até a província paulista e o cuidado com os aspectos burocráticos de suas atividades laborais nos cafezais (p. 202). As operações que tencionavam a promoção da imigração europeia alcançaram um maior suporte político após a Proclamação da República, em 1889. Em junho de 1890, seis meses após o golpe político-militar, o primeiro presidente da República brasileira, marechal Deodoro da Fonseca, firmou o decreto que regularizaria a entrada e a localização de imigrantes no território brasileiro. O primeiro capítulo do documento tratava da introdução desses indivíduos e o primeiro artigo trazia os primeiros passos formais em direção aos propósitos de branqueamento do Brasil: Art. 1º É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos à ação criminal do seu país, excetuados os indígenas da Ásia, ou da África que somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos de acordo com as condições que forem então estipuladas (BRASIL, 1890).

As primeiras linhas que compõe o documento demonstram, antecipadamente, a base do que se tencionava com a política imigratória do início da Primeira República. Primeiramente, a formação de uma barreira para a entrada de africanos e asiáticos. Seria de incumbência de diplomatas e cônsules o uso de todas as suas influências no exterior para evitar a vinda de imigrantes desses dois continentes e comunicar o Governo Federal, por telégrafo, toda vez que não fosse possível conter a saída dos mesmos em direção ao Brasil. A polícia portuária teria como função o impedimento do desembarque desses indivíduos – e de mendigos e indigentes – nos portos brasileiros, os quais representariam um risco para desenvolvimento do Brasil. Ademais, os comandantes que trouxessem quaisquer desses sujeitos estariam obrigados a pagar multa ao Estado. Em segundo lugar, nota-se o incentivo à vinda de europeus aptos ao trabalho. Ademais, é perceptível que governo preferia trabalhadores agrícolas, ao ponto de financiar a vinda de imigrantes através do pagamento às companhias de transporte

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marítimo que trouxessem imigrantes europeus. O artigo 7º do primeiro capítulo do Decreto supracitado demonstra que os valores variavam conforme a idade. Os resultados demonstraram uma maior aceitabilidade de trabalhadores italianos, seguidos de portugueses e depois de espanhóis, o que viria a acentuar a latinidade do povo brasileiro e provocar desgosto a uma camada de intelectuais que acreditava numa ―superioridade ainda maior‖ dos europeus nórdicos. Thomas Skidmore afirma que os esforços em direção ao branqueamento deram resultados por dois motivos. Primeiramente, porque a população negra havia se tornado inferior a dos brancos devido à baixa taxa de natalidade, a uma maior ocorrência de doenças e à sua desorganização social. Em seguida, porque a mestiçagem cumpria com o objetivo de produzir ―gerações mais claras‖, pois ―os genes brancos eram mais fortes‖ e, na maioria das vezes, ―as pessoas escolhiam parceiros mais claros que elas‖ (p. 110). A imigração foi duramente interrompida somente após o começo da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

3.4 A teoria de purificação da raça

Para os estudiosos, a ideologia de branqueamento mostrou dar resultados, mas em prazos demasiado longos. Esses ideais nasceram e se desenvolveram ao mesmo tempo em que surgia, na Inglaterra, uma teoria que visava, aparentemente com mais competência, à prevalência dos indivíduos considerados ―racialmente superiores‖: a eugenia. Neste momento, adota-se as pesquisas de Nancy Stepan (2005) e de Pietra Diwan (2007) como norteadoras da contextualização que visa demonstrar como se deu o surgimento e a difusão das teorias eugênicas no âmbito mundial. Posteriormente, as atenções se convergirão para a esfera brasileira, a fim de averiguar como a intelectualidade do país lidou com essas novas teorizações e quais foram os estudiosos que se empenharam por sua implantação. A teoria eugênica aparece, primeiramente, como um dos resultados do advento do conhecimento biológico no século XIX, mas, principalmente, dos novos estudos a respeito da hereditariedade e da evolução. Na segunda metade daquele século, o inglês Charles Darwin publica A Origem das Espécies, um tratado biológico que expõe a teoria da ―seleção natural‖, a qual afirma que todos os animais possuem características hereditárias, positivas e negativas. Por conseguinte, as

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características positivas possibilitariam a determinada espécie uma melhor adaptação ao meio ambiente e dotá-la-iam de uma superioridade em relação às possuidoras de características negativas. De acordo com Darwin, com o passar do tempo, ocorreria uma seleção natural onde as espécies melhor equipadas com tais propriedades positivas teriam mais chance de prevalecer na natureza, devido à sua preeminência hereditariamente adquirida. Dessas premissas, surgirá na Inglaterra o darwinismo social, uma transposição das teorias sobre o evolucionismo e a seleção natural de Darwin à esfera humana. Assim, os seres humanos seriam também dotados de características herdadas de seus ancestrais, as quais os enquadrariam em categorias de superioridade e inferioridade. O discurso poligênico se aproxima em diversos pontos ao do darwinismo social, entretanto, faz-se necessário lembrar que a o poligenismo postulava que a origem dos humanos derivou da existência de diversas espécies, opondo-se ao darwinismo que seguia as premissas do evolucionismo de Darwin, o qual parte do pressuposto da evolução humana a partir de uma única espécie. A burguesia usaria, então, esse discurso social do darwinismo na tentativa de legitimar sua posição de controle econômico e de poder. Posteriormente à Segunda Revolução Industrial na Inglaterra, a população cresceu de forma incontrolável. As discussões entre superioridade burguesa e inferioridade operária ganharam força, mas não foram capazes de superar o medo da multidão, da falta de saneamento que assolava a classe de trabalhadores e das consequentes doenças que se proliferavam. Na busca de controlar a ―degeneração‖ em que se encontrava essa parte da população inglesa, higienistas trabalharão para melhorar a saúde física e moral daquela parte da sociedade. É nesse contexto inglês que Francis Galton, primo de Darwin, desenvolveu as teorias eugênicas, a teoria de purificação da raça. Assim como afirma Pietra Diwan, a eugenia surge como uma busca de melhoria da raça desde uma perspectiva biológica (DIWAN, 2007, p. 37). Galton investigará as características da sociedade inglesa e, partindo das considerações de seu primo Darwin e de sua própria experiência com estatística, matemática e teoria da probabilidade, buscará categorizar a população, usando medições físicas, testes de inteligência e análise de históricos familiares.

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Pietra Diwan (2007) destaca que o teórico inglês montou um ―Laboratório de Antropometria‖ em um evento realizado em Londres no ano de 1884, a fim de ―coletar e medir de diversas maneiras as faculdades e as formas físicas dos visitantes do evento‖, realizando mais de nove mil registros (p. 42). As características fisionômicas foram comparadas através da sobreposição das fotografias, na busca de evidenciar tanto possíveis semelhanças físicas quanto de caráter. Nota-se que o pesquisador partia dos mesmos pressupostos destacados pelos estudiosos norte-americanos que mediram esqueletos egípcios e concluíram que as diferenças físicas, provavelmente, teriam ligação com distinções intelectuais, culturais, etc. Os dois primos, Darwin e Galton, discutiram, conjuntamente e por alguns anos, as teorias que haviam cunhado. Não obstante, em 1865, a separação entre os dois acontece devido às divergências sobre a influência do meio ambiente na carga hereditária. Para Francis Galton, a raça poderia ser aperfeiçoada através da interferência eugênica somente se não existissem interferências exteriores. Alguns anos mais tarde, em 1869, lança Hereditary Genius11, obra na qual, segundo Stepan (2005), objetivava comprovar que todas as habilidades dos seres humanos derivavam da hereditariedade e não da educação (p. 30). Tais palavras demonstram que a tentativa de adquirir e desenvolver uma alta capacidade intelectual era impossível, pois essas qualidades eram preestabelecidas pela herança genética. Além disso, declara que da mesma forma que é possível: [...] obter por meio de cuidadosa seleção uma raça de cães ou cavalos dotada de capacidade peculiar de correr, ou de qualquer outra capacidade específica, seria também perfeitamente possível reproduzir uma raça de homens altamente dotada promovendo casamentos criteriosos ao longo de várias gerações (GALTON apud STEPAN, 2005, p. 31).

Dentre as especificidades de sua teoria de melhoria da raça inglesa estaria o controle de casamentos e o impedimento da reprodução dos considerados indesejados, com o objetivo de fortalecer a categoria dos superiores e de que os inaptos desaparecessem com o passar dos anos. Em contrapartida, as postulações de Galton encontraram como barreira a consideração, por parte da sociedade, de que era moralmente inaceitável intervir na reprodução dos seres humanos. Não

11 Hereditary Genius foi a segunda obra lançada pelo teórico inglês. Sucedeu e complementou a sua primeira publicação, Hereditary Talent and Character (1865), onde aparecem as primeiras formulações a respeito da teoria de melhoramento da raça.

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obstante, para a elite inglesa, a situação atual do país demonstrava que, no auge das discussões sobre a evolução, a sociedade estava se deteriorando, devido ao crescimento descontrolado da classe operária, vivendo aglomerada em recintos insalubres, e ao aumento das doenças epidêmicas e da criminalidade. Segundo Diwan (2007), depois de um longo período dedicado à comprovação de que as competências humanas são herdadas geneticamente, Galton se dedicou a tentar provar que fatores como a marginalidade e as doenças mentais também eram resultado dessas heranças (p. 41). A historiadora afirma também, que, em 1883, o autor utiliza, pela primeira vez, o termo ―eugenia‖, descrevendo-o da seguinte maneira: Mencionar vários tópicos mais ou menos conectados com aquele do cultivo da raça, ou, como podemos chamá-los, com as questões ―eugênicas‖. Isto é, com problemas relacionados com o que se chama em grego de ―eugenes‖, quer dizer, de boa linhagem, dotado hereditariamente com nobres qualidades. Esta e as palavras relacionadas, ―eugeneia” são igualmente aplicáveis aos homens, aos brutos e às plantas. Desejamos ardentemente uma palavra breve que expresse a ciência do melhoramento da linhagem, que não está de nenhuma maneira restrita a união procriativa, senão, especialmente no caso dos homens, a tomar conhecimento de todas as influências que tendem, em qualquer grau, por mais remoto que seja, dar às raças ou linhagens sanguíneas mais convenientes uma melhor possibilidade de prevalecer rapidamente sobre os menos convenientes, que de outra forma não haja acontecido (GALTON apud DIWAN, 2007, p. 41- 42).

Com o avanço de sua teoria, Galton passou vários anos de sua vida promovendo a eugenia por onde fosse possível. Acreditava que era imprescindível o aperfeiçoamento da raça, principalmente nas colônias africanas e nos países com clima tropical. Em uma carta enviada ao editor do jornal londrino The Times, no ano de 1873, declara a necessidade de se estimular a imigração chinesa para a costa leste africana. Para o eugenista, aquele território não era conveniente para homens de raça superiores como eles, entretanto, os chineses apresentavam qualidades mais elevadas que o negro, desprovido de intelectualidade, de autoconfiança e de autocontrole. Para ele, os chineses, além de se adequarem facilmente a qualquer clima, alcançam o sucesso em qualquer território em que se instalam. O caráter servil, a preguiça e a selvageria do negro nunca o haviam deixado desenvolver uma civilização que merecesse apreço (GALTON, 1873). Com status de disciplina científica, as teorias de Galton alcançaram mais profundamente o meio acadêmico e intelectual somente no início do século XX, época em que encontrou adeptos, também, na intelectualidade estrangeira. No ano

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de 1901, o resumo de uma conferência pronunciada por Galton é publicada nos Estados Unidos e os ideais expostos pelo teórico alcançam a simpatia de parte da intelectualidade norte-americana, o que ocasionou a fundação, dois anos depois, da ―Associação Americana de Reprodução‖. Os ideais eugênicos serão usados e desenvolvidos reforçando cada vez mais a ideologia de uma suposta ―superioridade‖ de determinada raça em detrimento das outras. Japão, Suécia, México, Argentina, Brasil, dentre outros, mas principalmente Estados Unidos e Alemanha, aderirão às teorias galtonianas para a melhoria da raça. É neste momento que surgirão propostas mais rígidas de controle dos grupos que se autoconsideravam detentores dessa superioridade, onde serão incorporados métodos mais radicais, como a esterilização compulsória ou voluntária, o confinamento em sanatórios e os controles de imigração. Essa radicalização da eugenia foi denominada ―eugenia negativa‖, ao ponto que a que seguia os preceitos de Galton foi chamada ―eugenia positiva‖. A primeira lei de esterilização foi aprovada nos Estados Unidos já na primeira década do século XX.

3.5 A eugenia brasileira

Segundo Stepan (2005), durante muito tempo, os países europeus ―simbolizavam tudo que supostamente era civilizado e avançado em contraste com o, assim chamado, barbarismo e o atraso da América Latina‖ (p. 46). Entretanto, a crueldade refletida pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) – literalmente experimentada, na América Latina, somente pelo Brasil, mas sentida por todos os outros países – fez nascer um novo sentimento nacionalista em cada nação, as quais ansiavam por uma valorização no âmbito global. Além disso, pretendiam procurar meios próprios para resolver as problemáticas que eram particulares de cada território. No Brasil, a popularidade da teoria galtoniana cresceu devido às diferentes alterações ocorridas no país entre o final do século XIX e início do século XX, a um desenvolvimento ocorrido às avessas. Após a abolição da escravatura, os libertos haviam se entregue à subalternidade e marginalizaram-se, sem demonstrar grandes esforços para reivindicar direitos junto ao governo. A jovem República não apresentava estabilidade política, mas conseguia manter o poder nas mãos da elite,

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predominantemente branca, restringindo à população o direito ao voto. Além disso, apesar do crescimento na produção do café, o país se submetia a função de provedor de matérias-primas. Stepan afirma que: Frequentemente, as consequências de tal crescimento foram devastadoras – um desenvolvimento distorcido e ―dependente‖ cujas manifestações sociais foram pobreza, distúrbios sociais e, no mais das vezes, crescimento, em vez de decrescimento das desigualdades, especialmente para os seguimentos negro e mulato da população (STEPAN, 2005, p. 46).

A autora assevera também que, naquele instante, os ―preconceitos de raça e classe fundiram-se, por conseguinte, na linguagem da hereditariedade‖ (p. 47). A discriminação já não se dirigia apenas ao negro e ao mulato, mas também a toda base da pirâmide hierárquica que constituía a sociedade brasileira. Assim, pobreza virou sinônimo de sujidade e de má educação e, consequentemente, foi relacionada ao âmbito biológico da herança genética. Além disso, a imigração, começada mesmo antes da Proclamação da República, produziu uma larga disputa para as vagas de trabalho, o que deixava negros e mulatos em desvantagem, devido à tormenta erguida pelo racismo científico. Junto a isso, o acelerado processo de urbanização iludiu um grande número de indivíduos, os quais, ao migrarem, acabaram nas periferias das grandes cidades. A vinda de imigrantes europeus não trouxe, evidentemente, apenas bons resultados aos que nela apostaram. A nova classe operária brasileira era formada por trabalhadores que já tinham conhecimento da eficácia das mobilizações em massa, o que mudou a forma de pensar de muitos trabalhadores brasileiros. O ano de 1917 foi marcado pelas grandes greves comerciais e industriais que afetaram, principalmente, o estado de São Paulo. A elite brasileira sentiu o mesmo receio que perturbou a elite inglesa na segunda metade do século passado, o do crescimento descontrolado de uma multidão que começava a ganhar força. A população de classe baixa era vista como um todo homogêneo, composta, basicamente, por doentes, famintos, alcoólatras, vagabundos e criminosos e que davam passos contrários ao progresso. A intelectualidade brasileira, no intuito de mostrar-se cada vez mais como um país disposto a alcançar progresso, investiu no avanço do conhecimento científico, principalmente nas áreas da Medicina, Psicologia e Antropologia. A virada de séculos presenciou a ―cientificação‖ do racismo, mas o Brasil já havia se oposto às teorias que justificavam o seu atraso devido à suposta existência de um

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―determinismo climático‖, segundo o qual seria impossível a evolução de um país que possuía um clima tropical. O movimento sanitarista, na primeira década do século XX, se mostrou disposto a curar o país de suas enfermidades. Segundo Simone Kropf e Nísia Lima: O movimento pelo saneamento do Brasil, desencadeado durante a Primeira República (1889-1930), colocou em evidência as precárias condições de saúde das populações rurais como principal obstáculo a que o país se civilizasse e se tornasse efetivamente uma nação. Sua origem e trajetória estiveram diretamente relacionadas à história da tripanossomíase americana ou doença de Chagas, descoberta por Carlos Chagas, médico e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, em Lassance, norte de Minas Gerais, em 1909 (PONTES; LIMA; KROPF, 2010, p. 79).

As pesquisas cunhadas pelo médico epidemiologista Osvaldo Gonçalves Cruz (1872-1917), no início da primeira década do século XX, foram o passo inicial para uma nova perspectiva em direção à saúde brasileira e o marco inicial do movimento sanitarista. Por conseguinte, a descoberta de Carlos Chagas, então integrante do Instituto Osvaldo Cruz, da tripanossomíase americana (Doença de Chagas) despertou a atenção da classe médica aos problemas de saúde da área rural brasileira. A descoberta alavancou a jornada sanitarista, na qual um grupo de médicos buscou promover políticas públicas que dessem conta de resolver os problemas de insalubridade, das constantes doenças – e consequentes epidemias – e das péssimas condições de vida do povo, não só do campo, mas também da camada pobre das crescentes zonas urbanas. As ações em prol da urbanização e saneamento da então capital brasileira, Rio de Janeiro, trouxeram consigo conflitos com o povo, obrigado, em alguns casos, a abandonar suas casas e, em outros, a vacinar-se obrigatoriamente. Os meios de transporte com tração animal aos poucos foram sendo substituídos por modelos à gasolina, o que não se adaptava às estreitas, disformes e não pavimentadas ruas do Rio. Paralelo a isto, um surto de febre amarela manchava a imagem do país no exterior. Segundo o historiador Leoncio Basbaum, a reputação brasileira de ―país de escravos‖ tinha desaparecido e, em seu lugar, ―surgira a fama de país da febre amarela‖ (BASBAUM, 1958, p. 136). Em 1904, sob apoio do presidente Rodrigues Alves, o prefeito da cidade, Pereira Passos, empreendeu um trabalho de urbanização e saneamento da capital brasileira, este último sob organização do médico sanitarista e diretor da Saúde Pública Osvaldo Cruz. Políticas que objetivavam a destruição dos possíveis focos de

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febre amarela – e ao mesmo tempo o embelezamento da cidade – levou a destruição de várias ruas. Diversos cortiços foram demolidos, o que obrigou seus moradores a desocuparem o centro e a erguer barracos nos morros ou outros bairros às margens da cidade. Tal acontecimento, também conhecido por ―bota-abaixo‖, foi acompanhado da campanha de vacinação contra a varíola. Entretanto, em novembro 1904, a população não estava disposta a aceitar o permanente autoritarismo das políticas de urbanização e de saneamento, o que acarretou na Revolta da Vacina, um conflito popular no qual a população se manifestou contra a obrigatoriedade da vacinação. O povo lutou contra a imposição do governo com protestos e barricadas pelas ruas da cidade, mas, no fim, as autoridades controlaram a situação. Algumas pessoas foram mortas, uma centena delas foi presa e outras deportadas ao Acre. As revoltas populares no Rio de Janeiro contribuíram para a marginalização da classe baixa, composta, predominantemente, por negros e mulatos. A luta pelo saneamento do país continuou durante as próximas décadas, com a permanente meta de curar o Brasil das moléstias que o afastavam do progresso. No ano de 1912, os médicos Arthur Neiva (1880-1943) e Belisário Pena (1868-1939) saíram em uma expedição ao nordeste brasileiro com o objetivo de verificar a situação do povo e a proliferação de doenças contagiosas, a fim de estudar possíveis soluções. O relatório da pesquisa foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em 1916. Por trás dessa aparente preocupação com o povo estava também o anseio pela criação de uma identidade nacional brasileira, de um país no qual o negro, o índio e o mestiço não tinham lugar. O progresso brasileiro dependia da regeneração do povo em seus mais detalhados níveis, o que melhoraria a imagem que se tinha do país no exterior. Por trás desse sentimento nacionalista, ambiguamente, mantinha-se a Europa como modelo. Os intelectuais sanitaristas tinham como meta um país constitutivamente branco, dotado das mesmas qualidades superiores dos países europeus mais desenvolvidos, pois a ciência, a cada dia ganhando mais autoridade, era capaz de provar essa supremacia. Os eugenistas brasileiros estavam atentos a todas essas mudanças e a análise dos resultados os dava ainda mais justificativas para iniciar a empreitada eugênica. Com o discurso eugênico, a elite branca brasileira pôde legitimar sua tão

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crida ―superioridade‖. O médico paulista Renato Ferraz Kehl (1889-1974) foi o intelectual que mais investiu na aplicação e na divulgação dos ideais eugênicos no Brasil. Obviamente, não esteve só na tentativa de implantar a teoria eugênica no país, mas será tomado como pilar dessa discussão por seu empenho contínuo em defesa da ideologia de Galton. O trabalho de Kehl girou em torno da divulgação da eugenia e, consequentemente, da tentativa de reconhecimento estatal da importância dos projetos eugênicos para o futuro do país. A grande maioria das obras que escreveu foi financiada pela empresa farmacêutica alemã Bayer do Brasil, na qual trabalhou durante dezessete anos, além das infinitas publicações em compêndios custeados pelas instituições com fins eugênicos as quais encabeçava. A partir disso e das amplas relações com intelectuais brasileiros e estrangeiros, com quem trocava correspondência, seu reconhecimento foi impulsionado. Segundo Nancy Stepan (2005), em 1917, em reunião com a comunidade médica de São Paulo, ele propôs uma reformulação da legislação que regulava o casamento civil no país, criada no ano anterior, a qual proibia o matrimônio entre consanguíneos (STEPAN, 2005, p. 55). Com a permissão desse tipo de relação, Kehl tencionava alcançar um controle dos casamentos, através da promoção da união entre os indivíduos racialmente superiores e aproveitou a ocasião para apresentar ao grupo a teoria galtoniana. Em 1918, a ciência de purificação da raça foi institucionalizada no Brasil, ao ser fundada a primeira organização eugênica da América Latina: a Sociedade Eugênica de São Paulo (SESP). Com um número maior de membros que a própria organização francesa, a Sociedade contava com associados de renome no campo das pesquisas a respeito das debilidades do povo brasileiro, como os sanitaristas Penna e Neiva, além de grande parte da elite intelectual paulista. Entretanto, cabe ressaltar que o movimento eugênico passou por dois momentos distintos: o primeiro está relacionado à caminhada conjunta com as atividades sanitaristas e o segundo à radicalização das propostas de melhoria para a ―raça brasileira‖. Durante muito tempo, sanitaristas e eugenistas lutaram unidos pelos mesmos objetivos e essa união está diretamente relacionada à discussão sobre influência ou não do meio ambiente na carga hereditária. A ligação dos dois movimentos deriva da adoção da corrente neolamarckista para as considerações sobre a

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hereditariedade. O neolamarckismo foi um restabelecimento, no início do século XX, da teoria criada pelo francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), a qual postulava a hereditariedade dos caracteres adquiridos, em que a evolução partia de uma vagarosa adaptação às variações do meio ambiente, o que a diferia das considerações darwinianas. Stepan afirma que a SESP ―adotara sua congênere francesa [de base neolamarckiana] como modelo, reproduzindo seus estatutos fielmente‖ (p. 89). A corrente francesa opunha-se a britânica, que tomava como base o darwinismo social e seguia a orientação de August Weismann (1834-1914) sobre a ―continuidade do plasma germinativo‖, segundo a qual somente parte da célula carrega material hereditário e este era incapaz de ser afetado pelo meio ambiente. Segundo Stepan, em meio às discussões sobre a eugenia na América Latina, no início do século XX: [...] o neolamarckismo também aparecia, com frequência, matizado de expectativas otimistas de que reformas no ambiente social resultassem em melhoramento permanente, ideia afinada com a tradição ambientalista- sanitarista que se tornava moda na região (STEPAN, 2005, p. 82).

Essa possibilidade de interferência no âmbito social, a fim de impedir a degeneração biológica do povo, foi o primeiro impulso dado pelos movimentos sanitaristas brasileiros. Após a sua união com a eugenia, as funções sanitárias foram complementadas e passaram a auxiliar no ―aperfeiçoamento da raça brasileira‖. De acordo com Diwan, na ideologia eugênica, a humanidade seria dividida em dois tipos eugênicos: a ―aristogenia‖, onde estariam incluídos os indivíduos geneticamente superiores; e a ―cacogenia‖, composta por sujeitos inferiores e com disposição à disgenia, ―desvios e doenças transmitidas de pai para filho‖ (p. 131). Uma das funções da eugenia, segundo Kehl, seria o combate aos agentes disgênicos e parte dessa missão seria de incumbência dos sanitaristas, os quais teriam que garantir a extinção dos problemas de saúde que degradavam as massas, enquanto os eugenistas se voltariam para a questão da seleção dos mais aptos e controle dos ―degenerados‖. Para Renato Kehl, em A cura da fealdade: A saúde assentar-se-á, então, sobre duas bases: a Higiene, que afastará as causas dos males, e a Eugenia, que selecionará os indivíduos, tornando-os mais sólidas unidades de raça. O problema da doença será, pois, resolvido, em um futuro não remoto, não somente pelos médicos e homens de ciência, mas pelos homens de Estado (KEHL apud DIWAN, 2007, p. 114-115).

Entretanto, não só a falta de saneamento urbano ou rural era considerada como degenerativa. A miséria, a guerra e a criminalidade faziam parte da lista dos

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eugenistas, o que permite relacionar a eugenia com as condições e os eventos sociais, além de comportamentos que denotam desvio de caráter. Ademais, Kehl afirmava que tuberculosos, sifilíticos, epiléticos, débeis mentais, loucos e todos aqueles que fugiam à ―normalidade‖ degradavam a estrutura social e afetavam a hereditariedade. O alcoolismo foi duramente criticado pelo médico eugenista como forte condicionante a disgenia, pois afetaria tanto a carga hereditária do indivíduo quanto a estrutura familiar no qual estava inserido, deixando sua esposa e filhos a mercê dos infortúnios da vida. Esforçou-se, também, por alcançar o que chamou de ―cura da fealdade‖. De acordo com ele, a fealdade tinha ligação não apenas com a degeneração física dos sujeitos, mas também com sua degradação moral. Segundo Diwan (2007), o eugenista tinha como paradigma a Grécia Antiga, ―que no seu entender havia encontrado o equilíbrio do corpo e do espírito expressos na civilização ideal‖ (p. 126). Grande parte do movimento eugenista brasileiro incentivava a adoção de políticas que estimulassem a educação eugênica como medida preventiva. Cria-se ser necessário o ensino dos princípios da herança genética desde os primeiros anos escolares. Além disso, a educação com moldes eugênicos evitaria um desvio no desenvolvimento dos educandos e a consequente formação de sujeitos ignorantes. Outro viés tencionado era a criação de uma consciência da ―teoria de purificação da raça‖, através da educação sexual e da orientação matrimonial. A conscientização previa também o reconhecimento, por parte dos estudantes, dos ―males‖ causados pela mistura das raças, além dos problemas causados pelo uso da nicotina e do álcool. A educação física visaria o melhoramento da saúde corpórea, o que demonstra uma perceptível preocupação com a beleza exterior. Os que se opunham à teoria neolamarckiana consideravam as medidas como desperdício de tempo e de verbas com uma camada inevitavelmente disgênica. Como declarou Kehl, a eugenia objetivava a seleção dos indivíduos. Para tanto, além de combater os fatores degenerativos, era necessário controlar os casamentos e aplicar exames pré-nupciais, a fim de promover a união entre indivíduos de nível elevado, o que barraria a possibilidade de miscigenação e levaria a um aumento no número de sujeitos dotados de caracteres ―superiores‖. Para essas finalidades, grande parte dos eugenistas reivindicava a necessidade de interferência médica na legislação brasileira. Até o período, somente a área do

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Direito havia gozado do privilégio de interceder nas leis governamentais. Entretanto, somente após a ascensão de Getúlio Vargas, com o golpe de Estado denominado ―Revolta de 1930‖, foi possível notar a manifestação estatal em favor da eugenia. Esse primeiro momento denota a ligação da eugenia a um ideal positivo de saneamento, educação e controle de casamentos. Entretanto, o final da década de 1920 e início de 1930 registraram uma mudança rígida nas considerações de diversos eugenistas, assim como de Renato Kehl. Segundo Robert Wegner (2011), Kehl declarou, no Primeiro Congresso de Eugenia, em 1929, que ―nem o saneamento e a saúde pública, nem a educação ou a religião conseguiriam tornar os homens nacionais em seres eugenicamente superiores, capazes de colocar o país no trilho do progresso e da civilização (WEGNER, 2011, p. 2)‖. Essa descrença na possibilidade de regenerar o povo com ―procedimentos eugênicos positivos‖ levou grande parte dos intelectuais eugenistas a oscilar entre as premissas neolamarckianas e a corrente weismanniana de interpretação da hereditariedade, enquanto outros acabaram por rejeitar, posteriormente, a teoria francesa. Essa oscilação de pensamentos gera, obviamente, ambiguidades devido à rígida oposição entre as duas teorias. Entretanto, esse foi o período que marcou a investida brasileira em promover uma eugenia de base negativa, na qual a esterilização, o segregacionismo e o controle imigratório estavam entre as medidas realmente eficazes para a construção de uma raça forte e permitiriam que o país fosse visto como uma nação que pode servir de modelo. As considerações de Francis Galton contribuíram de diferentes formas para formação eugênica de Renato Kehl. O médico paulista partia de uma tabela sobre a hereditariedade criada por Galton, segundo a qual existiam níveis de superioridade. Essa ideia galtoniana de hierarquização pode ser notada em sua manifestação, anteriormente citada, com relação à imigração chinesa para a África. Para ele, os chineses eram superiores aos africanos, mas, ao mesmo tempo, inferiores aos europeus. Para Kehl, a eugenia brasileira não tencionava alcançar o nível mais elevado da escala galtoniana, mas aperfeiçoar os que pertenciam à categoria intermediária e reduzir a porção de degenerados que compunham a humanidade (Kehl apud Diwan, 2007, p. 129). Durante as últimas décadas do século XIX, a temática da raça havia adquirido diferentes considerações no meio científico, mas, no final, cada país acabou por

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adotar as teorias que melhor se adaptavam a sua realidade. A cor da pele passou a carregar consigo fortes e diferentes cargas semânticas e o vigor físico, moral e intelectual passaram a ser relacionados à questão racial. A crítica à mistura das raças, manifestada pelo diplomata francês Arthur de Gobineau na época do Império, foi reacendida com o movimento eugênico do início do século XX. Para Renato Kehl, a miscigenação eliminava o melhor de cada raça, o que admitia a existência de qualidades positivas nas raças diferentes da branca. Além disso, cria que a mestiçagem trazia consigo as características mais degradantes de um indivíduo e que a solução primordial era o branqueamento, devido à supremacia branca. Kehl acreditava em uma hierarquia entre as raças, assim como postulou Francis Galton, onde o branco ocupava o topo da lista. Por outro lado, as raças ―não brancas‖ também possuíam caracteres positivos, mas nada que as equiparasse aos brancos. Em 1929, Kehl declarou: ―a nacionalidade brasileira só embranquecerá a custa de muito sabão de coco ariano‖ (Kehl apud Diwan, 2007, p. 87). Cabe ressaltar que nem todos os eugenistas partilhavam das mesmas ideias. Uns continuaram a defender uma eugenia mais positiva, enquanto outros passaram a ser mais extremistas. Segundo Diwan, o médico Edgar Roquette-Pinto (1884- 1954), presidente do primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, ocorrido no final da década 1929, apoiava a miscigenação e discordava das medidas segregacionistas. Ademais, para Roquette-Pinto, ―a solução para o problema nacional era a higiene e não a raça‖ (Diwan, 2007, p. 114). Como supracitado, o início da década de 1930 foi palco de uma renovação nas discussões sobre a necessidade de eugenizar o país. O novo governo mostrou estar disposto a colaborar com os propósitos eugênicos. O Artigo 138 e alínea ―b‖ da nova Constituição, criada em 1934, declarava: Incumbe à União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas: a) estimular a educação eugênica; [...] f) adotar medidas legislativas e administrativas tendentes a restringir a moralidade e a morbidade infantis; e de higiene social, que impeçam a propagação das doenças transmissíveis; g) cuidar da higiene mental e incentivar a luta contra os venenos sociais (BRASIL, 1934).

Para os que ainda defendiam o saneamento do Brasil e a eugenia positiva, o apoio governamental foi um avanço, pois viabilizava grande parte das tentativas anteriores de intervenção estatal em prol dos eugenistas. Por outro lado, outra gama de intelectuais, como Kehl, já havia decido dar passos mais firmes para alcançar o

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melhoramento da raça. Uma das medidas era a volta do controle imigratório, promovendo a entrada de indivíduos superiores racialmente e rejeitando a vinda de imigrantes africanos ou asiáticos. Nesse contexto, para os que apoiavam a miscigenação, certamente seria conveniente a vinda de indivíduos europeus para acelerar o branqueamento através da mistura; para os que a repudiavam, a imigração europeia possibilitaria um incremento da camada branca da sociedade e propiciaria mais opções para as promoções de união entre ―aristogênicos‖. A Constituição de 1934, no segundo parágrafo do Artigo 121, tinha algo a contribuir para esse fim: a ―entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante [...]‖ (Brasil, 1934). Uma viagem de cinco meses pela Alemanha, na década de 1920, permitiu que Kehl tomasse conhecimento mais profundo sobre as atividades eugênicas alemãs. Assim como destacou Wegner, território onde a eugenia seguia as premissas da superioridade ariana, para Kehl, a Alemanha era ―onde se praticava a eugenia com mais amplitude e coragem‖ (Kehl apud Wegner, 2011, p. 3). No ano de 1934, foi aprovada no país europeu uma lei de esterilização para todos aqueles que eram detentores de doenças hereditárias. A ligação de Kehl com o movimento eugênico alemão o incentivou a defender a esterilização também no Brasil, a qual ele tratou de exemplificar: a) Esterilização de alienados e de perversos instintivos; b) esterilização de grandes criminosos e de miseráveis; c) esterilização econômica, nos casos de casais incapazes de fornecer, pelo próprio esforço, os meios necessários para garantir a subsistência e a educação dos filhos; d) esterilização social, a fim de reduzir as despesas progressivas que a coletividade é forçada a sustentar com asilos de débeis mentais e inaptos ao trabalho, cada vez em maior número; e) esterilização obrigatória, imposta por doenças mentais; f) esterilização voluntária, praticada habitualmente por indivíduos com doenças físicas, por exemplo, tuberculosos, por mulheres após repetidos partos, havendo perigo de vida, cuja morte deixará na orfandade os filhos (KEHL apud DIWAN, 2007, p. 146-147).

Além da esterilização, que Kehl apresentou com amplas especificações, o eugenista pregava a segregação de deficientes, criminosos e dos socialmente inadaptados. Para ele, esses sujeitos deveriam poupar a sociedade de sua existência degradada e sem futuro. A análise de sua trajetória demonstra uma marcada mudança da eugenia positiva para a negativa e, consequentemente, um gradual crescimento no extremismo de sua ideologia, principalmente quando passou a acompanhar as atividades do Instituto Eugênico de Berlim.

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Na Alemanha, a ideologia eugênica antecedeu o surgimento do nazismo, mas alcançou seu grau extremo junto a ele, com a ascensão de Hitler, na década de 1930, e com a Segunda Guerra Mundial (1939 e 1945). O líder alemão utilizou o discurso científico de ―superioridade da raça ariana‖ para justificar as mais de seis milhões de mortes e as infinitas atrocidades que ordenou. Após o fim do conflito, a eugenia foi parcialmente deixada de lado ou mascarada, devido ao ponto que havia alcançado através das tiranias de Hitler em nome da higiene da raça alemã.

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4 As ideais raciais de Monteiro Lobato I

4.1 As primeiras epístolas

O estudo do pensamento lobatiano, no que se refere ao âmbito racial, pode ser iniciado por uma das suas últimas publicações, não por objetivar um caminho reverso, pois se pretende investigar a formação de seus ideais e, consequentemente, sua perduração ou modificação; mas pelo gênero e pelas datas de escrita dos textos nela contidos. A obra A Barca de Gleyre foi publicada pela primeira vez em 1944 e reúne as cartas enviadas por Monteiro Lobato a seu amigo Godofredo Rangel (1884-1951) entre os anos de 1903 e 1943. Através dessas epístolas, nas quais os dois companheiros dialogam sobre os mais variados temas, buscar-se-á averiguar se, em algum momento, o escritor paulista demonstra as suas impressões pessoais sobre a questão racial ou sobre as problemáticas interligadas a ela. Obviamente, já que essa correspondência abarca um longo período de tempo e, por conseguinte, diferentes momentos da vida do escritor, tenciona-se apreciar suas declarações de forma ordenada ou em possíveis diálogos com outros textos ou enunciações de sua autoria. Em diferentes momentos de A Barca de Gleyre, Monteiro Lobato manifesta ser um admirador de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Dado o seu apreço pelo filósofo alemão, Lobato constantemente buscava, nas livrarias, as obras de autoria de Nietzsche, mas nem sempre as encontrava. Em 24 de agosto de 1904, o escritor queixa-se a Rangel da procura fracassada de uma obra de Friedrich em São Paulo: ―Não há Nietzsche nas livrarias desta Zululândia‖ (LOBATO, 1950a, p.65). Certamente, o termo utilizado por Lobato para se referir àquela cidade (ou ao país) faz referência a uma antiga região histórica da África do Sul de mesmo nome, hoje chamada de KwaZulu-Natal12. Nota-se que a relação São Paulo/Zululândia – consequentemente, Brasil/África – objetiva uma comparação com sentido pejorativo de duas maneiras: primeiramente, pela presença significante de indivíduos de

12 Em espanhol, o nome ―Zululandia‖ continua a ser usado.

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ascendência africana no país – apesar da possível diminuição do percentual de ―negros‖ e ―mulatos‖, relativo à população total, depois das políticas de promoção da imigração (SKIDMORE, 2012, p. 87-88); e pela suposta inferioridade intelectual – dada a referência, de base africana/―não branca‖ – vinculada a esses indivíduos, devido a seu desconhecimento ou desinteresse pela obra do filósofo alemão. A reportação à África como local ínfero pode ser observada em carta escrita em abril de 1907. Primeiramente, Lobato reclama da movimentação de pessoas em virtude das festividades da ―Semana Santa‖, que o impede de sair de casa há uma semana; e, em seguida, descreve os aparatos envolvidos nas celebrações. Segundo ele, chamam de ―Divino13 [...] uma bandeira vermelha [...] com fitas pendentes que vão recebendo beijos de todas as beatas; e corre a salva do Divino para pingamento de níqueis‖. Além disso, o ―Divino‖ seria também ―um passarinho amarelo na ponta de um pau‖ (LOBATO, 1950a, p. 157). A descrição de Monteiro Lobato, ironicamente, desconstrói a simbologia religiosa dos instrumentos ligados à festa, associando-as à devoção em excesso e à crença e associação de princípios incorpóreos a elementos materiais. Monteiro Lobato resume essas atitudes como sendo ―tudo África, neste século de Ruskin e do arbor-day‖, o que demonstra uma crítica à africanidade brasileira como algo retrógrado e em dissonância com a modernidade. Na continuação, ele declara: Há procissões de pretos e brancos a atravancar as ruas. Nas igrejas, muito consumo de aguinhas e fumaças cheirosas, e litanias. Por toda parte, povo - o nosso povo, essa coisas feia, catinguda e suada. Sovacos ambulantes. [...] Rangel, Rangel... Os olhos cansam-se de feiuras semoventes. Que urbs, estas nossas! As casas parecem caixões quadrados; E nem sequer os velhos beiras: inventaram agora o horror da platibanda. Não há mulheres, há macacas e macaquinhas. Não há homens, há macacões. Raro um tipo decente, uma linha que nos leve os olhos, uma cor, uma nota, um tom, uma atitude de beleza - nada que lembre a Grécia. / A Plebe, só ela, com o seu fratas democrático e religioso, a expluir vulgaridade e chateza. Eu vingo-me lendo Nietzsche, lendo Goncourt, lento até Kant e Hartmann [...] (LOBATO, 1950a, p. 157-158) [grifos do autor]

Vê-se que Lobato associa as comemorações como sendo de ―negros‖ e ―brancos‖. Essa caracterização racial do movimento e sua ligação com a ―plebe‖ retomam a colocação de Nancy Stepan ao afirmar a amalgamação entre o aspecto racial e o de classe nas perspectivas depreciativas elaboradas sobre o povo na virada dos séculos XIX e XX (STEPAN, 2005, p. 47). Quando chamada de

13 ―Divino Espírito Santo‖.

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―macacos‖, a classe baixa da população brasileira é desumanizada por Monteiro Lobato e essa animalização do homem é caracterizada, também, por sua ―fealdade‖ e ―sujidade‖. Essa sujidade pode ser relacionada à menção ao negro como um ser inevitavelmente fétido, presente em correspondência enviada a Rangel em julho de 1910. Monteiro decide instalar-se no porão da casa em busca de sossego para a escrita, mas afirma desistir da ideia, pois ―uma criada ocupa a repartição, e como é preta põe lá um bodum peor [sic] que o barulho da sala‖ (LOBATO, 1950a, p. 293). Ainda sobre a análise de Lobato acerca os indivíduos que celebram a ―Semana Santa‖, o autor declara que poucas são as exceções que fogem a esses rasgos e nada que evoque o padrão grego de beleza. Monteiro afirma, então, vingar a trivialidade do comportamento desse segmento da população com a leitura de obras de filósofos europeus, de origem anglo-saxã, o que, novamente, demarca a oposição entre essa cultura, cuja superioridade é defendida por Lobato, e a cultura latina de base africana. Em carta emitida em 03 de fevereiro de 1908, Monteiro novamente manifesta sua admiração pelas qualidades físicas dos gregos. Nela, o escritor paulista declara estar lendo o ―incomparável Homero‖ e, a partir de sua leitura, contrapõe a beleza grega ao problema da mestiçagem brasileira, mais especificamente, no Rio de Janeiro. Apesar da extensão do enunciado, a sua reprodução é cabível pela profundidade de suas colocações: Que diferença de mundos! Na Grécia, a beleza; aqui a disformidade. Aquiles lá; Quasímodo aqui. Esteticamente, que desastre foi o cristianismo com a sua insistente cultura do feio! / Estive uns dias no Rio. Que contra- Grécia é o Rio! O mulatismo dizem que trás dessoramento de caráter. Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá produtos instáveis. Isso no moral – e no físico que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível rua Marechal Floriano, de gente que volta para os subúrbios, perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má- formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados à tiro, trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português da maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E como vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade daquela gente não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. ‗Que foi?‘ ‗Desastre da Central‘. / Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na inconsciente vingança!... / Talvez a salvação venha de S. Paulo e outras zonas que intensamente se injetam de sangue europeu. Os americanos salvaram-se da mestiçagem com a barreira do preconceito racial. Temos também aqui essa barreira, mas só em certas classes e certas zonas. No Rio não existe. / Há tempos assisti em Taubaté uma cena muito ilustrativa do que é essa defesa na América do Norte. Um americano desceu do trem e foi ao restaurante Pereira comer qualquer coisa. Sentou-se e pediu. Nisto entra um guarda-freio de boné na orelha, gaforinha, e senta-se-lhe ao pé. O americano ergue-se de impulso, atira a cadeira e some-se no trem. O país

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equiparava-o ao guarda-freio, mas ele não aceitava o presente. Filosoficamente me parece horrível isto – mas certo do ponto de vista racial (LOBATO, 1944, p. 132-133)

Primeiramente, cabe ressaltar que, por algum motivo desconhecido, trecho da carta supracitada foi retirado na publicação da mesma obra pela Editora Brasiliense alguns anos depois da primeira edição14. Essa intervenção editorial aparenta a tentativa de apagamento de informações relativas ao escritor e problematizam ainda mais a discussão sobre suas ideais raciais, pois demonstra um esforço por moldar a imagem pública de Lobato a partir de suas declarações. No fragmento citado, o escritor exalta a beleza grega como modelo físico e que se opõe à disformidade da população mestiça brasileira, mais especificamente dos mulatos. Segundo Pietra Diwan, essa idealização arquetípica nos gregos fez parte dos discursos dos teóricos eugenistas do final do século XIX e começo do século XX (DIWAN, 2007, p. 21-22), o que evidencia que esse discurso esteve em interação com os ―projetos raciais‖ brasileiros de forma mais ampla. Em um segundo momento, o escritor taubateano salienta a existência de correntes de pensamento que consideram o ―mulatismo‖ como deteriorante do caráter. A miscigenação acarretaria, assim, a instabilidade moral dos indivíduos e, além disso, seria fisicamente degradante, tendo como resultado a fealdade. Sequencialmente, Lobato declara ter observado a movimentação de pessoas em uma rua do Rio de Janeiro e ter percebido a ―degeneração‖ da população suburbana, onde se encontrariam todas as ―formações e deformações físicas‖, menos a ―normal‖. Por conseguinte, cabe lembrar que essa perspectiva estética acarretou em propostas como a do médico eugenista Renato Kehl sobre a necessidade de ―cura‖ da população brasileira: o povo como detentor de uma enfermidade que necessitava ser tratada através dos procedimentos eugênicos. Para o escritor paulista, esses indivíduos necessitam ser consertados, para que o Brasil possa equiparar-se aos outros países. Além disso, as observações de Lobato remontam as críticas a respeito da mestiçagem, que tiveram como porta-voz o diplomata francês Arthur de Gobineau (PICHOT, 2002, p. 247-278), depois de sua estada no país, na segunda metade do século XIX, e que perduraram durante as

14 A primeira edição da obra foi publicada pela Companhia Editora Nacional em 1944. Na nova edição, pela Brasiliense, há um corte depois de ―[...] insistente cultura do feio!‖ e recomeça após o trecho acima citado.

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primeiras décadas do século seguinte. O pesquisador lobatiano Cassiano Nunes (1921-2007), em um estudo comparativo entre Monteiro Lobato e Mark Twain (NUNES, 1960), afirma que o escritor brasileiro era contrário a livre mistura entre as ―raças‖ e que seus preconceitos sobre o mulato devem ter sido herdados de Euclides da Cunha, ―uma das suas grandes admirações‖. Além disso, declara que Lobato cria que ―o atraso industrial brasileiro era resultante de sua inferioridade racial e seu mulatismo‖, e que o progresso chegaria apenas quando os brasileiros fossem ―absorvidos por estrangeiros de pele mais clara‖ (p. 81). Já a respeito da população carioca, seu processo de redenção poderia vir, então, das cidades que ―intensamente se injetam de sangue europeu‖, ou seja, que promovem a vinda de imigrantes desse continente. O procedimento para resolver o problema brasileiro da miscigenação era, propriamente, uma nova mistura, não obstante, agora com o branco europeu. Segundo Monteiro Lobato, a escravidão negra foi, inconscientemente, vingada da forma mais ―terrível‖: através da miscigenação. A ―raça branca portuguesa‖ teria sido ―amulatada‖ por meio do cruzamento com os ―negros‖. Por conseguinte, o contato entre as duas ―raças‖ teria corrompido a ―raça branca‖ e resultado em algo depreciativamente sedimentar, que caracteriza esses indivíduos que, durante o dia, circulam pelo centro da cidade do Rio de Janeiro e, ao fim da tarde, retornam ao subúrbio. De acordo com Lobato, os Estados Unidos teriam se preservado do contato entre as ―raças‖ através do preconceito racial, mas essa intolerância não teria obtido sucesso no Brasil por encontrar-se em setores restritos da sociedade. Na continuação, apresenta uma situação presenciada em sua cidade natal, onde um americano teria se revoltado porque um guarda-freio, possivelmente negro ou mulato, sentou-se próximo a ele. Contrariamente ao que ocorria no país norte- americano, a sociedade brasileira o igualava a um sujeito ―não branco‖, o que lhe pareceu inaceitável. Chega-se a conclusão de que a afirmação de Monteiro Lobato ao considerar que a atitude do estrangeiro é ―filosoficamente horrível‖, mas ―certa do ponto vista racial‖, revela sua convicção da existência de duas formas de ver realidade: a primeira parte de uma perspectiva puramente racional, a qual indica o que se deve ser; enquanto a segunda configura uma verdade autêntica e incontestável – a racial. Consequentemente, a igualdade entre os homens seria

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postulada pela racionalidade e pela cultura, ao ponto que a desigualdade entre eles resultaria de uma legitimidade irrefutável. Em outra carta a Godofredo Rangel, em 27 de junho de 1909, Monteiro Lobato planeja com seu amigo como será estruturado um livro de contos que pretendem escrever juntos. O futuro literato afirma que seus contos não conterão ―nada de amorecos e adulteriozinhos de Paris‖, pois, para ele, ―isso já fede‖. Destaca, então, que as narrativas serão como as de ―Kipling – com paisagens, árvores, céu, passarinhos, negros...‖. E completa: ―Eu gosto muito dos negros, Rangel. Parecem-me tragédias biológicas. Ser pigmentado, como é tremendo!‖ (LOBATO, 1950a, p. 244). Cassiano Nunes, no estudo antes mencionado, afirma que Lobato ―não podia imaginar o país sem a participação do negro‖, apesar de ser contrário ao cruzamento deste com o branco (NUNES, 1960, p. 81). Para Nunes, o trecho acima destacado demonstra a admiração lobatiana pelos negros. Não obstante, percebe-se que o apreço do escritor se deve a distinta coloração da pele desses indivíduos, caracterizada por ele como uma ―tragédia biológica‖. A pele negra é apresentada como um desastre, um desvio à uma suposta normalidade, ou seja, a organicidade humana em sua forma imperfeita. A questão da ―raça‖ encontrará diferentes acepções no pensamento lobatiano. A primeira delas é observável nos primeiros trechos analisados, nos quais o âmbito racial é fundido com a categorização de ―classes‖, como pode ser visto na análise de Lobato sobre a ―Semana Santa‖ e no seu parecer em direção à sociedade carioca. Já na segunda, percebe-se a união terminológica entre ―raça‖ e ―cultura‖. As superioridades e inferioridades raciais proveriam, assim, de sua ligação aos costumes e à formação intelectual dos povos. No caso de países com fundação colonial, como é o caso do Brasil, onde a cultura é elaborada a partir da interação com outras culturas, a dicotomia ―superior/inferior‖ seria ditada, exatamente, pela ocasião de uma influência cultural indígena, africana e/ou europeia. Já a terceira significação apresentada por Lobato se direciona ao campo biológico. As informações apresentadas por ele giram em torno de aspectos físicos demarcados pela distinção da cor da pele entre ―brancos‖, ―negros‖ e, em decorrência da miscigenação, ―mulatos‖. Intrincados a esse plano, estariam a questão da beleza ou da fealdade física e a do caráter, de acordo com o escritor paulista, moldadas a partir do cruzamento entre as ―raças‖ ou do próprio mantimento das relações entre

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cada uma delas. A ―raça‖ é, nesse momento, classificada como algo orgânico. A relação entre ―raça‖ e ―cultura‖ pode ser observada, também, em comentário de Lobato a trecho de Vida Ociosa (191715), de Godofredo Rangel. O narrador da obra de Godofredo caracteriza a personagem ―Zé‖ da seguinte forma: Era um negrinho de quinze anos, empertigado, de meia e chinelos, que em questões de decência o professor mostrava-se inflexível. Usava a carapinha levantada em topete, e a tudo só respondia ―sim‖ ou ―não‖. Tinha ar sério de negro educado, que sabe ser negro só ‗nas cor‘ [sic] (RANGEL, 2000, p. 40).

Godofredo compartilhava, com o amigo, fragmentos de sua obra durante a sua feitura e, a respeito dessa personagem, Monteiro declara que ―o negrinho aluno está uma pura maravilha; conheço uns tantos desses pretos de pastinha, brancos por dentro, pretos só por fora. Zé correto! Até o nome não podia ser melhor‖ (LOBATO, 1950b, p. 18). Vê-se que o escritor taubateano concorda com as designações apresentadas pelo narrador de Vida Ociosa. Primeiramente, percebe- se que a boa educação é diretamente exposta como um rasgo pertencente ao ―branco‖. Entretanto, Lobato declara conhecer sujeitos negros que alcançaram essa postura que não condiz com a sua ―raça‖, assim como o personagem ―Zé Correto‖. A partir dessa perspectiva, esse sistema de metamorfose é tido como uma forma de ―branqueamento moral‖, ou seja, como um processo civilizatório que se opõe à antiga ―selvageria do negro‖. Para Monteiro, o apelido dado à personagem se adéqua a sua mudança, à retificação de um erro ou de uma imperfeição natural desses indivíduos. Apesar dessa possibilidade de despegar-se das suas qualificações de ―incivilizado‖, seus traços físicos se mantêm, tornando-se ―branco por dentro‖, mas permanecendo ―negro por fora‖. Essa ideia de mutação racial pode ser identificada, também, em artigo publicado no ―Estado de S. Paulo, em janeiro de 1917, e que, posteriormente fez parte da obra Ideias de Jeca Tatu (1919). Já nas linhas iniciais de ―A questão do estilo‖, Monteiro Lobato destaca que são muitos os que consideram como ―absurda‖ a possibilidade de criar um estilo propriamente brasileiro, pois como seria provável a restauração do ―mau gosto colonial, um barroco de importação atravessado de barbarismos oriundos da cabeça de pedreiros pretos‖ (LOBATO, 1959d, p. 31)? Em resposta a indagação, Lobato salienta:

15 A obra foi, primeiramente, publicada na ―Revista do Brasil‖, em 1917, e republicada em forma de livro em 1920.

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Levada a intransigência a ponto agudo, era caso de responder que o pedreiro preto que com o seu sentimento pessoal colaborou na arte vinda da metrópole, era branco por dentro; como o snob de hoje que copia a França é preto retinto na alma; porque o preto fazia obra de branco e estes brancos falsários fazem obra de pretos do Senegal, useiros em meter na cabeça uma cartola velha, enfiar a casaca, atochar os pés num botinão e virem para a rua crentes de que o público os confundirá com puros parisienses (Idem, Ibidem, p. 31).

Novamente, nota-se que o escritor paulista manifesta a possibilidade de uma alteração ―racial/cultural‖, onde os pedreiros negros são vistos como detentores de qualidades específicas do ―homem branco‖. Em outras palavras, sua capacidade de colaboração à arte decorre de uma perspectiva branca de atuação, o que lhe diferencia dos exaltadores e imitadores da cultura francesa, sujeitos estes possuidores de uma ―alma negra‖. Por conseguinte, a originalidade é vinculada ao ―branco‖, enquanto a reprodução de idealizações é associada ao ―negro‖. Nota-se a oposição entre cultura branca e incultura negra, a ponto de que esse desprovimento cultural seja o gerador da imitação. Assim, o pedreiro negro se despegaria de sua inculturalidade ao absorver as habilidades culturais do homem branco. A questão ressurge em texto escrito por Lobato na década de 1930, publicado no jornal ―O Correio‖ e unido, posteriormente, à coletânea de contos Negrinha (1920)16. Intitulado ―Quero ajudar o Brasil‖, o texto lobatiano foi produzido quando o escritor estava envolvido com o movimento em prol do petróleo brasileiro. Ainda que inserido em um conjunto de contos, na produção de Monteiro, a voz enunciativa apresenta pretensões de narrar algo que realmente sucedeu. Edgard Cavalheiro, biógrafo de Monteiro Lobato, apresenta ―Quero ajudar o Brasil‖ em diálogo com a análise da questão do petróleo e toma como fundamento que, nesse texto, a voz é a de seu autor e o fato é real (CAVALHEIRO, 1956b, p. 6). Assim, levando em consideração esse rasgo que leva a aproximar o texto mais a uma crônica do que um conto, tomar-se-á a voz narrativa como a do próprio Lobato. Segundo o ele, o fato que começa a ser contado ocorreu no momento da fundação da ―Companhia Petróleos do Brasil‖, cujos objetivos não haviam alcançado o apoio dos setores de maior influência do país: o governo, os bancos e os ―homens de dinheiro‖. Ainda assim, no intuito da busca do petróleo brasileiro, os dirigentes da

16 A primeira edição da obra continha apenas seis contos. Em novas publicações, foram incluídos mais dezesseis textos, alguns escritos antes de sua ida para os Estados Unidos, outros depois de sua volta (Nota dos Editores, In: LOBATO, 1959g, s/p).

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Companhia não escondiam dos possíveis investidores a possibilidade do sucesso e altos ganhos ou do fracasso e a perda total dos investimentos. A atitude, possivelmente, demonstrou a seriedade do negócio, levando a ―gente simples‖, impulsionada pela esperança de enriquecimento, a acreditar nos planejamentos e resultados positivos da organização e é entre estes indivíduos que surge a personagem central do acontecimento narrado. Certo dia, entra no escritório onde a entidade recém fundada vendia ações para dar continuidade aos projetos formulados, um homem negro, cuja humildade assustou os presentes da sala. Manifestou, então, a intenção de obter ações da Companhia e, apesar da estranheza, foram-lhe explicadas as eventuais consequências do investimento e indagado o número de ações que gostaria de adquirir. Segundo Lobato, a entrada daquele sujeito não foi tão assustadora quanto sua resposta àquela pergunta: decidiu comprar mais ações do que qualquer outro indivíduo que lá entrou: O homem devia estar louco. Tomar trinta ações, empatar três contos de réis num negocio em que a gente mais endinheirada não se atrevia a ir além de algumas centenas de mil réis, era evidentemente loucura. Só se aquele homem de pele preta estava escondendo o leite – se era rico, muito rico. Na América existem negros riquíssimos, até milionários; mas no Brasil não há negros ricos. Teria aquele, por acaso, ganho algum pacote na loteria (LOBATO, 1959g, p. 254).

Vê-se que Lobato destaca a improbabilidade de que um homem negro brasileiro tivesse um poder aquisitivo que o possibilitasse tamanha investidura, a não ser que tivesse ganhado muito dinheiro em jogos de azar. Apesar dos questionamentos manifestados pelos corretores da Companhia de Petróleo, o indivíduo afirma que se trata das economias de sua vida inteira, mas que não tem dúvida do propósito da aplicação. A singularidade do acontecimento não evitou que perguntassem o que o levava àquele ato e, negando qualquer propósito ambicioso, deu uma última resposta causadora de espanto: ―– É que eu quero ajudar o Brasil...‖ (p. 155). A postura daquele brasileiro perante a necessidade de seu país deixou Lobato e seu companheiro ainda mais surpresos e levou o escritor paulista a seguinte conclusão: ―Essa coisa chamada Brasil, que é de vender, que até os ministros vendem, ele queria ajudar... De que brancura deslumbrante nos saíra aquele negro! E como são negros certos ministros brancos‖ (Idem, Ibidem, p. 256). Percebe-se que a admiração pelo ―ato patriótico‖ de abdicar de toda uma vida inteira de poupança, dado o baixo salário brasileiro da época, embranquecia a

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negritude cultural daquele homem. Aquela ―ação exemplar‖, segundo Monteiro, exigia o mantimento de todos eles à altura daquele ―negro ultra-branco‖ (p. 256). As palavras do escritor taubateano demonstram que aquele posicionamento nacionalista, cujo cerne estava na esperança do progresso brasileiro através do petróleo, era comportamento de um homem branco, não fisionomicamente, mas culturalmente; enquanto a omissão por parte dos ministros era caracterizada como uma atitude de negros. A enunciação demonstra que o progresso brasileiro seria cunhado pelas mãos dos brancos, seja daqueles que assim o são de acordo com a cor da pele e a sua cultura ou daqueles que, branqueados culturalmente, o são ―espiritualmente‖. Em síntese, a questão cultural da raça é, nesses casos, desligada da parte biológica, dada a viabilidade de transmutação de uma esfera a outra, sem, obviamente, afetar o âmbito fenotípico. Não obstante, ―raça‖ e ―cultura‖ ganharão novas configurações quando relacionadas ao caboclo, como se verá nas análises subsequentes.

4.2 Lobato articulista

No ano de 1913, Monteiro Lobato começa sua colaboração nas páginas do jornal ―Estado de S. Paulo‖, com a publicação de um artigo intitulado ―Entre duas crises‖, sobre a possibilidade de uma nova crise econômica em São Paulo. Antes de sua ligação ao jornal paulista, suas intenções literárias variaram entre a elaboração de um romance ou de vários contos com base em uma mesma teoria sobre o ―caboclo‖. Em 1912, afirma objetivar a escrita de apenas um conto, sob o título Porrigo decalvans (remetendo-se a um parasita ocasionador da calvície), no qual consideraria o ―caboclo um piolho da terra, uma praga da terra‖ (LOBATO, 1950a, p. 327). No entanto, sua teoria acaba sendo demonstrada em seu segundo artigo no jornal paulista – ―Uma velha praga‖ – no ano de 1914, no qual expõe ideias que vinham se formando desde 1910 (LOBATO, 1950a, p. 326). Menos de um mês antes da publicação de ―Uma velha praga‖17, em carta ao amigo Godofredo Rangel, o autor declara que está em conflito com quatro ―caboclos‖ que se agregaram às suas terras e que o grande incêndio de matas ocorrido nas suas propriedades, no mesmo ano, proveio das mãos desses sujeitos.

17 A publicação de ―Uma velha praga‖ no ―Estado de S. Paulo‖ data de 12 de novembro de 1914.

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Desde já, o escritor associa os caboclos a seres parasitários, ao afirmar que os estuda e os acompanha ―desde o estado de lêndeas, no útero de uma cabocla suja por fora e inçada de superstições por dentro‖ (LOBATO, 1950a, p. 363). Assim, o caboclo é, também, apresentado de forma animalizada e associado à sujidade e a falsas crenças. De acordo com o epistológrafo, todos os caboclos passam pelas seguintes transformações sucessivas: Nasce por mãos duma negra parteira, senhora de rezas mágicas de macumba. Cresce no chão batido das choças e do terreiro, entre galinhas, leitões e cachorrinhos, com uma eterna lombriga de ranho pendurada no nariz. Vê-lo virar menino, tomar o pito e a faca de ponta, impregnar-se do vocabulário e da ―sabedoria‖ paterna, provar a primeira pinga, queimar o primeiro mate, matar com a pica-pau a primeira rolinha, casar e passar a piolhar a será nas redondezas do sítio onde nasceu, até que a morte o recolha. Constrói uma choça de palha igualzinha à paterna, produz uns piolhinhos muito iguais ao que ele foi, com a mesma lombriga nas ventas (LOBATO, 1950a, p. 363)

A primeira frase da enunciação parece, ironicamente, relacionar o nascimento desses indivíduos a um processo feiticeiresco necessário para que venha ao mundo. A sequência dos eventos expostos por Monteiro Lobato são caracterizados por sua imutabilidade, pela existência de um legado eterno a ser seguido pelas descendências do caboclo. Segundo Lobato, as atitudes desses sujeitos são sempre devastadoras e resultantes de mínimos proveitos em comparação a sua obra depredatória. Seus feitos são interrompidos somente com a chegada do italiano que ―senhora-se da terra, cura-a, trasforma-a e prospera‖, enquanto o ―piolho, afugentado, vai parasitar um chão virgem mais adiante‖ (p. 363-364). A menção ao europeu denota a crença na prosperidade advinda com a chegada da mão de obra europeia, de braços fortes para o trabalho do campo, ao passo que o caboclo brasileiro se isola e abdica desses espaços laborais.

4.2.1 “Uma velha praga”

Em novembro de 1914, Monteiro Lobato publica seu segundo artigo no jornal paulista. Em ―Uma velha praga‖, o articulista começa por salientar a constante falta de chuva e as queimadas iniciadas no mês de agosto e que se prolongaram por mais alguns meses. O fogo, segundo ele, estava afetando o solo, a floresta, os animais, além das propriedades privadas e o gado, que, se não morto pela própria queimada, morria pela falta de alimento. Segundo o escritor, tais acontecimentos

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são resultantes da presença do ―caboclo‖ na montanha, o qual é classificado como sendo ―um parasita, um piolho da terra, peculiar a ela como o Argas o é aos galinheiros ou o ‗Sarcoptes mutaus‘ a perna das aves domésticas‖ (LOBATO, 2008b, p. 160). Com constantes referenciações a nomes científicos dos mais variados parasitas, o caboclo é descrito como uma: [...] espécie de homem baldio, semi-nomade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela, na sua penumbra. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização das terras, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau, o isqueiro, de modo a se conservar sempre na beirada, mudo e sorno. Encoscorado em uma rotina de pedra, recua para não se adaptar. É de vê- lo abordar a sítio novo e nele se implantar como ―agregado‖, nômade por força de vagos atavismos não se liga à terra como o campônio europeu, ―agrega-se-lhe‖ temporariamente tal qual o ―sarcoptes‖, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva comezinha; feito o que, salta para adiante com a mesma bagagem com que ali chegou (Idem, Ibidem, p. 161).

A descrição do articulista demonstra o desencontro do caboclo com o progresso brasileiro que, a seu ver, se aproximava com a chegada da via férrea, dos imigrantes europeus para reforçar a mão de obra e da consequente valorização da economia agrícola. Assim, o caboclo seria, deliberadamente, um indivíduo marginal a toda essas mudanças, o qual, diferente do trabalhador europeu, não se adequava a lugar algum e usufruía do local onde se instalava somente até retirar dele todo o proveito, para, posteriormente, abandoná-lo. Segundo Lobato, ―com estes simples ingredientes o fazedor de desertos perpetua a espécie e a obra de esterilização ensejada pelos remotíssimos avós‖ (p. 161). A colocação, consequentemente, postula a perduração de uma herança cultural de interação do caboclo com o meio e que, segundo o autor, o diferencia das outras ―espécies de homens‖. De acordo com Lobato, o caboclo edifica sua casa com materiais extraídos do próprio local, limpa a mata ao redor de sua instalação e, posteriormente, acomete a floresta: ―roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau‖. Depois de tal investida, emprega o uso de seu isqueiro e, pela falta de cumprimento das leis que determinam o controle do fogo como proteção à floresta, surgem as incontroláveis queimadas. Por conseguinte, na maioria das vezes, o responsável consegue abster- se de sua culpa, mas, quando isso não ocorre, ele é ―tocado‖: ―o caboclo nunca sai dum lugar espontaneamente: é sempre ‗tocado‘. [...] Despedir, expulsar, etc. são meios usados para afastar outras categorias de homens. Ao caboclo toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala (LOBATO, 2008b, p. 163). Assim, para Monteiro Lobato, o abandono do lugar onde se aloja

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ocorre, não voluntariamente, mas por exigência. Além disso, no trecho destacado, a diferenciação nos verbos que exprimem essa exigência demonstra o rebaixamento desses indivíduos em comparação aos outros homens e a desumanização do caboclo, ao compará-lo com animais que, por suas atitudes reprovadoras, necessitam ser ―tocados‖. Para o autor, a vida desses indivíduos é ―vazia‖ e ―semi-selvagem‖ e a sua produção agrícola serve apenas para mantê-los vivos, pois ―assim fez o pai, o avô, assim fará a prole empanzinada‖ (p. 164). Evidencia-se, assim, a crença do autor em uma hierarquia entre os homens, onde, segundo Monteiro, o ―caboclo é uma quantidade negativa‖, o que demarcaria a desnecessidade de sua existência. Por fim, de acordo com Monteiro Lobato, depois que abandonam o território, a terra assimila tudo que edificou com materiais naturais daquele território e nada mais testifica a passada do ―Manuel Peroba‖, do ―Chico Marimbondo‖, do ―Jeca Tatu‖ (p. 164). É nesse momento que o escritor faz a primeira menção a uma personagem que demonstrará, posteriormente, sua mudança de pensamento em relação ao caboclo: Jeca Tatu.

4.2.2 “Urupês”

Em dezembro do mesmo ano, Monteiro Lobato publica seu terceiro texto no ―Estado de S. Paulo‖. Classificado como ―artigo‖ pelo seu autor (LOBATO, 1950b, p. 5), ―Urupês‖ é uma mescla de ensaio crítico e ficção, onde surge a personagem ―Jeca Tatu‖, uma representação do caboclo brasileiro em diálogo com as manifestações negativas expressas por ele em sua publicação anterior no jornal paulista. Inicialmente, Monteiro procura demonstrar que o indianismo se desfez e no lugar de Peri – personagem de O guarani (1857), de José da Alencar (1829-1877) e, segundo o escritor paulista, tentativa de ―idealização de um homem natural‖, dotado de superioridade em ―beleza de alma e corpo‖ – se instalou ―um selvagem natural, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci‖ (LOBATO, 2008b, p. 167). Monteiro Lobato apresenta o caboclo através de uma relação intertextual com a personagem Peri, de Alencar, o qual, como simbolização de força física e aptidão

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sentimental, desenraizou uma palmeira com as próprias mãos com o intuito de salvar a sua amada, Ceci. Segundo Lobato, o movimento representado por Peri teria elaborado um excesso de produções literárias com essas configurações, o que acabou por enfadar o público (p. 167) e, consequentemente, ocasionou a diluição do indianismo, não a ponto de matá-lo, mas resultando em sua evolução: ―O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de ‗caboclismo‘‖ (p. 168). Para ele, a literatura brasileira teria substituído as iconicidades, sem perceber que o caboclo é Peri às avessas, ou seja, destituição física e sentimental. Segundo o escritor: [...] entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feio e sorna, nada a põe de pé (LOBATO, 2008b, p. 169).

Nota-se que Lobato reforça a sua inclinação para a confiança na existência de várias raças humanas. Dentre elas, o caboclo ocupa posição subalterna por sua vivência inercial, contrária ao desenvolvimento. Para o literato, o caboclo era o ―‗Ai Jesus!‘ nacional‖ (Idem, Ibidem), caracterizado por sua indolência, que o impediu de tomar partido quando libertos os escravos e abertas as vacâncias de trabalho, e de não ter percebido, ao menos, a mudança para o regime republicano; e sua fealdade, questão esta que, novamente, permeia o discurso lobatiano. Vê-se que esse artigo dá continuidade às críticas principiadas em ―Uma velha praga‖. Entretanto, em ―Urupês, surge a caracterização de uma personagem meramente citada na publicação anterior: ―Jeca Tatu‖. Apesar do caráter ficcional evidenciado, principalmente, a partir da primeira menção dessa personagem no artigo, percebe-se que não há a instauração de um narrador. Mais do que uma coincidência entre vozes – autor/narrador – o texto demonstra continuidade na perspectiva direcionada ao caboclo sob a própria voz de Lobato, agora orientando- se a Jeca Tatu. Segundo o seu criador, Jeca é o representante de todos os caboclos, pois nele residem todos os atributos pertencentes aos mesmos: ―Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie‖ (p. 169). Segundo Monteiro Lobato, diante de qualquer situação, a primeira atitude do caipira é ―acocorar-se‖ e qualquer ação sua que não ocorra estando ele sentado sobre seus calcanhares será ―desastre infalível‖. Além disso, sua indisposição para o trabalho braçal o conduz às feiras com produtos obtidos nas matas sem grandes

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dificuldades, pois estão à disposição para serem colhidos sem que seja necessário seu cultivo. Reflexo dessa letargia está na estrutura de sua vivenda, a qual, erguida com sapé e lama, ―faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar o joão-de- barro‖ (p. 170). Em seu interior, não há móveis. Banco, apenas com três pernas, pois a quarta é desnecessária ao equilíbrio, e somente aos visitantes, pois ele não abandona o conforto de seus calcanhares. De acordo com o escritor paulista, os avós de Jeca Tatu ―não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão quarta pata ao banco. Para quê? Vive-se bem sem isso‖ (p. 171). Reforça-se, assim, a existência de uma hereditariedade dos costumes do caboclo, incontornavelmente ininterrupta, já que supõe ser prescindível a vida destituída desses recursos. No que se refere ao aproveitamento da terra, Jeca Tatu se restringe à plantação de milho, de cana-de-açúcar e de mandioca, sendo as três escolhas justificadas pela relação esforço/benefício. Para Monteiro Lobato, o cultivo desses produtos é beneficiado pela facilidade com que o meio ambiente os produz. Consequentemente, a mandioca é classificada por ele como ―um pão já amassado pela natureza‖ (p. 172), cujo labor de produção se resume em um fácil plantio em ―qualquer chão‖, a posterior arrancadura da raiz e sua colocação à brasa. O criador do Jeca afirma, então, que tais auxílios naturais são responsáveis pelo quebrantamento de forças do caboclo e a falta dos mesmos é o ocasionador da pujança das ―raças humanas‖: O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa joia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tâmisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso provérbio (LOBATO, 2008b, p. 172).

As assistências propiciadas pelo meio ambiente seriam, então, os males que impossibilitam a evolução do caboclo. Para Lobato, a força das raças humanas depende, para se desenvolver, da adversidade ambiental e, por conseguinte, tanto Inglaterra quanto Holanda foram capazes de formar suas civilizações devido a essas contrariedades. Percebe-se, no fragmento citado, uma terceira acepção correlacionada ao âmbito ―racial‖. O escritor associa as raças humanas à formação das nações, estabelecendo, assim, uma ligação do termo ―raça‖ a uma quarta acepção: a ―nacionalidade‖ – precedida pelos sentidos ―classe‖, ―cultura‖ e

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―fisionomia‖. Tal vínculo pode ser percebido, também, em epístola enviada a Godofredo Rangel, em setembro de 1909, na qual Lobato declara que as similitudes entre as línguas são como ―a estrutura óssea das várias raças humanas, coisa que não varia apreciavelmente; o que faz o inglês, por exemplo, ser tão diverso do italiano, são as feições, os trajes, os modos e as modas de cada um, isto é, os idiotismos fisionômicos‖ (LOBATO, 1950a, p. 272) [grifos do autor]. Monteiro declara que, tanto as línguas quanto as ―raças humanas‖ – no caso, a ―raça inglesa‖ e a ―raça italiana‖ – não apresentam variações estruturais e que as suas diferenciações são manifestadas através de particularidades alicerçadas em uma mesma base. Com essa comparação, novamente, o escritor paulista articula o domínio racial com o da nacionalidade. De volta a Jeca Tatu, segundo seu criador, ele não produz reparos em sua residência. Entre as improvisações para sustentar as bases comprometidas da casa, está a ―Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela‖, que, por ―força santa‖, afirma a parede danificada (LOBATO, 2008b, p. 171). Ademais, dentre outras crenças está a da cura por intermédio de medicamentos cuja elaboração exige os mais variados e estranhos ingredientes, além da aplicação por um ―curador‖. Além desses remédios solucionadores de problemas como ―bronquite‖, ―quebranto de ossos‖, ―brotoeja‖, há a ―medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano‖, como, por exemplo, ―o ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jeca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas consequências futuras‖ (p. 175). Vê-se que a ênfase dada aos princípios nos quais Jeca Tatu acredita tenta demonstrar a intensidade de sua crença nessas concepções. Entretanto, essa mesma ênfase é usada de forma irônica e demonstra com clareza a conclusão de que os princípios cridos por sua personagem não passam de superstições. Se posto em diálogo com ―Uma velha praga‖, o nascimento do caboclo é apresentado a partir da ocorrência de um processo ritualístico relacionado ora a uma cultura africana ora a uma cultura de base cristã, de maneira que deixa transparecer a crítica lobatiana em direção a essa inclinação religiosa de influências múltiplas. Já no contexto artístico, o escritor afirma que Jeca não demonstra a mínima vocação, diferentemente de outros povos rurais cuja produção artística, por vezes, influencia a criação de ―artistas de escol‖ (p. 176). Suas mais singelas manifestações

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estéticas estão resumidas em ―uma chumbada do relho‖ e ―uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambu‖ (p. 177). De acordo o criador do Jeca Tatu, a ―arte popular‖ não é fruto das mãos do caboclo, mas sim das do ―mulato‖: ―A modinha, como as demais manifestações de arte popular, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha de envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro‖ (p. 177). O pequeno fragmento citado pode demonstrar diferentes posicionamentos lobatianos com relação à questão racial. Primeiramente, cabe ressaltar que essa foi a única vez que Monteiro Lobato caracterizou Jeca Tatu com base em uma comparação racial de cunho biológico, onde o caboclo é posto em oposição ao mulato originário da miscigenação entre o branco europeu e o negro. Entretanto, o cotejo não se encerra apenas nesse campo. O objetivo é demonstrar que a arte popular está relacionada a uma ―raça‖ específica, a qual é dotada da capacidade necessária para produzi-la e que, consequentemente, se opõe à outra raça desprovida de tais habilidades. Ademais, a aptidão artística do mulato é legitimada não por uma competência adquirida, mas por sua ascendência europeia que, segundo Lobato, dispõe de uma tradição estética ancestral; em comunhão com a ―selvageria‖, a ―alegria‖ e a ―sanidade‖ do negro. Vê-se que o dom da arte, apesar da sua compartilha com outras qualificações dadas ao negro, que não a da inclinação estética, está diretamente associado a uma cultura branca. A referência ao negro como um ser selvagem pode ser associada a um suposto desprovimento cultural e/ou de uma ligação próxima com a natureza. Finalmente, percebe-se o estabelecimento de uma correspondência entre o terreno cultural e o biológico da ―raça‖ no momento em que Lobato afirma que a faculdade artística – que, por conseguinte, gera produção cultural – é hereditária, por estar presente nos indivíduos de forma sanguínea. Resumidamente, o caboclo Jeca Tatu é apresentado a partir de uma inaptidão que permeia todas as esferas de sua vida: no trabalho, nas crenças, na elaboração artística, na edificação de uma morada, nos sentimentos, etc.. Diferentemente do negro, o caboclo é representado como ―semi‖-selvagem e, provavelmente, a utilização do prefixo seja justificada pela presença do sangue branco em suas veias, o que lhe privaria da selvageria total. Não obstante, essa presença não foi capaz de gerar os mesmos benefícios transferidos ao mulato no processo de miscigenação,

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ainda que, segundo Monteiro Lobato, seus princípios culturais tenham sido passados de geração a geração e o processo fosse permanente. Como visto, a única relação de Jeca a uma descrição racialmente biológica deriva de sua confrontação com o mulato, onde é possível notar que as acepções de ―raça‖ em Monteiro Lobato não atuam somente de forma isolada, mas também em interação. Mesmo quando correlacionada à nacionalidade, a questão racial foi exposta a partir da possibilidade de contraposição com o caboclo, o qual, por sua vez, é representado segundo outros dois âmbitos: o biológico e o cultural. Assim, o caboclo é tido como racialmente inferior, por sua indolência e conformidade com as adversidades e por sua cultura alheia a qualquer forma de progresso: tudo isso permeado por uma inevitável perduração genética. Diferentemente das colocações a respeito da personagem de Vida Ociosa, os campos cultural e biológico, no caboclo, são indissociáveis e imutáveis. O pensamento lobatiano referente ao caboclo se manteve por mais alguns anos. Em 1916, Lobato declara que o caboclo continua a ser visto desde uma perspectiva equivocada, graças à sua representação cômica no teatro, que desvirtua os olhares de sua real situação: O caboclo é o Menino Jesus étnico que todos acham engraçadíssimo, mas ninguém estuda como realidade. O caipira estilizado das palhaçadas teatrais fez que [sic] o Brasil nunca pusesse tento nos milhões de pobres criaturas humanas residuais e sub-raciais que abarrotam o Interior. Todos as têm como enfeites da paisagem - como os anões de barro de certos jardins da Paulicéia (LOBATO, 1950b, p. 58).

Reforça-se, assim, a ideia de Monteiro de que o caboclo era uma ―raça‖ subalterna às outras. Prontamente, sua caracterização como ―criatura humana residual‖ remete a algo sobejante e desnecessário; e, se aprofundada a análise do termo, pode referir-se a algo remanescente da combinação entre diferentes fatores, ou seja, o caboclo seria o resultado da mescla de um meio ambiente que estimula a ociosidade e de uma cultura que preserva essa estagnação. Para Lobato, o horizonte equivocado de apreciação desses indivíduos fazia com que sua existência fosse considerada meramente ornamental e insignificante, a ponto de culminar em algo problemático para o país.

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4.2.3 A questão da guerra

Em artigo publicado no jornal paulista, em 191518, Lobato analisa a problemática da guerra. Segundo ele, a formação de um sentimento de conquista nasceu com Caim depois de matar seu irmão Abel. De acordo com Monteiro Lobato, ―com a pedrada‖, Caim pode abandonar sua simples função de ―pastor‖19 e, por conseguinte, ―ensinou aos homens o caminho da glória, a embriaguez da vingança, o segredo da dominação, a morte heróica. Em suma a guerra‖ (LOBATO, 1959d, p. 96). Já nas regiões onde, de acordo com ele, ―o homem não tinha contato com Deus‖, o troglodita descobriu que, através da morte, poderia possuir coisas alheias, como uma cobiçada pele de urso para proteger-se do frio. As grandes vitórias da história teriam descendido desses dois fatores inaugurais e acabado por formar os maiores ―heróis guerreiros‖: Nenhum povo detentor de alto valor histórico existe que o não conquistasse pela guerra. Grécia, Roma, Cartago, França, Alemanha... Em redor deles gravita como satélite o rebanho dos fracos, carneáveis como rezes. [...] A guerra europeia ensina, ainda e sempre, a eterna glória da força aureolada do heroísmo; indica ao povo que ―queira‖ viver a senda a trilhar na arrancada para o futuro (LOBATO, 1959d, p. 100). [grifo do autor]

Tratada como força instintiva, a inclinação para a guerra é associada à natureza humana e considerada como realizadora da possibilidade de distinção entre fortes e fracos, superiores e inferiores. Considerando a guerra que se desenvolvia naquele momento como uma lição aos que objetivavam ser ―grandes‖, Lobato salienta a necessidade de instigar o sentimento belicoso no Brasil, ao destacar ser imprescindível perceber que a guerra fez parte do passado, faz parte do presente e fará parte do futuro, pois sempre haverá ―luta de classes‖, ―luta de partidos‖, ―luta de povos‖, ―luta de raças‖: resumidamente, segundo Monteiro, ―viver socialmente é lutar‖ (LOBATO, 1959d, p. 100). De acordo com o escritor, os ensinamentos da guerra atual fariam com que os ―armamentos‖, os ―serviços de espionagem‖, a ―disciplina e controle dos exércitos‖ evoluíssem para adequar-se as necessidades das guerras futuras (p. 101). Não

18 O artigo, intitulado ―A hostefagia‖, foi republicado em Ideias de Jeca Tatu, em 1919.

19 Lobato faz referência: ―Caim morreria simples pastor‖ (p. 96). No entanto, no capítulo 4 e versículo 2 da bíblia cristã, vê-se essa era a função desempenhada por Abel, enquanto a ocupação de Caim era ―lavrador‖ (GÊNESIS, s/d).

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obstante, faltava rever a problemática da alimentação dos soldados, cujo papel seria fundamental para a vitória em combate. Para ele, ainda que se fale em ―alimentação artificial‖, a grande saída estaria na ―hostefagia‖, nome dado por Lobato à antropofagia, a fim de eliminar o caráter bárbaro e brutal da palavra (p. 102). A possibilidade de alimentar-se da hoste adversária é legitimada, segundo Monteiro, por estudos que comprovam que a carne humana possui a mesma formação que a do boi. Além disso, a solução para o preconceito poderia ser alcançada através da instigação desses hábitos desde o início da vida e ―o povo que primeiro vencer o preconceito bromatológico do seu exército terá o mundo a seus pés‖, já que um dia de jejum forçado seria o suficiente para instigar a ânsia dos exércitos (p. 103). Por fim, afirma que quando sejam notados os benefícios obtidos pela primeira nação que adotar a ―hostefagia‖, esse comportamento alimentar será exercido por toda a humanidade e, nesse momento, ter-se-á chegado a ―idade de ouro‖ (p. 104). Nessa perspectiva, a vida em sociedade é determinada por sua multiplicidade de diferenças, o que resulta como imposição a necessidade de luta, de competição. Dentre esses múltiplos confrontos, onde Lobato inclui o confronto entre as raças, essa necessidade estaria obstruída por um sentimento avesso ao preciso: o da pacificidade. A quietação de ânimo é considerada por ele como sinônimo de covardia (p. 99) e, se analisada em comparação com a existência de uma ―verdade filosófica‖ em dissonância com a ―verdade autêntica‖, essa harmonia seria, então, a desencadeadora daquela moral ilusória. As postulações de Monteiro Lobato induzem a conclusão de que esses duelos, aparentemente mais amenos, são como a Guerra, e que era primordial que se deixasse florescer a natureza bélica do ser humano, a fim de que essas lutas encontrassem os desfechos naturais da vida e, por conseguinte, os mais fortes imperassem. Finalmente, a consideração de que a adoção do hábito ―hostefágico‖ gera a vitória, a evolução, o progresso, inevitavelmente faz lembrar os rituais antropofágicos nos quais se cria que, na ingestão da carne do inimigo, suas forças e habilidades eram absorvidas. Está claro que o escritor paulista não cria nesse desfecho mágico do processo alimentício, mas pode, de maneira metafórica, fazer alusão a ele, ao considerar que ―chegar-se-á a idade de ouro‖ quando os comedores de carne humana manifestarem maior vigor a cada nova vitória, como se a conquista incorporasse a força, aparentemente eliminada, ao vencedor, tornando-o mais hábil

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e forte e evidenciando sua supremacia. O artigo lobatiano aparenta concordância e defesa do princípio de ―seleção natural‖ ancorado nos ideais dos darwinistas sociais.

4.3 Primeiros contos

Em julho de 1918, Monteiro Lobato publica sua primeira obra, um conjunto de doze contos interligados pela temática da ―morte‖. Devido a essa relação entre os contos, inicialmente nomeou sua produção de ―Doze mortes trágicas‖, mas, por indicação de Arthur Neiva (CAVALHEIRO, 1956a, p. 185), alterou o título da obra para Urupês, mesmo nome de seu artigo anteriormente publicado no ―Estado de S. Paulo‖, o qual acabou por ser incluído ao final dessa publicação, juntamente com o texto ―Uma Velha praga‖20. Coincide, também, na maioria destes contos, a aparição do sertão como o espaço de desenvolvimento das ações narrativas e, consequentemente, a vinculação dos personagens à vida sertaneja ou à ruralidade. Entretanto, são restritas as menções dos narradores lobatianos a características raciais identificáveis, mas dois contos se destacam pela aparição dessa representação: ―A vingança da peroba‖ e ―Bocatorta‖.

4.3.1 “A vingança da peroba”

Escrito em 1915, ―A vingança da peroba‖ traz a história de uma rivalidade longínqua entre João Nunes e Pedro Porunga. Sua desavença nasceu na ocasião em que um dos filhos de Porunga acidentalmente matou uma paca – antiga moradora das terras de Nunes e especialista em escapar de suas tentativas de caçá-la – e nem ao menos compartilhou a carne resultante do imprevisto com seu ―legítimo dono‖. Segundo o narrador, concomitantemente a essa desavença, Nunes era tomado por um sentimento de desconsolo derivado de uma família formada, predominantemente, por mulheres – com exceção de si mesmo e do único filho homem, José Benedito – e que se opunha à descendência de Pedro Porunga, constituída por seis filhos homens. A demarcação racial surge apenas em um momento, no qual o narrador caracteriza José Benedito como sendo ―caboclo‖, o que, obviamente, não denota

20 Em Urupês, o nome do artigo sofre alteração ao perder o artigo inicial: (Uma) Velha Praga.

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nenhuma certeza a uma indicação de mesmo cunho direcionada a seu pai, mas possibilita análise significativa quando posta em diálogo com a subsequente descrição de Nunes e sua investida no doutrinamento cultural do filho. De acordo com o narrador, enquanto Porunga era próspero em suas atividades laborais, possuía uma égua, caçava com espingarda de dois canos e sua residência era elogiável: [...] Nunes – pobre do Nunes! – não punha na terra nenhum alqueire de semente. Teve égua, mas barganhou-a por um capadete e uma espingarda velha. Comido o porquinho, sobrou do negócio o caco da pica-pau, dum cano só e manhosa de tardar fogo. / Sua casa, de esteios com casca e postas de imbaúba rachada, muito encardida de picuman, prenunciava tapera próxima. Capado, nenhum. Galinha escassa. / [...] O cachorro [...] andava de barriga às costas [...] (LOBATO, 2008b, p. 57).

Assim, Nunes é apresentado segundo uma incompatibilidade com a prosperidade de Pedro Porunga. Em relação ao trabalho, não demonstra usufruir da possibilidade de plantação, nem de criação de animais produtivos, e suas negociações resultam apenas em prejuízos. Sua postura estagnante e antievolutiva – e ainda inversa a de Pedro – se une ao vício pela ―cachaça‖, atitude a qual não só intencionava passar a Benedito, juntamente com a do ―fumo‖, mas que já punha em prática ao dar-lhe goles da bebida: ―– Homem que não bebe, não pita, não tem faca de ponta, não é homem – dizia Nunes‖ (p. 56). Por fim, fruto da emulação direcionada a Porunga, Nunes constrói um monjolo, obtendo madeira a partir do derrube da peroba que dividia a terra dos dois vizinhos e que, por conseguinte, pertencia aos dois. Entretanto, o seu engenho não funcionou como planejado e, nas redondezas, instalou-se a zombaria em direção àquela edificação frustrada. Em uma das embriaguezes de consolação, Nunes convidou seu filho para acompanhá-lo e ―o menino não esperou novo convite‖ (p. 66). Ao acordar, João Nunes descobre a morte trágica de José Benedito esmagado pelo pilão do monjolo inútil. Percebe-se que a personagem João Nunes é apresentada pelo narrador com permanente ligação a suas atitudes contrárias às desencadeadoras do sucesso de seu vizinho. Além disso, nota-se a tentativa de transmissão dos hábitos entre pai e filho, visando uma prevalência cultural a partir da ingerência de bebidas alcoólicas, do uso do fumo e do porte de uma faca de ponta. A exposição do caboclo pelo narrador lobatiano pode ser posto em comparação com a apresentação desse indivíduo feita por Lobato nos artigos anteriormente analisados. Em ―Uma velha praga‖, Monteiro Lobato explica como costuma ser a chegada dos caboclos a uma

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nova terra e expõe o perfil do filho mais velho que em muito se assemelha – e não só na idade – com o de José Benedito, expresso pelo narrador de ―A vingança da peroba‖: ―[...] outro de sete anos – à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca na cinta‖ (LOBATO, 2008b, p. 161). Já em ―Urupês‖, o escritor paulista contrasta a situação de Jeca Tatu a de seu vizinho: ―A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos‖ (Idem, Ibidem, p. 173). Apesar de Nunes também ser proprietário de sua terra, diferentemente de Jeca, o diálogo entre os ideais do escritor e as caracterizações dadas por seu narrador coincidem quando João é descrito como um indivíduo desapegado ao trabalho manual, não aproveitando os benefícios da agricultura e com costumes antiprogressivos. Os aspectos destacados não objetivam apenas o apontamento de simples similitudes entre os textos, mas evidenciam que o pensamento de Lobato a respeito do caboclo está em harmonia com a representação literária na voz do narrador do conto analisado.

4.3.2 Bocatorta

A maturação das ideias a respeito dessa produção literária durou mais de dez anos e, com o intuito inicial de elaboração de um romance, Lobato acabou por estruturar ―Bocatorta‖ em forma de conto, no ano de 1915. Dentro da obra de Monteiro Lobato, Bocatorta é a primeira personagem negra com função narrativa importante para o enredo literário, consequentemente, conquistando o título do texto no qual está inserido. Sua história se desenvolve nas imediações da fazenda do major Zé Lucas, na qual Bocatorta vive isolado no matagal e somente pela noite e em escassas vezes sai de casa. De acordo com o major, Bocatorta é filho de uma das escravas de seu pai e sua ―fisionomia monstruosa‖ resulta no terror do povo, o qual relaciona a ele todos os infortúnios ocorridos na fazenda (LOBATO, 2008b, p. 120). Ainda que de maneira mais comedida em Zé Lucas, a repulsa à ―feiúra‖ da personagem negra é evidenciada nas vozes de todas as outras personagens, bem como na do narrador, que o descreve da seguinte maneira: Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros cotos de dentes bestiais fincados às tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés a cara, num esgar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse

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preciso para fazer daquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembravam a forma do pé humano. E olhos vivíssimos que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima (LOBATO, 2008b, p. 126)

O trecho citado exemplifica a centralidade da relação à personagem segundo a descrição de traços físicos ligados, na maioria das vezes, a uma monstruosidade de caráter diabólico. Neste sentido, Bocatorta é apresentado segundo uma deformação sobrenatural de seu corpo e essas características tidas como abomináveis legitimariam a sua condição de exclusão. A figura negativa dessa personagem se opõe a de Cristina, filha de Zé Lucas, a qual é apresentada como um arquétipo da beleza, ―um ramalhete completo das graças‖, com ―lábios de pitanga, a magnólia da pele acesa em rosas nas faces, olhos sombrios como a noite, dentes de pérola‖: ―linda‖ (p. 124). Vê-se que, nos dois casos, a aparência das personagens é levada a seus extremos e, prontamente, se percebe a formação da dicotomia feiúra/beleza, a qual, por relação direta, pode ser expandida para ―feiúra negra/beleza branca‖, dada a demarcação racial de cada um. Os rasgos físicos de Bocatorta despertam, então, o interesse de Eduardo, noivo de Cristina, e o instiga a conhecer o tal sujeito. A ―criatura‖ ocasionava o temor de todos, principalmente o da filha do major, que, desde sua infância, era atemorizada pelas mucamas com histórias sobre Bocatorta, o que lhe ocasionava sonhos repetidos nos quais ele, sem sucesso, tentava beijá-la. Depois de algumas falhas rejeições da garota, todos partiram para a visita ao ―monstro‖ e, ao encontrá- lo, somente os homens o observaram com suportação, mas, em certo instante, os olhos do ―monstro‖ ―encontraram os de Cristina e neles viram a expressão de pavor da preá engrifada nas puas da suindara – o pavor da morte...‖ (p. 126). De volta a casa, no dia seguinte, a moça se encontra ―febril‖, ―trêmula‖ e com ―ardores no peito‖. Passa a piorar a cada novo dia e, no décimo, ―o sino do arraial anuncia seu prematuro fim‖ (p. 128). Durante a mesma noite, Eduardo decide visitar o túmulo de Cristina para um último adeus, mas lá encontra uma criatura a remexer sua sepultura. Por conseguinte, retorna a casa para anunciar a crueldade. De volta ao cemitério, Zé Lucas e outros sujeitos se deparam com ―um corpo branco [...] abraçado a um vulto vivo, negro e coleante como polvo‖ (p. 130). Bocatorta é flagrado, perseguido e morto pelo major e seus companheiros.

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Segundo David Brookshaw (1983), o conto de Monteiro Lobato dialoga com a postura ―mestiçofóbica‖ do escritor, com sua depreciação do contato entre as raças, por considerá-lo contrário ao progresso racial brasileiro. Para David, ―criar um monstro a partir dele [do negro] era, na verdade, dizer que ele não era um homem, nem tampouco merecia qualquer contato humano, fosse qual fosse‖ (BROOKSHAW, 1983, p. 69). Nota-se que a morte de Cristina derivou do próprio contanto, durante muito tempo preservado, com Bocatorta. Na linha de pensamento apresentada por Brookshaw, o conto lobatiano pode ser considerado uma metáfora de um projeto racial para o Brasil, onde se deveria proteger-se contra a miscigenação, pois, caso essa restrição fosse rompida, o futuro do país seria o perecimento.

4.4 A união aos projetos sanitaristas e a ressurreição de Jeca Tatu

O lançamento do livro O saneamento do Brasil (1918), por Belisário Pena, reunião de artigos escritos e publicados durante 1916 e 1917, serviu de parâmetro para a fundação, no mesmo ano, da Liga Pró-Saneamento do Brasil (PONTES; LIMA; KROPF, 2010, p. 90). De acordo com Edgard Cavalheiro, essa obra de Pena revelou ―à Nação estarrecida o Brasil desconhecido, um País doente, cheio de mazelas‖ e esse reconhecimento, tanto de Belisário como de outros cientistas como Osvaldo Cruz, Carlos Chagas e Arthur Neiva, ocasionou a inferência de que ―o problema número um do País‖ estava relacionada à questão do saneamento (CAVALHEIRO, 1956a, p. 211-212). Segundo Cavalheiro, Lobato, que ainda recebia críticas pela sua caracterização do caboclo, se une aos projetos sanitaristas cunhados pelo médico paulista Osvaldo Cruz no começo daquele século e que ganhava novas forças com o trabalho de cientistas como Pena.

4.4.1 Sanear é preciso

Monteiro começa, então, a escrita de vários artigos a serem publicados no ―O Estado de S. Paulo‖, baseando-se nas premissas dos ―teóricos higienistas‖ (Idem, Ibidem, p. 212). Entre março e junho de 1918, o escritor paulista publica uma série de textos, os quais acabaram por ser reunidos em forma de livro no mesmo ano. Sob o título de Problema vital, a publicação lobatiana levava a seguinte nota na

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capa: ―Artigos publicados no ‗Estado de S. Paulo‘ e enfeixados em volume por decisão da Sociedade Eugênica de São Paulo e da Liga Pró-Saneamento do Brasil‖. Vê-se que as duas instituições, fundadas no mesmo ano, partilhavam interesses e projetos e essa concordância se refletia, também, na existência de membros com funções importantes associados às duas entidades, como é o caso de Arthur Neiva e Renato Kehl (DIWAN, 2007, p. 98). A mudança de perspectiva com relação ao caboclo é evidente desde a epígrafe de Problema vital: ―O Jeca não é assim; está assim‖. Lobato abandona, assim, a visão determinista de imutabilidade daqueles indivíduos, para considerá-los como resultantes dessa problemática falta de higiene sanitária pela qual estavam acometidos. A edição inicial da obra lobatiana foi prefaciada pelo secretário da SESP e da LPSB, Renato Kehl. Segundo ele, essas publicações de Monteiro Lobato no jornal paulista foram ―como que alavancas que nos deslocaram do enervante estado de apatia em que jazíamos. Elas nos deram a conhecer os males que urgia serem combatidos‖ (KEHL apud CAVALHEIRO, 1956a, p. 217). Na obra, Lobato tenta demonstrar, primeiramente, que se criou uma visão ilusória sobre o Brasil, cujo cerne estaria na posse de uma ―riqueza‖, uma ―inteligência‖ e uma ―invencibilidade‖ incontestável. Esse desvanecimento expresso em diferentes atos, publicações e cânticos seriam originadores dos males brasileiros, pois o ―povo, ingênuo que é, decorou a sério o agradável estribilho da riqueza sem par, da inteligência primacial e da invencibilidade da nipônica; e consequente com o ensinado assumiu uma atitude lógica: papo ao ar em sorridente lombeira‖ (LOBATO, 2010d, p. 23). Segundo ele, no entanto, começa-se a perceber a realidade do país e dá-se o passo inicial quando Osvaldo Cruz é nomeado chefe da higiene da cidade do Rio de Janeiro e eclode no Brasil o movimento sanitarista, baseado nos estudos do cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) sobre a microbiologia. Por conseguinte, aprofunda-se esse novo estágio no momento da publicação da obra de Belisário Pena anteriormente citada (Idem, Ibidem, p. 24-26). Seguidamente, Monteiro Lobato explana as principais doenças detectadas pelos cientistas na marcha pelo saneamento do Brasil. De acordo com o escritor paulista, como resultado da ação e proliferação do amarelão, da doença de Chagas e da malária, tem-se o ―atrofiamento da inteligência‖ do indivíduo, transformando-o em ―um saturno urupê humano, incapaz de ação, incapaz de vontade, incapaz de

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progresso‖ (p. 30). Formam-se, assim, uma infinidade de ―aleijados‖, ―idiotas‖ e ―papudos‖ a degradar a população brasileira e que, consequentemente, fazem do país ―uma nação pobre‖ (p. 43). Unem-se a estas três moléstias a ―lepra campeira‖, a ―sífilis‖, a ―tuberculose‖ e a ―leishmaniose‖. Todas essas problemáticas já não estavam relacionadas especificamente ao caboclo, mas ao homem do campo em geral e teriam provocado no país uma carência de braços fortes para o trabalho nas lavouras, principalmente nas de café, produto central da agricultura brasileira da época. Segundo Lobato, o país clamava: Braços! Braços! Há fome de braços. Um país de 25 milhões de habitantes não consegue fornecer braços para a lavoura do café, lavoura que produz menos que uma das grandes empresas açucareiras de Cuba. / É que os braços estão aleijados. / Há-os de sobra, mas ineficientes, de músculos roídos pela infecção parasitária, o que obriga a lavoura ao ônus indireto de importar músculos europeus, ou chins, ou japoneses – o que haja, contanto que seja carne sadia e não fibras em decomposição. / Entretanto, a solução definitiva do problema eterno da lavoura quem a dará é a higiene (LOBATO, 2010d, p. 36). [grifos do autor]

A centralidade da questão é posta em evidência: um país com um grande número de habitantes não estava sendo capaz de suprir a demanda de trabalho resultante do fim da escravidão. Segundo Lobato, o problema reside na evidência de que os indivíduos que poderiam repor a mão de obra estão doentes, o que exige a vinda de trabalhadores estrangeiros. Para ele, o preenchimento necessário poderia vir tanto da Europa quanto da Ásia, posicionamento que contraria as críticas direcionadas à imigração asiática, tão advogadas por Joaquim Nabuco, mas que avalia a situação apenas por seu viés de contribuição laboral e deixam de lado a discussão racial. No entanto, o escritor paulista destaca que a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a qual caminhava para seu fim, havia aniquilado ―aquele excedente de população donde nos vinha o caudal de braços‖ (p. 69) e, por conseguinte, havia invalidado a continuação da imigração europeia. Estudava-se a possibilidade da vinda de chineses para suprir a falta de ―braços‖, mas Monteiro Lobato salientava que os gastos injetados na vinda desses sujeitos poderiam ser invertidos em apoio ao projeto sanitarista para ―renovação‖ da população rural, a qual, consequentemente, atenderia as demandas de trabalho. Percebe-se que, por diversas vezes, Lobato exalta a necessidade de crescimento econômico do país, a qual foi interrompida pelas mazelas do povo. Afirma ele que ―o déficit econômico é reflexo do déficit da saúde‖ (p. 62). A exaltação lobatiana dos projetos sanitaristas demonstra estar interligada mais a uma proposta

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de construção de um movimento agrícola em prol do progresso brasileiro, do que a uma interseção de cunho humanista em defesa do povo rural. Assim, dada a irrealizável busca de reforços europeus, o valor dessa investida é associado à igualdade desses brasileiros aos trabalhadores estrangeiros, pois a população rural ―possui ótimas qualidades de resistência e adaptação. É boa por índole, meiga e dócil. O pobre caipira é positivamente um homem como o italiano, o português, o espanhol. / Mas é um homem em estado latente‖ (p. 69). Lobato afirma, posteriormente, que, por dois motivos, em ―todos os países do mundo as populações rurais constituem o cerne das nacionalidades‖ (p. 47): Pela capacidade de trabalho, mantêm eles sempre elevado o nível da produção econômica; pela saúde física, mantêm em alta o índice biológico da raça, pois é com o sangue e o músculo forte do camponês que os centros urbanos retemperam a sua vitalidade. / O urbanismo é um mal nocivo à espécie humana. Os vícios, o artificialismo, o afastamento da vida natural, o ar impuro, a moradia anti-higiênica se conjugam para romper o equilíbrio orgânico do homem citadino, rebaixando-lhe o tônus vital. Mas o campo intervém e restaura-se o equilíbrio. A infiltração permanente de sangue e carne de boa têmpera, vinda dos campos, contrabalança o desmembramento das cidades (LOBATO, 2010d, p. 47-48).

Novamente relaciona-se o homem do campo ao desenvolvimento econômico do país, mas também o associa ao vigor da raça, esta tomada, como se percebe, como ―nacionalidade‖. As zonas urbanas, desprovidas dessas energias advindas da proximidade com a natureza, necessitariam do ―auxílio‖ da população rural para suprir as carências oriundas de hábitos degradantes e imposições do urbanismo. Segundo Lobato, no caso do Brasil, essa busca era em vão, pois a situação da população rural era inferior a da urbana, o que obrigava a importação de sangue estrangeiro. De acordo com ele, ―os homens mínguam de corpo, as mulheres são um rastolho raquítico incapaz de bem desempenhar sequer a missão reprodutora‖ (p. 48). Percebe-se que Monteiro adota uma postura de valorização do trabalhador nacional, em função de sua formação racial, ou seja, seria possível beneficiar-se das contribuições que o próprio povo brasileiro tinha a oferecer – já que a imigração europeia tinha sido paralisada pelos conflitos armados – desde que, primeiramente, se fosse capaz de curar esse Brasil doente. O conjunto de textos publicados no jornal paulista é finalizado pelo artigo ―As grandes possibilidades dos países quentes‖, no qual Monteiro analisa a questão do suposto ―determinismo climático‖, associando-o às possíveis colaborações da organização sanitarista que se desenvolvia. Inicialmente, afirma que, nas regiões de

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clima tropical, a ―vida animal‖ e ―vegetal‖ alcançam o estágio mais avançado da evolução (p. 94). A partir dessa afirmação, o articulista chega à conclusão de que o mesmo não ocorre com o homem, pois, com relação a este, o processo é ―degenerativo‖, o que leva Lobato a questionar-se o motivo da ruptura: ―Por que degenera o homem justamente onde, por impulso ambiental, devera alterar-se ao apogeu?‖ (p. 96) Segundo ele, ocorreu um ―atrofiamento das defesas naturais do corpo‖ no momento em que o homem distanciou-se da natureza e assumiu o comportamento debilitador da ―nova alimentação‖, da ―facilidade de transporte‖, da ―utilização de vestimentas‖, da ―vida em sociedade‖ e do ―urbanismo‖ (p. 97). Em consequencia disso: [...] o regime do direito e da moral, impostos pela vida em sociedade, anulou a força dos processos seletivos; os fracos defendidos pela lei, amparados e conservados artificialmente; o forte impedido de vencer e eliminar o fraco; a revogação, em suma, da lei da biologia lançou o Homo sapiens no despenhadeiro da degenerescência física. Biologicamente, o homem é um animal em plena decadência (LOBATO, 2010d, p. 97).

Se na análise de Monteiro Lobato sobre a questão bélica a associação às postulações de Charles Darwin sobre a evolução das espécies e a seleção natural dependia de interpretação, agora, prontamente, percebe-se a relação explícita do enunciado lobatiano à teorização do naturalista britânico, as quais foram transpostas ao plano humano pelos estudiosos do darwinismo social. O ―direito‖ e a ―moral‖ são colocados como uma criação fictícia ligada aos processos de ―civilização‖ e ―socialização‖ e que acarretaram no rompimento do curso natural da seleção humana, na qual o forte, mais do que vencer, eliminaria o fraco. A colocação é diretamente relacionável ao acontecimento narrado por Lobato sobre a reação do americano frente à ação do guarda-freio e que considerou horrível de acordo com as leis artificiais da sociedade, mas aceitável segundo as leis naturais, legitimadoras de sua superioridade. Além disso, o desconsolo com o desfecho falho da seleção natural é sinônimo de um desapontamento pela não mais predominância futura de certa espécie/raça e extinção das outras. A ideia salienta não a dominância sobre outras raças – e, consequentemente, seu mantimento – mas a sua eliminação. Entretanto, ―revogou-se a lei da biologia‖ e o homem, ao invés de evoluir, se degenerou. De volta ao âmbito do determinismo climático, Monteiro Lobato destaca que o progresso biológico do homem pode ter sucesso apenas nas zonas temperadas ou frias onde ―o mundo dos microorganismos não alça o colo, onde o parasitismo é

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quase nulo‖ (p. 97). Assim, devido a seu clima, os habitantes dessas regiões estariam livres de calamidades como a do Brasil, porém, teriam essa liberdade tirada quando se mudassem a localidades de clima quente, onde se expõem aos mesmos inconvenientes que padecem os habitantes naturais daquele espaço. Entretanto, a solução brasileira para o problema das imposições climáticas foi encontrada, a qual Lobato caracteriza como ―defesa artificial‖, a qual substituiria a ―defesa natural degradada‖: a higiene (p. 98). Através dela, o país poderia salvar-se da deterioração biológica em que se encontrava e desconstruir o suposto determinismo climático das zonas quentes. Essa mudança de pensamento quanto à situação do povo rural fez com que o escritor ―ressuscitasse‖ sua personagem Jeca Tatu e desse a ela uma nova face.

4.4.2 Jeca Tatu: A ressurreição

Em 1924, Monteiro Lobato publica uma nova história de ―Jeca Tatu‖ e essa proposta de renovação é perceptível a partir de seu título inicial – Jeca Tatu: A ressurreição – um novo começo, um ressurgimento, um voltar da morte. Posteriormente, a obra passou a ser chamada de Jeca Tatuzinho, devido a seu pequeno formato de distribuição, já que o texto ocupa pouquíssimas páginas, além de ser formado por capítulos com um número restrito de parágrafos. Segundo o narrador da referida obra, o caboclo Jeca Tatu era um ser desalentado, o qual residia numa casa em estado deplorável, sem o mínimo conforto. Era proprietário da terra onde morava, mas dono, também, de um esmorecimento que lhe impedia a inspiração de aproveitar a terra através da plantação. Tal fraqueza era notável nos grandes esforços que fazia para carregar uma pequena quantidade de lenha. Sua estagnação era, por ele, justificada por repetitivos ―– Não paga a pena‖ (LOBATO, 2010d, p. 103), os quais não eram manifestados apenas quando se tratava de ―beber pinga‖. A personagem lobatiana é, então, posta em comparação com seu vizinho italiano, próspero em suas atividades laborais, dada a sua isenção da preguiça que flagelava o caboclo. Devido à sua postura, Jeca era visto, pelos que lá passavam, como ―preguiçoso‖, ―bêbado‖ e ―idiota‖ (p. 104). A narrativa ganha novos contornos quando um médico, em razão da chuva, chega à casa de Jeca Tatu e, em uma conversa com o ―caboclo‖, identifica que a

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moleza e as dores que sente derivam de uma doença, a qual diagnostica como sendo ancilostomíase, mais conhecida como ―amarelão‖. Então, o esculápio receita um medicamento e lhe orienta a não mais andar descalço e não ingerir bebidas alcoólicas (p. 105). Em nova visita, o médico encontra Jeca Tatu em melhores condições e explica a ele as formas de contração daquela enfermidade. Daquele momento em diante, Jeca passou a crer na ―Ciência‖. Curado de suas moléstias, juntamente com sua família, ganhou forças: começou a plantação; carregava grandes feixes de lenha; cuidava dos animais; consertou e aumentou a casa. Objetivava enriquecer e o italiano se impressionava a cada novo avanço nas terras vizinhas. O caboclo aprendeu a falar inglês e implantou sistemas avançados de controle de sua fazenda, a qual ―tornou-se famosa no país inteiro‖ (p. 110). Por fim, seu sucesso o inspirou a ajudar os ―caipiras‖ da sua região e a ensinar as crianças o que havia aprendido: Meninos: nunca se esqueçam dessa história; e, quando crescerem, tratem de imitar o Jeca. Se forem fazendeiros, procurem curar os camaradas da fazenda. Além de ser para eles um grande benefício, é para vocês um alto negócio. Vocês verão o trabalho dessa gente produzir três vezes mais. / Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ter saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí (LOBATO, 2010d, p. 111).

Essas palavras finais demonstram uma das características essenciais de Jeca Tatuzinho: o caráter instrucional ou didático. Essa característica, comprovada na conclusão do texto, é construída no enredo da própria narrativa, com um panorama evolutivo da personagem, que vai de sua inércia, passa pelo conhecimento da ciência e pela cura, para, por fim, desencadear no progresso vivido pelo caboclo em função dos benefícios da boa higiene. O didatismo dessa obra lobatiana se reforça quando a obra passa a ser usada com interesse propagandístico dos medicamentos da empresa de Cândido Fontoura (1885-1974), pioneiro da indústria farmacêutica brasileira. Na versão publicitária, trechos são modificados e ganham referências diretas aos fármacos ―Ankilostomina Fontoura‖ e ―Biotônico Fontoura‖. A conclusão do texto de Lobato demonstra que, apesar da referência a Jeca Tatu, a questão higienista defendida pelo narrador se direciona não só ao caboclo, mas a todos os homens rurais, denominados como ―caipiras‖. Obvia e explicitamente, o texto de Monteiro Lobato é fruto de sua união aos projetos sanitaristas e apresenta pensamentos semelhantes aos postulados em seus artigos enfeixados em Problema vital. Segundo Lobato, o país necessitava prosperar

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economicamente, mas estava impossibilitado pela falta de mão de obra nacional em consequência dos altos custos de mantimento da imigração e pela ―incapacidade‖ do povo rural. Percebe-se que, apesar da ideia de um indivíduo que enriquece em função de sua cura, a esfera da saúde do povo do campo é, por fim, associada ao progresso por intermédio da multiplicação do trabalho. Ainda assim, vê-se que, na transição apresentada, a perspectiva do escritor paulista passou de um pessimismo determinista em direção ao caboclo a um otimismo progressista orientado ao homem rural brasileiro.

4.5 Negrinha

A obra Negrinha, em sua primeira publicação, em 1920, levava apenas seis contos. Moldava-se um ―Lobato editor‖ que buscava averiguar se era mais vantajoso publicar livros pequenos ou grandes (LOBATO, 1950b, p. 220). Posteriormente, na organização de suas ―Obras completas‖, acabou por acrescentar algumas produções que faziam parte da publicação O macaco que se fez homem, de 1923, bem como outros textos. A questão racial dessa obra lobatiana é marcada desde seu título, o qual é reflexo da titulação do conto que abre o conjunto de textos. Os dois primeiros textos analisados trazem, como pano de fundo, uma temática relevante para discussão que aqui se propõe: o período pós-abolição. Os outros dois tratam a problemática racial de forma mais singela.

4.5.1 A beleza angelical branca

A partir de seu título, pode-se concluir que o texto lobatiano será conduzido pelo viés racial e essa demarcação é posta em cena desde as primeiras linhas do conto, nas quais o narrador descreve a personagem protagonista segundo sua fisionomia e sua situação familiar. De acordo com ele, ―Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados‖ (LOBATO, 1959g, p. 3). Vê-se que a nomeação dada pelo narrador à menina é, diretamente, associada à cor de sua pele e essa característica se manterá no decorrer da narrativa, na qual a personagem levará consigo a demarcação racial reforçada por essas primeiras palavras. Essa indicação parte, quase que na

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totalidade das ocorrências, a partir da voz do narrador, com exceção de um momento em que ela mesma se apresenta como ―Negrinha‖, o que demonstra que sua identidade havia sido formada nessas circunstâncias. No entanto, não há na narrativa nenhuma fala direta de outra personagem se referindo a ela com essa nomeação. Já o adjetivo ―pobre‖, desde já, fixa a existência de certo compadecimento do narrador devido a ter perdido sua mãe enquanto criança. Negrinha nasceu na senzala, filha de mãe escrava, mas, devido a sua perda, acabou sob os cuidados de ―dona Inácia‖, antiga patroa de sua mãe. A ausência materna, no entanto, não lhe tirou a condição social e, até os últimos dias de sua vida, teve como principal espaço de vivência a cozinha. Além disso, sendo que era antiga dona de escravos, Inácia extraiu daí a habilidade de maltratar, ainda mais por não ter gerado filhos e, por conseguinte, não tolerar choro de crianças. Essas intolerâncias de Inácia acabavam por surtir efeito em Negrinha, cuja pobre carne, de acordo com o narrador, ―exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o imã exerce para o aço‖ (p.5). Isso quando não desencadeavam castigos mais severos, como quando pôs um ovo quente na boca da menina, tampando-a com a mão para que não o cuspisse e, ao mesmo tempo, não gritasse. O tratamento dado a filha de uma ex-escrava era acompanhado de uma multiplicidade de apelidos com intuito pejorativo: ―pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo‖, etc. (p. 4-5). Ironicamente, o narrador lobatiano relaciona a disposição de dona Inácia em tomar conta de Negrinha com uma postura de acordo com os preceitos religiosos e morais, caracterizando-a com adjetivos de exaltação de sua suposta bondade: ―Excelente senhora‖; ―Ótima, a dona Inácia‖; ―Uma virtuosa senhora, em suma‖ (p. 3). Sua atitude era tida por ela mesma como uma obra de bondosa caridade e admirada pelo padre da região. Suas crenças em uma superioridade branca não foram modificadas pela ―Abolição da Escravatura‖: Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! ―Qualquer coisinha‖: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: ―Como é ruim, a sinhá!‖... / O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana (LOBATO, 1959g, p. 5). [grifos do autor]

As palavras do narrador demonstram que dona Inácia não se adaptou a ―igualdade‖ instaurada com a transição de regimes, nem as consequências impostas

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à continuidade de uma postura de base escravista, já que a polícia intervinha em atitudes consideradas sem relevância, como o açoitamento ou a morte de negros, decorrentes de ações tidas como repreensíveis. A impossibilidade de dar prosseguimento à escravidão teria lhe tirado apenas o direito, mas não a vontade de dominação, o que refletia na maneira como procedia com Negrinha. Para o narrador, Inácia foi mulher pela primeira vez em sua vida no momento em que se apiedou da menina e permitiu que brincasse com suas sobrinhas (p.10). A chegada dessas meninas na casa foi, para Negrinha, como a chegada de ―dois anjos do céu‖ e deram a conhecer a ela uma diversidade de brinquedos que, até então, desconhecia, dentre os quais uma boneca loura, a qual, prontamente, reconheceu como a imitação de uma criança (p. 9). Os dias seguidos no quintal a brincar com as sobrinhas de dona Inácia fez florescer em Negrinha a consciência de que possuía uma alma e mesmo a partida das meninas não foi capaz de arrancar-lhe aquela percepção. O conhecimento de si e a permanência de sua exclusão na cozinha a tornou triste e fizeram com que parasse de comer e, por conseguinte, a mataram. Segundo o narrador: Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentiu-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça – abraçada, rodopiada. / Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta. / Mas imóvel, sem ruflar as asas. // Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou... / E tudo se esvaiu em trevas (LOBATO, 1959g, p. 11)

O conto lobatiano demonstra a formação de uma autoidentificação por parte da personagem protagonista. Negrinha se conhecia a partir de sua indiferença, definida pela sua exclusão na cozinha da casa, pelas agressões que constantemente sofria e pela demarcação racial, carregada desde seu nome e desprezada por dona Inácia. A descrição da chegada das sobrinhas de dona Inácia, segundo a perspectiva de Negrinha, demonstra a sua própria conclusão de que era inferior: sendo negra, confinada e triste, enquanto as meninas eram brancas, livres e felizes, a ponto dessas qualidades permitirem uma comparação a seres celestiais como os anjos. A colocação lembra o estudo de Franz Fanon (1952), no qual declara a formação de um complexo de inferioridade nos indivíduos que sofreram um ―sepultamento de sua originalidade cultural‖ (FANON, 2008, p. 34).

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No momento em que desfrutou a vida de criança por alguns dias, a menina descobriu sua humanidade e não se conformou quando, finda as férias, voltou à sua situação marginal. Não obstante, o reconhecimento dessa humanidade, possivelmente, não foi capaz de remodelar a identificação que tinha de si mesma. De acordo com o narrador, depois daquelas férias, Negrinha deixou de ter olhos assustados e passou a ter olhos nostálgicos (LOBATO, 1959g, p. 11) e, em um momento extasiante anterior a sua morte, viu-se cercada de bonecas louras de olhos azuis e de anjos. Sua concepção de beleza celestial foi formada naquele dezembro, no instante da chegada das meninas, representadas também naquele brinquedo que recém conhecia. Obviamente, seu momento de alucinação demonstra um novo resgate, onde, mais uma vez, só que agora em definitivo, pôde abandonar o isolamento da cozinha e unir-se aos anjos e à ―linda boneca loura‖. Já o narrador, em diferentes momentos, demonstra piedade com as acometidas sofridas por Negrinha, além de, ironicamente, manifestar uma criticidade reprovadora da conduta de dona Inácia e a sua imagem mantida perante a igreja. Não obstante, ao afirmar que ―jamais [...] ninguém morreu com maior beleza‖ (p. 11), acaba por demonstrar condescendência com a criação de Negrinha de uma imagem angelical fundamentalmente branca.

4.5.2 “O jardineiro Timóteo”

―O jardineiro Timóteo‖ apresenta a história de um ex-escravo que, há quarenta anos, se dedicava ao cuidado dos jardins da casa para qual trabalhava. O longo período envolvido com aquela atividade laboral fez com que Timóteo criasse uma ligação sentimental com as flores pelas quais era responsável, a ponto de nomeá-las em homenagem as mais distintas pessoas que fizeram ou faziam parte da história da casa. O canteiro principal representava a figura do ―Senhor velho‖, ―tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta d‘alforria muito antes da Lei Áurea‖ (LOBATO, 1959g, p. 41), e nenhuma outra planta podia ultrapassar sua altura, pois não eram dignas de olhá-lo de cima. Em outros pontos, um canteiro destinado ao ―Senhô-moço‖ e outros dois em forma de coração, com as flores mais alegres, eram associados à ―Sinhazinha‖. Segundo o narrador, ela: [...] desde menina, se habituara a monopolizar os carinhos da família e a dedicação dos escravos, chegando esta a ponto de, ao sobrevir a Lei

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Áurea, nenhum ter ânimo de afastar-se da fazenda. Emancipação? Loucura! Quem, uma vez cativo de Sinhazinha, podia jamais romper as algemas da escravidão? (LOBATO, 1959g, p. 43).

A maior parte do conto lobatiano trata de demonstrar a sensibilidade de Timóteo para com as flores e a relação que a personagem estabeleceu entre cada uma delas e cada um dos indivíduos ou animais associados à casa. Não obstante, as referências ao ―Sinhô velho‖ expostas anteriormente demonstram a existência de uma relação paternalista entre a personagem protagonista e o antigo senhor de escravos. Os pontos apresentados pelo narrador demonstram que longe de o trabalho forçado gerar em Timóteo um sentimento negativo em direção a seu antigo proprietário, a figura do ―Sinhô velho‖ representava, para ele, algo paternal e afetivo, cuja atitude de libertá-lo mesmo antes da Abolição era tida como uma prova de generosidade e amizade. Esse sistema paternalista de relações entre patrões e empregados se estende à dedicação, estimulada por Sinhazinha, de todos os subordinados. Os dois exemplos demonstram a existência de um servilismo deliberado, possíveis reflexos do sistema escravagista que impunha a submissão. Timóteo defendia seu jardim acima de todas as coisas e sustentou-se mesmo após a tentativa fracassada do ―Sinhô-moço‖ de arrancar as plantas antigas e, no seu lugar, cultivar espécies modernas, conhecidas por ele em um passeio em São Paulo (p.48). Não obstante, em determinado dia, a família acabou vendendo a fazenda e deixando para trás o jardineiro Timóteo a servir os novos proprietários. Desolado, o jardineiro chegou à conclusão que ―branco não tem coração...‖ (p. 49), os deixaram para trás, ele e seu jardim, os quais cria que faziam parte da família. Os atuais patrões, com ares modernos, decidiram reformar a antiga fazenda, pois ecoava uma essência do passado e, obviamente, de Timóteo fazia parte dos aspectos antiquados do local. Mais do que apenas ver o resultado de todo o seu labor ir-se por água abaixo, o ex-escravo teria que fazê-lo com suas próprias mãos: – E para não perder tempo, enquanto o Ambrogi não chega, ponho aquele macaco a me arrasar isto – disse o homem apontando para Timóteo. / – Ó tição, vem cá! / Timóteo aproximou-se, com ar apatetado. / Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes? (LOBATO, 1959g, p. 50)

Vê-se que os adjetivos usados pelo novo patrão de Timóteo para referir-se e para dirigir-se ao jardineiro têm uma finalidade pejorativa. Primeiramente, a referência feita à personagem é realizada a partir de uma animalização, ao associá-

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lo a um macaco; e, posteriormente, é chamado por ―tição‖, cuja significação está relacionada à sujidade. A decisão dos atuais proprietários resultaria no fim do jardim cuidado por Timóteo durante tantos anos e com tanta dedicação, mas o ex-escravo se negou a realizar a solicitação. Depois de praguejar a fazenda, o velho serviçal decide ―morrer lá na porteira como um cachorro fiel‖ (p. 51) e o amanhecer revela seu corpo falecido junto à entrada da herdade. Percebe-se que a morte de Timóteo se projeta a partir da percepção da insensibilidade dos ―brancos‖, evidenciada na venda da fazenda e no abandono do servo que dedicou grande parte de sua vida para cuidar de um jardim que, segundo ele, estava tão ligado à família a que imaginava pertencer. A chegada dos compradores e a sentença eliminatória do jardim ―antimoderno‖ fizeram com o jardineiro preferisse a morte a fazer parte da aniquilação das plantas com as quais mantinha estreita relação de amizade. Nas linhas iniciais do conto, o narrador lobatiano afirma que Timóteo era ―um preto branco por dentro‖ (p. 41). Por conseguinte, sua caracterização, observável ao decorrer da narrativa, está relacionada ao predomínio do sentimento e à capacidade de apreensão da essência das coisas. Assim, essas qualidades atribuídas ao jardineiro são associadas ao branco, o que demonstra o abandono de sua incapacidade sensitiva e a absorção de uma aptidão que é exclusiva da ―raça branca‖. A designação dada pelo narrador está em consonância com as colocações de seu criador ao destacar a possibilidade de um ―branqueamento moral‖ do negro, as quais foram destacas em declarações feitas em direção à personagem da obra de Godofredo Rangel, aos pedreiros que intervieram na questão do estilo brasileiro e à atitude do sujeito que estava disposto a ajudar o país ao investir suas economias no projeto petrolífero brasileiro.

4.5.3 “Bugio moqueado” e “Os negros”

Os dois últimos contos analisados se aproximam em alguns pontos: primeiramente, pela existência de um narrador que, em grande parte da narrativa, abandona o posto de enunciador e passa a ser ouvinte da narrativa central; em segundo lugar, por apresentar características com propósito ―assustador‖. O primeiro deles – ―Bugio moqueado‖ – é iniciado com o transcorrer de um ―jogo de pelota‖, onde o narrador, ao assistir a partida, passa a escutar a conversa entre dois homens

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posicionados a seu lado. Um deles narra a história do dia em que aceitou o convite para jantar na casa de um fazendeiro conhecido como ―coronel Teotônio‖, do qual havia comprado algumas cabeças de gado. Na hora do jantar, percebeu que o fazendeiro, tão sombrio quanto sua casa, estava forçando a própria esposa a comer algo misterioso. Notou, posteriormente, que a dispensa guardava algo preto e estranho pendurado a um gancho, o que, segundo o anfitrião, tratava-se de ―bugio moqueado‖ – a carne defumada de uma espécie de macaco. Para o convidado, comer a carne desse tipo de animal era ―o mesmo que comer gente‖ (LOBATO, 1959g, p. 36) e a estranheza ao tomar conhecimento daquela situação fez com que decidisse nunca mais voltar àquele lugar. Alguns anos depois, o comprador de gado encontrou um bom ajudante para o cuidado com os animais. Segundo ele, ―negro quando acerta de ser bom vale por dois brancos. Esteves valia quatro‖ (LOBATO, 1959g, p. 37). Com o aumento do trabalho, perguntou a Esteves se não tinha algum irmão que tivesse o mesmo empenho, para ajudar nos afazeres e foi então que tomou conhecimento dos fatos verdadeiros relacionados a Teotônio e sua esposa. Segundo o subordinado, seu único irmão era funcionário do coronel, mas havia sido morto pelo fazendeiro quando este chegou à conclusão de que sua mulher estava mantendo um caso com o empregado. Depois da morte, teria sido ―moqueado [...] como um bugio. E comido, dizem. Penduraram aquela carne na despensa e, todos os dias, vinha à mesa um pedacinho para a patroa comer‖ (p. 39). Primeiramente, nota-se a necessidade tida pelo criador de gado, ao exaltar a atuação de Zé Esteves, em demarcar racialmente as equivalências: um homem negro bom trabalhador valia, não por dois outros trabalhadores, mas por dois brancos. A comparação elimina a possibilidade de que esses indivíduos que se equiparam a um ―negro‖ competente fossem, também, ―negros‖ e, por conseguinte, demonstra a crença em uma distinção entre os sujeitos de ―raças‖ diferentes. Sobre o desfecho final, é perceptível que a razão que levou o fazendeiro àquela atitude não tinha um fundamento racial, mas estava associada ao problema da traição. Não obstante, nota-se que, novamente, uma personagem lobatiana negra é associada, por outra personagem, a um macaco. O canibalismo a que foi forçada a esposa de Teotônio, foi apresentada por ele, ironicamente, como um processo natural de alimentação, onde a refeição era, simplesmente, um animal comestível. Nesse

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momento, o método nutricional apresentado pela personagem do conto difere das colocações feitas por Monteiro Lobato no que procurou denominar ―hostefagia‖, palavra que substituiria ―antropofagia‖ a fim de eliminar seu peso semântico negativo. Em ―Bugio moqueado‖, ainda que se mantenha a ideia de matar o inimigo e fazê-lo de alimento, o conflito era familiar e a ingestão da carne humana era feita, compulsoriamente, também pelo inimigo, como forma de punição a sua afronta, dando-lhe um caráter mais sinistro do que natural. A outra caracterização racial do conto pode ser constatada na conclusão de Esteves de que aquela história de adultério resultava do sortilégio de ―Liduinha‖, uma ―mulata amiga do coronel‖ (p. 38). Vê-se que, na voz de uma personagem ―negra‖, Liduinha é racialmente identificada e relacionada à crueldade provinda de cerimônias mágicas. Já com relação ao texto ―Os negros‖, Monteiro teve propósitos mais amplos. A produção foi publicada separadamente, pela Sociedade Editora Olegário Ribeiro, em 1920. Não obstante, levava o subtítulo ―ou Ele e o Outro‖ e uma nota introdutória que a caracterizava como uma ―novela‖ com características de ―terror‖. O narrador personagem de ―Os negros‖ afirma que a chuva fez com que ele e seu companheiro, Jonas, solicitassem abrigo em uma antiga propriedade, sobre a qual se afirmava ser mal-assombrada. Recebidos por um homem idoso e ex-escravo da fazenda, o qual lhes ofereceu abrigo e comida apresentado-se com explícito servilismo: ―– Tio Bento, pr‘a [sic] servir os brancos‖ (LOBATO, 1959g, p. 71). Posteriormente, ao ser indagado por Jonas sobre o tempo da escravidão, Bento afirma que o período não ―deixou saudades‖ e, como réplica, o visitante declarou: – Para vocês, pretos; porque entre os brancos muitos há que choram aquele tempo de vacas gordas. Não fosse o Treze de Maio e não estava agora eu aqui a arrebentar as unhas neste raio de látego, que encruou com a chuva e não desata. Era servicinho do pajem... (Idem, Ibidem, p. 71).

Como se pode ver, Jonas lamenta o fim da escravidão, pois, dada a proibição do trabalho forçado, muitos ―brancos‖, como ele, passaram a desempenhar funções antes executadas pelos escravos ―negros‖. Consequentemente, a expressão ―tempo de vacas gordas‖ remete a um período onde se tinha um crescimento econômico maior com esforço limitado, ou seja, era um tempo de fartura sem que o ―homem branco‖ desempenhasse funções fatigantes. Sequencialmente, por solicitação dos visitantes, Bento os leva para passar a noite na casa grande. Bem como em ―Bugio moqueado‖, em ―Os negros‖ instaura-se um narrador que, no decorrer da narrativa, perde a voz enunciativa e cede a palavra

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a um novo narrador, guiado sob um efeito sobrenatural decorrente da ―fazenda mal- assombrada‖, um espírito, manifestado no corpo de Jonas, o qual afirma chamar-se Fernão. A partir de suas palavras, começa-se a narrar uma história paralela a inicial, na qual conta como ocorreu, no tempo da escravidão, sua vinda de para o Brasil, e como acabou apaixonando-se por Izabel, filha do Capitão Aleixo, antigo dono daquela propriedade. No viés da discussão que este trabalho propõe, a caracterização de Aleixo é um ponto relevante da narrativa, devido à maldade e sensibilidade nula da personagem com seus escravos. Segundo Fernão: Com o tempo desenvolveu-se nele a crueldade inútil. Não se limitava a impor castigos: ia presenciá-los. Gozava de ver a carne humana avergoar- se aos golpes do couro cru. / Ninguém, entretanto, estranhava aquilo. Os pretos sofriam como predestinados à dor. E os brancos tinham como dogma que de outra maneira não se levavam os pretos. / O sentimento de revolta não latejava em ninguém, salvo em Izabel, que se fechava no quarto, de dedos fincados nos ouvidos, sempre que na casa-do-tronco o bacalhau arrancava urros a um pobre infeliz (LOBATO, 1959g, p. 102).

Nota-se que, novamente, em uma criação lobatiana, surge uma personagem marcada por uma frieza relacionada à época da escravidão. Não obstante, as palavras de Fernão demonstram que a perversidade de Aleixo alcançava graus extremos, pois chega ao âmbito da aprazibilidade em presenciar as punições que ordenava. Além disso, vê-se que as atitudes do capitão eram tidas como ―naturais‖, pois criam que a violência era a única forma de manter o controle sobre os ―negros‖, exceto por Izabel que não suportava ouvir os gritos de sofrimento dos castigados. Já a falta de reação por parte dos escravos é tida como uma consciência de que a escravização fazia parte de seus destinos, o que, paralelamente, significa que sua subalternidade era inevitável e sua inferioridade inquestionável. Esses atributos negativos de Aleixo não impediram que Fernão se aproximasse da filha do patrão, com a ajuda de Liduinha, a mucama preferida de sua amada. Depois de solicitar a ajuda da criada para que conseguisse se aproximar de Izabel, Fernão se compadece da mulher por sua situação enquanto escrava: Afirma ele: ―Pobre criatura! Tinha a alma irmã da minha e foi ao compreender su‘alma que pela primeira vez alcancei todo o horror da escravidão...‖ (p. 87). A partir da colocação anterior, pode-se inferir que a sensibilidade de Liduinha para com os sentimentos do português levou a uma modificação das concepções que Fernão tinha a respeito do regime que vigorava, fazendo com que passasse a acreditar em um sentido negativo para aquele sistema de trabalho e de relações.

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A compreensão da escrava e a proximidade que mantinha com a filha do patrão facilitaram o acercamento entre Fernão e Izabel, resultando no começo de um romance às escondidas. Para ela, os animais eram felizes devido à sua liberdade, enquanto eles eram ―ainda mais escravos que os escravos do eito...‖ (p. 101). O sofrimento do amor proibido era, para a filha do escravocrata, mais intenso que o labor movido pela violência; e não tardou para que Aleixo tomasse conhecimento da relação que ela mantinha com o serviçal. O temperamento do capitão, obviamente, não se desfez e, como castigo, Fernão foi surrado pelos capatazes do fazendeiro e, quando tomou consciência de si, estava preso ao tronco, de onde presenciou a abertura de ―um largo rombo no espesso muro de taipa‖ (p. 105): iam emparedá-lo vivo. Nesse instante, Jonas volta ao normal e retorna-se ao narrador inicial que solicita a Bento que conte os destinos de Izabel e Liduinha. Segundo o ex-escravo, a filha de Aleixo foi mandada para a Corte e, segundo diziam, enlouqueceu e foi mandada a um hospício. Já Liduinha foi morta a chicoteadas. De acordo com Bento, ―o Gabriel e o Estevão, os carrascos, retalharam seu corpinho de criança com os rabos do bacalhau...‖ (p. 106). O título e o subtítulo do texto lobatiano demonstram, desde o princípio, as duas instâncias presentes na narrativa. De um lado, ―ou Ele e o Outro‖ refere-se, respectivamente, a Jonas e ao espírito de Fernão manifestado no viajante. Pela voz sobrenatural de Fernão, narra-se um romance proibido entre a filha de um fazendeiro brasileiro e um subalterno português. Já a titulação ―Os negros‖ pode ser associada ao contexto escravocrata no qual se desenvolve a história paralela à inicial, onde se manifesta a severidade de um proprietário de escravos que considerava inútil a vida daqueles indivíduos se não para os proveitos laborais, ao ponto de considerar agradável assistir as punições físicas que ordenava. A permanência do título e a eliminação do subtítulo na inclusão do texto em Negrinha parecem salientar a questão da escravidão no conto de Lobato. A respeito do destino dado a Fernão, a atitude de Aleixo colocou o subordinado no mesmo patamar dos escravos de seu patrão. O amor por Izabel levou Fernão a uma proximidade ainda maior com a questão da escravidão, pois fez com que sofresse na pele as mesmas consequências da crueldade que diversas vezes presenciou nos açoitamentos aos escravos. No caso de Liduinha, morreu como muitos outros que, escravos como ela, ultrajaram seus ―proprietários‖. Por

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outro lado, pode-se comparar alguns aspectos dessa narrativa ao conto ―Bugio moqueado‖, no qual a personagem Esteves afirma que a ideia da ligação entre seu irmão e a patroa provinha de alguma armação de uma ―mulata amiga do coronel‖. A aproximação entre as personagens ultrapassa a coincidência de nomes – Liduinha. No primeiro caso, a responsabilização pela morte de uma personagem e tortura de outra é criada a partir de uma suposição de Esteves, enquanto no segundo, a personagem Liduinha é posta, efetivamente, como possibilitadora do desfecho final. Nos dois contos, ainda que de formas diferentes, tem-se a instauração da ideia de influência de uma personagem, racialmente identificada, na atitude inexorável do ofendido. Nos dois casos, também, as personagens que possuem maior proximidade com o repreendedor – a esposa do fazendeiro, em ―Bugio moqueado‖; e Izabel, em ―Os negros‖ – recebem punições menos severas que a das outras personagens.

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5 As ideais raciais de Monteiro Lobato II

5.1O presidente negro ou O choque das raças

Assim como afirma Edgard Cavalheiro, a ideia de escrever uma obra onde se instaurasse a questão da previsibilidade pode ser observada nas colocações de Monteiro Lobato em carta a Rangel já no ano de 1905 (CAVALHEIRO, 1956a, p. 309), mas foi apenas em meados dos anos de 1920 que sua ideia amadureceu e ganhou forma. Em carta a Godofredo Rangel, em julho de 1926, Lobato expõe ao amigo as ideias que moldariam o romance que estava escrevendo: Sabes o que ando gestando? Uma ideia-mãe! Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos. Já comecei e caminha depressa. Meio a Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente preto! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N, inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes deem pela coisa (LOBATO, 1950b, p. 293-294). [grifos do autor]

Prontamente, o trecho acima sintetiza o primeiro romance lobatiano, mas opta-se por reservar a análise literária para as páginas seguintes. Ainda assim, cabe destacar que a produção da obra se deu como resultado da possibilidade – e conveniência, dados seus problemas financeiros – de publicar algo nos Estados Unidos. Segundo Cavalheiro, a obra foi escrita em apenas vinte dias e publicada pela primeira vez, no ano de 1926 e em forma de folhetim, no jornal carioca ―A Manhã‖, sob o título O choque das raças ou O presidente negro21 (CAVALHEIRO, 1956a, p. 309-310). Além disso, o biógrafo destaca que Lobato pensava chamar seu primeiro romance de O Raio Louro, título o qual fez parte de uma circular que se direcionaria aos livreiros brasileiros (Idem, Ibidem, p. 310).

21 O título sofreu modificações com o tempo, passando a ser chamado pela forma inversa – O presidente negro ou O choque das Raças – e, posteriormente, apenas O presidente negro.

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5.1.1 Os Estados Unidos em 2228

O primeiro e único romance de Monteiro Lobato tem como narrador ―Ayrton Lobo‖, o qual narra como, por exaltação resultante de um Ford novo, acabou acidentando-se enquanto se deslocava para realizar uma atividade para empresa onde trabalhava. Coincidentemente, o desastre ocorreu próximo da propriedade do professor Benson, homem conhecido por jogar no Câmbio ―com tal segurança que não perdia‖ (LOBATO, 2008a, p. 24). Desacordado, Ayrton foi socorrido e levado para a residência de Benson, onde permaneceu até que voltasse a si e pudesse tomar conhecimento do resgate. Ademais da acolhida, o professor oferece ao antigo funcionário da empresa ―Sá, Pato & Cia‖ a função de ―confidente‖, pois já via aproximar-se o fim de seus dias e desejava ter alguém para quem contar a história de sua vida, desde que tivesse, como simples obrigação, não revelar nada a ninguém fora daquela casa (p. 30). Dessa maneira, o professor Benson expõe a Lobo suas teorias a respeito da vida. Segundo ele, ―a vida na Terra é um movimento de vibrações do éter, do átomo, do quer que seja uno e primário‖ (p. 47), modificadas por uma única ação do ―interferente‖, o qual ―poderá para outros ter o nome de Deus, por exemplo, ou Vontade‖ (p. 48). A teoria do professor Benson tem como fundamento a ideia de que a vida, sendo uma vibração já interferida do éter, é uma determinação, ou seja, o futuro não passa de algo inevitavelmente estabelecido. A partir dessa premissa, o professor criou, depois de longos anos de experiências, uma máquina capaz de simular os acontecimentos futuros: o ―porviroscópio‖. Em outras palavras, o futuro, apesar de ainda não existir, poderia ser visto, ou ainda, predeterminado, o que explicava suas apostas infalíveis. Benson morava com sua filha, Miss Jane, com quem dividia seus conhecimentos e as observações do porvir. Enquanto seu pai se detém a explicar o funcionamento de sua invenção, Jane compartilha ao confidente os acontecimentos já observados no ―porviroscópio‖ e, nesse instante, surge a primeira problemática racial destacada por ela nos anos futuros. Jane afirma que, no ano de 3527, pode notar na população francesa ―evidentes sinais de mongolismo‖, com os quais ela e seu pai ficaram ―perplexos‖. Somente a análise de anos mais próximos pode explicar que se tinha ―derramado pela Europa os mongóis e substituído à raça branca‖ (p.

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64). A explicação para a vitória do ―amarelo‖ sobre o ―branco‖ é definida por Jane segundo duas circunstâncias básicas: ele ―come menos e prolifera mais. Só se salvará da absorção o branco da América‖ (p. 65). A afirmação do inexorável ―amarelamento europeu‖ foi, para Ayrton, uma surpresa desagradável, a qual considerou uma ―catástrofe‖. Percebe-se que, para o narrador-personagem, o desaparecimento do ―branco europeu‖ depois de uma supressão mongol era como se o continente tivesse absorvido o mais alto grau de negatividade, decorrente da substituição e rompimento da ―primazia branca‖. No entanto, a filha de Benson não possuía a mesma opinião, dada a aceitação da inevitabilidade determinista que movia todas as coisas. Todas aquelas novidades empolgaram a Ayrton, mas nada chamou mais sua atenção do que ―o choque das raças‖ que ocorreria nos Estados Unidos, no ano de 2228 (p. 73). Entretanto, o estado de saúde do professor piora, ocasionando sua morte; mas antes, prevendo sua partida, Benson declara a sua filha: ―Queimei toda a papelada relativa e desmontei as peças mestras dos aparelhos. O que resta não tem significado nenhum e não poderá ser restaurado‖ (p. 78). Sem o ―porviroscópio‖, Jane decide contar a Lobo sua experiência com os acontecimentos no país norte- americano, além de propor-lhe a ideia de que, com a história narrada, escreva um livro. Nessas circunstâncias, Ayrton passa a frequentar a casa de Miss Jane todos os domingos, com o intuito de ouvi-la narrar os fatos futuros daquele país. Dentre as primeiras informações dadas por Jane, está a caracterização dos Estados Unidos segundo sua formação racial: [...] que é a América senão a feliz zona que desde o início atraiu os elementos mais eugênicos das melhores raças europeias? Onde há força vital da raça branca senão lá? [...] Ondas sucessivas dos melhores elementos europeus para lá se transportaram. Depois vieram as leis seletivas da emigração, e as massas que a procuravam, já de si boas, viram-se peneiradas ao chegar. Ficava a flor. O restolho voltava. Note o enriquecimento de valores humanos que isso representou para aquela nação (LOBATO, 2008a, p. 90-91).

A qualificação inicialmente dada aquele território, prontamente, designa como ―infeliz‖ todas as regiões que não tiveram a mesma constituição racial. Além disso, Jane assinala a existência de diferentes raças europeias, hierarquizadas segundo características que tornam umas ―melhores‖ e outras ―piores‖. A partir dessa crença em uma disparidade entre estas ―raças‖, ela destaca a capacidade dos Estados

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Unidos em instigar a vinda dos tipos mais eugênicos das ―raças superiores‖. Por conseguinte, vê-se que os ideais de Miss Jane partem das premissas da teoria eugênica, fundada por Francis Galton, segundo a qual, além de existir uma relação de superioridade e inferioridade entre os homens, há uma escala que categoriza a preeminência em diferentes graus, formando uma pirâmide em cujo topo estaria o mais bem dotado racialmente. Assim, o país norte-americano teria sido formado por sujeitos que ocupavam o nível mais elevado dessa classificação. Além disso, teria contribuído para tal constituição o controle de entrada de emigrantes no país, através da seleção de indivíduos eleitos entre um grupo que já possuía qualidades relevantes, a fim do enriquecimento de valores humanos no local. A perda de seus melhores elementos teria, então, auxiliado o processo de ―mongolização‖ da Europa (p. 91). Ayrton, a pesar de perceber um poder de persuasão nas palavras de Jane, questionou sua teoria sobre aquela formação racial, ao considerar que, além dos europeus que para lá rumaram de forma espontânea, faltou-lhe a referência aos negros levados para o trabalho escravo por imposição. Jane não havia ignorado o dado, apenas o deixado para inferência de que esse foi ―o único erro inicial, cometido naquela feliz composição‖ (p. 92). A conclusão apresentada por ela centraliza a dicotomia entre ―felicidade/tristeza‖ ao pôr em oposição paralela a relação ―branco/negro‖ respectivamente. A princípio, a entrada dos negros por via da escravidão teria sido um empecilho para o sucesso total dos Estados Unidos. A interpretação inicial de Ayrton para a decisão norte-americana foi de que a bipartição racial do país era insolúvel e ufanou-se do Brasil por ter solucionado o problema da multiplicidade de raças ao permitir o seu livre contato, a fim de branquear a população gradativamente a través da miscigenação. Por conseguinte, sua colocação permite inferir que ele também avaliava a multiplicidade racial como sendo um problema, no qual o branco surgia como uma idealização e o negro como o constituinte negativo dessa diversidade. No entanto, Jane discorda de sua afirmação, pois a fusão teria ―estragado as duas raças‖, ou seja, ―o negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter, consequente a todos os cruzamentos entre raças díspares‖ (p. 92). Nota- se que os negros são caracterizados como detentores de elevada força corpórea resultante de sua selvageria, enquanto os brancos são postos como possuidores de

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um caráter notável. A mestiçagem é vista, assim, como uma forma degradante das qualidades primordiais de cada um desses grupos, devido ao cruzamento entre raças, essencialmente, ―desiguais‖. Ayrton Lobo se surpreende com a postura de Jane ao considerar mais eficiente a instauração de uma ―barreira de ódio‖ entre as raças. Para ela, esse ódio, melhor representado pela palavra ―orgulho‖, impediria a degeneração racial e manteria cada uma delas em ―relativa pureza‖ (p. 92-93). Além disso, afirma Jane, ―não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas. O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica; O ódio criou na América a glória do eugenismo humano...‖ (p. 93). Percebe-se que a cisão que evitou o contato entre negros e brancos é reputada por Jane como uma ufania racial de cada um deles, que, consequentemente, teria aperfeiçoado o patrimônio genético do branco e formado o homem perfeito. Por outro lado, a falta desse orgulho no Brasil impediria que, no país, se formasse tal arquétipo humano. A cada novo encontro para dar continuidade à narração dos acontecimentos, Ayrton volta com novas inquietações. Dessa vez, não conseguiu chegar à conclusão de como, dada sua desproporcionalidade numérica, a população ―negra‖ poderia apresentar perigo à ―branca‖. De acordo com Miss Jane, para controlar o crescimento da população, destituiu-se a promoção da imigração europeia em concomitância com: [...] o surdo das ideias eugenísticas de Francis Galton. Deu-se, então, a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiriam em avultar em quantidade. Foi a maré montante da pigmentação. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso (LOBATO, 2008a, p. 97).

Percebe-se que a diminuição do desequilíbrio entre as ―raças‖ derivou, além da própria investida dos negros em incrementar o seu grupo populacional, de duas ações da camada branca da sociedade norte-americana: primeiramente, o fechamento das portas do país para a entrada de imigrantes europeus e, posteriormente, o direcionamento da preocupação para o âmbito aprimoramento eugênico. Assim, entende-se que a própria postura daquele estrato da população teria colaborado para a diminuição da desvantagem numérica dos negros. Ademais, é perceptível que a instituição criada tinha como objetivo gerar meios de selecionar a humanidade segundo suas próprias aspirações, pois sua denominação remete,

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inevitavelmente, à teoria de ―seleção natural‖ cunhada por Charles Darwin e transpostas ao âmbito humano pelos darwinistas sociais. A artificialidade estaria, então, fixada com o intuito de efetivar as premissas de um darwinismo social falho, onde não teria se cumprido o princípio de que o melhor equipado prevaleceria naturalmente. Segundo Jane, com o surgimento do Ministério surgiram normas que colaboraram para o aprimoramento da população norte-americana, como, por exemplo, o estabelecimento da antiga lei espartana contra os que nascem com deficiências físicas (p. 97). Novamente, as considerações da filha de Benson causaram o espanto de Ayrton, mas, como antes, ela possuía a justificativa necessária para o seu entendimento. Aos olhos da moça, ―entre cortar no início o fio da vida a uma posta de carne sem sombra de consciência e deixar que dela saia o ser consciente que vai vegetar anos e anos na horrível categoria dos ‗degenerados‘, a crueldade está no segundo processo‖ (p. 98). Vê-se que a ―desvio físico‖ é colocado como a ausência de qualidades ansiadas segundo a teoria eugênica e a privação da vida da criança, enquanto irracional, era feita como um processo de redenção, o que anularia o seu caráter cruel. Enquanto a lei espartana resolvia o problema da esfera física, uma lei de esterilização dava conta dos ―desgraçados por defeito mental‖. Por conseguinte, percebe-se que a legislação do país levava a adoção de uma eugenia de fundo ―negativo‖, não mais fundamentada apenas nos princípios elaborados por Galton, mas também nos incrementos que levaram a um extremismo nas atitudes dos eugenistas. No Brasil dos anos futuros, a multiplicidade racial também tinha gerado novas concepções. O território seria divido em dois países distintos, ―um centralizador de toda a grandeza sul-americana‖, ―o outro, uma república tropical‖ (p. 99-100). Para Miss Jane, essa foi a melhor decisão a tomar-se, dado o descontrole da mestiçagem nos séculos anteriores. De um lado, encontrava-se o Brasil tropical que prosseguia como o antigo país, com seus desregramentos; do outro, uma república temperada que teria descoberto a tempo as falhas dos antepassados. Nos Estados Unidos, vingavam duas correntes de pensamento que objetivavam solucionar a ―problemática racial‖: os brancos ambicionavam a expatriação dos negros para o ―Brasil tropical‖, enquanto os negros tencionavam a divisão do país ao meio, bem como teria acontecido no antigo Brasil (p. 99). A falta de consenso entre as partes

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deixava a situação como estava e as distintas prioridades anteriormente citadas – qualidade e quantidade – acarretaram no alcance da população negra a pouco mais que a metade do número de brancos. Nesse contexto repleto de atribulações, surgiria Jim Roy, ―o negro de gênio‖, o qual é apresentado por Jane segundo as características físicas que ele detinha: Tinha a figura atlética do senegalês dos nossos tempos, apesar da modificação craniana sofrida por influência do meio. Tal modificação o aproximava dos antigos aborígenes encontrados por Colombo. / [...] Em Jim Roy a sua semelhança com um mestiço de senegalês e pele-vermelha (coisa impossível, pois a muito já não existia um só índio na América) acentuava-se pela cor da pele, nada relembrativa da cor clássica dos pretos de hoje. / [...] Quase toda a população negra da América apresentava pele igual a sua. A ciência havia resolvido o caso da cor pela destruição do pigmento. De modo que, se Jim Roy aparecesse diante de nós hoje, surpreenderia da maneira mais desconcertante, visto como esse negro de raça puríssima, sem uma só gota de sangue branco nas veias, era, apesar de ter o cabelo carapinha, horrivelmente esbranquiçado [...] – um pouco desse tom duvidoso das mulatas de hoje que borram a cara de creme e pó- de-arroz... (LOBATO, 2008a, p. 101-102).

A primeira frase da descrição da enunciadora demonstra, novamente, a associação do negro à força física. Além disso, a questão racial, nesse instante, é colocada de acordo com os traços fisionômico do sujeito, ao destacar a robustez de seu porte físico e a cor de sua pele. A existência de somente duas raças no país é explicada pela indicação da sucumbência futura dos índios. Além disso, cabe destacar que Jane afirma, posteriormente, que a influência do meio ambiente não ocorreu restritamente aos negros, mas a todos norte-americanos, o que afetou tanto a estrutura craniana quanto a cor da pele, a qual ganhou uma tonalidade ―levemente acobreada‖ (p. 102). Por outro lado, a cor da pele dos negros teria sofrido outra modificação por intervenção da ciência. As palavras de Miss Jane se referem à pigmentação como um problema, como um desvio a ser solucionado. No ano de 2228, a população negra dos Estados Unidos alcançaria a resolução para tal questão, ao ter sua pele ―branqueada‖. Apesar dessa mutação, a comparação com a mulata remete a uma tentativa de ocultação racial, impossível devido à permanência de suas características capilares. Segundo a enunciadora, o alisamento dos cabelos era um ―ideal da raça negra‖ (p. 121), o que dissimularia seus rasgos fisionômicos. As afirmações levam a concluir que a modificação na coloração epidérmica desses sujeitos se deu de forma deliberada e essa vontade teria se inclinado à característica exterior que ainda os diferenciava – o cabelo – o que denota a existência de um

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sentimento de inconveniência em possuir atributos físicos que não os do ―branco‖. Essa postura acentuava o conflito racial, pois os ―brancos‖, ―orgulhosos da pureza étnica e do privilégio da cor branca ingênita, não lhes podiam perdoar aquela camouflage da pigmentação‖ (p. 102) [grifos do autor]. Semelhante a essa discordância é a observação de Jane ao avaliar o resultado obtido como ―horrivelmente esbranquiçado‖, o que indica a sua igual desaprovação para o processo. A caracterização de Jim Roy não se resumiu apenas a seus atributos fisionômicos, pois a enunciadora destaca a sua capacidade de liderança e organização que acabava por dar-lhe um ―imenso valor‖. Esses atributos possibilitaram a criação de um partido político – a Associação Negra – ao qual todos os negros norte-americanos se afiliaram. O número ainda inferior de habitantes negros no país poderia não resultar problemas na disputa eleitoral caso não houvesse um atrito existente entre os brancos. Havia surgido uma corrente de pensamento feminista que defendia uma nova teoria sobre a evolução, na qual se destacava que a mulher que evoluiu ao lado do homem não correspondia a sua verdadeira ―fêmea‖, o que levou a bipartição dos brancos em ―Partido Masculino‖, sob o comando do atual presidente, Kerlog; e o ―Partido Feminino‖, liderado por Miss Evelyn Astor, ―criatura habilíssima, rica de todos os dotes da inteligência, da cultura e da maquiavélica sagacidade feminina, se juntava um elemento perturbador, novo no conjunto político presidencial: a sua rara beleza física‖ (p. 106). Vê-se que Miss Evelyn é apresentada por Miss Jane como o protótipo humano feminino, por ter alcançado o ápice das qualidades físicas, psicológicas e culturais. Jane destaca que, em uma conferência entre Jim e Astor, defrontaram-se as personificações da ―beleza‖ e da ―força‖, sem qualquer intimidação ou perturbação pela figura um do outro (p. 112). Segundo ela, Jim Roy simbolizava a força: ―A raça espezinhada confluíra-se toda nele, transformando-o num feixe de energias indomáveis. [...] Não era um indivíduo, Jim. Era a própria raça negra por um milagre de compreensão posta inteira dentro de um homem‖ (p. 113). A afirmação de Jane expõe a homogeneidade racial negra representada por Jim Roy e demonstra que o passado oprimido daquela ―raça‖ havia gerado um ser insubmisso, cuja inflexibilidade impedia qualquer tentativa de desfazer seus planos.

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Nessas circunstâncias, a vitória de qualquer um dos partidos brancos dependia do apoio de Jim Roy, o qual poderia unir-se ou ao Partido Masculino em troca do abrandamento da lei de esterilização, que já objetivava o controle reprodutivo dos negros, além de Roy ser, também, homem e não concordar com os princípios de Astor; ou ao Partido Feminino, por opor-se aos ideais implantados pelos homens ―brancos‖ em detrimento dos ―negros‖. O medo da falta de apoio de Jim levou o Partido Masculino ao estudo das possibilidades de expatriação do negro, voluntária ou compulsoriamente, o qual, no momento da eleição, já estava concluído. Sobre as concepções feministas sobre os homens, o presidente Kerlog afirma: ―Se ela nos trata a nós brancos de gorilas, que expressões reservará para os pretos de Jim‖ (p. 129). Vê-se que, apesar da aflição por não saber a decisão de Jim Roy, Kerlog anseia pela compreensão do ―líder negro‖ de que a candidatura de Miss Astor fosse contrária tanto ao Partido Masculino quanto à Associação Negra. Além disso, ao salientar a forma como eram chamados os homens brancos pelo Partido Feminino, a colocação do atual presidente parece destacar que a associação aos primatas teria legitimidade se feita em relação aos negros, mas se, com sua brancura, ainda lhes associam aos primatas, a negritude seria vinculada a algo ainda mais pejorativo. O voto de todos os ―negros‖ estava nas mãos de Jim. As novas tecnologias permitiam que, no momento certo, ele transmitisse aos membros da Associação em quem deveriam votar. O capítulo ―O titã apresenta-se‖ gira em torno das reflexões de Roy a respeito da decisão a ser tomada, nas quais, panoramicamente, rememora o passado dos negros norte-americanos desde a chegada do navio negreiro até a conquista de direitos que não existiam. O trecho é apresentado segundo a própria perspectiva de Jim e salienta a chegada dos traficantes de escravos às terras africanas, a destruição dos povoados, a violência que destinava a seleção dos mais aptos ao trabalho. Sequencialmente, realça o aprisionamento e a viagem sem fim em direção às terras do ―Novo Mundo‖. Avaliava-se aqueles homens segundo as suas atitudes e a conclusão era que ―branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria...‖ (p. 133). Essa insensibilidade era o que movia o labor forçado e, nesses moldes, ergueu-se o país. A liberdade não teria sido capaz de destruir a cicatriz e, no lugar do aprisionamento físico, construíram o moral, pois, aos negros, o branco ―negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a Lei, que paira serena acima

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do sangue, consagrasse a equiparação dos dois sócios. (p. 133). Vê-se que o referido capítulo trata de expor como os ―negros‖ avaliavam a postura dos brancos depois dos séculos de contato entre eles. A recapitulação de Jim Roy deixa clara a ideia de que o passado havia gerado em todos os negros – já que Roy é posto como ―a própria raça negra‖ – uma mágoa inapagável. Ademais, percebe-se que, a partir da visão do líder da Associação Negra, o branco é apresentado de forma negativa, de acordo com suas atitudes consideradas desaprovadoras. Pode-se notar, também, que a ―lei‖ é posta em dissonância com o âmbito ―biológico‖ e esse desencontro demonstra a artificialidade das normas que validavam a igualdade de direitos entre todos. A indignação criada a partir da reflexão de Jim o motivou para a decisão de que ele seria o candidato em quem os membros de seu partido deveriam votar: ―Livre, apenas? Não! Também senhor agora...‖ (p. 136). Foi eleito, então, o 88º presidente norte-americano: um ―presidente negro‖. A notícia surpreendeu a todos, pois a ninguém ocorreria a ideia de que Jim não se aliasse a nenhum dos partidos. Jane afirma que ―a raça triste, que através dos séculos não se atrevera a sonho maior que o da mesquinha liberdade física, passou a sonhar o grande sonho branco da dominação...‖ (p. 147). A colocação pontua o surgimento de um sentimento de vingança pelas opressões sofridas durantes os séculos anteriores e instaurado a partir da adesão ao ideal branco de domínio. No entanto, segundo a enunciadora, esse não era o anseio de Jim Roy, o qual cria que ―a América surgira do esforço braçal de um pelo esforço mental de outro‖ (p. 148) e, consequentemente, acreditava que o território pertencia as duas ―raças‖. Vê-se que, agora no pensamento do Roy, ―negros‖ e ―brancos‖ são associados à ―força‖ e à ―inteligência‖ respectivamente, instrumentos pelos quais teria se edificado os Estados Unidos. Dada a consideração de que ambos as ―raças‖ detinham direitos pelo país e a percepção da impossibilidade de convencer os ―brancos‖ da alternativa de convívio mútuo, o sucessor de Kerlog tinha como decisão a bipartição do país. Entretanto, chegou à conclusão de que, depois da surpresa eleitoral, necessitava da ajuda do opositor para que cada um acalmasse os ânimos de seus grupos (p. 149). Kerlog consentiu com o acordo, mas não sem afirmar que aquela afronta seria vingada: Como há razões de Estado, Jim, há razões de raça. Razões sobre- humanas, frias como o gelo, cruéis como o tigre, duras como o diamante,

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implacáveis como o fogo. O sangue não raciocina, como os filósofos. O sangue sidera, qual o raio. Como homem admiro-te, Jim. Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar... (LOBATO, 2008a, p. 150).

A partir das palavras do presidente, pode-se evidenciar que o feito de Jim havia alcançado a consideração de Kerlog, mas não conseguiu eliminar o orgulho racial que possuía. Os motivos que o guiavam ultrapassavam o âmbito da política e da moral e feria a esfera biológica. Para o líder branco a ―raça‖ estava acima de todas as coisas e, novamente, impunha a dicotomia ―verdade artificial/verdade racial‖. Antes de qualquer consenso ético se manifestava uma ofensa à ―honra racial‖ que ditava a superioridade de uns e inferioridade de outros. Assim, mesmo com a consciência do patriotismo de Jim, Kerlog estava convencido de que ―acima da América estava o Sangue‖ (p. 150) e o caminho para a vingança seria a guerra. A concepção do presidente a respeito da supremacia racial era partilhada com seus companheiros de governo, como pode observar-se nas palavras do Ministro da Equidade, com as quais afirma: ―Acima das leis políticas vejo a lei suprema da Raça Branca. Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano‖ (p. 157). Entre o grupo negro, a empolgação com a vitória de Jim só foi substituída pela notícia da nova descoberta de John Dudley, homem branco conhecido por suas dezenas de invenções: os raios Ômega. Segundo Miss Jane, a criação de Dudley tinha ―a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com três aplicações apenas, o mais rebelde pixaim tornava-se não só liso, como ainda fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo branco‖ (p. 173). Para os negros, a despigmentação da pele, apesar da atual imperfeição, com o tempo, sofreria as modificações necessárias para a igualação à pele branca. Além disso, agora, com a metamorfose capilar, o aperfeiçoamento físico da raça estaria completo e ocultar-se- iam os rasgos identificáveis da raça negra, geradores do preconceito branco. Nesse momento, é possível concluir que a ânsia pela mutação racial externa tinha como intuito a supressão do estigma e, ao mesmo tempo, a ascendência na hierarquia racial, ou seja, deixava-se de ser inferior e passava-se a ser superior. A vitória fisionômica se tornou derrota, a qual pode ser explicada com as palavras de Kerlog direcionadas a Jim Roy: Tua raça foi vítima do que chamarás a traição do branco e do que chamarei as razões do branco. [...] Não há moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota. Tua raça morreu, Jim... [...] Os raios de John Dudley possuem virtude dupla... Ao mesmo tempo que alisam os cabelos [...] esterilizam o homem (LOBATO, 2008a, p. 189-190).

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A novidade de Dudley não obteve rejeição e, com instituições espalhadas por todo o país, todos os negros norte-americanos, inclusive Jim, teve seu cabelo alisado permanentemente. Entretanto, como pôde ser visto no discurso de Kerlog, os raios Ômega tinham uma função não explicitada, a capacidade de esterilização. Aniquilada a faculdade de reprodução, bastaria o tempo para que os Estados Unidos se tornasse um país constituído inteiramente de homens e mulheres brancos. Através da eugenia se dizia ter eliminado todo desvio moral entres os habitantes daquele país, qualidade a qual estaria abaixo da ufania racial branca, superior a todo fundamento ético factício criado pelo homem. Desde que havia alisado seus cabelos, Jim não se sentia como antes (p. 186). O homem conhecido como o protótipo da força e da incoercibilidade via sua energia esvaecer-se a cada dia que passava e o grupo, dotado da reputação de mais reprodutivo entre as ―raças‖, viu sua capacidade de perduração ser tirada sem seu consentimento. No dia da posse de Jim, o líder negro ―amanheceu morto em seu gabinete de trabalho‖ (p. 194), sem ter revelado a nenhum membro da Associação a revelação que recebeu do presidente Kerlog. Não havia mais motivos para encobrir da população a verdade com relação aos raios Ômega e, em mensagem virtualmente enviada a cada residência, apresentou-se um resumo da decisão tomada em reunião da ―raça branca‖: A convenção da raça branca decide alterar a Lei Owen no sentido de incluir entre as taras que implicam a esterilização o pigmento negro camuflado... A raça branca autoriza o governo americano a lançar mão dos recursos que julgar convenientes para a execução desta sentença suprema e inapelável! (LOBATO, 2008a, p. 195). [grifos do autor]

Nota-se que, de um lado, falhou a tentativa eugênica de extinção do ―desvio moral‖, por considerar-se que a legitimidade racial estava acima de todas as coisas; mas, de outro, o princípio da esterilização dos indesejados e inferiores se cumpriu da forma mais absoluta possível. Outrora tida como uma possibilidade de desconstruir o estigma da cor e de igualar os indivíduos racialmente, a despigmentação encaminhou a população negra do país para o rumo adverso. A atitude demonstrava que, na oposição ―força negra/ inteligência branca‖, o segundo atributo era mais valoroso se confrontadas. Em síntese, em O presidente negro, a questão racial surge como elemento central no enredo da obra. Em 2228, nos Estados Unidos, teria sido possível a

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formação de um homem dotado das melhores qualidades existentes, a partir da adoção das teorias eugênicas e dos procedimentos que elas estimulavam – como a ressurreição da lei espartana de eliminação dos nascidos com defeitos físicos, a esterilização dos indivíduos detentores de taras e o controle rigoroso do direito de reprodução – a fim de efetuar, artificialmente, as funções que a ―seleção natural‖ não foi capaz de cumprir. Não obstante, a perduração paralela da ―raça negra‖, com seu alto índice de proliferação, estava comprometendo a ―supremacia branca‖, além de impedir a vitória completa sobre o único território onde havia evoluído o ―super- homem branco‖, dada a ―mongolização‖ da Europa. Vê-se que a tripartição dos partidos coloca em evidência a figura de três pilares centrais da narrativa: primeiramente, o negro com a sua força; depois, a mulher branca e a sua beleza; e, por último, o homem branco e a sua inteligência. A junção entre os dois últimos englobou as qualidades da ―inteligência‖ e da ―beleza‖, as quais acabaram por vencer a ―força‖ dos primeiros. Além disso, a existência de uma crença a respeito da superioridade e da inferioridade entre os indivíduos é mostrada de maneira evidente, assim como a comunidade negra é exibida, primeiramente, como detentora da qualidade de ―selvagem‖ e, posteriormente, de um estigma racial, o qual origina um desejo de igualar-se aos brancos e essa equiparação seria alcançada através da despigmentação e do alisamento do cabelo. Por conseguinte, para vingar-se da afronta feita com a eleição de Jim Roy, o ―homem branco‖ teria se aproveitado da ansiedade dos negros em resolver seu ―problema capilar‖ e, através da invenção de Dudley, acabaria dando fim à população negra do país. O processo de esterilização, apesar de sua forma singular de execução, dava continuidade às premissas eugenistas adotadas no país para o melhoramento da raça. Por outro lado, percebe-se que as constantes críticas à miscigenação, nas quais a ideia de que a mistura entre as raças é considerada degenerativa por extinguir os atributos mais notáveis dos envolvidos. Ademais, a possibilidade de observação dos acontecimentos futuros, a qual revela a existência de um determinismo causal em todas as coisas, acabam por possibilitar a reflexão das personagens Ayrton e Miss Jane, desde sua contemporaneidade, sobre a realidade racial tanto dos Estados Unidos como do Brasil e da Europa. Nota-se que, à medida em que explana as relações raciais do porvir, Miss Jane opina a respeito dessas

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informações e, aos poucos, vai convencendo Ayrton de suas teorias raciais de base eugênica e vinculadas a uma superioridade branca. Consequentemente, quando algum evento narrado pela filha de Benson demonstra determinado extremismo, Jane substitui as surpresas de Ayrton para com essas ações por algum princípio referente às relações raciais que provariam que aquele era o caminho mais conveniente a ser seguido, a ponto de fazer com que ele chegue a lamentar que a eugenia não tenha sido adotada no seu tempo (LOBATO, 2008a, p. 159). Paralela a história futurística do ano de 2228, Ayrton narra a maneira como se apaixonou pela filha do inventor. Nas visitas domingueiras ao castelo de Benson para ouvir os novos ―capítulos‖ da narrativa de Jane, Ayrton Lobo dividia sua atenção entre as novidades relatadas por ela e as viagens ilusórias nas quais imaginava como seria sua vida ao lado daquela mulher. É perceptível que, apesar dessa sincronia narrativa entre presente e futuro, a análise da posteridade ganha espaço privilegiado na obra lobatiana. Entretanto, esse relato amoroso pareceria apenas organizador da totalidade se os desejos de Ayrton e a descrição feita da beleza de sua amada não instigassem outra conclusão. Segundo ele, Miss Jane possuía ―cabelos louros‖ e ―olhos azuis‖, além de possuir a ―esbelteza‖ e a ―elegância de porte‖ capazes de produzir a ―ruptura de seu equilíbrio nervoso‖ (p. 41). Além disso, ao descrever de ―Erópolis‖ como a ―Cidade do Amor‖, local destinado à concepção da ―elite da América – a nova aristocracia dos filhos do Amor e da Beleza‖ (p. 128), Ayrton idealizou a sua presença no local juntamente com Jane. Prontamente, a fisionomia descrita por Lobo relembra a ―beleza‖ das mulheres brancas norte-americanas do ano de 2228, como Miss Evelyn Astor. Ademais, o sonho de encontrar-se na ―Cidade do Amor‖ com Jane permite a inferência de que ele se via digno de frequentar a região reservada para ―casais brancos‖, representantes da perfeição física e unidos pelo amor sublime.

5.1.2 Um grito de guerra pró-eugenia

Na circular enviada aos livreiros brasileiros citada inicialmente, onde a obra é referenciada com o título O Raio Louro, o escritor destaca: ―Os Srs. Livreiros terão uma ótima oportunidade para fazer negócios, ativando a venda de um livro não só de alta intensidade dramática e amorosa, como ainda semeador das mais altas

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ideias de Eugenia‖ (LOBATO apud CAVALHEIRO, 1956a, p. 326). As palavras de Monteiro Lobato estabelecem uma dupla finalidade para sua obra: naturalmente, a primeira está ligada ao seu âmbito literário, enquanto a segunda fundamenta a utilidade de fomentadora dos ideais eugênicos, em sua forma mais profunda. A ligação entre O presidente negro e os movimentos eugenistas da primeira metade do século XX não se encerra na colocação supracitada, pois, em carta direcionada a Renato Kehl, depositada no Centro de Documentação da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, Lobato declara o seu interesse pela eugenia e a ligação de seu romance às teorias fundadas por Galton: Renato, Tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar essas ideias. A humanidade precisa de uma coisa só: poda. É como a vinha. Lobato. (LOBATO apud DIWAN, 2007, p. 106) [grifos do autor]

O fragmento da carta enviada a Kehl demonstra o reconhecimento de Lobato da importância do médico paulista para a difusão e implantação da eugenia no Brasil. Posteriormente, desculpa-se por não ter direcionado a dedicatória de sua obra ao eugenista22, o que certificaria, desde seu lançamento, a associação entre a produção lobatiana e a propaganda dos princípios eugênicos. Além disso, Monteiro Lobato afirma a necessidade de divulgação dessas concepções para que estejam ao alcance de todos e, por fim, em comparação à vinha, ressalta a indispensabilidade da seleção dos sujeitos prestáveis da humanidade e da eliminação dos inúteis. Em outra carta enviada a Kehl, datada de setembro de 1930, Monteiro Lobato declara que considera a literatura como ―um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‗work‘ muito mais eficiente‖ (LOBATO apud DIWAN, 2007, p. 111). A afirmativa reforça a conclusão de que, para o escritor, a literatura possuía um propósito além da ficcionalidade, mas não desligada desta, pois, exatamente por esse rasgo artístico, era possível disseminar a eugenia com o ―disfarce literário‖. Vê-se que Lobato era conhecedor da eugenia e o contato com Renato Kehl teve início no final da década de 1910, quando se ligou aos projetos sanitaristas.

22 A primeira edição de O presidente negro trazia a dedicatória: ―A Artur Neiva e Coelho Neto, dois grandes mestres no trabalho, na ciência e nas letras‖ (LOBATO, 1956a, p.125). Cabe destacar que a grafia do nome de ―Artur‖ aparece, em diferentes documentos, como ―Arthur‖.

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Segundo Pietra Diwan, a primeira correspondência enviada pelo escritor ao eugenista data de abril de 1918, na qual Lobato se lamenta por, somente naquele momento, ―travar conhecimento com um espírito tão brilhante como o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente ‗eugênico‘, pela clareza, equilíbrio e vigor vernacular (LOBATO apud DIWAN, 2007, p. 110). No trecho citado, percebe-se a existência de enaltecimentos da ―capacidade intelectual‖ de Renato Kehl, os quais podem ser notados, também, em prefácio elaborado por Monteiro para uma obra do eugenista, como se verá posteriormente. Ao prefaciar a obra Bio-Perspectivas, de Renato Kehl, Monteiro Lobato declara que o considera o ―mais acabado tipo de cientista que a atualidade pensante da época possuía (LOBATO, 1956b, p. 75), além de destacar que conheceu o médico paulista no início de sua vida literária (p. 82). A glorificação feita por Lobato é fundamentada com trecho da obra prefaciada, em cujas palavras Kehl destaca o papel social e biológico da ―máquina‖. Da citação, cabe destacar o seguinte fragmento: Substituindo progressivamente os ―homens-braço‖, os ―homens-mão‖, deixam cada vez maior o número de ―sem-trabalho‖. Salvar-se-ão naturalmente alguns elementos de maior valia; os demais sucumbirão. Como se sabe, durante os últimos anos as escórias humanas se têm acumulado em consequência do desrespeito às leis naturais. Não tem havido desbastamento suficiente ou eliminação seletiva em regra. Os incapazes, os doentes e os anormais de várias ordens acumulam-se de modo assombroso, nas prisões, nas penitenciárias, nos manicômios, nos bairros da miséria. A máquina, que criou o ―sem-trabalho‖, agrava ainda mais a situação, porque deixa ao desamparado um sem-número de famílias que ainda conseguia viver. A natureza agora tira partido do próprio artificialismo, mantido pelo ―homem-caridade‖, pelo ―homem-médico‖, pelo ―homem-higiene‖, apressando a seleção exatamente em consequencia deste fator novo: a máquina (KEHL apud LOBATO, 1957, p. 80-81) [grifos do autor]

No trecho acima, Kehl salienta os malefícios causados pela ―maquina‖ por substituir a produção braçal e acarretar em inúmeros desempregos. Segundo ele, os indesejados conseguiam manter-se graças ao amparo estatal, o que impedia a ―seleção natural‖ dos mais aptos e eliminação dos incapacitados. O surgimento da máquina e de seus consequentes prejuízos aumentava as proporções dos malquistos, os quais, por conseguinte, acabavam vivendo não por fruto de seu próprio esforço, mas de maneira artificial através do assistencialismo. Vê-se que Kehl põe ao lado desse auxílio a sua própria categoria, a dos médicos, bem como os antigos projetos sanitaristas que caminharam juntos com a eugenia em tempos de

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uma eugenia mais ―positiva‖. A máquina reforçaria, então, a necessidade da ―seleção sintética‖ fomentada pela eugenia. Nessas circunstâncias, vê-se que, em diferentes momentos, Monteiro Lobato advoga pela instauração dos procedimentos eugênicos, além de exaltar a riqueza dos trabalhos de Renato Kehl como alicerce para a adoção dessas premissas. Em 25 de maio de 1927, Monteiro Lobato embarcou rumo à Nova York, onde iria desempenhar a função de Adido Comercial brasileiro e, também, objetivava fundar a editora ―Tupy Publishing Co‖ (CAVALHEIRO, 1956a, p. 332). O escritor paulista buscou editoras que se interessassem pela publicação de O presidente negro no país norte-americano, mas encontrou obstáculos devido à temática que abordava. Marisa Lajolo apresenta trecho da correspondência enviada pela editora ―Palmer Literary Agency‖, na qual a empresa reconhece a capacidade criadora de Lobato, mas rejeita a publicação de The clash of the races (O choque das raças), por se tratar de uma temática difícil de ser abordada no país e, normalmente, recusadas pelos editores (PALMER apud LAJOLO, 2000, p. 49). Em nova carta a Rangel, enviada de Nova York, em setembro de 1927, Lobato declara seu desânimo com as constantes recusas que recebeu: Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo demais à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa esse povo, coletivamente, combater a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros (LOBATO, 1950b, p. 304).

Nota-se a manifestação do desalento do escritor paulista ao declarar ter fracassado na busca de uma editora que lançasse seu romance em inglês, bem como não ter conseguido fundar a sua própria editora no país para o qual havia se mudado. Através de sua declaração, reforça-se a postura dos editores norte- americanos em não aceitar obras guiadas pela temática racial, por acreditarem que o país havia evoluído moralmente. Entretanto, com a desconsideração de qualquer forma de moralismo para avaliar sua produção, Lobato acredita que O presidente negro teria outra aceitabilidade se fosse enviado para publicação nos tempos de segregação racial naquele território, pois a ideia de progresso da ―raça branca‖, eliminação da ―raça negra‖ através dos procedimentos eugênicos e, consequentemente, a dominação do país por parte dos primeiros, além de reforçar a crença na ―superioridade‖ de uns e ―inferioridade‖ de outros, apenas aclararia as propostas de uma teoria que já encontrava adeptos no país.

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Como editor, obviamente, Monteiro Lobato tinha uma perspectiva que ultrapassava a de um simples escritor, o que lhe permitia ver, com ainda mais precisão, os benefícios econômicos das obras literárias. A ideia de relançar seu romance nos Estados Unidos, seguramente, tinha sido planejada levando em consideração as vantagens financeiras que acarretaria e foi nesse viés que o escritor declarou ao amigo Gastão Cruls o possível aproveitamento da problemática que abordava em seu texto e os resultados monetários que poderia gerar: Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor e com essa dose de fertilizante não há Tupy que não grele. Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos (LOBATO, 1970, p. 114). [grifos do autor]

Novamente, Lobato afirma a rejeição do seu Choque das raças por diferentes editores norte-americanos, mas destaca o interesse de um editor entusiasmado, exatamente, por se tratar de um tema polêmico e considerar que esse tipo de assunto, refutado por avaliá-lo como ―imoral‖, se convertem em retornos econômicos satisfatórios. Vê-se que a contrariedade ao conteúdo apresentado na obra lobatiana é considerada pelo autor como ―puritanismo‖ de indivíduos que se preocupam com os princípios do se considera ser ―íntegro‖. Ainda assim, Monteiro diz pretender acrescentar novo trecho em sua obra, no qual apresentaria a colonização espanhola na América Central como uma ―infecção‖, o que remete a uma crítica à ―latinização‖ do território, avaliada como uma contaminação sanguínea. Viu-se que a intencionalidade de Monteiro Lobato para com seu romance se sustentava em três diferentes esferas: a estético-literária, a de difusão dos ideais eugênicos e a econômica. Essa constatação desconstrói a avaliação de Marisa Lajolo que associa o romance a apenas o âmbito mercadológico e seus resultados financeiros. A segunda esfera indicada demonstra que os ideais raciais destacados na obra O presidente negro concordam com os de seu criador. Adepto da teoria eugênica, representada com maior significância no Brasil por Renato Kehl, Monteiro Lobato cria na necessidade de implantar procedimentos que possibilitassem o melhoramento da raça branca, dada a crença em sua supremacia, e na inconveniência da raça negra para a evolução de um país. Percebe-se, também, que

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as críticas à miscigenação destacadas por Miss Jane estão em consonância com as considerações que Lobato tinha a respeito do contato entre as raças, assim como as constantes referenciações aos negros como seres ―selvagens‖, cuja qualidade essencial era a ―força‖. Assim, tanto no pensamento lobatiano quanto nos ideais dos porta-vozes da raça branca em seu romance, a conveniência da aplicação da eugenia é defendida com o intuito de aliviar o peso que sobrecarrega a sociedade e impede o progresso e, consequentemente, possibilitar a vitória dos detentores da ―superioridade‖. Nota-se que o conceito do líder branco de que a legitimidade dos direitos raciais está acima da artificialidade dos direitos morais é o mesmo que o de Monteiro Lobato ao avaliar a postura do norte-americano frente ao guarda-freio e reforçado nas páginas de Problema vital, onde se confrontam as verdades ―biológica‖ e ―filosófica‖. Além disso, em autor e obra, pode-se destacar a viabilidade do ―branqueamento racial‖, só que, de um lado, se tem a questão cultural e, do outro, a fisionômica. Nota-se, também, a dissonância das duas formas ao serem analisadas as apreciações feitas sobre o processo, pois Lobato considera o ―branqueamento moral‖ como algo elogiável nos negros, enquanto o ―branqueamento físico‖ é avaliado com negatividade no romance, desde uma perspectiva ―branca‖. Por fim, a dicotomia beleza/fealdade exposta por Monteiro em sua análise sobre o Rio de Janeiro, comparando-o com a Grécia, apresenta a mesma equivalência da oposição feita por Miss Jane sobre Jim Roy e Miss Evelyn. Idealização da mais elevada ―perfeição física‖, Evelyn é posta frente a frente com Roy e a filha de Benson destaca que eles ―eram dois seres sem a menor aproximação de aparências externas [...]‖ (p. 112). A colocação impulsiona a inferência de que a fisionomia de Jim diverge da ―formosura‖ da líder feminina e, por conseguinte, suscita a separação entre ―beleza branca‖ e ―fealdade negra‖. O cargo de ―Adido Comercial‖ possibilitou a criação de um horizonte mais delimitado sobre a situação daquele país no que se refere à temática abordada por Monteiro em O presidente negro: a eugenia. Em epístolas inéditas divulgadas em 2011, o escritor paulista declara que o país norte-americano, certamente, seria o que mais teria investido na divulgação, no estudo e na prática do eugenismo (LOBATO apud NIGRI, 2011, p. 29). Em 8 de julho de 1929, Monteiro Lobato descreve a Renato Kehl o patamar alcançado pelos processos eugênicos nos Estados Unidos:

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[...] a eugenia está tão adiantada que já começam a aparecer 'filhos eugênicos'. Uma senhora da alta sociedade meses atrás ocupou durante vários dias a front page dos jornais mexeriqueiros graças à audácia com que, rompendo contra todos os preceitos da ciência e sem se ligar legalmente a nenhum homem, escolheu um admirável tipo macho, fê-lo estudar sobre todos os aspectos e, achando-o fit para o fim que tinha em vista, fez-se fecundar por ele. Disso resultou uma menina que está sendo criada numa farm especialmente adaptada para nursery eugênica. E lá vai ela conduzindo a sua experiência de ouvidos fechados a todas as censuras da bigotry (LOBATO apud NIGRI, 2011, p. 29-30).

As informações compartidas com Kehl demonstram que as teorias de melhoramento da raça estavam sendo praticadas com afinco no país onde se encontrava. No caso citado, a ―intervenção na reprodução‖, a partir da seleção paterna, objetivava gerar uma criança dotada das melhores qualidades humanas. Ademais, a criação em isolamento aparenta a tentativa de moldar as características psicológicas da menina, obstruindo a interação com o restante da sociedade e o caráter científico do processo é reforçado pela classificação de Lobato como ―uma experiência‖. Todas as colocações anteriores permitem a conclusão de que Monteiro Lobato esteve ligado à eugenia a partir da observação da evolução da teoria nos locais onde se encontrava, bem como através da interação com um grande defensor das premissas eugênicas no Brasil, Renato Kehl. Não obstante, cabe destacar que o escritor não queria que muitas das suas declarações fossem publicadas, principalmente as manifestações presentes em cartas dirigidas a Kehl, como pode perceber-se em uma de suas epístolas enviada ao eugenista, em outubro de 1929, período em que ainda estava nos Estados Unidos: ―Rasgue esta incontinenti, meu caro, antes que alguém meta o nariz nela. Tudo que te digo é estritamente confidencial e só pode ser dito a um espírito superior como o teu‖ (LOBATO apud DIWAN, 2007, p, 111). O trecho destacado demonstra o receio lobatiano de que suas declarações fossem reveladas, devido à possível falta de compreensão dos receptores. Entretanto, o medo da divulgação dessas cartas, inevitavelmente, leva a inferência de que ele objetivava a ocultação da sua afiliação à eugenia, o que acabara por moldar a sua imagem pública.

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5.1.3 Estados Unidos e Ku-Klux-Klan

A experiência de Monteiro Lobato nos Estados Unidos fez com que desejasse não voltar mais ao seu país. Em carta dirigida de Nova York ao cunhado, Heitor de Morais, Lobato manifesta sua satisfação em encontrar-se naquele lugar, além de declarar a maneira como analisava o Brasil desde um olhar externo: ―Eu, por mim, não sairia mais daqui, porque o Brasil torna-se grotesco visto de longe. [...] Só agora meço em toda a extensão o atraso infinito e a estupidez maior ainda da nossa gente. Somos África pura, meu caro Heitor‖ (LOBATO, 1970, p. 105). Vê-se que, segundo Lobato, a contemplação distanciada possibilita averiguar a ridiculez do seu país, por se mostrar ainda preso ao passado e ser formado por um povo ―ignorante‖, o que legitimaria sua postura antiprogressista. Ademais, percebe-se que, mais uma vez, Lobato associa o Brasil à África, por considerar o continente como a referência da ―antimodernidade‖. Entretanto, de acordo com Lobato, o atraso brasileiro estava preso a outras circunstâncias, como pode ser averiguado em carta enviada a Arthur Neiva em abril de 1928: Mulatada, em suma. (...) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para altos destinos. (...) Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; (...) Tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem [sic] a capacidade construtiva (LOBATO apud BLOCH, 2011).

Como pode ser observado, a adversidade brasileira estava relacionada, também, a esfera racial. Novamente, Monteiro condena a miscigenação brasileira, só que, desta vez, centraliza a inconveniência no contato com a ―raça negra‖, ao considerá-lo ―antiprogressivo‖. O escritor declara a conveniência da instauração, no Brasil, de uma organização como a ―Ku Klux Klan‖, uma associação criada no século XIX, depois da abolição da escravatura nos Estados Unidos, com a finalidade defender a supremacia branca e de impedir a integração dos negros na sociedade norte-americana. Primeiramente direcionada somente aos ex-escravos e seus descendentes e, depois, orientada aos judeus, aos católicos e aos estrangeiros, a entidade é vinculada a ações terroristas e movimentos violentos, como linchamentos e intimidações aos negros através da força, apesar da amenização dessas ações a partir da década de 1960 (ALVES, s/d, p. 141-142). Para Monteiro Lobato, a ―raça branca‖ de um país onde predomina a miscigenação, se objetivasse o progresso,

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tinha de ser capaz de formar uma instituição que legitimasse a sua ―superioridade‖. Vê-se, também, que sua acometida está apontada para a imprensa do Rio de Janeiro, onde afirma haver ―mulatos‖ atuando como se fossem ―brancos‖, e proclama que um dia a organização norte-americana receberá seus méritos por mostrar que os ―negros‖ tem lugar distinto dos ―brancos‖ na sociedade. A relação à ―Ku Klux Klan‖ demonstra que o reconhecimento dessa supremacia poderia ser feito com atos característicos do grupo anteriormente citado. Como destacado no primeiro capítulo desta investigação, segundo o professor da UNESP, João Luís Ceccantini, seria possível que o escritor paulista desconhecesse as informações concretas referentes à organização, além de afirmar que a declaração de Lobato deveria ser analisada levando-se em consideração as datas em que foram escritas. A respeito disso, cabe destacar que a carta na qual o escritor paulista faz as referidas afirmações foi escrita no período em que desempenhava a função de Adido Comercial nos Estados Unidos e possui endereçamento da cidade de Nova York. Assim, a imersão de Lobato no território onde a organização atuava rompe com a distância causadora da possível ignorância de suas características. Especificamente sobre a conexão entre a entidade e os atos violentos, pode- se destacar a correspondência enviada por Lobato a Rangel, em 1905, na qual afirma já ter sido convidado a participar da ―Irmandade do Santíssimo Sacramento, espécie de Ku-Klux-Klan local, inofensiva e de balandrau roxo, em vez de branco à moda americana‖ (LOBATO, 1950a, p. 95). A relação entre a entidade religiosa e a organização norte-americana pode ser justificada pela existência de diferentes ―Irmandades‖ de base cristã criadas no Brasil, no período colonial, nas quais a participação era regida pela exclusividade racial, como é o caso da ―Irmandade do Santíssimo Sacramento‖ que, durante muito tempo, foi uma associação restritamente de brancos (PRESSER, 2006, p. 174; FROTA, s/d, p.15). Uma das distinções feitas por Lobato entre os dois grupos é a classificação da postura da Irmandade brasileira como ―inofensiva‖, qualidade que estaria em oposição à atitude violenta da Ku-Klux-Klan. No mesmo viés, cabe destacar a fala de Miss Jane, em O presidente negro, ao destacar a tensão existente nos Estados Unidos devido à ―permanência no mesmo território de duas raças dispares e infusíveis [...]. Os atritos se faziam constantes e, embora não desfechassem como outrora nas violências da Ku Klux Klan, constituíam um permanente motivo de inquietação‖ (LOBATO, 2008a,

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p. 121). A colocação da personagem lobatiana comprova, definitivamente, o conhecimento de seu criador do comportamento agressivo da entidade destacada, o que demonstra que a referência presente na carta enviada a Neiva foi feita levando em consideração essa informação. Assim, segundo Monteiro Lobato, o progresso só era possível, no Brasil, se existisse um grupo com os mesmos objetivos no país: exaltando a ―supremacia branca‖ e impondo a eliminação dos negros e seus descendentes da maneira que fosse necessária.

5.2 O Sitio do Pica-pau Amarelo

A inclinação para a literatura infantil foi despertada em Monteiro Lobato a partir da compreensão da falta textos literários brasileiros direcionados a crianças, como pode ser observado em epístola enviada a Rangel em setembro de 1916. Inspirado nas antigas fábulas de Esopo e La Fontaine, o escritor objetivava construir uma literatura infantil com moldes nacionais, a qual, segundo ele, teria ―um fabulário só nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa... Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam o começo da literatura que nos falta‖ (LOBATO, 1950b, p. 104). Com essa motivação, em 1920, Monteiro lança a sua primeira obra direcionada ao público infantil – Narizinho Arrebitado, a qual, posteriormente, ocuparia o capítulo inicial da obra As reinações de Narizinho, publicada em 1931 (LOBATO, 2011d, p. 8)23. Assim, com a primeira frase dessa obra inaugural, o escritor faz nascer o ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖. O ―Sítio‖ é propriedade de ―Dona Benta‖, a qual vive com sua neta Lúcia, mais conhecida por ―Narizinho‖, com ―Tia Nastácia‖, a cozinheira, e com Emília, uma boneca de pano feita por Nastácia (LOBATO, 2011d, p. 12) e que ganhou o dom da fala graças à ―pílula falante‖ do Doutor Caramujo (p. 31). Além delas, compartem as ações ocorridas no Sítio: ―Pedrinho‖, também neto de Dona Benta, o qual passa as férias escolares na casa de sua avó; o porco ―Rabicó‖, possuidor do título de Marquês e filho do ―Visconde de Sabugosa‖, segundo a imaginação de Narizinho (p. 79-80). Por fim, outras personagens têm presença mais restrita nas narrativas do Sítio, como é o caso de ―Tio Barnabé‖, um negro de mais de 80 anos que morava no

23 Nota do editor.

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rancho coberto de sapé lá junto da ponte (LOBATO, 2007b, p. 21); o ―saci‖, o rinoceronte ―Quindim‖ e o burro ―Conselheiro‖. Diferentemente da obra O presidente negro, onde a questão da ―raça‖ é parte fundamental do enredo narrativo, o âmbito racial ocupa posição mais descentralizada na literatura infantil de Lobato. Por conseguinte, essa esfera pode ser analisada segundo a caracterização dada às personagens lobatianas, de suas funções narrativas e das declarações manifestadas por elas sobre a temática, sem desconsiderar que, em algumas obras, as relações raciais possam atingir um nível mais significativo do que em outras, o que exigirá uma apreciação mais minuciosa. Assim, inicialmente, analisar-se-á a presença do ―negro‖ nas obras infantis de Lobato, marcada pelas figuras de ―Tio Barnabé‖ e de ―Tia Nastácia‖.

5.2.1 O negro: subalternidade, fealdade, ignorância e atraso cultural

Em Viagem ao céu (1932), Dona Benta expõe qual a situação da personagem Tio Barnabé em relação a seu domicílio nos domínios do Sítio, onde afirma que ele é seu ―agregado‖, ou seja, que ―mora em suas terras com seu consentimento‖ (LOBATO, 2004d, p. 62). Diferente de Nastácia, a qual vive juntamente com Dona Benta, Barnabé reside em uma vivenda situada próximo das divisas daquela propriedade e esse afastamento, possivelmente, justifique a sua limitada participação nos acontecimentos narrados sobre os integrantes do Sítio do Pica-pau Amarelo. A presença mais significativa da personagem está reduzida à obra O saci (1921), quando é procurada por Pedrinho com a finalidade de saber o que sabia a respeito daquele ―ser de uma perna só‖. Segundo Nastácia, a existência do ―saci‖ era verídica, apesar da incredulidade dos ―homens brancos‖ da cidade. Sua crença se mantinha mesmo sem nunca ter observado uma entidade como aquela, mas afirma não existir ―negro velho‖ que não o tenha visto e recomenda que procure Tio Barnabé, pois ―negro sabido está ali! Entende de todas as feitiçarias, e de saci, de mula sem cabeça, de lobisomem – de tudo‖ (LOBATO, 2007b, p. 20-21). No diálogo que tiveram, o ―sábio‖ confirmou a Pedrinho veracidade das declarações de Nastácia e explicou com minúcia todas as artimanhas dos sacis, bem como a maneira mais eficiente de capturá-los. Dentre as informações dadas ao neto de Dona Benta, cabe destacar a afirmação de Barnabé de que ―quem consegue

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tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo‖ (p. 21) e de que já teve ―um saci na garrafa que lhe prestava muitos bons serviços‖ (p. 25). Obviamente, os sacis são apresentados como ―entidades mágicas‖ e não ―humanas‖, mas é possível perceber que, mesmo tendo vivido no tempo da escravidão, Barnabé admitia a ideia do trabalho forçado, através de um direito que lhe era dado segundo a sua capacidade de dominação do outro. A ideia de capturar um saci entusiasmou Pedrinho e essa empolgação o ajudou a apanhar uma daquelas criaturas. Depois disso, manteve-o preso em uma garrafa até o dia em que se viu no meio da mata e seu saci o alertou dos perigos daquele local. Após a promessa de liberdade em troca de sua proteção, Pedrinho abriu o frasco que o prendia e o saci contou-lhe todos os ―segredos da mata virgem‖ (p.29). Depois de explicar-lhe sobre diferentes aspectos dos animais e da floresta, o saci contou-lhe sobre os entes noturnos, os quais, segundo ele, eram frutos do ―medo‖ e existiam apenas para aqueles que neles creem. O saci destaca, então, que, na América, há muitas ―criações do medo, não só dos índios chamados aborígenes, como dos negros que vieram da África‖ (p. 45) e relata a Pedrinho as histórias do ―Boitatá‖, do ―Negrinho do Pastorejo‖, do ―Lobisomem‖ e da ―Mula sem cabeça‖. Por conseguinte, pode-se inferir que a narrativa lobatiana trata de expor a existência de um imaginário popular de origem indígena e negra. Além disso, o que possibilitaria a existência e daria vida a esses seres fantásticos seria exatamente a crença e o consequente medo dessas criaturas. Assim, Tia Nastácia e Tio Barnabé surgem como provedores desse ―medo‖ ou ―convicção‖ e, por conseguinte, como veiculadores desses ideais populares por meio dos quais essas entidades se fazem presentes. A aparição de Barnabé nas outras obras lobatianas se reduz a curtas menções à personagem, mas sem outra participação efetiva ou grandes relações com as ações principais. A referência mais significativa, com exceção de O saci, parece ser a sua possível ―morte‖, narrada em A chave do tamanho (1942). Nessa obra, Emília decide ir à ―Casa das Chaves‖, com o intuito de fechar a ―chave da guerra‖ – alusão feita à Segunda Guerra Mundial – mas acaba modificando a posição da ―chave do tamanho‖, o que, consequentemente, reduzia a estatura de todos os indivíduos do mundo. Entretanto, seu feito não havia afetado Rabicó e a boneca de pano declara ao ―Marquês‖ o resultado do apetite do animal por

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minhocas: ―Sabe quem eram as minhocas pretas que você comeu na casa do tio Barnabé? Eram o pobre negro velho e toda a família dele‖ (LOBATO, 1982a, p. 59). Faz-se necessário destacar que a visão distorcida de Rabicó ao animalizar aquela família não se reduziu às figuras dos ―negros‖, pois o porco afirma ter comido tanto minhocas ―pretas‖ quanto ―cor-de-rosa‖ e ―cor de rapadura‖, dentre as quais estava ―Quinota‖, filha do ―Coronel Teodorico‖. Já a personagem Tia Nastácia surge na primeira obra infantil de Lobato – Narizinho Arrebitado – como integrante da casa de Dona Benta e é apresentada pelo narrador lobatiano como uma ―[...] negra de estimação que carregou Lúcia em pequena [...]‖ (LOBATO, 2011d, p. 12). Obviamente, o adjetivo que caracteriza a personagem evidencia o apreço tido pela senhora que tomou conta de Narizinho quando menor, mas não deixa de evocar o sentido de ―animal doméstico‖ e de sua distinção dos outros ―negros‖ devido a uma disciplina que lhe possibilitou o direito de viver dentro da casa de seu ―proprietário‖. Essa ideia de posse pode ser relacionada à informação de que Nastácia tinha sido escrava de sua atual patroa: ―– Pois foi – confirmou Dona Benta. – Foi minha escrava, sim. Meu marido, que Deus haja, comprou-a por dois contos e quinhentos, lembro-me muito bem...‖ (LOBATO, 2005a, p. 105). Vê-se que a declaração da proprietária do Sítio do Pica-pau Amarelo demonstra, inicialmente, uma anuência a respeito do regime de escravidão, mas opta-se por deixar a análise de seus ideais para as páginas subsequentes. A caracterização racial de Tia Nastácia aparece não só nas descrições do narrador, mas também nas falas das personagens, principalmente nas de Emília. Em uma festa dada a convidados vindos do ―País das Maravilhas‖, o narrador afirma que todos tomaram café, menos Cinderela: ―– Só tomo leite – explicou a linda princesa. – Tenho medo de que o café me deixe morena‖. Como resposta Emília declara que ela ―faz muito bem‖, pois foi ―de tanto tomar café que Tia Nastácia ficou preta assim...‖ (LOBATO, 2011d, p. 173). A fobia apresentada na justificativa de Cinderela revela a concepção de que a pele morena representa algum perigo ou inconveniência e, por conseguinte, apresenta seu caráter ufanista da pele branca. A concordância de Emília apenas reforça a concepção de negatividade da pele negra, representada, naquele instante, por Tia Nastácia. Junto a isso, cabe salientar a advertência do narrador ao ressaltar que a fala derivava da ―linda princesa‖. Nesse contexto, o adjetivo acaba por unir o atributo da ―beleza‖ ao da ―pele branca‖ e,

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implicitamente, fixa a ideia de ―fealdade negra‖. Por outro lado, em Os doze trabalhos de Hércules (1944), em novo deslocamento das personagens àquele tempo pretérito, o narrador descreve as características da personagem ―Medusa‖, a qual considera ―o horror dos horrores‖. Os inúmeros atributos relacionados a ela demonstram tratar-se de uma criatura que em pouco se assemelhava aos rasgos humanos, em exceção da estrutura de seu corpo. Não obstante, em meio a essas qualidades, cabe destacar a indicação de que Medusa era negra (LOBATO, 2011c, p. 56). Enquanto nas palavras das personagens24 e do próprio narrador lobatiano surgem constantes exaltações da ―beleza grega‖, nota-se que, nesse momento, a ―pele negra‖ está ligada à anormalidade, à monstruosidade e à fealdade, o que restabelece a dicotomia existente entre essa caracterização e a ―beleza branca‖. Essa ideia de desvio é perceptível, também, quando, na festa anteriormente citada, ―Branca de Neve‖ pergunta a Emília quem era a senhora que, no momento, servia o café e a boneca lhe responde: ―Nastácia é uma princesa núbia que certa fada virou em cozinheira. Quando aparecer um certo anel, que está na barriga de um certo peixe, virará princesa outra vez‖ (LOBATO, 2011d, p. 172). O enunciado demonstra uma metamorfose que tenta contrapor duas instâncias tidas como ―opostas‖: de soberana a subalterna. A partir de um encantamento, a fada teria rebaixado uma integrante da nobreza à posição de serviçal e a restituição de sua titulação dependia da obtenção de um objeto mágico que desfizesse a magia. Sequencialmente, a descrição de Nastácia segundo essas características reaparece quando as crianças constroem um circo, a partir da vitória de Emília em um concurso de ideias. Antes do espetáculo inicial, Narizinho declara que não sabe se a cozinheira terá coragem de entrar em cena, pois, segundo ela, ―está com vergonha, coitada, por ser preta‖ (p. 221). Por conseguinte, Emília encontra a solução necessária para que tudo corra como planejado e, novamente, apresenta Nastácia como uma princesa: Também apresento a Princesa Anastácia. Não reparem ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura. Todos bateram palmas, enquanto as duas velhas se escarrapachavam nas suas cadeiras especiais (LOBATO, 2011d, p. 221).

24 Leia-se, no tópico subsequente, as páginas 169-170.

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As palavras de Narizinho destacam a existência de um constrangimento por parte de Nastácia devido à cor de sua pele. Já a postura de Emília ao criar uma maneira para resolver o ―problema‖ demonstra a concordância com o motivo dado pela senhora para não apresentar-se. Novamente, a coloração da pele de Nastácia é posta como produto de uma ação mágica, o que, segundo Uruguay Cortazzo, pode-se relacionar à ―ideologia do príncipe convertido em sapo (servo/escravo)25‖. Se tomado segundo essa relação, de maneira animalizada ou desumanizada, põe- se em oposição, de um lado, o branco com sentido de ―normalidade‖ e ―beleza‖ e, de outro, o negro como sinônimo de ―desvio‖ e de ―fealdade‖ gerados como efeito de uma punição. Além disso, a volta à regularidade dependeria de um acontecimento inesperado ou milagroso. Por outro lado, pode-se salientar outro trecho da fala de Emília que demonstra qual a origem daquela teoria sobre Nastácia. A partir da ideia de Pedrinho de criar o irmão do ―Pinóquio‖, Tia Nastácia é sorteada para ―dar forma humana ao pedaço de pau vivente‖ (LOBATO, 2011d, p. 189). A discordância de Emília para com o resultado fez com que decidisse ir morar com o ―Pequeno Polegar‖ e, enquanto arrumava suas malas, ela declara: ―Não é à toa que é preta como o carvão. [...] Mentira de narizinho! Essa negra não é fada nenhuma, nem nunca foi branca. Nasceu preta e ainda mais preta a de morrer‖ (p. 190). O monólogo da boneca destaca que foi Lúcia quem afirmou que, no passado, a criada de sua avó não era nem cozinheira nem negra e as declarações anteriormente feitas por Emília surgem como resultado dessa conceituação sobre a pele negra de Nastácia. Entretanto, o solilóquio citado revela a crença em uma negatividade em ―ser negro‖, pois a informação dada por Lúcia certifica uma necessidade de justificar a Emília o motivo daquela cor de pele. Por conseguinte, a aceitação inicial sobre o parecer da menina se converte em renegação por parte da boneca e, dada a desaprovação da vitória de Nastácia para os fins destacados, a frase final toma sentido de imprecação e o ―ser‖ e ―tornar-se ainda mais negra‖ é apresentado como algo desfavorável. Bem como tio Barnabé, Nastácia surge como representante do povo e da cultura popular. A obra em que essa designação aparece de forma mais evidente é Histórias de Tia Nastácia (1937), na qual Pedrinho procura saber o que é o ―folclore‖

25 Comunicação pessoal (06 out. 2012).

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e obtêm a definição de sua avó: ―folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria, ciência. Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, de pais a filhos – os contos, as histórias, as anedotas, as superstições, as bobagens, a sabedoria popular etc. e tal (LOBATO, 2009b, p. 12) [grifos do autor]. A partir da conclusão de que Nastácia é o ―povo‖, o menino decide saber o que ela tem a contar sobre o folclore e, então, a cozinheira toma a palavra e narra diferentes histórias aos ouvintes da casa de Dona Benta. Segundo Benta, os contos de Tia Nastácia são prolongamentos de narrativas trazidas pelos colonizadores, as quais o povo reproduz oralmente, devido ao analfabetismo (p. 61). Na obra referenciada, destaca-se antes a reação do público receptor do que propriamente as narrativas da ex-escrava. Após o final do primeiro conto, Emília e Narizinho destacam a ingenuidade das ―histórias folclóricas‖, a boneca por achar o povo ―muito idiota‖ e a menina por achar-se ―exigente‖ depois de ter lido ―Peter Pan‖. Já Pedrinho acredita na importância de conhecê-las por possibilitar um ―estudo da mentalidade do povo‖ (p. 18). Nesse viés, a boneca de pano afirma: [...] só aturo essas histórias como estudo da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e bárbaras, coisas mesmo de negra beiçuda como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto e não gosto... (LOBATO, 2009b, p. 28).

Percebe-se que os pareceres das três personagens associam aquelas histórias a uma cultura díspar a que possuem e a crítica de Emília as relaciona a um grupo incivilizado ou semisselvagem, ao qual Tia Nastácia pertenceria por ser negra. A cada nova narração, os ouvintes manifestam suas avaliações sobre o que escutaram. Normalmente, as críticas iniciam com a fala de Emília e, a partir dela, as outras personagens dão continuidade à discussão. A boneca afirma que seu gosto se direciona mais a Andersen e Carroll do que às histórias populares (p. 23) e que a responsável por suas exigências é Dona Benta, por ―ensinar-lhes tanto sobre ciências e artes‖ (p.18). Na obra citada, pode-se notar a dicotomia entre ―literatura oral‖ e ―literatura escrita‖, onde Nastácia se encontra isolada como representante da oralidade, considerada consequência do analfabetismo, e seus ouvintes como críticos fundamentados em uma cultura letrada e ocidental. Essa desproporcionalidade pode ser comprovada a partir da apreciação das palavras da personagem Dona Benta a respeito das reivindicações feitas pelas crianças:

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Nós não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores. O povo... Que é o povo? São essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda (LOBATO, 2009b, p. 27).

Vê-se que Benta relaciona o povo à incultura, por se tratar de um grupo iletrado, cujas manifestações literárias não passam de histórias repassadas verbalmente e modificadas a cada nova transmissão. Outras considerações semelhantes podem ser notadas nas afirmações de Emília. Primeiramente, a de que o povo ―não tem delicadeza, não tem finuras, não tem arte. É grosseiro, tosco em tudo que faz‖ (p. 49); depois, referindo-se a Tia Nastácia, considera que ―bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba‖ (p. 90). Assim, Nastácia e, consequentemente, o povo – segundo a relação feita por Pedrinho ao princípio – são associados à falta de apuro artístico e, também, à incivilidade. Ademais, essas características estariam ligadas de forma intrínseca à esfera racial, pois Emília expõe que, somente a partir das declarações de Nastácia, seria fácil concluir que se tratava de um indivíduo dotado de ditas características fisionômicas. Outro julgamento que pode ser percebido entre os interlocutores de Tia Nastácia é o despropósito ou falta de sentido de algumas ações presentes nos contos, bem como a repetição do ―enredo narrativo‖, o qual aparenta ter sido apenas remodelado, como parece ser a opinião de Pedrinho ao declara estar cansado da ―ciclicidade‖ daquelas histórias (p. 36). Em outro momento, o menino tenta justificar a aparição de personagens negras em histórias nas quais, inicialmente, só possuíam personagens brancas. Sobre o conto de ―João e Maria‖, narrado por Nastácia, a razão da inserção de um negro na história ocorre ―porque no Brasil as histórias são contadas pelas negras, que gostam de enxertar personagens pretos como elas. Lá na Dinamarca Andersen nunca se lembraria de enxertar um preto porque não há pretos. Tudo gente loura‖ (p. 54). A colocação de Pedrinho parte do princípio de uma tentativa de alteração da narrativa como forma de autoidentificação, ou seja, a inclusão de sujeitos negros em histórias onde só existiam personagens brancas seria um esforço visando aproximar o conteúdo narrativo da realidade racial dos seus mediadores. Ademais, a não inserção de personagens negras nas narrativas de Andersen é justificada pela provável totalidade branca da população do território onde o escritor elaborou suas criações, o que, novamente, demonstraria uma valorização de uma identidade racial.

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Cabe destacar que nos contos finais enunciados por Nastácia, a postura dos ouvintes se altera e pode-se notar a manifestação de elogios devido ao fim das repetições, do melhoramento dos arranjos, a presença de humorismo e de personagens animais, no lugar de reis e príncipes. Apesar do protagonismo de Tia Nastácia como personagem que adquire a voz narrativa, em determinado instante, ela necessita abandonar o posto adquirido e retomar a sua função de cozinheira, pois a hora do jantar se aproxima. Por solicitação das crianças, Dona Benta substitui Nastácia e, por declarar-se conhecedora de histórias do folclore de todos os países, dá continuidade à sessão de histórias (p. 119). Dentre as narrativas apresentadas, a dona do Sítio do Pica-pau Amarelo decide dar a conhecer um conto folclórico originário do Congo e, ao final da enunciação, Pedrinho conclui que aquela história se parece com as brasileiras, as quais seriam ―bem bobinhas‖. Para Dona Benta, não se podia esperar nada diferente dos ―pobres negros do Congo‖ e, além disso, aquela teria sido uma região de intenso fornecimento de escravos para a América (p. 125). O esclarecimento da senhora demonstra que os indivíduos daquele país, demarcados por sua composição racial negra, não eram capazes de elaborar uma narrativa de qualidade elevada e a similitude com os brasileiros evidencia uma herança transplantada na época do tráfico de escravos africanos. Assim, as críticas negativas às histórias populares – como a nula ou baixa cultura, a incapacidade artística, a incivilidade, etc. – são ligadas a um atavismo fundamentado na ancestralidade africana do povo. Por fim, os interlocutores afirmam estarem fartos daquele tipo de narrativas e Narizinho destaca que ―histórias do povo não quer mais. De hoje em diante, só as assinadas pelos grandes escritores. Essas é que são as artísticas‖ (p. 133). A inferência de Lúcia comprova o repúdio ao folclore e, prontamente, anula a possibilidade de retomar-se aquela temática em novas reuniões. Cabe, ainda, destacar que em uma das histórias enunciadas por Tia Nastácia, Pedrinho menciona seu desagrado pela aparição na narrativa de um ―canteiro de cebolas‖. Para o menino, ―bem se vê que é história contada por negras velhas, cozinheiras‖ (p. 40). A vírgula que separa os termos ―negras velhas‖ de ―cozinheiras‖ revela que o segundo termo funciona como uma explicação e não como uma restrição. Desta forma, vê-se que Pedrinho generaliza a ligação entre as mulheres idosas e negras à função de cozinheira, ocupação desempenhada, na casa de Dona

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Benta, por Tia Nastácia. Obviamente, se analisado de forma superficial, a representação de uma mulher negra ligada a essa profissão não demonstra uma tentativa de rebaixamento social. Entretanto, a generalização feita a partir da associação feita entre ―raça‖ e essa ocupação pode levar a outras conclusões. A frase de Pedrinho denota que a atividade de ―cozinheira‖ é preenchida, inevitavelmente, por ―negras velhas‖ e ver-se-á que essa ligação não se encerra no exemplo dado. Em A chave do tamanho, devido à pequena estatura dos indivíduos em decorrência do erro de Emília na ―Casa das Chaves‖, a boneca avistou de longe ―dois insetos cor-de-rosa e um preto‖, mas somente depois percebeu que se tratava de humanos. A conclusão a que chegou foi que os ―cor-de-rosa‖ eram os donos da casa e o ―preto‖ devia ser ―a Tia Nastácia de lá – a cozinheira‖ (LOBATO, 1982a, p. 23). A dedução de Emília elaborada antes de um contato com aqueles sujeitos demonstram, novamente, uma conexão indubitável entre a pessoa ―negra‖ observada em um dos degraus da varanda e a função de ―criado‖. Por conseguinte, os dois exemplos dados tratam de correlacionar o âmbito ―serviçal‖ ao ―racial‖ e, nesse momento, pode-se notar a tentativa de categorização entre as personagens segundo o critério de ―raça‖. O ofício de Tia Nastácia como cozinheira fará parte da grande maioria de suas participações nas obras lobatianas. Mesmo nos meros comentários, sem grandes intervenções aos acontecimentos centrais, são realizados depois de sua vinda da cozinha, onde desempenha suas atividades, ou diretamente desse seu espaço laboral. Na maioria das vezes, as interações consideráveis de Nastácia com outra personagem se realizam em função dos alimentos que elabora ou possuem como pano de fundo o cômodo da casa onde, normalmente, se encontra. Essa evidenciação pode ser percebida na visita do ―Príncipe Escamado e de sua corte‖, em Reinações de Narizinho, onde uma sardinha – ―Miss Sardine‖ – faz amizade com Nastácia. A relação entre as personagens se mantém a partir da curiosidade da visitante sobre os diferentes produtos que a cozinheira dispunha para o preparo das refeições e das explicações derivadas desse interesse (LOBATO, 2011d, p. 120- 122). Outra situação semelhante ocorre em O Pica-pau Amarelo (1939), onde as personagens do ―Mundo da Fábula‖ decidem morar no Sítio e Sancho, o escudeiro

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de Dom Quixote, se torna amigo de Nastácia. O escudeiro fica encantado pelas comidas feitas pela cozinheira de Dona Benta e, no momento da despedida, conclui: ―[...] nesta casa os petiscos têm qualquer coisa que bole no coração da gente. Acredite, Senhora Nastácia, que cozinheira como vosmecê nunca jamais [sic] houve no mundo – nem haverá‖ (LOBATO, 2010c, p. 77). Vê-se que o trecho destacado expressa uma valorização do ofício de Tia Nastácia, onde o hóspede declara a perfeição dos pratos que elabora. A exaltação de seus dotes culinários não se faz presente somente nesse momento, mas, pelo contrário, permeará quase que a totalidade das referenciações à Nastácia. Em sua primeira saída do Sítio com as crianças, ao fazerem que cheirasse o ―pó de pirlimpimpim‖ pensando que era ―rapé‖, a ex-escrava foi levada, sem o seu consentimento, em uma viagem ao céu (LOBATO, 2004d, p. 21). A chegada inesperada ocorreu na Lua, onde acabaram por encontrar a ―São Jorge‖, o qual ficou sabendo da dedicação de Nastácia no Sítio do Pica-pau Amarelo e convidou-a para que permanecesse naquele local para ser sua cozinheira. Antes que Nastácia respondesse, Narizinho decidiu que a senhora ficaria, mas somente enquanto eles visitassem os outros planetas. Percebe-se que, mesmo com o distanciamento, Tia Nastácia permanece em sua função de criada, prestando serviços a diferentes indivíduos, como ocorre no casamento de Branca de Neve – em O Pica-pau Amarelo – onde é levada para ―Terras Novas‖ com a incumbência de preparar o banquete, momento em que foi sequestrada. Já em O Minotauro (1939), obra que dá sequência ao desaparecimento da cozinheira, Dona Benta e as crianças vão à Grécia em busca de Tia Nastácia. Segundo Benta, a razão daquele esforço é, ao mesmo tempo, ―sentimental‖ e ―culinária‖, por se tratar de sua ―amiga‖ e ―cozinheira‖ (LOBATO, 1982e, p. 66). Assim, pode perceber que a colocação da senhora equipara os valores da empregada. No momento em que a encontram, Nastácia está preparando bolinhos para o Minotauro em seu labirinto. O que, segundo ela, começou como uma maneira de matar a saudade da sua ―gente lá do sítio‖ e acabou como forma de livrar-se do desejo antropofágico daquela criatura. As suas habilidades de cozinheira – diferente do que destacou, equivocadamente, José Luís Ceccantini ao afirmar que sem a atitude da ex-escrava o Sítio chegaria a seu fim – resultaram, na verdade, em uma arma de autodefesa, sem interligação alguma com as outras personagens ou

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espaços narrativos, como a fazenda de Benta. Na sequência do salvamento, uma das personagens declara a Nastácia que ela iria ―voltar para o Pica-pau e continuar por toda a vida a fazer bolinhos para eles‖ (p. 84). Apesar das aflições sofridas, reforçou-se a sua posição de serviçal, além de afirmar que a personagem se manteria naquela ocupação até o final de seus dias. Ainda em O Minotauro, enquanto procuravam por Nastácia, Emília a descreveu a um pastor a fim de averiguar se ele a tinha visto. De acordo com ela, se tratava de ―uma velha cor de carvão, de lenço vermelho de ramagens na cabeça e um par de beiços deste tamanho na boca‖ (p. 45). A associação da cor da pele da cozinheira à coloração daquele produto pode ser relacionada à consideração da boneca, em Serões de Dona Benta (1937), de que o carvão é ―tão preto e feio‖ (LOBATO, 2004d, p. 98). Com essa ligação, é possível concluir que a cor da pele de Nastácia é vinculada ao âmbito da ―fealdade‖. O uso de tal termo é encontrado em outras obras, como ocorre em Memórias da Emília (1936), em trecho em que a boneca de pano expõe sua opinião sobre Tia Nastácia: Eu vivo brigando com ela e tenho-lhe dito muitos desaforos – mas não é de coração. Lá por dentro gosto ainda mais dela do que dos seus afamados bolinhos. Só não compreendo por que Deus faz uma criatura tão boa e prestimosa nascer preta como carvão. É verdade que as jabuticabas, as amoras, os maracujás também são pretos. Isso me leva a crer que a tal cor preta é uma coisa que só desmerece as pessoas aqui neste mundo. Lá encima não há diferenças de cor. Se houvesse, como havia de ser preta a jabuticaba, que para mim é a rainha das frutas? (LOBATO, 2007a, p. 90- 91).

Percebe-se que as frases iniciais demonstram a afeição de Emília pela cozinheira, mas as colocações subsequentes demonstram o incômodo sentido pela boneca devido à cor da pele de Nastácia, comparada mais uma vez ao ―carvão‖. Além disso, vê-se que as qualidades da empregada giram em torno de sua bondade e de seu servilismo, o qual reforça a sua posição de prestadora de serviços. Esse aspecto pode ser notado em trecho anterior ao citado, no qual se destaca que a sabedoria da ex-escrava se restringe, basicamente, a seus afazeres na cozinha, mas no que se refere à ―ciência‖ dos livros, era uma ―ignorante‖ (p. 90). O desconforto declarado por Emília está na incompatibilidade existente entre os atributos de Nastácia e sua coloração epidérmica, a qual seria a causadora da natureza degradante desses sujeitos. A comparação às frutas aponta que a cor preta seria depreciativa somente nos humanos e acarretaria a desigualdade entre os indivíduos.

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Essa distinção aparece em outras declarações de Emília, como, por exemplo, em Viagem ao céu, onde afirma que ―negra velha não tem o direito de repousar‖ (LOBATO, 2004d, p. 8). Pode-se mencionar, entretanto, a investida de Lúcia ao defender que ninguém tinha mais direito de descanso do que Tia Nastácia. Em Peter Pan (1930), Emília reage à solicitação da empregada para ouvir a história a ser narrada por Dona Benta. Segundo a boneca, a ideia era uma ―bo-ba-gem! Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?‖ (LOBATO, 1982f, p. 8). Nota- se que a condição de Nastácia como criada surge como divisora dos direitos ou necessidades e, apesar do interesse manifestado, aquela história não lhe serviria de maneira alguma. Sequencialmente, ao declarar que nunca havia visto uma fada, Tia Nastácia recebe, com rispidez, a reação de Emília: Cale a boca! [...] Você só entende de cebolas e alhos e vinagres e toicinhos. Está claro que não poderia nunca ter visto uma fada porque elas não aparecem para gente preta. Eu, se fosse Peter, enganava Wendy dizendo que uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda (LOBATO, 1982f, p. 13).

Vê-se que, nesse momento, se mesclam as categorias ―laboral‖ e ―racial‖, onde, novamente, o conhecimento da senhora aparece como restrito a suas atividades domésticas, enquanto o ―mundo das fadas‖ estaria limitado aos ―brancos‖. Além disso, a suposição de Emília sobre o que faria no lugar de Peter Pan coloca os ―negros‖ como destruidores desse universo fantástico branco, pelo simples contato visual. Além disso, essa ideia de Emília sobre a morte das fadas quando miram a uma ―negra‖ pode ser associada à característica central de Medusa: a capacidade de petrificar quem lhe fixasse os olhos. Assim, a pele negra aparece como algo destrutivo para os que a contemplam. Na ocasião, Dona Beta tenta controlar a situação e pede a Emília para que não trate Nastácia daquela maneira, pois todos sabem que ―ela é preta só por fora‖, e o Visconde de Sabugosa reforça a explicação ao declarar que ―isso de brancuras e preturas não passa de maior ou menor quantidade de pigmentos nas células da pele‖ (p. 13). A declaração inicial de Dona Benta descarta a possível obviedade da informação e trata de expor que a ―cor‖ da ex-escrava era algo apenas epidérmico, ou seja, que ―os pretos são pretos porque têm muitos pigmentos na pele‖ (p. 14). Consequentemente, Emília não perde a oportunidade de zombar daquela informação, ao alegar que ―se os pigmentos de Tia Nastácia fossem cor de burro quando foge ela não seria negra e sim uma burra fugida...‖ (p. 14).

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Cabe ressaltar que a discussão se formou a partir do primeiro comentário de Emília sobre a impossibilidade de que ―negras‖ enxergassem as fadas, o que instaura a ideia de desigualdade de direitos entre brancos e negros. Com a intervenção de Dona Benta, centraliza-se o assunto na esfera da distinção exterior marcada pela coloração da pele, mas Emília acaba por conduzir o diálogo para a esfera da animalização, fundada com base na associação à expressão popular. Vê- se que, a pesar das modificações nos rumos da conversa e da tentativa de esclarecimento por parte de Dona Benta, a boneca continua a se referir à cozinheira de forma escarnecedora. No mesmo caminho, a fim de demonstrar que as explicações de Benta e de Visconde parecem não ter ficado tão claras para Emília, pode-se resgatar outra fala da boneca. Em Caçadas de Pedrinho (1933), ao falar sobre o conflito que se armava com os animais da floresta, ela afirma: ―É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém – nem tia Nastácia, que tem carne preta‖ (LOBATO, 2009a, p. 26). Na fala de Emília, exalta-se a distinção biológica da cozinheira, agora relacionada à coloração carnal da personagem. Entretanto, apesar da diferenciação apresentada por Nastácia, os animais não a privariam do ataque. A necessidade de mencionar essa acometida geral por parte dos seres da floresta demonstra que Emília cria que o mais natural seria que as diferenças físicas de Nastácia a salvassem daquele ataque. A menção ao ataque dos animais permite a introdução de outra temática, destacada nos pareceres do Conselho Nacional da Educação mencionados no ―Capítulo I‖: a associação de Tia Nastácia a uma ―macaca de carvão‖. O atrito em os integrantes do Sítio do Pica-pau Amarelo e os animais da floresta, presente em Caçadas de Pedrinho, teria sido resultado da morte de uma onça por parte das crianças e do planejamento da vingança elaborado pelos habitantes da mata. No ataque comandado pelas onças, o narrador lobatiano afirma que, com o intuito de refugiar-se do perigo, ―Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, como uma macaca de carvão, pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão subir em mastros‖ (LOBATO, 2009a, p. 39). Considera-se relevante a retomada da afirmação de Marisa Lajolo de que Monteiro Lobato, a todo instante, chama a diversos personagens de ―macaco‖. A

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autora usa como exemplo a obra O macaco que se fez homem, na qual o escritor teria satirizado as hipóteses sobre o surgimento da humanidade. No artigo mencionado por Lajolo – ―Era no paraíso...‖ – com uma mescla de intertextualidades sobre as teorias bíblica e evolucionista, o texto lobatiano relaciona o advento da humanidade a um acidente de um chimpanzé que, devido ao vento, despencou da árvore que se encontrava e chocou-se contra uma pedra. Desde esse dia, então, teria começado ―elaborar ideias‖ (LOBATO, 1959b, p. 202)26. Vê-se que o texto associa toda a humanidade a um primeiro ―macaco‖ que teria dado início a evolução, mas, em se tratando da literatura infantil, torna-se necessário averiguar como essas referências aparecem. O narrador de Reinações de Narizinho, ao descrever Lúcia, afirma que ―[...] a menina não fazia outra coisa senão chupar jabuticabas. Volta e meia trepava à árvore, que nem uma macaquinha‖ (LOBATO, 2011d, p.38). Nota-se que a comparação de Narizinho a uma ―macaca‖ está relacionada à atitude desse animal de subir em árvores, no caso da menina, nas jabuticabeiras em busca das frutas maduras, a fim de comê-las. Semelhante a essa vinculação, o narrador de Caçadas de Pedrinho destaca que, no momento em que o menino e sua turma falharam na acometida em direção a uma onça que tentavam caçar, ―cada qual tratou de si e, como se houvessem virado macacos, todos procuraram a salvação nas árvores (LOBATO, 2009a, p. 16). Novamente, a ligação aos primatas tem como fundamento o comportamento trepador dos macacos. Posteriormente, Pedrinho dá o sinal no momento oportuno da decida: ―– É hora! Avança, macacada!‖ (p. 17). Claramente, percebe-se que a personagem também estabeleceu a associação entre a ação de subir ou descer de árvores e o hábito daquele animal. Já Emília, em Fábulas (1922), ao resumir o que entendia sobre esse gênero literário, afirma que se trata de ―indiretas‖ para diferentes pessoas e que ela, prontamente, faz as relações necessárias: ―este mono é o Tio Barnabé; aquele asno carregado de ouro é o Coronel Teodorico; a gralha enfeitada de penas de pavão é a filha da Nhá Veva‖ (LOBATO, 2010b, p. 118). Neste caso, se tomado em comparação aos exemplos anteriores, não se pode justificar a relação feita por Emília entre Tio Barnabé e um macaco. Entretanto, vê-se que outras personagens

26 Na publicação de suas ―Obras Completas‖, Monteiro Lobato dividiu os textos de O macaco que se fez homem e incluiu-os em outras duas publicações: Cidades Mortas (1919) e Negrinha (1920).

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também são relacionadas a animais diversos, sem qualquer esclarecimento. Uma inferência que não leve em conta essa percepção, pode ser induzida ao erro, pois o texto não apresenta informações precisas para que se conclua algo diverso do exposto anteriormente. Por outro lado, retoma-se a afirmação do narrador de Caçadas de Pedrinho a respeito de Tia Nastácia, na qual declara que a senhora ―trepou, como uma macaca de carvão, no mastro de São Pedro acima‖. Prontamente, pode-se agregar essa informação aos dois primeiros exemplos mencionados, onde a facilidade que teve em subir naquele local é tida como semelhante à habilidade do ―macaco‖. Não obstante, a relação ao primata não vem isolada, mas, pelo contrário, vem complementada pela especificação indicada pelo adjunto adnominal ―de carvão‖. Nas análises anteriores, viu-se que nas palavras de Emília o termo ―carvão‖ e as suas associações à Tia Nastácia tem caráter negativo. Obviamente, não se podem, simplesmente, interligar os ideais da boneca aos do narrador, por se tratarem de entidades ficcionais distintas. Ainda assim, a alusão ao ―carvão‖, certamente, tem por intuito uma marcação racial a partir do critério da ―cor‖. Consequentemente, é possível destacar a necessidade tida pelo enunciador em unir, na mesma expressão, o vínculo antes evidenciado sobre a atitude de subir com facilidade – e uma delimitação de cunho racial. Assim, não se pode evitar uma leitura da locução que englobe as duas conclusões em apenas uma e compreenda a referência ao macaco como uma especificação, também, racial. Outro ponto importante em relação à personalidade de Tia Nastácia está vinculado à forte caracterização de suas crenças religiosas. Em suas falas, constantemente, aparecem rogos a divindade cristã, além de considerar, por vezes, sortílegas as atitudes ou declarações das crianças, com frases como: ―Credo! Até parece feitiçaria!‖ (LOBATO, 2011d, p. 43). Além disso, em episódios causadores de medo ou desprezo por parte da personagem, o narrador menciona a sua atitude de fazer o ―sinal da cruz‖, ora apenas uma vez e sem erros ora repetidas vezes, com ambas as mãos ou abandonando qualquer ordem pré-estabelecida sobre a sequência a ser seguida para dito gesto.

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5.2.2 O branco: autoridade, beleza, inteligência e cultura avançada

Em Emília no país da gramática (1934), ao aprender a teoria sobre os ―Sinônimos e os Antônimos‖. A boneca chega à conclusão de que, então, ―Dona Benta é Antônima de Tia Nastácia [...], porque uma é branca, e outra é preta‖ (LOBATO, 1982c, p. 35). Como resposta, Narizinho declara que ―as cores delas é que são Antônimas [...] e não elas...‖ (Idem, Ibidem). Percebe-se que, para a análise dos opostos, tanto Emília, com o uso aparentemente inconsciente de uma sinédoque, quanto Lúcia com sua especificação, partem de um pressuposto fenotípico. No entanto, o argumento utilizado pela menina centraliza a oposição ao destacar que a diferença é apenas epidérmica, mas ver-se-á, a seguir, que as incompatibilidades entre as duas personagens ultrapassam as questões físicas. No apartado anterior, observou-se que Tia Nastácia surge como representante do ―povo‖ e, por conseguinte, de uma cultura popular de base fundamentalmente oral. Além dessas características, mas não desassociada delas, está a percepção de que Nastácia – e por extensão o ―povo‖ – é marcadamente ―ingênua‖ e ―ignorante‖, princípio expresso não só pelos integrantes do Sítio, mas também por personagens externos, como ―São Jorge‖, em Viagem ao céu (LOBATO, 2004d, p. 31). Por outro lado, no que se refere à proprietária do Sítio do Pica-pau Amarelo, essa representação está sustentada por uma cultura ―escrita‖ e ―científica‖. Em grande número de obras27, Dona Benta ganha a voz narrativa e a atenção das outras personagens centrais – incluindo Tia Nastácia em alguns casos – o que, numericamente, já demonstra que as possibilidades de defesa de princípios são díspares. Em relação ao âmbito literário, vê-se que, em Histórias de Tia Nastácia, a ex- escrava narra histórias populares e atua como prolongadora da ―cultura oral‖. Enquanto isso, Dona Benta aparece como defensora de uma ―cultura escrita‖ e, em extensão, de uma literatura ocidental, através da menção, da defesa e da difusão das narrativas dessa espécie e de seus escritores, como Esopo, Jean de La Fontaine (1621-1695), Miguel de Cervantes (1547-1616), Hans Christian Andersen

27 Como exemplos, é possível citar as seguintes obras: Fábulas (1922); As aventuras de Hans Staden (1927); Peter Pan (1930); História do Mundo para Crianças (1933); Geografia de Dona Benta (1935); História das invenções (1935); Dom Quixote das crianças (1936); Serões de Dona Benta (1937).

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(1805-1875), Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll) (1832-1898). Ademais, vê- se que as obras lobatianas em que essa evidenciação está mais explícita são Fábulas (1922), Peter Pan (1930) e Dom Quixote das crianças (1936). Dentre essas produções, destaca-se Fábulas pela relação apresentada entre o povo e esse gênero literário. Nas narrativas contadas por Nastácia, as histórias populares são consideradas por Benta como uma herança dos colonizadores, as quais teriam sido, constantemente, modificadas pelo povo no momento de sua disseminação oral. Entretanto, as ―fábulas‖ contadas por Dona Benta, ainda que relacionadas ao povo, ganham outras proporções. Segundo a dona do Sítio, quem ―inventou a fábula foi o povo e os escritores foram aperfeiçoando. A sabedoria que há nas fábulas é a mesma sabedoria do povo, adquirida à força de experiência‖ (LOBATO, 2010b, p. 59). Vê-se que, nesse momento, o ―povo‖ surge como integrante necessário para a constituição das histórias, pois teria sido ele o real criador dessas narrativas. Assim, percebe-se que o grupo representado por Nastácia não coincide com os autores das fábulas aprimoradas pelos escritores, pois as histórias divulgadas pelos primeiros são colocadas como um legado importado e desconexo à realidade popular, enquanto as dos segundos, frutos do saber compartilhado entre os indivíduos, resultam da própria experiência dos mesmos. Ao levar-se em consideração que, na base das narrativas contadas por Dona Benta estão as figuras de Esopo e La Fontaine, conclui-se que as concepções positivas estão direcionadas ao ―povo ocidental‖, ao ponto que as negativas estão apontadas para o ―povo brasileiro‖. Além disso, as histórias são ora lidas diretamente dos livros ora narradas oralmente por Dona Benta. Em Dom Quixote das crianças, com a justificativa de que as crianças não têm a ―necessária cultura para compreender a beleza da forma literária‖ (LOBATO, 2011a, p. 17), a senhora decide contar a história com suas próprias palavras. Nota-se a associação feita entre incapacidade ou desprovimento cultural e a oralidade, o que remete a maneira de transmissão das histórias populares. Sobre a receptividade dos ouvintes a respeito não só das narrativas literárias, mas também das científicas, nota-se o inverso do destacado nos contos de Nastácia. Em Fábulas, apesar de algumas discordâncias de Emília em alguns pontos, em geral, a reação das crianças pode ser considerada positiva, dada as atitudes expressas ao fim de cada história: ―Lindo, vovó‖ (LOBATO, 2010b, p. 23);

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―Bravos!‖ (p. 48); etc. Além disso, os questionamentos, normalmente, têm por objetivo esclarecer dúvidas e sempre encontram respostas convincentes de Dona Benta. O mesmo acontece quando as informações estão voltadas a outros ramos do conhecimento, como se pode ver na resposta de Narizinho à explicação de sua avó sobre os ―poços artesianos‖, em Serões de Dona Benta: ―Está claro como água na fonte [...] A senhora é um poço artesiano de clareza‖ (LOBATO, 1994, p. 29). O entendimento por parte das crianças é o que objetiva Dona Benta, pois afirma que tem por intuito dar a elas a ―riqueza de conhecimentos‖ e não a ―material‖ (p. 104). Não obstante, quando as enunciações de Benta não estão ligadas ao ―literário‖, Tia Nastácia não faz parte do grupo de interlocutores, pois a sua sabedoria era evidenciada apenas na esfera funcional. Segundo Dona Benta, ―até tia Nastácia, que Emília chama um poço de ignorância, sabe um monte de coisas científicas – mas só as sabe praticamente, sem conhecer as razões teóricas que estão nos livros‖ (LOBATO, 1994, p.11). Vê-se que a separação de Nastácia denota a existência da oposição entre ―atividade intelectual‖ e ―atividade manual‖, onde, obviamente, a cozinheira atua como agente da segunda faculdade. Essa bipartição é perceptível, também, quando analisadas as primeiras saídas das duas figuras adultas do Sítio. Como destacado anteriormente, Tia Nastácia foi levada contra a sua vontade á Lua, onde acabou desempenhando a função de cozinheira de São Jorge enquanto as crianças conheciam os outros planetas. Já Dona Benta teve o seu primeiro passeio impulsionado por sua própria vontade – a de conhecer ―La Fontaine‖. Segundo o narrador de Reinações de Narizinho, Benta ―sempre tivera grande admiração por esse fabulista, que considerava um dos maiores escritores do mundo‖ (LOBATO, 2011d, p. 261). Além da nova exaltação à literatura europeia, nota-se que as duas funções narrativas fora do Sítio recém mencionadas remetem a dicotomia apresentada anteriormente, onde se reforça a oposição entre as duas atividades. A notoriedade ocidental, antes mencionada, ultrapassa o ramo literário e alcança o âmbito histórico-geográfico. Em Geografia de Dona Benta (1935), Benta conta aos seus fiéis interlocutores a respeito da formação das nações e dos sucessos e insucessos tidos por cada uma das regiões do mundo. De um lado, os países nortistas da Europa – em especial França, Holanda, Alemanha e Dinamarca – são considerados por Dona Benta como regiões de grandes vantagens climáticas

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e de elevadas civilizações. Além das contínuas exaltações aos europeus do norte, os Estados Unidos são considerados a ―glória do continente americano‖, pois nele ―tem tudo‖, ―produz tudo‖ (LOBATO, 2004a, p. 52-53). Entretanto, torna-se necessário destacar a continuidade da declaração de Benta depois de salientar a ―glória‖ desse país, na qual destaca que ―há lá uma barreira entre os brancos e os pretos, de modo que as duas raças pouco se misturam. Quem é branco fica branco e quem é preto fica preto‖ (p. 52). A informação sobre a questão racial dos Estados Unidos demonstra que se trata de uma nação que zela pela purificação racial, efetivada com a dita ―barreira‖ que a sustenta. Assim, a colocação desse dado ao lado do enaltecimento anteriormente citado induzem a conclusão de que a esfera racial tem papel fundamental para torná-lo ―glorioso‖. Outro país analisado por Dona Benta foi o Japão, nação que, segundo ela, servia de exemplo de que ―a grandeza dum povo não é a extensão do território e sim a qualidade da gente‖. Segundo ela, aquela nação vinha surpreendendo o mundo, mesmo ―com um território pequeno e de más terras, cheio de vulcões, todo picadinho e, além do mais, sujeito a terríveis terremotos‖ (p. 79). Entretanto, as qualidades japonesas não são expostas como uma conquista individual, mas como resultado da busca, no lugar correto, dos ingredientes necessários para o sucesso. De acordo com Dona Benta, nesse país, ―mandaram alunos cursar as grandes escolas europeias e americanas, para que aprendessem as ciências lá ensinadas – e esses alunos vieram depois transformar o país‖ (p.80). Diferentemente do que nos países anteriores, onde o clima e o território são postos como elemento importante para o sucesso nacional, agora, apresenta-se uma região desprovida de qualidades geográficas que possibilitassem sua evolução. Não obstante, a solução apresentada por Dona Benta é, exatamente, a busca dos conhecimentos necessários para essa finalidade. Assim, a Europa e os Estados Unidos são expostos, além de tudo como países detentores do ―grande saber‖. A associação entre o homem branco e a inteligência é destacada, também, quando a proprietária do Sítio do Pica-pau Amarelo fala a respeito da Índia e de sua antiga povoação composta por ―arianos‖ e ―dravidianos‖: Esses arianos eram gente rija e de mais força mental que os Dravidianos, a gente de pele mais escura que por esse tempo fervilhava nos vales da Índia. E os arianos dominaram a zona inteira apesar da inferioridade numérica. O número nunca valeu muito na vida. Vale o jeito, a esperteza. Um punhado de arianos dominou completamente o enxame de Dravidianos, e para defender-se deles, para evitar que se revoltassem, inventaram o tal

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sistema de castas, que ainda perdura até hoje. [...] Um meio que os que estavam de cima, e eram poucos, inventaram para conservar em submissão os que estavam debaixo, e eram muitos. Com a sua esperteza natural, os arianos de cima convenceram os dravidianos debaixo de que eles formavam uma raça inferior, maldita, indigna. E proibiram, da maneira mais absoluta, o menor contacto entre as duas classes. Separação ainda pior que a notada por vocês nos Estados Unidos entre os brancos e os pretos (LOBATO, 2004a, p. 99-100).

As palavras de Dona Benta revelam a existência de uma dupla desigualdade entre os dois povos: os arianos seriam dotados de uma força mental superior aos dravidianos, enquanto estes possuíam apenas vantagem numérica, incapazes de triunfar sobre a inteligência dos primeiros. Nota-se que essa aptidão teria possibilitado o domínio ariano na Índia, através do sistema de castas, criado a partir do convencimento da suposta ―inferioridade dravidiana‖. A dicotomia ―de cima/debaixo‖ parece estar relacionada aos povos do norte e do sul do país respectivamente, mas não deixa de permitir uma associação à disparidade exposta anteriormente. Em seguida, vê-se que a ―esperteza‖ dos arianos é considerada por Dona Benta como algo biológico e, por conseguinte, essa avaliação demonstra concordância com a ideia de ―inferioridade‖ – pelo menos mental – que teria possibilitado a fundação do sistema de castas indiano. Essa separação pode ser aproximada às considerações apresentadas anteriormente sobre a questão da ―ciência‖ vista de seu ângulo prático e teórico, responsável pela diferenciação entre Tia Nastácia e os outros integrantes do Sítio do Pica-pau Amarelo. A ligação entre o ―ariano‖ e a ―inteligência‖ pode ser notado em A chave do tamanho, no momento em que Emília apresenta o Visconde de Sabugosa ao ditador alemão, um dos responsáveis pela guerra que se desenrolava. Nessa narrativa, todos os indivíduos estavam em tamanhos reduzidos, com exceção do Visconde. Por conseguinte, a estatura gigantesca do sabugo falante assustou o ―Grande Ditador‖ e com o intuito de acalmá-lo, Emília salienta: ―[...] não é judeu não, Excelência. Não tenha medo. O Visconde é arianíssimo. Quando esteve no milharal que foi o seu berço, o vento dava na sua linda cabeleira louro-platinada‖ (LOBATO, 1982a, p. 68). Mesmo sem mencionar o nome de Hitler ou o regime nazista, as declarações de Emília tratam de estabelecer a possibilidade de temor do ditador caso aquele ―gigante‖ fosse um ―judeu‖. Ademais, vê-se que a apesar de sua origem vegetal, o Visconde é apresentado com características que lhe possibilitavam a inserção em uma ―categoria racial‖. Antes dessa descrição, a boneca destaca que

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Sabugosa ―é um grande sábio – hoje o maior sábio do mundo‖ (Idem, Ibidem) – e essa informação remonta a faculdade mais enaltecida do sabugo vivente nas obras a respeito do Sítio do Pica-pau Amarelo: sua ―inteligência‖. Por conseguinte, percebe-se que, assim como ocorre com na definição das características dos povos ―arianos‖ e ―dravidianos‖, a genialidade é associada à ―raça branca‖. Por fim, o último território relevante a ser citado é a África. De acordo com Benta, o continente africano é um território ―azarado‖ pelas imensas regiões desérticas, as quais seriam inúteis para ser aproveitadas pelo homem (p. 103). A ―narradora‖ analisa, também, a variação da cor da pele do que chamou de ―continente infeliz‖, onde o norte apresentava características distintas, como a cor da pele morena e o cabelo liso, e o centro e o sul seriam constituídos por indivíduos de ―pele preta como o carvão e cabelo pixaim‖ (p. 103-104). Os rasgos peculiares apresentados ao norte seria resultado da miscigenação entre arianos, semitas e negros, o que teria afetado, também, algumas características dos povos europeus próximos à África, considerados por Dona Benta como sendo ―em regra morenos‖. Consequentemente, quanto mais afastado desse continente, mais se evidenciava a branquidão epidérmica. Sequencialmente, ela afirma que se juntou aos males africanos – como os imensos desertos, a malária e a doença do sono – a ganância dos europeus. O despertar do interesse ocidental pela África teria sido originado com as grandes navegações e a descoberta do Novo Mundo. A grande quantidade de trabalho e a escassez de mão de obra acarretaram na escravização dos índios americanos, mas a inadmissão por parte dos oprimidos e a consequente falta de substituição desses trabalhadores teriam exigido a busca de escravos nas terras africanas, por ideia do padre ―Las Casas‖. De acordo com Dona Benta, nesse momento, ―começa a grande tragédia da América, a qual daria origem à grande tragédia da África‖ (p. 104). Os colonizadores teriam considerado os africanos mais dóceis e acostumados à escravidão, o que se opunha a rebeldia dos índios. Entretanto, sua ―ganância [...] fez que continuasse a escravidão dos índios e a ela se juntasse a escravidão dos negros‖ (p. 105). Vê-se que a descrição de Dona Benta à eclosão da escravidão nas Américas é norteada pela crítica à ambição europeia. Para os colonizadores, o sucesso de sua investida no novo continente dependia de braços fortes e a saída encontrada por

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eles foi exatamente a exigência do trabalho forçado, primeiramente, pelos nativos daquelas terras e, depois, pelos negros africanos trazidos à força pelo tráfico transatlântico. As palavras utilizadas por Benta para narrar a forma como aqueles indivíduos eram tomados de suas terras e trazidos à América mantém a criticidade anteriormente manifestada ao exagerado interesse dos europeus, mas ganha sentidos ainda mais reprovadores ao destacar a crueldade com que tudo acontecia. Igualmente indignados, os ouvintes da senhora demonstram o desprezo àquelas atitudes, como pode ser visto em uma das reações de Lúcia expostas pelo narrador: ―Que horror, vovó! – exclamou Narizinho, realmente horrorizada‖ (p. 105). Além disso, Pedrinho destaca a ―vergonha brasileira‖ por ter sido o último país a abolir a escravatura. A conclusão de Dona Benta para a postura da África perante isso tudo foi que ela ―não fez nunca outra coisa senão pagar o crime de ser mais atrasada que a Europa‖ (p. 106). Assim, a impossibilidade de criar uma grande civilização, devido a uma aparente estagnação e às adversidades geográficas, havia sido a razão do domínio europeu. Depois de passadas as atribulações da escravidão e da colonização, o que havia restado aos africanos era ―a honra de serem explorados pelos povos da mais alta civilização do mundo ocidental‖ (p. 106). Nota-se que, nessa inferência, apesar das críticas anteriores à ―ganância‖ e à ―crueldade‖, exalta- se a ―grandeza‖ da civilização europeia e põe-se a dominação colonial e a escravização empreendidas por ela como algo do que se orgulhar por parte dos oprimidos. Quando se analisou a caracterização dada a Tia Nastácia, citou-se a informação de que a cozinheira havia sido escrava de Dona Benta. Essa declaração se encontra no contexto recém exposto sobre o âmbito da escravidão e, depois desse comentário, a ―narradora‖ continua a manifestar a ligação entre o despovoamento da África e a ganância europeia. A rápida menção à situação de Nastácia no passado acabam por tentar centralizar a responsabilidade na cupidez dos europeus, mas denotam a ideia de assentimento por parte de Dona Benta, a qual teria sido esposa de um proprietário de escravos. Apesar da manifestação de que o Brasil teria sido o último país a abolir a escravatura, em nenhum momento o mecanismo do regime é questionado em relação aos outros territórios. Ainda que seja um prolongamento dos ideais coloniais, a escravidão por muito tempo serviu de

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engrenagem da economia agrícola brasileira e a participação de Dona Benta nesse processo fica clara a partir de sua declaração, a qual designaria, no mínimo, um assentimento inicial sobre a questão escravista. Por outro lado, em Minotauro, Benta continua seu julgamento negativo sobre a escravidão. Dessa vez, suas enunciações aparecem como conselhos dados a Péricles na viagem feita à Grécia Antiga, com o uso do ―pó de pirlimpimpim‖, a fim de salvar Tia Nastácia do sequestro. Nas advertências feitas ao líder ateniense em defesa do trabalho livre, Dona Benta afirma que, por ser escravo, ―um homem não deixa de ser homem; e uma sociedade que divide os homens em livres e escravos, está condenada a desaparecer‖. Por conseguinte, ela o aconselha: ―uma sociedade justa não pode ter escravos, Senhor Péricles, e nela todos os trabalhos serão feitos por homens livres (LOBATO, 1982e, p. 26). Vê-se que a liberdade é colocada como fundamental para a modernidade e, em extensão, para o progresso de uma sociedade. Além disso, Dona Benta destaca que o regime escravista não nulifica o caráter ―humano‖ dos homens, o que denota um sentimento igualitário em relação ao direito à liberdade. A continuidade da antonímia existente entre Tia Nastácia e Dona Benta pode ser observada a partir da constatação anterior: no passado, Nastácia era escrava e Dona Benta sua proprietária; agora, a ex-escrava é a serviçal, enquanto a fazendeira é sua patroa. A sequência da prestação de serviços por Nastácia depois de sua libertação lembra o sistema paternalista que convenceu muitos libertos a não abandonarem as fazendas onde trabalhavam. Nesse caso, devido ao falecimento do marido de Dona Benta, o Sítio do Pica-pau Amarelo aparece orientado por um regime matriarcal. Tia Nastácia seria uma das ―matrizes adultas‖ do Sítio, como afirma Marisa Lajolo, mas, além disso, trata-se de mais uma das personagens que se encontra sob o controle de Dona Benta, pois sua atuação é marcadamente laboral e caracterizada segundo uma indissociável subalternidade. De volta a Minotauro, outra comparação cabível é a de que, depois do salvamento de Tia Nastácia de sua atuação como cozinheira no labirinto da criatura ―meio homem, meio touro‖, Pedrinho levou-a ao encontro de Lúcia e Dona Benta, as quais estavam participando de um desfile em Atenas. Segundo o narrador, Tia Nastácia ―devorava com os olhos a formosura daquelas adolescentes vestidas com tão graciosa singeleza‖ (LOBATO, 1982e, p. 102), dentre as quais encontrou

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Narizinho. Já Emília conseguiu avistar Dona Benta, ao considerar que ―a velharada de Atenas é de primeira ordem. Bonitões! E lá está um de óculos. Não é homem, não... É uma velha. Tal qual Dona Benta... Querem ver que é ela mesma?‖ (p. 103). Nos dois casos, é possível notar o enaltecimento da beleza grega e, consequentemente, a inserção das duas personagens àquele grupo acaba por estender esses encômios igualmente a elas. A associação entre ―ter a pele branca‖ e ―ser belo‖ já havia sido constatada na análise feita sobre a caracterização de Tia Nastácia. Naquele mesmo contexto, Narizinho também destacou tal ligação ao salientar a beleza de Branca de Neve e a cor de sua pele: ―Como é boa e linda!‖; e, no mesmo enunciado, ―como Branca é branca!‖ (LOBATO, 2011d, p. 178). Os dois trechos citados demonstram a surpresa de Lúcia tanto pela intensidade de sua brancura quanto a de sua formosura. Por fim, uma informação relevante que demonstra certa equiparação de valores entre Dona Benta e Tia Nastácia pode ser observada em A reforma da natureza (1941). Finda a guerra na Europa, os ditadores, reis e presidentes se uniram em uma ―Conferência de Paz‖ e, segundo o rei da Romênia, a participação de representantes da humanidade era a única forma para que entrassem em um acordo. Sua indicação foi a presença das ―duas responsáveis matronas que governam o Sítio do Picapau Amarelo‖: [...] unicamente por meio da sabedoria de Dona Benta e do bom-senso de Tia Nastácia o mundo poderá ser consertado. No dia em que o nosso planeta ficar inteirinho como é o Sítio, não só teremos paz eterna como a mais perfeita felicidade (LOBATO, 2010a, p. 13).

Nota-se a valorização das duas personagens para o alcance do ―bem estar mundial‖ e a consideração de que Tia Nastácia também era responsável por comandar o Sítio. Entretanto, novamente, liga-se à Dona Benta o atributo da inteligência, ainda que à Nastácia seja lhe dado o de equilíbrio nas decisões. Além disso, as constatações evidenciadas no decorrer desta análise e a afirmação de que a fazenda de Dona Benta é tomada como o arquétipo de socialização – fundamental para a ―paz‖ e a ―felicidade‖ – demonstram que, na concepção do rei romeno, ―a paz eterna e a perfeita felicidade‖ estão relacionadas, também, à subalternidade do negro e a defesa da superioridade branca em seus mais variados sentidos: cultural, físico, intelectual, etc..

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5.2.3 O Sítio e seu criador

Viu-se que a esfera racial na literatura infantil de Monteiro Lobato está relacionada à caracterização dada às personagens, ora apresentada através das palavras do narrador ora por suas próprias vozes. Numa mescla entre a ideia de ―raça‖ e a de ―classe‖, a figura do negro, representada por Tio Barnabé e Tia Nastácia, é associada a uma cultura popular e a crendices em seres mágicos e sobrenaturais. No que se refere ao cargo de Nastácia, a própria função de cozinheira talvez não denotasse um sentido negativo caso essa característica não fosse apresentada com excessos de subalternidade. A personagem lobatiana tem como principal espaço de atuação a cozinha e as suas incumbências não são alteradas mesmo quando atua fora das fronteiras do Sítio do Pica-pau Amarelo, seja como cozinheira de São Jorge, do casamento de Branca de Neve ou como autodefesa contra um monstro mitológico. Nota-se que, por vezes, esse posto é apresentado como uma ocupação restritamente de ―negros‖, como se viu em comentários de Emília e de Pedrinho. Ex-escrava de Dona Benta, a permanência de Nastácia no Sítio do Pica-pau Amarelo apresenta um servilismo e uma associação ao sistema paternalista que mantiveram muitos libertos sob a guarda de seus antigos proprietários depois da abolição da escravatura. Nos comentários de Emília, a função de serviçal surge como resultante de um castigo dado por uma fada a uma princesa e essa visão fantástica de penalidade se estende às afirmações da boneca a respeito da pele negra de Nastácia. Ademais, percebe-se que, nas declarações de Emília, a coloração da pele da personagem e a função de cozinheira são responsáveis pela supressão de seus direitos, como o do descanso ou o de compartilhar o lugar de ouvinte das histórias de Dona Benta. Constantemente, a boneca põe a diferenciação epidérmica segundo uma negatividade, como quando concorda com a visão ufanista da pele branca de Cinderela ou quando questiona a possibilidade de um indivíduo ser ―negro‖ e possuir qualidades positivas. A aversão à ―raça negra‖ não aparece somente nas falas de Emília, mas também nas enunciações do narrador lobatiano, onde é perceptível a ligação entre o ―negro‖ e a ―monstruosidade‖ ou a ―fealdade‖. Ademais, nota-se que a ideia de desfavor ligada ao negro está presente, também, no pensamento de Nastácia, que

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chega a declarar-se envergonhada de ter a ―pele negra‖. Além disso, em História de Tia Nastácia, percebe-se que outras considerações repulsivas se originam de grande parte das personagens, onde o povo é, repetidamente, descrito como incivilizado, ingênuo, ignorante e desprovido de aptidão artística. Esses atributos estariam ligados ao atraso característico do grupo representado por Nastácia, o que se aproxima das declarações feitas, também, a respeito da África e denota a existência de uma herança cultural procedente dos ancestrais africanos. Resumidamente, o negro na literatura infantil de Monteiro Lobato está ligado à ―subalternidade‖, à ―fealdade‖, à ―ignorância‖ e ao ―atraso cultural‖. Por outro lado, a ―raça branca‖ surge na obra infantil lobatiana com uma conotação marcadamente oposta a dada à ―raça negra‖. Enquanto as funções narrativas de Tia Nastácia giram em torno da esfera funcional, Dona Benta tem como emblema a autoridade de avó e de patroa, como a dona da última palavra, o que a coloca em degrau mais elevado no que se refere à responsabilidade. Além disso, a proprietária do Sítio do Pica-pau Amarelo exibe a condição de arquétipo da sapiência, ou seja, como dotada de todo conhecimento intelectual necessário para dar retorno a qualquer questionamento, sobre diferentes esferas do saber. Ao ponto que Nastácia ganha voz com mais profundidade em apenas uma obra, Benta tem o compromisso de conduzir um número elevado de narrações, na maioria das vezes, alicerçadas por conceitos científicos, como geografia, física, história etc.. Na obra organizada segundo as histórias contadas por Nastácia, a avó de Narizinho e de Pedrinho atua como fundamentadora das críticas elaboradas pelas crianças em direção à cultura popular de base oral e, como empenhada defensora da cultura escrita, advoga pela leitura dos ―grandes escritores‖ – fundamentalmente, ocidentais. Assim, a dona do Sítio ocupa a posição de representante da intelectualidade e de uma cultura transcendente. A associação entre a ―raça branca‖ e a alta mentalidade nos ideais de Dona Benta pode ser verificada, também, em sua análise sobre o conflito entre os arianos e os dravidianos na Índia. Entretanto, essa conceituação é observável, também, na caracterização dada por Emília ao Visconde de Sabugosa, ao afirmar que ele, além de ser ―ariano‖, é o ―maior sábio do mundo‖. Dentre os pensamentos mediados por Dona Benta, está a exaltação da beleza grega como modelo fisionômico, o que se opõe as representações do negro como qualificadamente ―feios‖. O conceito de ―formosura branca‖ aparece tanto nas

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enunciações de Benta, como nas de Emília, de Narizinho e da própria tia Nastácia e do narrador lobatiano. Não obstante, não se pode deixar de salientar as constantes condenações da dona do Sítio ao regime escravista, considerado como desumano e alheio ao progresso de uma nação, ainda que apresente certa contrariedade com a informação de que foi, também, uma escravocrata. Por fim, cabe destacar as glorificações manifestadas em direção às ―grandes civilizações europeias‖, dotadas de uma cultura ímpar que lhes propiciou essa evolução, onde, nas Américas, o modelo de progresso está a cargo dos Estados Unidos. Dessa maneira, ao inverso do que é evidenciado com relação aos ―negros‖, a ―raça branca‖ ganha contornos positivos ligados à ―autoridade‖, à ―beleza‖, à ―inteligência‖ e à uma ―cultura avançada‖. Por conseguinte, claramente, nota-se a ideia de ―superioridade branca‖ em detrimento de uma ―inferioridade negra‖ nas representações raciais presentes nas narrativas do ―Sitio do Pica-pau Amarelo‖. Chega-se a conclusão de que, mais uma vez, as representações raciais presentes na obra de Monteiro Lobato estão em consonância com os ideais manifestados por ele em suas produções não literárias. A esfera racial gira em torno das quatro definições ligadas a ela por Lobato: a ―cultura‖, a ―classe‖, a ―fisionomia‖ e a ―nacionalidade‖, ora individualizadas ora mescladas. O negro – ou, por extensão, o povo – é representado segundo um atraso cultural, oriundo de uma herança africana, desprovido de inteligência e ligado a um atavismo que se prende a superstições e conceitos ultrapassados considerados antimodernos, os quais lhe impedem de alavancar a ―evolução‖. Já as características fisionômicas dos negros são associadas à desfiguração, à monstruosidade ou à fealdade, que muito recorda a ideia de desvio exposta por Lobato ao considerá-los ―tragédias biológicas‖. A posição de subalternidade do negro, generalizada em muitos momentos, pode remeter a categorização defendida pelo escritor em diferentes correspondências, seja em defesa da eugenia, ou até mesmo ao afirmar que a imprensa não é lugar de ―mulatos‖. Por outro lado, o homem branco é interligado a uma cultura superior associada à ciência e aos grandes pensadores, ou seja, como detentor de ―força mental‖ que excede ao outros ―grupos raciais‖. A menção à cultura europeia e norte- americana denotam a defesa da capacidade do branco de erguer civilizações exemplares e que se contrapõe à incivilidade do negro. Por fim, o enaltecimento de

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uma suposta ―beleza física branca‖ passível de comparação à ―formosura grega‖. Entretanto, cabe o questionamento: qual a importância dessa analogia entre os ideias presentes tanto no pensamento de Monteiro Lobato, como nas representações dadas a suas personagens infantis ou à voz narrativa? Em carta a Godofredo Rangel, em 28 de março de 1943, o escritor paulista avalia a recepção infantil de obras literárias: A receptividade do cérebro infantil ainda limpo de impressões é algo tremendo – e foi ao que o infame fascismo da nossa era recorreu para a sórdida escravização da humanidade e supressão de todas as liberdades. A destruição em curso vai ser a maior da história, porque os soldados de Hitler leram em criança os venenos cientificamente dosados do hitlerismo – leram como eu li o Robinson (LOBATO, 1950b, p. 345-346).

As palavras de Lobato demonstram que a literatura infantil detém o poder de penetrar no cérebro das crianças de forma distinta de que no do adulto. A ausência de princípios estruturados facilitaria a instauração de qualquer concepção por intermédio da obra literária. A menção aos soldados alemães, obviamente, não aparece como uma defesa de seus ideias, mas para afirmar que a fidelidade desses militares foi moldada quando eram crianças, através da instauração dos ideais hitlerianos por intermédio da leitura. Assim, pode-se inferir que um dos objetivos lobatianos para seu projeto infantil, dentre tantos outros, era a propagação da ideia de ―superioridade branca‖ e de ―inferioridade negra‖. A demarcação do suposto atraso da cultura negra/popular reforça a consideração de que essa camada da sociedade caminhava em direção oposta ao progresso, enquanto, desde o passado, a cultura branca já vinha demonstrando a habilidade de evolução, de constante modernização e a defesa dessas premissas seria o caminho acertado para o desenvolvimento.

5.3 Últimas impressões

Alguns aspectos perceptíveis nos últimos anos da vida de Monteiro Lobato demonstram algumas variações em seus ideias. Em 1948, publica uma narrativa literária curta28 onde, com novas perspectivas, ressurge a figura do homem rural brasileiro: Zé Brasil. Além disso, suas últimas cartas apresentam uma visão, em alguns aspectos, distinta da que sustentou no passado. Suas declarações,

28 A primeira edição de Zé Brasil, publicada pela Editora Vitória, possuía 24 páginas.

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resultantes de sua visita à Bahia no final do ano em que lançou Zé Brasil, exibem um Lobato ainda preso às antigas concepções de ―superioridade‖ e ―inferioridade‖ entre os homens, mas demonstram o despertar de certo interesse por manifestações da cultura afro-brasileira. Assim, os próximos subtópicos buscam analisar algumas das últimas manifestações literárias e epistolares do escritor paulista.

5.3.1 Zé Brasil

A personagem que dá nome à obra é apresentada já nas primeiras linhas de Zé Brasil, onde o narrador destaca, prontamente, que se trata de um ―pobre coitado‖, que ―nasceu e sempre viveu em casebre de sapé e barro, desses de chão batido‖ (LOBATO, 2010d, p. 116). O limitado número de móveis se une à restrita quantidade de materiais para leitura: um guia para a análise das luas, em consequência das chuvas, e a história do ―Jeca Tatu‖, lançado pelo grupo ―Fontoura‖. Nesse momento, Zé se identifica com a protagonista daquela narrativa, ao destacar que as mesmas adversidades que acometiam o ―coitado do Jeca‖ também lhe afetavam. Entretanto, nas duas aparições do Jeca nas produções lobatianas – em Urupês e Jeca Tatu: A ressurreição – mesclavam-se questões de ordem ―biológica‖, ―cultural‖ e de ―classe‖. No caso de Zé Brasil, a associação à personagem com a qual se estabelece uma relação intertextual está limitada às doenças das quais padecia e à extrema pobreza que o assolava. Segundo o narrador, os homens da cidade tinham uma visão destorcida de Zé, ao considerá-lo ―vadio, indolente, sem ambição, imprestável‖, pois não tinham ideia das enfermidades que o afligia (p. 117). A partir da inserção de um interlocutor, sequencialmente, Zé Brasil expõe as dificuldades encontradas em sua antiga residência e trabalho como agregado nas terras do Coronel Tatuíra. Segundo a personagem, o preço pago pela cessão ao dono da propriedade era a divisão dos bens produzidos a cada colheita, mas uma repartição injusta já que o produtor ficava sempre com a ―metade mais magra‖ da partilha. Sendo que a ―lei‖ só dava amparo aos ―ricos‖, a discordância com o processo acarretou em seu despejo da fazenda e a colocação de outro agregado em seu lugar. Dessa forma, o coronel ia aproveitando- se do trabalho das mais de cem famílias para quais arrendava parte de suas terras.

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A partir dessas informações, o interlocutor de Zé Brasil passa a advogar por um homem que tinha por objetivo mudar a situação do homem rural brasileiro – Luís Carlos Prestes – destituindo a concepção de Zé de que ninguém no mundo intercedia por eles. Segundo o interlocutor, Prestes projetava ―acabar com a injustiça no mundo‖, a partir da descentralização do poder, que naquele momento se mantinha nas mãos dos grandes fazendeiros, para que houvesse ―centenas de donos de sítios dentro de cada fazenda, vivendo sem medo de nada, na maior abundância e segurança‖ (p. 120). Com as vastas extensões de terra do país, seria possível distribuí-las de forma justa a seus habitantes, ao invés de concentrar essas propriedades sob o domínio de poucos. Assim, ―no dia em que quem trabalha ficar dono do produto do seu trabalho tudo entrará nos eixos e todos serão felizes‖ (p. 121). Entretanto, para que tudo aquilo fosse possível, seria necessário que tanto Zé quanto seus semelhantes trabalhadores rurais apoiassem os ideias de Luís Carlos Prestes, devido à sua vantagem numérica em comparação aos ―fazendeiros arrendadores‖. Por fim, Zé Brasil conclui que, por essa razão, ―é que há tanta gente que morre por ele. Estou compreendendo agora. É o único homem que quer o nosso bem. O resto, eh, eh, eh! é tudo mais ou menos Coronel Tatuíra‖ (p. 123). Assim, a protagonista passou a concordar com as considerações de seu interlocutor de que a única saída para as injustiças sofridas pelo homem do campo seria o apoio a empreitada de Prestes. Se sintetizada em apenas uma frase, pode-se afirmar que a narrativa lobatiana tem como cerne a apresentação das problemáticas do homem rural e a defesa dos ideais comunistas de Luís Carlos Prestes. Além disso, a menção ao país no nome dado à personagem central – Zé Brasil – demonstra uma tentativa de resumir a problemática rural do Brasil na representação dada a apenas um indivíduo. De uma forma geral, no que se refere ao âmbito racial, a narrativa lobatiana aparenta ter pouco a oferecer, mas torna-se importante por apresentar uma terceira caracterização do caipira brasileiro. Enquanto, em Urupê, percebe-se uma perspectiva determinista sobre esses sujeitos e, em Jeca Tatuzinho, nota-se a presença de fundamentos sanitaristas a respeito dos mesmos; Zé Brasil tem como fulcro a ligação entre os infortúnios do homem do campo e o descaso político que favorece a convergência dos lucros da produção agrícola aos grandes proprietários de terras. Essa seria, portanto, uma explicação de cunho político-econômico e não

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―racial‖ para o suposto atraso da população rural brasileira. Bem como nas narrativas anteriores onde figuram a personagem Jeca Tatu, Zé Brasil apresenta forte inclinação extraliterária, como pode ser observado na declaração de Monteiro Lobato em entrevista ao jornal ―Folha da Noite‖: ―Zé Brasil é isso. É o problema agrário do mundo posto em fraldas de camisa e alcance de todas as burrices‖ (LOBATO apud ANDREUCCI, 2006, p. 73). Vê-se que Lobato associa, de forma explícita, os ideais expressos em sua produção à realidade rural mundial, mas, mais do que acusações referentes ao programa agrário, percebe-se, em Zé Brasil, uma forte orientação propagandística a Prestes e, por conseguinte, ao Partido Comunista. Não obstante, em 1947, Lobato afirma não ser comunista, mas tê-lo ―acolhido em seu coração‖ depois que o sistema foi proscrito, perseguido e proibido e por não aceitar que ―governo nenhum determine as ideias que os homens devem ter‖ (LOBATO, 1959c, p. 319). Essa contrariedade às imposições do governo de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), nos anos finais da primeira metade do século XX, rendeu-lhe a apreensão de Zé Brasil pela polícia, por apresentar propaganda ao comunismo. Não obstante, a ligação entre Monteiro Lobato e Luís Carlos Prestes não teve início com a publicação daquela obra, em 1948. Em 15 de julho de 1945, não pode comparecer ao comício em homenagem a Prestes, no Estádio Pacaembu, em São Paulo, mas, pelo telefone de sua residência, enviou uma mensagem aos comunistas. Dentre as palavras, Lobato destaca: A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi de miséria silenciosa nos campos e cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma- se até com armas celestes contra qualquer mudança. A nossa ordem social me é pessoalmente muito agradável, mas eu penso em mim mesmo se acaso houvesse nascido esterco. Essa visão da realidade brasileira sempre me preocupou e sempre me estragou a vida (LOBATO apud CAVALHEIRO, 1956b, p. 225).

A metáfora utilizada pelo escritor paulista lembra a discussão que, literariamente, apresentaria em Zé Brasil, onde o homem rural aparece como a fonte de riqueza dos grandes fazendeiros. Segundo Lobato, tanto no âmbito rural quanto no urbano, o trabalho das classes baixas servia de suprimento às possíveis dificuldades econômicas da classe alta, proporcionando-lhes o pleno desenvolvimento. Mesmo ao afirmar que faz parte do ―grupo favorecido‖, Lobato

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manifesta o desprezo por essa ordem que admite e defende essa desigualdade, a qual teria lhe preocupado durante ―toda a sua vida‖. Entretanto, muitas das informações destacadas neste trabalho demonstram que, por diversas vezes, as avaliações do escritor afirmavam o contrário. Dentre elas, algumas podem ser resgatadas a fim de comprovar essa contradição. Primeiramente, a sua análise sobre o Rio de Janeiro em comparação com a Grécia, onde demonstra um menosprezo pela classe baixa carioca e, ao destacar a situação do norte-americano, defende a existência de ―verdades biológicas‖ que estão acima das ―verdades filosóficas‖ criadas artificialmente. Essa bipartição antecipa a segunda afirmação de Lobato, onde, em Problema vital, reassume a ideia de que o processo de seleção natural entre os homens teria sido anulado pela defesa e conservação artificial dos fracos por leis criadas pelos homens e que contradizem as ―leis biológicas‖. O insucesso da ―seleção natural‖ foi o que alavancou o surgimento e a disseminação das teorias eugênicas, as quais o escritor paulista esteve afiliado e, com base nelas, declarou a Renato Kehl que a sociedade brasileira necessitava ser ―podada‖. Todas essas alegações, que mantêm como eixo a ideia de dominação ou a dicotomia entre ―superioridade‖ e ―inferioridade‖ na esfera humana, evidenciam que, pelo contrário, a postura de Lobato no passado se direcionou para caminhos contrários aos que proclama na mensagem em defesa do Partido Comunista. A respeito da metáfora antes citada, obviamente, a menção ao ―esterco‖ tem como intuito referenciar a sua função de ―fornecedor‖ ou ―favorecedor‖, mas também pode ser considerado segundo uma perspectiva negativa, que se aproxima da consideração de Lobato sobre o povo carioca como uma ―coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde‖. A comparação entre parte da população ao ―esterco‖ não está restrita às declarações do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo aos comunistas, mas pode ser verificada em cartas do escritor a alguns de seus amigos, nas quais avalia o povo baiano, aspecto ao qual se dará atenção no tópico seguinte.

5.3.2 O enorme canteiro baiano e o candomblé

Em epístola enviada a Arthur Neiva, no ano de 1935, Monteiro Lobato afirma ter se encantado com a Bahia depois tê-la conhecido em viagem no mesmo ano,

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mas, ao avaliar a população baiana, demonstra que nem tudo que presenciou lhe foi agradável, pois, segundo ele, um ―feio material humano formiga entre tanta pedra velha! A massa popular é positivamente um resíduo, um detrito biológico. Já a elite que brota como flor desse esterco tem todas as finuras cortesãs das raças bem amadurecidas" (LOBATO apud NIGRI, 2011, p. 31). Inicialmente, Lobato salienta a intensa presença de indivíduos ―feios‖ naquele território e, posteriormente, utiliza a mesma metáfora que empregaria dez anos depois em sua mensagem ao comício no Estádio Pacaembu. Não obstante, vê-se que a comparação do povo a ―matérias fecais‖ aparece, antes de tudo, isoladamente e, somente na frase seguinte, a fim de enaltecer a elite baiana, é que estabelece uma relação metafórica com a ―flor‖. Nesse sentido, a associação do povo ao ―esterco‖ ganha contornos pejorativos e a dicotomia ―povo/elite‖ acaba por remeter, também, à oposição ―fealdade/beleza‖, tudo isso sob uma perspectiva racial, dada a colocação que encerra o enunciado citado. Além disso, percebe-se que, mais uma vez, ―raça‖ e ―classe‖ ocupam a mesma significância no pensamento do escritor paulista. Em dezembro de 1947, novamente, Monteiro Lobato viaja à Bahia para assistir uma ―opereta infantil‖ baseada em Narizinho Arrebitado, sob os cuidados de Adroaldo Ribeiro da Costa (1917-1984). No início do ano seguinte, o escritor relata, ao amigo Artur Coelho, suas (não tão) novas impressões sobre o estado baiano: Estive na Bahia. Que maravilha a Bahia! 70% da população da capital vive abaixo do mínimo da subalimentação possível, contou-me o Anísio. Forma uma estupenda camada de esterco humano, curtido em 4 séculos de miséria e já chegada ao estado de morredefomismo hindu. Sobre esse esterco doloroso, mas não gemebundo, porque já não tem força nem para gemer, brotam flores lindas. Anísio: uma flor de inteligência. Mangabeira, a flor da eloquência. Costa Pinto, a flor da riqueza. [...] A Bahia é Índia pura. A imensa camada negra do esterco por baixo e rajás e marajás por cima. E não há revolta. Não há ―questão social‖. O esterco ―reconhece o seu lugar‖ e toma a benção das flores. Até eu virei flor lá. Fui para assistir a estréia de Narizinho, uma opereta em quatro atos, que um compositor baiano compôs e o governo do Estado montou, gastando nisso o que salvaria a vida a X moribundos por subalimentação. Ato sábio, pois que adianta protelar a morte dos pobres? Virei flor e a criançada nos bastidores do teatro, para onde fui por curiosidade no fim da festa, rodeou-me e todos me beijaram a mão. E eu, safado como um bispo, dava-lhe a mão esquerda e com a direita desenhava no ar um cruz, enquanto a boca dizia: ―Deus te abençoe!‖ (LOBATO, 1970, p. 347). [grifos do autor]

Prontamente, Lobato destaca a realidade econômica da capital baiana, onde uma grande porcentagem da população era considerada subnutrida e vivia abaixo do nível da pobreza, o que, segundo ele, os tornava ―estercos humanos‖. Essa configuração vincula a classe baixa, predominantemente negra, a algo

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remanescente, expulso por ser marginal ou desnecessário. Novamente, a relação entre o povo e as matérias fecais se opõe à elite floral formada por sujeitos cujas qualidades acentuadas são a ―inteligência‖, ―eloquência‖ e ―riqueza‖, as quais, juntamente com a formosura que caracteriza a elite, acabam por apontar a ―fealdade‖ do povo, bem como a sua ―ignorância‖ e ―miséria‖. Além disso, chama a atenção de Monteiro que não há manifestações em prol do questionamento dessas disparidades, sendo que o povo admite a sua ―inferioridade‖ e aceita a ―superioridade‖ da elite. Com essas afirmações, Lobato parece pactuar com aquela disposição entre os sujeitos, o que se repete ao concordar com os gastos do governo naquele evento, ao invés de aplicar a quantia em benefícios ao povo, pois não haveria motivos para adiar a morte desses indivíduos. Vê-se que reaparece a ideia da desnecessária existência desses sujeitos, como quanto comparados ao ―esterco humano‖. Ademais, o escritor declara também ter se tornado flor, pois foi beijado nas mãos pelas crianças que atuaram na ―opereta‖, às quais lhes desejou a ―benção‖. Essa postura de Monteiro Lobato frente às crianças retoma a informação de que o ―esterco toma a benção das flores‖ e, ao considerar-se ―flor‖, por conseguinte, associa aqueles infantes ao ―esterco‖, os quais acabavam de representar, em formato teatral, a leitura de uma de suas obras literárias, além de formarem parte do público leitor que consumia suas produções. A duplicidade de uso da metáfora do ―canteiro humano‖ reforça a conclusão de que o escritor paulista moldava a sua imagem pública, enquanto a sua imagem privada pode ser compreendida somente a partir de declarações, até certo ponto, particulares e da comparação feita entre esses enunciados. Por outro lado, na mesma carta enviada a Coelho, percebe-se um dado relevante na análise de Lobato sobre a Bahia. Nos dias em que passou naquele território teve a oportunidade de assistir a duas cerimônias de ―candomblé‖, religião de origem africana fundada no Brasil pelos escravos, as quais o surpreenderam: Vi dois candomblés. Maravilha! O que salva a Bahia é o negro, que formou uma civilização muito mais séria e rica que a do branco. Uma civilização com religião própria, e medicina própria, etc. etc. E sem catinga. Estive até duas horas da madrugada nesses candomblés, onde dançavam e suavam tantas ―filhas-de-santo‖ negras, e não percebi nem um centésimo da catinga da nossa criada aqui – a Benedita (LOBATO, 1970, p. 348).

A declaração do escritor revela um Monteiro Lobato com pensamentos, no mínimo, diferentes. Com relação à constituição racial, afirma que o ―negro‖ teria sido

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o único a ser capaz de desenvolver civilização sustentada por uma cultura própria, fato não realizado pelo ―branco‖, e esse seria o aspecto significativo daquele estado. Dentre os atributos relacionados àquele grupo, Lobato salienta a ―seriedade‖, a ―riqueza‖ – não material, já que, anteriormente, destacou o acentuado nível de pobreza do povo, mas por sua grandiosidade – e a ―falta de catinga‖. Em carta a João Palma Neto, o criador da Emília afirma ter conservado ―no ouvido aquelas toadas ao som dos atabaques, e no olfato o cheiro humano (não é catinga, o negro baiano não é catingudo) de mistura com o olor das folhas de pitanga esmagadas‖ (LOBATO, 1970, p. 341). Nota-se que, apesar da exceção dada aos baianos, a continuidade do conceito de ―mau cheiro‖ dos negros e consequente ―sujidade‖ dos mesmos. Por outro lado, o escritor paulista menciona que, dentre as ―manifestações da civilização negra, tão profundamente africana, o candomblé é o produto supremo‖ (LOBATO apud CAVALHEIRO, 1956b, p. 265). A exaltação geral daquelas cerimônias se une a saliência dada à atuação de Joãozinho da Gomeia29, o qual, de acordo com Lobato, parecia a ―a reencarnação dum Príncipe Maia ou Asteca. No físico. Não sai da cabeça o seu perfil austero, forte, hierárquico, do dia em que o vi dançar...‖ (Idem, Ibidem). A afirmação de Monteiro permite a associação entre o comportamento de Joãozinho e um primitivismo interligado à força física, conceito que pode ser percebido em diferentes declarações de Lobato a respeito do ―negro‖. Por fim, cabe destacar uma epístola enviada por Monteiro Lobato a Vladimir Guimarães no final do ano de 1947, na qual destaca a boa recepção de seus anfitriões baianos e o interesse causado pelos ―candomblés‖. Segundo o escritor, enquanto não voltasse para um estudo aprofundado daquele aspecto cultural, iria ler tudo quanto encontrasse sobre o tema. Entretanto, a conclusão da carta parece deixar um imenso ponto de interrogação sobre a possível mudança de pensamento a respeito do negro no pensamento lobatiano, sendo que o escritor faleceria por volta de sete meses após o envio daquela correspondência. Como se notou, a valorização do candomblé aparece com certa estranheza em meio às infinitas críticas de Lobato a uma cultura popular atrasada e antimoderna, além da defesa de uma ―superioridade branca‖, mas a inferência decorrente dessa simpatia impede qualquer tentativa de explicação. Na carta a Guimarães, antes do adeus, José Bento

29 João Alves de Torres Filho (1914-1971).

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Monteiro Lobato afirma que, com o candomblé da Bahia, ―dá vontade da gente ser negro bem preto‖ (LOBATO, 1970, p. 338).

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6 Considerações finais

Inicialmente, este estudo procurou desconstruir a polêmica criada em torno dos Pareceres do Conselho Nacional de Educação, com o intuito de averiguar quais foram os posicionamentos criados como reação a esses documentos. Em consequência, foi possível identificar a manifestação de distintas vozes sociais e políticas sobre a problemática levantada, como, por exemplo, escritores, órgãos e estudiosos pertencentes à área das Letras, instituições ligadas ao Movimento Negro, além da presença significativa da imprensa para a divulgação das informações a respeito do andamento da denúncia e da constatação da tomada de posicionamento, principalmente, pelos portais de notícias em linha. Obviamente, essas avaliações emanam de diferentes linhas de pensamento e, por conseguinte, manifestam opiniões que ora se aproximam ora se distanciam. Entretanto, ainda que apresentem suas particularidades, essas apreciações podem ser classificadas de acordo com suas matrizes argumentativas. Apesar da possibilidade de categorizar as opiniões segundo critérios mais específicos, como a afiliação ideológica ou a área de atuação dos enunciadores, optou-se pela análise dessas apreciações de uma forma mais ampla, a fim de perceber a concordância ou não com o juízo de que as obras de Monteiro Lobato possuem aspectos tidos como preconceituosos e de que essas representações estão vinculadas aos ideais do próprio escritor. Assim, primeiramente, observou-se a existência de um conjunto de pronunciamentos que aprovam as acusações expressas nos Pareceres, além de reforçar essa anuência com interpretações similares de outras obras lobatianas – não só infantis, mas também adultas – e com informações biográficas do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo que comprovariam sua crença na ―superioridade branca‖ e na ―inferioridade negra‖, devido à afiliação a teorias consideradas ―racistas‖. Por outro lado, notou-se que o volume de declarações contrárias à denúncia é tão representativo quanto o de apoio à investida do CNE. Nessa direção se destacam não somente estudiosos da literatura e da linguística, mas também indivíduos pertencentes ao meio artístico, como escritores e músicos. Uma das

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justificativas centrais para esses posicionamentos é a de que, contrariamente ao apresentado nas acusações, o ―negro‖ ocupa espaço tão privilegiado nas narrativas infantis de Lobato quanto o ―branco‖, tendo como representantes dessa equiparação as figuras de Tia Nastácia e Dona Benta, cujas funções narrativas teriam, cada uma a seu modo, uma importância fundamental no desenrolar dos acontecimentos. Ademais, em alguns momentos, pode-se notar a defesa da importância do escritor paulista para a cultura brasileira e do contributo deixado por ele para o campo literário infantil do país. Por fim, cabe destacar que nem todas as opiniões contrárias aos documentos do Conselho discordam, totalmente, das informações neles contidos. Nesse contexto, observou-se uma terceira linha interpretativa, que considera legítimas as afirmações de que Monteiro Lobato se refere ao negro de maneira depreciativa. Entretanto, acabam por associar essa postura racial do escritor ao período histórico- social em que viveu, em que o preconceito estaria intrincado na sociedade de forma predominante. Essa alegação configura a existência de um determinismo ideológico ditado por condições espaço-temporais que imporiam a orientação seguida por Lobato. Os julgamentos guiados por essa perspectiva avaliam as interpretações negativas sobre o escritor como uma leitura deslocada, ou seja, uma leitura conduzida por um olhar descontextualizado e norteada por valores contemporâneos sobre as relações sociais. Além disso, algumas dessas observações relacionam à denúncia apresentada pelo órgão educativo como uma atitude exorbitante de quem tudo avalia segundo o critério do ―politicamente correto‖. Obviamente, essa categorização não apresenta rigidez absoluta e muitos dos que discordam do teor das acusações relatadas pelo CNE apresentam certas concordâncias em pontos específicos. Além disso, alguns deles demonstraram mudança de opiniões sobre Lobato e sua obra, seja no decorrer de uma vida acadêmica seja no fervor da polêmica contemporânea sobre o pensamento racial do escritor. Por outro lado, apesar da diversidade de manifestações, percebeu-se que foram constantes as afirmações de que os ideais de Monteiro Lobato estabelecem alguma relação com a realidade social em que estava inserido. Não obstante, em poucos momentos se fez a distinção entre autor e obra, como se a interpretação da segunda dependesse única e exclusivamente de uma sobreposição à primeira. Viu- se que a arte não se exime do social no momento da produção, pois seu criador está

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imerso em diferentes contextos, aos quais irá recorrer para dar forma a sua criação artística. Entretanto, essa produção não é mero reflexo da sociedade nem dos ideais do artista, mas surge como uma metamorfose que visa gerar um novo universo aparte, que já não é mais o real e passa a ser representação. Em síntese, pode-se afirmar que, atualmente, existem diferentes interpretações das ideias raciais presentes no pensamento lobatiano e em suas obras literárias. Diante disso, este trabalho buscou destacar os dados histórico- sociais necessários para entender em que contexto o escritor paulista viveu e produziu suas obras, a fim de evidenciar quais eram as discussões existentes sobre o âmbito racial naquele contexto. Sob essa perspectiva, observou-se que o final do século XIX e início do século XX deram início a uma vasta produção de teorias sobre a esfera racial. No Brasil, foram presenciadas as mudanças no regime de trabalho e no regime político, as quais acabaram por dar pano de fundo ao surgimento dessas novas concepções. Viu-se que o processo de transição da escravidão ao trabalho livre ocorreu com pequenos e vagarosos câmbios. Obviamente, a pressão estrangeira para que se cessasse o tráfico de escravos e se alterasse a forma laboral influenciou nas leis que, aos poucos, davam liberdade a certas camadas de indivíduos, como a ―Lei do Ventre Livre‖ e a ―Lei do Sexagenário‘. Além disso, ao invés de uma luta pela causa humanista, o abolicionismo surgiu como forma de reivindicação pelo atraso econômico decorrente da permanência naqueles antigos moldes. Depois da assinatura da lei de 13 de maio de 1888, tanto o governo que a promulgou quanto os defensores que por ela lutavam não propiciaram a mínima assistência aos libertos, os quais acabaram por aceitarar a hierarquização já existente na sociedade. O servilismo que se enraizou no pensamento de muitos negros depois dos séculos de escravidão fez com que vários dos ex-escravos se submetessem aos seus antigos proprietários, enquanto os outros ou continuaram na vida rural com um sistema de subsistência ou se uniram a classe baixa das cidades em desenvolvimento, vivendo de forma aglomerada em zonas marginais e insalubres. Apesar da ascensão social alcançada por uma camada de negros e mulatos mesmo antes do fim do trabalho forçado, as teorias raciais vigentes reforçavam o rebaixamento a eles associado em anos anteriores. Paralelas a todas essas mudanças, distintas teorizações foram elaboradas sobre o terreno racial.

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Primeiramente, as críticas à constituição racial brasileira, predominantemente mestiça, consideravam a miscigenação como algo degradante e responsável pelo seu atraso econômico do país. Depois disso, evidenciou-se o surgimento da solução brasileira para o ―problema‖ da miscigenação: a própria mistura. Com esse processo, visava-se o branqueamento da população através do progressivo cruzamento com indivíduos de pele branca e, para esse fim, instigou-se a vinda de imigrantes europeus para o território brasileiro. O controle imigratório demonstrou resultados, mas com efeitos a longo prazo, o que não satisfez a uma gama de estudiosos, os quais optaram pela defesa da implantação de uma teoria criada no final do século XIX e que visava a ―purificação da raça branca‖: a eugenia. Os intelectuais eugenistas tinham por intuito o controle matrimonial da população a fim de conter o contato entre raças consideradas díspares e promover a ligação entre indivíduos da ―raça superior‖. Juntaram-se a eles os sanitaristas, através da busca pelo fim das degradações resultantes das moléstias adquiridas pelo povo em razão da vida insalubre que levava. Entretanto, viu-se que essa união não obteve êxito e, por volta do final da década de 1930, alguns eugenistas, como Renato Kehl, já defendiam a implantação de procedimentos eugênicos mais extremos, como a esterilização e a segregação dos indesejados. A teoria que dava amparo científico às premissas de ―superioridade branca‖ foi abandonada ou mascarada depois de embasar o empreendimento nazista em busca da purificação da raça alemã. Foi em meio a essas tensões e a essa diversidade de conceituações sobre a questão racial que o escritor Monteiro Lobato desenvolveu suas premissas sobre a esfera racial e produziu sua obra ficcional e não ficcional. Devido ao seu caráter pessoal, a análise da correspondência de Lobato possibilitou uma abordagem mais ampla e mais profunda do racialismo presente em seu discurso. Em suas primeiras missivas, notou-se que o escritor paulista, repetidamente, associava o povo brasileiro a uma cultura antimoderna, bem como à ―fealdade‖ e à ―sujidade‖, e essa caracterização aparece, em vários momentos, através da comparação do país com o continente africano. Ademais, a miscigenação é posta como algo degenerativo dos aspectos físicos e psicológicos dos indivíduos. Sob essa afirmação, viu-se que o pensamento do criador do ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖ se aproxima das críticas à mestiçagem presentes nas falas de alguns escritores, como Arthur de Gobineau.

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De volta às questões fisionômicas, notou-se que a menção à ―feiúra‖ do povo se reforça quando Monteiro Lobato considera os negros como ―tragédias biológicas‖, devido à pigmentação de sua pele, o que restabelece a ideia de desvio de uma suposta normalidade (branca). Enquanto o negro e o mestiço representam a distorção, a referência aos atributos físicos dos brancos surge através da exaltação feita pelo escritor à beleza grega. Assim, as informações mencionadas demonstram que o termo ―raça‖, para Monteiro Lobato, possuía distintas significações e era usado com os mesmos sentidos dados às características físicas, à cultura ou à classe. Uma quarta designação ligada ao terreno racial era a nacionalidade, mas, apesar dessa possibilidade de classificação, essas concepções não atuam isoladamente e aparecem em constantes diálogos umas com as outras. Um exemplo dessas combinações foi percebido nas diferentes representações dadas ao caboclo por Lobato. Sob a figura de Jeca Tatu, inicialmente, o caboclo foi apresentado como um ―parasita‖ responsável pelo atraso econômico do país, devido à sua cultura da devastação, suas superstições e sua inércia laboral. Os artigos onde nasce essa personagem apresentam uma mescla de características ficcionais e não ficcionais e evidenciam o diálogo que se manterá entre esses discursos lobatianos em outras duas representações do homem rural. Junto à união de Monteiro ao movimento sanitarista, Jeca ressurge desde uma nova perspectiva, a qual coincide com os ideais a que o escritor havia se afiliado. Tanto em seus enunciados não-literários quanto na ―ressurreição‖ de Jeca Tatu, percebeu- se a alteração de uma visão determinista a uma possível mudança por intermédio da higiene. Entretanto, nos artigos sobre o saneamento presentes em Problema Vital, a revitalização do homem do campo é apresentada como um bem necessário ao crescimento econômico do país, que clamava por ―braços fortes‖ para o trabalho, e não ao lado humanitário da ação. Em Zé Brasil, última aparição do homem rural na literatura lobatiana, a explícita propaganda comunista exposta no diálogo com a personagem protagonista exibe a mesma harmonia com a solução política crida por Lobato para o problema agrário. A aparição do negro na literatura de Monteiro Lobato parece dar continuidade a essas concordâncias entre os ideais do escritor e os expressos em suas produções ficcionais. ―Bocatorta‖, por exemplo, está centralizado na dicotomia entre a repugnância pela fealdade negra e a exaltação da beleza branca. Ademais, o

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contato entre esses opostos, mesmo que visual, apresenta um resultado trágico. Essas conclusões sobre o texto lobatiano estão em consonância com a análise de seu criador sobre a fisionomia humana, além da alusão à inconveniência do contato entre ―raças opostas‖. Essa valorização do ―branco‖ em detrimento do ―negro‖ é constatável em outros contos do escritor. Em ―Negrinha‖, as palavras do narrador demonstram uma condenação à crueldade dos ex-proprietários de escravos, mesmo após a queda do regime, mas, por outro lado, contrapõe o sentimento de inferioridade da protagonista, negra e confinada, e a beleza angelical das duas outras meninas, brancas e livres. Nos contos de Lobato em que se observa essa base escravista, percebeu-se repetidas ligações entre o homem branco e a perversidade com os escravos ou ex- cativos, bem como a associação do negro ao servilismo. Não obstante, além das próprias definições de ―inferioridade‖ relacionadas ao negro, esses textos expressam, na maioria das vezes, um aspecto que engrandece a suposta positividade em ser branco. Em ―O jardineiro Timóteo‖, além da mesma subserviência ao branco anteriormente citada, o atributo que costura toda a narrativa é a sensibilidade da protagonista no trato de seu jardim. Entretanto, uma única frase desconstrói toda aquela caracterização: Timóteo era um negro branco por dentro. A sentimentalidade da personagem pode ser considerada a função mais relevante e positiva na narrativa, mas, ainda que referidas a um sujeito ―negro‖, trata-se de um atributo que teria uma derivação ―branca‖. A afirmação exposta demonstra nada menos que a possibilidade de branqueamento moral dos ―não brancos‖. As características fisionômicas e a condição social do negro poderiam não apresentar mudanças, mas, ainda assim, seria possível uma alteração em suas características psicológicas que o aproximariam ao branco. A crença nesse processo de câmbio não se restringe às qualidades apresentadas pelo narrador lobatiano, mas se manifesta nas palavras do próprio escritor ao analisar uma personagem de Godofredo Rangel. Viu-se que Monteiro Lobato afirma, realmente, conhecer indivíduos como ―Zé Correto‖, negros somente por fora. A correção de ―Zé‖ era exatamente a de saber ser branco, ainda que apenas moralmente. Mais uma vez, o branco é exposto como modelo de adequação, o que se repete quando Lobato destaca a originalidade dos pedreiros negros brasileiros como característica de sua branquidão interior.

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O confronto entre brancos e negros adquiriu um caráter mais profundo na literatura de Monteiro em seu único romance, O presidente negro, no qual a questão racial passa a constituir o cerne do enredo narrativo. As propriedades direcionadas às personagens Jim Roy, Kerlog e Evelyn Astor tratam de engrandecer as suas purezas raciais e faz ressurgir a crítica negativista sobre a mestiçagem, a qual teria sido o empecilho para a evolução do Brasil. A aparição desses indivíduos segundo uma importância política para o povo demonstra, exatamente, o nível representativo de cada uma das ―raças‖, como síntese das qualidades e anseios de seus afiliados. Assim, os brancos norte-americanos são associados a um modelo de formosura e de inteligência, enquanto os negros estariam ligados à força física, a um espírito selvagem e ao desejo de ser branco. Apesar da discordância por parte dos ―não negros‖, os quais consideravam uma forma de camuflagem racial, a ciência teria resolvido o ―problema da pigmentação‖. Nessas circunstâncias, não somente a pele, mas todas as características fisionômicas do branco teriam estariam ligados à normalidade. Ademais, notou-se a existência de um complexo de inferioridade que impulsionava os negros a ansiar pela igualação física. Com a eleição de Roy e a revolta dos partidos derrotados, essa ambição negra pelo branqueamento teria possibilitado a vingança de Kerlog e o triunfo completo da ―raça branca‖ nos Estados Unidos. Além disso, o desfecho apresentado demonstra a vitória da inteligência do branco sobre a força do negro e o predomínio do orgulho racial em detrimento da igualdade de direitos adquirida pelos negros. Todas essas informações futurísticas provêm das palavras de Miss Jane, a qual narra com completa anuência às ações que ocorreriam nos Estados Unidos de 2228. Naquele território, a eugenia alcançaria seu ápice com a instauração de leis que eliminariam os nascidos com deformidades físicas, controlariam com rigidez a reprodução e esterilizariam os detentores de taras, dentre as quais se inseriu a ―pigmentação camuflada da pele‖. A segurança com que Jane revelava aquelas informações convencia Ayrton das teorias de melhoramento e supremacia da raça branca. Assim, as relações raciais que dão forma ao romance lobatiano estão moldadas por princípios de perfeição e eficiência, os quais são guiados pelos fundamentos eugênicos de purificação da raça.

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Explicitamente, Monteiro Lobato declara aos livreiros a dupla função de seu romance: a estética e a de semeador das ideias eugênicas. O papel de veiculador desses ideias é declarado a Renato Kehl, em carta na qual afirma que sua obra é um ―grito de guerra em prol da eugenia‖. Além desses, viu-se que o escritor avaliava sua obra segundo um atributo mercadológico, mas não encontrou editor nos Estados Unidos, por ser considerada demasiado ―ofensiva‖. A ligação entre Lobato e a eugenia reforça a conclusão de que suas criações literárias apresentam concepções sobre o âmbito racial que dialogam com os ideais de seu criador. Em suas produções infantis, foi possível perceber as mesmas oposições entre o ―negro‖ e o ―branco‖ presentes em sua literatura para adultos. O negro é representado através das figuras de Tio Barnabé e de Tia Nastácia, as quais são tidas como detentoras de inúmeras superstições e associadas a uma cultura popular de base oral. A definição física da ex-escrava parte de diferentes personagens e também do narrador lobatiano, mas ganha formas mais modeladas nas palavras de Emília, a qual trata de enfatizar a distinção racial daquela personagem. Em diferentes momentos, a função de cozinheira e a cor da pele de Nastácia são apresentadas como o resultado mágico de uma punição, o que indica uma negatividade em possuir aquelas características epidérmicas. Essa ideia de desvio da normalidade se une a outras afirmações que caminham na mesma direção, nas quais o negro é relacionado à monstruosidade e a fealdade. Nota-se que até mesmo Nastácia analisa a sua distinção física como algo constrangedor. Além disso, viu-se que, segundo Emília, a definição racial de um indivíduo pode justificar as suas atitudes ou ditar seus direitos. A ocupação de Nastácia evidencia, também, certos excessos de submissão, onde a função de serviçal prevalece mesmo quando a personagem se afasta do ―Sítio do Pica-pau Amarelo―. Sua função é abandonada somente no instante em que é convocada para contar histórias do folclore popular, já que Pedrinho a considera como ―sendo o povo‖. Assim, as narrativas de Nastácia são resgatadas e transmitidas a partir de uma cultura oral, característica que será usada para justificar as críticas de falta de sentido e as aparentes modificações apresentadas pelas narrativas devido à falta de registro. Ademais, as avaliações feitas pelas crianças e reforçadas por Dona Benta relacionam a cultura popular à falta de originalidade e de aptidão artística. Para a proprietária do Sítio, essas configurações são aceitáveis,

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pois não se poderia exigir do povo ―o mesmo apuro artístico dos grandes escritores‖, dada o seu desprovimento da suposta alta cultura. Já Dona Benta surge como um oposto a Tia Nastácia em diferentes sentidos. Representante de uma cultura letrada, Benta é propagandista da literatura ocidental e dos ―grandes escritores‖ e, diferentemente de quando Nastácia adotava a voz narrativa, seus ouvintes avaliam suas histórias com explícita positividade e com interrogativas que visam apenas esclarecer dúvidas e não reprovar os resultados. Não obstante, Dona Benta não é veiculadora unicamente da cultura literária escrita, mas também de uma sabedoria científica que visa transmitir às crianças com constância. Dentre esses ensinamentos, destaca-se a exaltação das civilizações europeias a sua potencialidade evolutiva, o que se relaciona também aos Estados Unidos juntamente com a informação da existência de uma barreira racial no país que teria auxiliado em seu progresso. Na análise de Benta sobre os arianos e os dravidianos na Índia, viu-se que a inteligência estaria biologicamente relacionada aos brancos, enquanto a vantagem dos negros seria apenas numérica. A ideia de sapiência branca se manifesta, novamente, na figura do Visconde de Sabugosa, dotado de uma sabedoria científica e descrito por Emília como sendo ―arianíssimo‖. No discurso da dona do Sítio, percebem-se repetidas condenações ao regime escravista, o que, aparentemente, se contradiz a informação de que, no passado, foi senhora de escravos. Esse dado evidenciaria uma possível mudança de pensamento sobre aquele processo laboral, mas que não foi manifestada no momento em que fala sobre o tempo da escravidão. A desaprovação manifestada por Benta surge, também, quando analisa as concepções que regiam o trabalho na Grécia Antiga, mas, apesar dessa crítica negativa, essa mesma região é enaltecida pela intensidade da beleza de seus habitantes. Essa qualidade se vincula à Benta e à Lúcia no instante em que elas se juntam aos gregos para um desfile e a formosura antes relacionada aos sujeitos oriundos daquele local é, também, direcionada às duas personagens. Assim, além da sabedoria, associa-se aos brancos a ideia de perfeição física. Em síntese, pode-se afirmar que, na literatura infantil lobatiana, o negro está ligado à subalternidade, à fealdade, à ignorância e ao atraso cultural, enquanto o branco é associado à autoridade, à beleza, à inteligência e a uma cultura avançada.

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No decorrer desta investigação, percebeu-se que Lobato cria na existência de diferentes concepções a respeito da verdade. A primeira delas estaria fundamentada em uma autenticidade biológica e imutável sobre a realidade, enquanto a segunda teria uma base puramente filosófica, criada pelos homens como circunstância para viver-se em sociedade, em outras palavras, uma ―verdade artificial‖. Essas ―verdades‖ permitiriam uma dupla possibilidade de encarar a relação entre os homens, o que, no âmbito racial, daria a determinados indivíduos direitos ilegítimos e contrários à justiça natural. Para Monteiro, o negro e o branco poderiam ter seus valores equiparados apenas ―filosoficamente‖, pois, ―biologicamente‖, permaneciam distintos. Essa afirmação permeia não somente o discurso não literário do escritor, mas também sua produção ficcional. As análises feitas no decorrer deste trabalho demonstram que, seja através da caracterização dada às personagens ou pela relação existente entre elas, a ideia de inferioridade negra e superioridade branca como algo natural permeia a literatura lobatiana. Concomitantemente, a equiparação dos valores e direitos entre as ―raças‖ surge como algo fundado pela civilização e necessário para a convivência pacífica entre indivíduos de ―raças distintas‖. Vê-se que Monteiro Lobato defendia a evolução, o progresso, no anseio de se formar uma grande civilização, mas repudiava a suposta igualdade racial que impedia a seleção natural e a vitória dos mais aptos. Os dados apresentados revelam que os ideais raciais presentes na produção literária de Monteiro Lobato estavam em permanente consonância com os princípios e interesses do escritor. Cabe destacar, no entanto, que Monteiro Lobato procurou não expor essa imagem de maneira tão explícita. Percebe-se a presença de interferências editoriais para suprimir declarações problemáticas sobre o âmbito racial, além da solicitação a alguns de seus interlocutores para que não divulgasse aquelas declarações, como ocorre em carta a Renato Kehl. Além disso, vê-se que os enunciados que apresentam maior profundidade analítica sobre a questão da ―raça‖ se encontram em correspondências. O caráter privado que configura essa forma comunicativa permitiu a constatação de que determinadas afirmações apresentam versões opostas quando ditas em público, como é perceptível em sua metáfora sobre o ―canteiro humano‖. Assim, a literatura, por seu caráter representacional, possibilitaria a veiculação desses ideais de forma indireta, com se vê na alegação de Lobato.

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Por fim, depois da visita do escritor à Bahia nos últimos meses de sua vida, suas declarações não apresentam elementos suficientes para se afirmar o que realmente lhe chamou a atenção. Suas cartas revelam um Lobato maravilhado com um elemento cultural de ascendência africana e praticado, no período, quase que em sua totalidade, por negros: o candomblé. Obviamente, Monteiro não deixou de relacionar o negro a um primitivismo e a uma representativa força física, mas demonstra uma inclinação antes repudiada pelo criador do ―Sítio do Pica-pau Amarelo‖. Não há informações o bastante para que se conclua que esse encanto teria um fundamento espiritual e a frase que encerra o último capítulo deste trabalho, inevitavelmente, deixa a interrogação: será que, naquele momento, Monteiro Lobato teria iniciado uma reformulação de seus ideais raciais? Não obstante, sua saúde debilitada e o seu posterior falecimento impossibilitaram que essa pergunta apresentasse a resposta acertada.

Referências

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