Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 VULNERABILIDADE NATURAL DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS EM ÁREA DO TABULEIRO DO MARTINS – MACEIÓ – ALAGOAS - BR José Vicente Ferreira Neto Rua Mariontina Cavalcante, 16, Pajuçara - 57030-610 - Maceió - AL Telefone/Fax: (82) 231-1430; E-mail: [email protected] Ricardo José Queiroz dos Santos Conjunto Carajás, Rua E, 42, Serraria – 57046-390 – Maceió – AL Telefone: (82) 328-2028; E-mail: [email protected] Paulo Roberto Bezerra Wanderley Rua Rivadávia Carnaúba, 23, Farol – 57057-260 – Maceió – AL Telefone: (82) 241-9457; E-mail: [email protected] Perillo Rostan de Mendonça Wanderley Rua Rivadávia Carnaúba, 23, Farol – 57057-260 – Maceió – AL Telefone: (82) 241-9457; E-mail: [email protected] Abel Tenório Cavalcante Av. Álvaro Otacílio, 6889, Ap. 603, Jatiúca – 57037-270 – Maceió – AL Telefone/Fax: (82) 355-2122; E-mail: [email protected] Tema: Uso e Proteção de Águas Subterrâneas RESUMO: Foi estudada uma área localizada no domínio dos Tabuleiros Costeiros de Maceió, dentro da Bacia Sedimentar de Alagoas, onde as águas subterrâneas são intensivamente explotadas para consumo humano e industrial. Possui clima tropical, sub- úmido seco, com baixa amplitude térmica e precipitações anuais em torno de 1480 mm. Trata-se de uma bacia evaporimétrica, onde a recarga dos sistemas aqüíferos se dá principalmente pela infiltração do excedente de águas pluviais, estimada em 400 mm anuais. Das unidades litoestratigráficas, somente as formações Barreiras, Marituba e Poção são explotadas isoladamente ou em conjunto, quando formam um só sistema aqüífero. Dentre as atividades potencialmente poluidoras identificadas, destacam-se: sistemas de esgotamento sanitário, efluentes líquidos industriais, postos de combustíveis, e o sistema de drenagem da região, constituído de lagoas para amortecimento de cheias 57 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 que são também utilizadas como corpos receptores de efluentes domiciliares e industriais. Apesar das atividades potencialmente poluidoras, o risco de contaminação é atenuado devido à baixa vulnerabilidade em cerca de 80% da área. É mais provável a contaminação dos sistemas aqüíferos nas áreas de vulnerabilidade moderada. 1. INTRODUÇÃO das águas de uma área localizada no bairro Sendo a água um recurso natural do Tabuleiro do Martins, em Maceió / AL, renovável e um bem que deve ser utilizado onde o elevado nível de explotação das pelo homem para sua sobrevivência e águas subterrâneas compromete sua melhoria de suas condições econômicas e qualidade e quantidade, além de sociais, torna-se evidente a necessidade de apresentar o grau de vulnerabilidade mantê-la com a qualidade e em quantidade dessas águas. suficientes ao atendimento dos seus A área estudada está situada no diversos usos. Contudo, devido ao domínio dos Tabuleiros Costeiros do incremento de sua utilização, resultante do Estado de Alagoas, na região norte da crescimento populacional e do cidade de Maceió, num interflúvio desenvolvimento industrial e agrícola, este tabuliforme pouco dissecado delimitado recurso natural pode se tornar poluído ou pelos rios Carrapatinho/Catolé, Messias ou mesmo escasso. do Meio, Riacho Doce, Jacarecica e Em Maceió, segundo a Reginaldo, totalizando cerca de 42,8 Km2, concessionária de abastecimento d’água, definida pelos paralelos 9o31’31” e 9o35’00” os recursos hídricos subterrâneos de Latitude Sul e pelos meridianos representam mais de 80% do consumo 35o44’18” e 35o47’56” de Longitude Oeste total e grande parte dos poços de captação de Greenwich, (Figura 01). se localizam na região do Tabuleiro do Martins. Maior preocupação, portanto, 2. CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DA deve-se ter, localmente, em preservar a ÁREA qualidade dessas águas subterrâneas visto 2.1 - Clima que, uma vez contaminadas, a sua De acordo com a classificação recuperação certamente exigirá pesados climática de THORNTHWAITE-MATHER investimentos além do longo período de (1955), Maceió possui clima sub-úmido tempo demandado. seco, com deficiência d’água moderada, Esse trabalho tem por objetivo megatérmico, com evapotranspiração mostrar a situação atual do uso do solo e potencial anual média de 1193 mm e 58 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 concentração da evapotranspiração Os ventos são de sudeste e nordeste, potencial no quadrimestre outubro-janeiro, sendo que os de nordeste são quase correspondente aos meses mais quentes sempre de verão. O vento predominante é do verão, igual a 39%. Caracteriza um de sudeste. clima tropical, com baixa amplitude térmica. A média mensal de insolação varia de A umidade relativa do ar atinge o máximo 5,7 a 6,2 h/dia na estação chuvosa, meses de 82,9% no mês de maio e a mínima de de maio a julho, atingindo o máximo médio 75,7% no mês de novembro. de 9,3 h/dia no verão (novembro a janeiro). Figura 01 – Mapa de localização da área de estudo 59 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 A região está associada a chuvas. Caracteriza-se também por temperaturas elevadas o ano todo, com apresentar baixos índices de nebulosidade. amplitudes térmicas máximas de 6ºC. A pluviometria anual referente à Entretanto, a relativa homogeneidade Estação Maceió, série de 1913 a 1985 térmica contrasta-se com a grande (SUDENE, 1990), representada na Figura variabilidade espacial e temporal das 02, apresenta uma média de 1478,6 mm. 3000 Precipitação 2500 Média = 1478,6 mm 2000 1500 1000 PRECIPITAÇÃO (mm) 500 0 1913 1918 1923 1928 1933 1938 1943 1948 1953 1958 1963 1968 1973 1978 1983 ANO Figura 02 - Pluviometria anual, Estação Maceió (1913 a 1985) Fonte: SUDENE O balanço hídrico cíclico (Figura 03), Apresenta as seguintes foi obtido pelo método de características: THORNTHWAITE-MATHER (1955), • O mês de março é, potencialmente, considerando as médias mensais da o período de reposição hídrica. pluviometria (SUDENE), e as médias • O período de abril a agosto mensais de temperatura e evaporação corresponde ao período de excedentes (INMET), para o cálculo da hídricos. evapotranspiração potencial, corrigindo-se • O período de setembro a dezembro os valores obtidos para a duração real do corresponde ao período tanto de retirada mês e para o número máximo de horas de d’água do solo como também de sol, (TUCCI, 1993). deficiência hídrica. 60 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 • O período de janeiro a fevereiro corresponde exclusivamente ao período de deficiência hídrica. 300 LEGENDA Precipitação (P) 250 Evapotranspiração Potencial (ETP) Evapotranspiração Real (ETR) 200 EXC : Excedente hídrico DEF : Deficiência RET : Retirada d´água do solo EXC 150 REP : Reposição (mm) REP 100 DEF R E DEF 50 T 0 JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ MESES Figura 03 – Balanço hídrico de Maceió segundo Thornthwaite-Mather Por se tratar de uma bacia endorreica para diferentes períodos de retorno ou ou evaporimétrica, a recarga anual de água diferentes probabilidades de ocorrência da subterrânea na região pode ser estimada mesma, conforme apresentado na Tabela através do cálculo do excedente hídrico, 01, através da distribuição de probabilidade obtido pelo balanço mensal contabilizado do tipo Log-normal, que apresentou melhor para os anos com disponibilidade de dados ajuste aos totais anuais obtidos, (Figura de evaporação (Estação INMET, período: 04). 1946 a 1969). Com base nos totais anuais de excedente hídrico estimou-se a recarga 61 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 1,0 0% 0,9 10% 0,8 20% ) 0,7 30% 0,6 40% 0,5 50% 0,4 60% FREQÜÊNCIAS 0,3 70% Distribuição Log-Normal 0,2 80% PROBABILIDADES (% Freqüência Observada 0,1 90% 0,0 100% 0 200 400 600 800 1000 1200 EXCEDENTE HÍDRICO ANUAL (mm) Figura 04 – Distribuição de freqüências do excedente hídrico anual Tabela 01 – Estimativa do excedente hídrico anual Período de retorno (anos) 2 5 10 20 50 100 Probabilidade (%) 50 80 90 95 98 99 Excedente hídrico (mm/ano) 505,5 349,6 288,4 245,9 205,6 182,4 2.2 - Geomorfologia endorreica, com as menores cotas (em A morfologia predominante na região torno de 65 m) formando uma depressão é a dos tabuleiros costeiros elaborados ou lagoa, localizada na área de interesse. desde o Terciário Superior a partir dos Essa configuração é de grande importância depósitos da Formação Barreiras. Essa para os aqüíferos subjacentes, fazendo da superfície é designada de “Superfície dos área preferencialmente uma zona de Tabuleiros” (MABESSONE & CASTRO, recarga, por favorecer sobremaneira a 1975). Apresenta declividade média de 3 infiltração direta a partir das precipitações. metros por quilômetro no sentido leste e A cota máxima observada na área é termina próximo à costa sob a forma de de 112 m, na parte sudoeste da mesma, falésias que bordejam a planície costeira. contrastando com a falésia que logo se Excetuando-se as áreas localizadas inicia em direção ao vale do rio Mundaú. na porção superior das bacias dos rios Reginaldo e Jacarecica, o relevo da área 2.3 – Hidrologia superficial mostra uma conformação de bacia 62 Rev. Águas Subterrâneas no 16/ Maio 2002 A sudeste, no limite da área estudada, O restante da área estudada faz parte localiza-se a porção superior da bacia do do Tabuleiro do Martins, onde toda a água rio Reginaldo, caracterizado como um rio superficial provém das chuvas e escoa, influente. O leito do alto e médio Reginaldo geralmente, para as depressões naturais só apresenta vazões na ocorrência de existentes na área ou para as lagoas de precipitações que supram a deficiência de acumulação escavadas com a finalidade de umidade do solo ou que excedam sua atenuar as cheias, muito comuns na região, capacidade de infiltração, cessando
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