UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL CHRISTIAN LUIZ MELIM SCHWARTZ FUTEBOL EM TRADUÇÃO Narrativas impressas como tradução do acontecimento futebolístico e imaginação do estilo em comunidades locais e nacionais São Paulo 2014 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL FUTEBOL EM TRADUÇÃO Narrativas impressas como tradução do acontecimento futebolístico e imaginação do estilo em comunidades locais e nacionais Christian Luiz Melim Schwartz Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em História. Orientador: Hilário Franco Júnior São Paulo 2014 AGRADECIMENTOS Este trabalho deve muito à colaboração das seguintes pessoas e instituições: Meu orientador Hilário Franco Júnior, pela grandeza intelectual que tanto admiro e, fruto dela, pela liberdade de pensar a cada um dos nossos mais que agradáveis encontros, durante os quais conheci não poucos bons restaurantes em São Paulo e bistrôs em Paris. Meus guias acadêmicos nesta jornada: os doutores Flavio de Campos e Lilia Schwarcz (banca no exame de qualificação), José Carlos Marques (debatedor em seminário que realizei em novembro de 2012 na USP) e Carlos Alberto Faraco (leitor do pré-projeto e fonte de valiosas indicações bibliográficas); Willian Maranhão e, novamente, o professor Flavio de Campos e demais colegas do Ludens, pelo apoio à minha estadia como pesquisador visitante na Universidade de Cambridge; os participantes e organizadores da conferência Sports & Translation, atenta e generosa plateia para esta tese em sua versão quase final, em maio de 2014, na Universidade de Bristol. Meus maravilhosos e acolhedores anfitriões em Cambridge: - o Dr. Charles Jones, Samuel Mather e, em particular, minha querida amiga Julie Coimbra, do Centro de Estudos Latino-Americanos; - o Dr. Scott Anthony, meu orientador e conselheiro na pesquisa em arquivos de imprensa; - o simpático staff do Downing College, onde morei nos dois primeiros meses de minha estadia na cidade; - e, com um agradecimento especial, o casal Maria Lucia Palhares-Burke e Peter Burke, afetuosos incentivadores (e meus leitores/ouvintes, o que muito me honra) em mais de uma etapa deste trabalho. Meus solidários ex-chefes, os amigos André Tezza, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, onde fui professor até 2013, e sua sucessora no cargo, Christiane Monteiro Machado, e meus colegas professores de tantos anos, parceiros intelectuais de primeira hora. Meu amigo e mestre de sempre, Cristovão Tezza, a quem presenteei o livro do Hilário quando nem sabia que faria um doutorado e ele, leitor perspicaz, fez um comentário que, pensei eu, “daria uma tese”; e Felipe Tezza, o mais animado torcedor de futebol que já conheci, companhia minha e do Cristovão em incontáveis partidas. Meu mano Alessandro Tarso, que mal sabia o deslumbre que estava prestes a causar quando, vinte anos atrás, ao me dar de presente aquela biografia do Garrincha (um exemplar de, digamos, procedência suspeita), leu em voz alta, emocionado, o trecho exato que o leitor encontrará reproduzido lá pela metade deste trabalho. Minhas famílias (Schwartz & Negrello), especialmente minha mãe, pela companhia nos incontáveis retiros na Chácara Olinda Rolinha que tanto contribuíram para que, enfim, isto aqui se tornasse realidade. i Dedico esta tese à Lili e à Bebel, comigo sempre. ii RESUMO Esta tese investiga o estilo no futebol como fenômeno de significação, argumentando que o comentário ao jogo funciona como tradução do que se vê em campo. Entendemos que os estilos, em geral associados a nações, só existem pelo olhar subjetivo coletivo dos observadores (comentaristas e aficionados, mas também, por reverberação, da parcela não torcedora de uma comunidade), os quais traduzem o estilo a cada partida, a cada acontecimento futebolístico na história. Essas práticas discursivas, por sua vez, se concretizam no que chamamos narrativas do estilo – produto da tradução do que Dominique Maingueneau classifica como o “discurso primeiro” do futebol no “discurso segundo” dos observadores, acumulado sistematicamente na língua “literária” que, segundo Benedict Anderson, reúne “comunidades imaginadas” nacionais em torno de jornais (mas este trabalho considera a hipótese de que outras mídias também sirvam como esse ponto de encontro) e romances, ou seja, no chão comum das narrativas impressas. Dois estudos de caso ilustram nossa argumentação teórica, ambos baseados na análise de textos de jornais: a partir de relatos sobre turnês de clubes britânicos a Buenos Aires nos anos 1920, investigamos a construção do que Richard Giulianotti conceitua como uma oposição “sintática” entre as comunidades nacionais de Inglaterra e Argentina; num segundo momento, buscamos as variações “semânticas”, ainda nos termos de Giulianotti, envolvendo comunidades locais/regionais em sua relação com a nação – em foco, o Arsenal de Londres e, novamente, a “comunidade imaginada” inglesa. O futebol, concluímos, só ganha sentido pleno numa sequência narrativa midiática e enraizada historicamente. As narrativas do estilo constroem um enredo comum – espécie de folhetim permanente e amálgama das identidades comunitárias. Por essa tendência à “folhetinização”, tanto na “forma” (simbiose com o veículo, a mídia) quanto no “conteúdo” (o acontecimento como matéria-prima fundamental), o futebol, sugerimos por fim, está para a cultura dos modernos esportes de competição como o romance – também derivado do folhetim – para a cultura literária, ambos como linguagens traduzíveis em narrativas e estilos. Palavras-chave: futebol; estilo de jogo; tradução; narrativa; comunidades imaginadas; Arsenal. iii ABSTRACT This thesis investigates the style in football as a signifying phenomenon, arguing that the language of the game translates into the commentary on what is seen on the pitch. We consider that the styles, generally associated with nations, only exist by the observers’ collective and subjective interpretations. These observers (commentators and fans, but also the non-fan part of a community) translate the style by the event – match by match in football history. These discursive practices, in turn, take the form of what we call narratives of style, in a process that Dominique Maingueneau ranks as a translation of the “primary discourse” of football into the “secondary discourse” of the observers, systematically accumulated in the “literary” language which, according to Benedict Anderson, brings together national “imagined communities” around newspapers (but this thesis considers the hypothesis that other media might also play the same role) and novels, i.e., the common ground of printed narratives. Two case studies illustrate our theoretical arguments, both based on the analysis of press reports: firstly, from the tours British clubs took in Buenos Aires in the 1920s, investigating the construction of what Richard Giulianotti sees as a “syntactic” opposition between the national communities of England and Argentina; subsequently, we seek the “semantic” variations, still in Giulianotti’s terms, involving local/regional communities in their relationship with the nation and focusing on the Arsenal, from North London, and again the English “imagined community”. Football, we conclude, only reaches its full meaning as historically rooted media narratives. The narratives of style form this serialized and permanently renewed story that amalgamates community identities. Football’s “form” (in symbiosis with the media) and “content” (the event as a basic source of storytelling), we would like to argue at last, suggests that the game works for the culture of modern competitive sports as the novel – also originally derived from serialized stories published in newspapers – does for the literary culture at large, both of them languages translatable into narratives and styles. Keywords: football; styles of play; translation; narrative; imagined communities; Arsenal. iv Os torcedores conversavam sobre o jogo e tinham ocasião de sobra para ler e fantasiar sobre futebol. Ao longo de décadas, uma literatura futebolística composta de relatos de jogos, perfis, biografias e ficção floresceu. A natureza do futebol seria moldada e colorida na mesma proporção por essa literatura e pela memória pessoal. O futebol havia criado alguma coisa maior do que o próprio jogo [...]. Peter Stead, “Brought to Book: Football and Literature”, The Cambridge Companion to Football v SUMÁRIO INTRODUÇÃO Língua e estilo: hipóteses para uma analogia ........................................................... 1 1. NAÇÃO versus CULTURAS ............................................................................. 18 1.1. Nação ................................................................................................................ 18 1.2. Culturas em tradução ..................................................................................... 38 2. LINGUAGEM versus LÍNGUAS ...................................................................... 55 2.1. Língua como miragem estrutural, língua como fluxo ................................. 55 2.2. Língua, escrita e fronteiras nacionais ........................................................... 65 3. DIMENSÕES DO ESTILO ............................................................................... 74 3.1.
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