UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
JORNALISMO
A RETRATAÇÃO DA CIDADE DO RIO NA
TELENOVELA LADO A LADO
AMANDA BASTOS LAZARONI
RIO DE JANEIRO
2014
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
JORNALISMO
A RETRATAÇÃO DA CIDADE DO RIO NA
TELENOVELA LADO A LADO
Monografia submetida à Banca de Graduação como requisito para obtenção do diploma de
Comunicação Social/Jornalismo.
AMANDA BASTOS LAZARONI Orientador: Prof. Dr. Muniz Sodré de Araújo Cabral
RIO DE JANEIRO
2014
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
TERMO DE APROVAÇÃO
A Comissão Examinadora, abaixo assinada, avalia a Monografia A Retratação
da Cidade do Rio na Telenovela Lado a Lado, elaborada por Amanda Bastos
Lazaroni. Monografia examinada: Rio de Janeiro, no dia ........./........./..........
Comissão Examinadora:
Orientador: Prof. Dr. Muniz Sodré de Araújo Cabral Doutor em Letras pela Faculdade de Letras – UFRJ Departamento de Comunicação – UFRJ
Prof. Fernando Antonio Mansur Barbosa Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação – UFRJ Departamento de Comunicação – UFRJ
Prof. Eduardo Granja Coutinho Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação – UFRJ Departamento de Comunicação – UFRJ
RIO DE JANEIRO
2014
FICHA CATALOGRÁFICA
LAZARONI, Amanda Bastos.
A Retratação da Cidade do Rio na Telenovela Lado a Lado. Rio de Janeiro, 2014.
Monografia (Graduação em Comunicação Social/ Jornalismo) –
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de Comunicação – ECO.
Orientador: Muniz Sodré de Araújo Cabral
LAZARONI, Amanda Bastos. A Retratação da Cidade do Rio na Telenovela Lado a
Lado. Orientador: Muniz Sodré de Araújo Cabral. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO.
Monografia em Jornalismo.
RESUMO
A monografia trata da constituição da cidade do Rio de Janeiro na novela Lado a Lado, escrita por Claudia Lage e João Ximenes Braga, exibida pela Rede Globo de setembro de 2012 a março de 2013, no horário das 18h. A retratação do período histórico da belle époque carioca na mídia é compatível com a função pedagógica e social assumida pela telenovela no Brasil, que é ressaltada no trabalho. O período histórico e o pensamento da elite na virada do século XIX para o XX, que consumia e copiava as culturas britânica e francesa de forma acrítica, são discutidos. Após contextualizar o momento verdadeiro da história, os pontos cruciais do folhetim são analisados: a retratação da mulher e do negro e os elementos brasileiros inseridos na narrativa para que o brasileiro se sinta parte de uma identidade nacional. Lado a Lado foi diferente de outras telenovelas de época, e é isso que este trabalho pretende analisar.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, que me criou e foi criativo nesta tarefa; Agradeço aos meus pais, José Alexandre e Carla, que me apoiam em tudo com vigilância preocupada; Ao meu irmão, Guilherme, que tanto pedi para ter;
Aos avós, Domingos (que foi o primeiro a dizer: “minha filha, escolha a UFRJ”), Maria
Helena, Paulo e Maria Eleonora, que fizeram o que puderam por mim – morando perto ou longe; Aos professores que tive, geniais e incansáveis; À prima Caroline, que me ajudou a concluir a monografia; E às amigas, que enalteceram minhas qualidades e aguentaram meus defeitos. Esta e todas as minhas demais conquistas são dedicadas a vocês.
Índice
1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1 2. A RELAÇÃO DO BRASILEIRO COM A TELENOVELA.................................. 5
2.1. Origens................................................................................................................... 5 2.2. A construção da identidade nacional ..................................................................... 8
3. A BELLE ÉPOQUE CARIOCA.............................................................................. 13
3.1. O pensamento da elite cultural............................................................................. 13 3.2. Os socialmente excluídos..................................................................................... 17
4. OS PERSONAGENS DA TELENOVELA LADO A LADO ............................... 22
4.1. A representação da mulher................................................................................... 22 4.2. A representação do negro .................................................................................... 26
5. OS ELEMENTOS BRASILEIROS NA TELENOVELA LADO A LADO........ 31
5.1. O candomblé........................................................................................................ 31 5.2. O samba ............................................................................................................... 35 5.3. O futebol .............................................................................................................. 37
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................... 41 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 44
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1. INTRODUÇÃO
A telenovela Lado a Lado, escrita por Claudia Lage e João Ximenes Braga, foi exibida pela TV Globo de 9 de setembro de 2012 a 8 de março de 2013, no horário das 18h. O folhetim, que ganhou o Emmy Internacional de melhor telenovela em 2013, conta a história de duas mulheres, Laura e Isabel, que buscam conciliar amor e liberdade na conservadora sociedade carioca do início do século XX. Laura é filha de uma exbaronesa e deseja trabalhar como professora; Isabel, por sua vez, é filha de um exescravo e trabalha como empregada doméstica desde os 14 anos.
O Rio de Janeiro da belle époque carioca era o centro heterogêneo e segregador de um Brasil que tentava se reinventar como República. A elite carioca passou por um processo de colonização cultural, reproduzindo de maneira acrítica valores e ideais ingleses e franceses. Embora se modernizasse, o país continuava vivendo os aspectos dominadores do Segundo Reinado, como mostra Jeffrey D. Needell: “[...] a elite carioca reconciliou mudança onipresente com a manutenção de uma hierarquia social. O resultado foi uma evolução sob os auspícios da elite: mudança contida pela, e
reforçando a, hierarquia.” (1998, p. 371).
Needell (1998) explica que a administração de Campos Sales como presidente
(1898 – 1902) enfatizou a estabilidade econômica através de um conservadorismo financeiro e fortes relações de crédito estrangeiro. Sales assegurou que os estados apoiariam o Governo Federal em troca de políticas que beneficiavam várias elites localmente estabelecidas:
O consenso da elite era de que a base natural agrária do país estava irresponsavelmente abalada, empobrecida por uma intervenção econômica do Estado corrupta e não natural, e ameaçada por feias lutas civis. Era tempo de estabilizar a economia e a política de um modo laissez-faire econômico, autoridade presidencial aceitável e reestabelecimento da hegemonia da elite. (NEEDELL, 1987, p. 17).
Com a elite do Brasil Império reestabelecida na República e as fortes relações econômicas firmadas com outros países, os âmbitos cultural e ideológico seguiram a tendência europeia. Segundo Muniz Sodré, “a ‘europeização’ – absorção de aparências de cultura europeia – dava status, compensava handicaps raciais, como pele não perfeitamente clara, mulatice etc. e criava distâncias, ao nível do espaço real, em face da
2população negra.” (2002, p. 36). A burguesia urbana estava de acordo com esses pensamentos elitistas em particular, como ressalta Teresa Meade:
Mas as aspirações da última por civilização geralmente paravam na instituição de melhorias materiais reais nas vidas da classe trabalhadora e pobre. Eles copiavam a moda europeia, adotavam seus padrões de alta cultura e focavam sua atenção no que podia ser feito para tornar as cidades brasileiras, especialmente a capital, mais parecidas com as grandes cidades da Europa. (MEADE, 1997, p. 19).
Essa diferenciação social e territorial se deu de forma destacada no Rio de
Janeiro, então capital da República.O trabalho de conclusão de curso pretende expor a constituição desse Rio inserido na novela Lado a Lado, ressaltando sua importância, compatível com a função pedagógica e social assumida pela telenovela na América Latina. Segundo Sodré (1988), o pedagogismo, intenção clara de se ensinar alguma coisa, é característico dos best-sellers, literatura de mercado da qual o folhetim é parte:
Através daí vislumbra-se a ideologia do autor, que é a de um socialdemocrata com pendores esquerdistas, preocupado com a fraternidade entre as classes sociais e convencido de que uma mudança de atitudes dos ricos ajudaria a combater efetivamente a miséria. O pedagogismo é uma tentativa de resposta a questões reais (a cidade e suas injustiças) levantadas pelo romancista. (SODRÉ, 1988, p. 8 – 9).
A partir dos anos 1980 e 1990, as telenovelas começaram a abordar temáticas sociais, políticas e a liberação de costumes. A função social veio através da tentativa de conscientização das pessoas a respeito de temas como cidadania e a situação política e econômica do país. Jesús Martín-Barbero diz que, “antes de ser um meio de propaganda, o melodrama será o espelho de uma consciência coletiva.” (1997, p. 170). Há um reconhecimento de identidade por parte dos brasileiros ao assistir às tramas, sentimento esse que transcende classes sociais, constituindo um só público.
Segundo Sodré (1988), a telenovela constituiu-se como único grande produto da narrativa de massa brasileira por consequência de uma deficiência do setor impresso. Essa deficiência estaria diretamente relacionada às dificuldades que a indústria nacional do livro precisou enfrentar desde o princípio, como o reduzido público leitor do país e a sufocação do produto nacional pelas multinacionais da editoração.
Textos de massa são predominantemente épicos, apresentando padrões e arquétipos – como o herói, descendente de um rei ou um de deus, que precisa passar por
3determinadas provações para conquistar a mulher amada (SODRÉ, 1988). O personagem Zé Maria, interpretado por Lázaro Ramos, passa por essa iniciação heroica, mas quebra o paradigma do herói que vem da elite: Zé Maria é negro, mora no Morro da Providência, luta capoeira e trabalha em uma barbearia no centro da cidade. Ele se destaca em seu grupo social como uma individualidade solidária, redentora, exatamente como Sodré (1988) define os heróis dos best-sellers.
Lado a Lado retratou a discriminação racial, religiosa e social presente na sociedade brasileira da virada do século XIX para o XX (que permanece). As críticas, porém, aparecem na telenovela da mesma forma que o fazem em outros best-sellers: como um “discurso da história [grifo do autor], isto é, como algo externo à ficção, que
penetra no texto com foros de informação verdadeira.” (SODRÉ, 1988, p. 16).
Considerando-se a relação do brasileiro com a telenovela e o fácil acesso que o povo tem à televisão, é importante que haja informação verdadeira em meio às tramas – e, no caso de Lado a Lado, trata-se de informação sobre a história do Brasil. Muito da sociedade que somos hoje é consequência da passagem de Império para República, e, em um período de descontentamento geral com a política e a desigualdade, é válido que se conheça um pouco de sua própria história.
Para João Ximenes Braga, Lado a Lado se diferencia das demais novelas de época por causa dos eventos históricos retratados ao longo dela. “A maioria das novelas de época retrata o comportamento da época, sem atingir, a não ser de leve, os fatos históricos. Nossa preocupação era com a dramaturgia. Retratamos a Revolta da Chibata porque aquilo deu todo um manancial de boas cenas e estofo psicológico para o protagonista Zé Maria. Essa ideia não é nova, porém, Hollywood faz muito isso. Como a Guerra Civil em E o Vento Levou. Não era um filme sobre a Guerra Civil, mas sobre
uma mulher que tinha sua vida alterada pela Guerra Civil”, explicou o autor.1
Além disso, o folhetim trouxe como poucos anteriores as perspectivas diferentes destes acontecimentos históricos. Vemos os eventos se passando nas vidas de Laura e Isabel, as protagonistas, com pesos diferentes, e percebemos a influência da classe, raça e credo na vida das pessoas – algo pouco comentado em telenovelas que não sejam ambientadas exclusivamente na época da escravidão. Elementos afro-brasileiros são destacados desde o primeiro capítulo da novela, como o samba, o candomblé e a culinária baiana.
1 Entrevista concedida à autora por e-mail em 14/10/2014.
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A última cena da novela, de Zé Maria e Isabel se casando no candomblé, enfatizou de forma única a religião africana. Ainda que outras telenovelas, retratadas na Bahia e baseadas em Jorge Amado, tenham representado bem a religião, encerrar uma novela com o ritual de união tem uma ênfase grande. João Ximenes Braga contou que, em termos de pioneirismo, o folhetim foi o primeiro a iniciar os créditos com o nome de um casal de protagonistas negros2 (verdadeiro avanço para a televisão brasileira, que, como será visto ao longo do trabalho de conclusão de curso, muito pecou e ainda peca em termos de representatividade). Apesar do clima de reconciliação entre os personagens e das lições devidamente aprendidas pelos vilões, Lado a Lado sugeriu, ao mostrar o Rio de Janeiro ao fim da novela, que as disparidades não terminaram. Aliás, pelo contrário: ainda há muito que podemos aprender sobre nossa realidade, conforme dito anteriormente, estudando essa época da história do Brasil.
Para realizar este trabalho, que é expositivo, foram feitas pesquisas sobre o período histórico real e o ficcional, representado na telenovela, ressaltando os pontos cruciais de ambos. Foi feita uma comparação entre o retrato dos negros em Lado a Lado e em outras telenovelas de época, explicando o motivo de esse folhetim ter sido diferente dos demais. O autor da novela foi ouvido e explicou um pouco sobre a pesquisa realizada pela equipe e sobre os índices de audiência. O objetivo do trabalho não é discorrer sobre todos os eventos que se passaram no Brasil durante o início da República e da belle époque carioca, mas sim sobre a retratação dessa época na mídia.
2 Entrevista concedida à autora por e-mail em 14/10/2014.
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2. A RELAÇÃO DO BRASILEIRO COM A TELENOVELA
Há uma literatura que, segundo Martín-Barbero (1997), tornou possível para as classes populares a passagem da narrativa oral para a escrita, na qual há transformação
do folclórico em uma “indústria” de narrativas e imagens. Essa literatura, chamada de cordel na Espanha e colportage na França, inaugurou outra função para a linguagem: “a
daqueles que sem saber escrever sabem contudo ler. Escritura portanto paradoxal, escritura com estrutura oral.” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 143). Esse processo de
“enculturação” foi colocado em marcha no século XVII.
2.1. Origens
No período do Romantismo, foi construído pela primeira vez um imaginário que elevava o que vinha do povo ao status de cultura (MARTÍN-BARBERO, 1997). Isso aconteceu devido aos ideais nacionalistas dos românticos, que desprezavam o
utilitarismo burguês, valorizavam a ideia de coletividade e do herói que “se levanta e faz frente ao mal” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 26). Antes dessa “descoberta do povo”, o que era popular tinha conotação negativa: “que sintetiza para os ilustrados tudo
o que estes quiseram ver superado, tudo o que vem varrer a razão: superstição, ignorância e desordem.” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 24). A burguesia teria sido legitimada através da exclusão da participação do povo no campo da cultura, separando
os cultos dos incultos. “Voltaire o dirá sem evasivas: são outros os prazeres - diferentes daqueles do saber - e ‘mais adequados a seu caráter’ os que o governo deve buscar para
o povo.” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 25).
Em 1836, dois jornais parisienses, La Presse e Le Siécle, começaram a publicar narrativas escritas por novelistas da moda. O folhetim francês passou por três fases: a primeira, de romantismo social; a segunda, de aventura e intriga; e a terceira, reacionária, traduzindo o pânico da sociedade diante de acontecimentos da comuna (MARTÍN-BARBERO, 1997). Esse novo modo de leitura rompeu com o isolamento do escritor, pois, por ser um trabalho contínuo, o novelista conseguia identificar se estava agradando ou não ao público com sua história.
Há uma obra, segundo Sodré (1988), que é considerada o texto modelar da literatura de massa: Os mistérios de Paris, de Eugène Sue, publicado a partir de 1842 no Le Journal des Débats. A novela conta a história de Rodolfo de Gerolstein, um príncipe
6alemão rico, justo e bom, que enfrenta provações em sua vida particular (um amor infeliz e a suposta morte da criança nascida desse amor). A história se passa na Paris da primeira metade do século XIX, expondo as mazelas sociais e injustiças na cidade.
É o tipo de matéria narrativa capaz de encantar um público burguês sequioso de entretenimento e emoções fáceis. Isto efetivamente acontece. Mas, à medida que avança a narrativa, o próprio proletariado acaba se reconhecendo nas descrições feitas por Sue, identificando-se com os personagens e ampliando o raio de alcance social da novela. A revelação de que o crime e a miséria são gerados por condições injustas, os discursos em prol da salvação coletiva através da fraternidade cristã, as ideias de reforma penal e outras tomadas de posição fizeram com que a narrativa exercesse uma poderosa influência sobre as classes populares francesas, a ponto de se dizer que Os mistérios de Paris é uma das causas prováveis da insurreição de 1848 na França. (SODRÉ, 1988, p. 7 – 8).
O efeito da literatura de massa no imaginário da sociedade permaneceu: ela mobiliza pessoas de diferentes classes sociais conforme a narrativa é construída (efeito este que foi herdado pela telenovela). Ainda segundo Sodré (1988), quatro aspectos da novela de Sue merecem destaque: o mítico, referente aos arquétipos dos personagens; a atualidade informativo-jornalística, que põe o leitor a par dos grandes acontecimentos e discussões do momento; o pedagogismo, caracterizado por uma tentativa de ensinar alguma coisa; e a retórica culta ou consagrada, isto é, a forma de escrever tradicional,
em que não há inovação para a língua nacional. A estrutura “tensão/afrouxamento, nova tensão/novo afrouxamento, etc.” (SODRÉ, 1988, p. 9) é utilizada para prolongar um
romance que está sendo bem sucedido com o público.
Em relação aos arquétipos utilizados na narrativa, Martín-Barbero (1997) resgata alguns do teatro melodramático de 1800 (que influenciam as narrativas folhetinescas até hoje). São eles: o traidor, personificação do mal e da sedução; a vítima, que representa a virtude; o justiceiro, personagem que salva a vítima; e o bobo, responsável pela parte cômica e leve da história (desde sempre popular).
Martín-Barbero (1997) diz que em países da América Central e do Sul, onde ocorreram diversas lutas de libertação e migração de políticos, houve não só
mestiçagem racial como também cultural. Por “mestiçagem cultural” entende-se a trama descontínua de “memórias e imaginários que misturam o indígena com o rural, o rural com o urbano, o folclore com o popular e o popular com o de massivo.” (MARTÍN-
BARBERO, 1997, p. 16).
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Lopes (2002) explica que a influência do folhetim na sociedade brasileira está diretamente relacionada ao bem sucedido repertório comum presente nas tramas, por meio do qual pessoas de classes sociais, sexo, gerações e regiões distintas se reconhecem (em concordância com a ideia de mestiçagem cultural de Martín-Barbero). Esse reconhecimento, essa ideia de ser parte de um todo (o país), é reforçada nos chamados romances de época, como é o caso da telenovela Lado a Lado. O Romantismo na América Latina se utilizava dessa literatura para criar uma identidade nacional, incorporando nela os ideais revolucionários burgueses da época:
[...] a finalidade da maioria destes novelistas foi contribuir para a criação de uma consciência nacional, familiarizando seus leitores com os personagens e sucessos do passado; e respaldar a causa política dos liberais contra os conservadores, que se identificavam com as instituições políticas, econômicas e religiosas do período colonial. (MENTON, apud SILVEIRA, 2008, p. 160).
Sodré (1988) diz que o folhetim não pode ser dissociado da história da grande literatura romanesca do século XIX. Sue, Alexandre Dumas, Paul de Kock, Charles Dickens e Walter Scott, por exemplo, eram todos folhetinistas. Essa forma de escrever foi importada e adaptada pela literatura brasileira: é o caso dos romances de Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo Guimarães, José de Alencar, Visconde de Taunay e outros.
Segundo Martín-Barbero (1997), as condições estabelecidas pelo folhetim erguem entre escritor e texto uma mediação institucional com o mercado, que reorienta e rearticula a intencionalidade artística do escrito. Sodré diz que, com a literatura de massa, não está em primeiro plano a questão da língua nem da técnica romancesca, mas
sim os conteúdos fabulativos: “[...] é o mercado, e não a escola, que preside às condições de produção do texto.” (1988, p. 15). Isso quer dizer que o trabalho do
escritor está, no folhetim, condicionado ao mercado e ao interesse do público.
É importante ter em mente o seguinte: o circuito ideológico de uma obra não se perfaz apenas em sua produção, mas inclui necessariamente o consumo. Em outras palavras, para ser “artística”,
ou “culta”, ou “elevada”, uma obra deve também ser reconhecida
como tal. Os textos que estamos habituados a considerar como cultos ou de grande alcance simbólico assim são institucionalmente reconhecidos (por escolas ou quaisquer outros mecanismos institucionais), e os efeitos desse reconhecimento realimentam a produção. A literatura de massa, ao contrário, não tem nenhum suporte escolar ou acadêmico: seus estímulos de produção e consumo