TRÊS FORMAS DE TRABALHAR A IRRESPONSABILIDADE THREE WAYS OF DEALING WITH IRRESPONSIBILITY Nelson Marques1 RESUMO 1. O MARGINAL, A POLÍCIA E A VINGANÇA Três filmes, um brasileiro e dois americanos, trabalham de diferentes formas com o mesmo Confronto Final, 2005, Alonso Gonçalves, Brasil tema: a irresponsabilidade ao escolher, dirigir, Marcos Ferranti (Jackson Antunes) mora filmar e exibir um filme contando uma história. em uma grande cidade na qual leva uma vida tranquila com sua família. Após a casa ser assal- Palavras chaves: Assalto. Vingança. tada, Marcos sente o perigo que sua família corre, Espionagem. Non-Sense. Pseudônimo. Alan devido à ação de criminosos e também à inoperân- Smithee. IMDb. cia da polícia. Cada vez mais paranoico, ele decide tornar a sua casa invulnerável à criminalidade que o cerca e parte para uma vingança pessoal contra tudo e contra todos. ABSTRACT Confronto Final é um filme brasileiro de 2005 dirigido por Alonso Gonçalves e protago- Three films one brazilian and two americans nizado pelo ator Jackson Antunes, o Charles that works with different forms with the same Bronson brasileiro, que interpreta o persona- object: the irresponsibility to choose, to direct, gem Marcos Ferrante. Não confundir com os to film and to show a film that tell us a history, filmes de mesmo nome realizados em 2014, por Keoni Waxman, com Steven Seagal, e 2005, por Key Words: Assault. Revenge. Espionage. Dolph Lundgren, com ele também atuando. Non-Sense. Pseudonym. Allan Smithee. IMDb. O filme Confronto Final tem incríveis 5,9/10 pontos no “site” do IMDb (Internet Movie Database), valor muito alto para um 1 Bacharel e licenciado em Ciências Biológicas (USP). Professor Doutor aposentado da FMUSP, ex-prof colabo- rador voluntário da UFRN. Produtor cultural, fundador e atual presidente do Cineclube Natal. Idealizador, fundador e organizador do festival de cinema Goiamum Audiovisual (RN), organizador do FINC - Festival Internacional de Cinema de Baía Formosa (RN). Organizador e vice-presidente da ACCiRN - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. Editou, escreveu e colaborou em diversos livros sobre cinema: Brasil em Tela Cinema e Poéticas do Social (Editora Sulina, 2008), Cenas Brasileiras (EDUFRN, 2009), 80 Cult Movies Essenciais (EDUFRN, 2010), Sessão Dupla (EDUFRN, 2016), Claquete Potiguar: Experiências Audiovisuais no Rio Grande do Norte (Máquina, 2016). TRÊS FORMAS DE TRABALHAR A IRRESPONSABILIDADE filme incrivelmente ruim! Se lermos nova- da cópia de Death Wish, e depois de mais 3 mente a sinopse do filme talvez consigamos outros filmes de mesma temática, realiza- entender melhor a sua classificação. É um dos em 1985, 1987 e 1994! Mais de dez anos filme de ação, com uma história mais do que depois, 2005, Alonso Gonçalves, com menos batida e conhecida: a vingança pessoal de recursos, com atuações no mínimo sofríveis um indivíduo que se sente ameaçado, e a sua e com um roteiro de má qualidade resolve família também, por criminosos! repetir a mesma história básica! Só pode- Talvez a semelhança grande de Jackson ria resultar mesmo num filme de péssimo Antunes com o ator americano Charles gosto. Não é um filme nacional, mesmo sendo Bronson confunda um pouco os incautos. realizado em Belo Horizonte, não é um filme Bronson, particularmente, tem vários filmes estrangeiro e nem universal, ou seja, não é como o injustiçado que parte para sua nada, e não traz e nem acrescenta nada a uma vingança pessoal como redentor de certos filmografia já pobre. “valores” éticos e em defesa de sua família. O filme foi feito em 2005 e foi diri- São pelo menos 5 filmes de mesmo título (com gido, roteirizado e produzido por Alonso pequenos acréscimos) e basicamente com a Gonçalves, que é mais ator do que diretor. mesma história e personagem, Paul Kersey, Trabalha como ator desde 1982 e seus traba- um pacato arquiteto de Nova York, que se lhos mais recentes foram realizados para TV transforma num “vigilante” noturno após ter como séries: Passione, em 2010, Caminho das a mulher morta e a filha estuprada por três Índias, em 2008 e Faça Sua História, em 2008. marginais (Desejo de Matar – Death Wish, Antes do Confronto Final realizou dois outros 1974, Desejo de Matar 2 – Death Wish 2, 1982, filmes, sem expressão (Tara Maldita, 1982 e Desejo de Matar 3 – Death Wish 3, 1985, os Os Treze Pontos, 1985). três dirigidos por Michael Winner, Desejo de Alonso Gonçalves é amigo de Jackson Matar 4 – Operação Crackdown – Death Wish Antunes, ator que vocês devem ter visto em 4: The Crackdown, 1987, de J. Lee Thompson alguma novela da TV (A Regra do Jogo, 2015, e Desejo de Matar 5: A Face da Morte – Death Amorteamo, 2015, O Caçador, 2014) e nos filmes Wish V: The Face of Death, 1994, de Allan A. Mais Forte Que o Mundo, 2016, O Concurso, Goldstein). Outros diretores têm filmes de 2013, A Festa da Menina Morta, 2008, Tapete mesma temática: Sam Peckinpah, com Sob o Vermelho, 2005, entre outros, e juntos resolve- Domínio do Medo – Straw Dogs, de 1971, Gary ram fazer um filme de ação com cenas tão ruins Sherman, com Exterminador Implacável – que devem ter sido realizadas com o auxílio de Wanted: Dead or Alive, de 1987. um ”PowerPoint” qualquer da vida. Quanto ao “nosso” Confronto Final, Podemos dizer, para economizar pala- filmado em Belo Horizonte, MG, só pode- vras, que o filme não é ruim, é péssimo em mos atestar que o filme é ruim desde a sua todos os sentidos. As atuações de atores e concepção, sem originalidade, portanto, até a atrizes são “maravilhosas” de tão toscas. sua realização final. Se o “remake” de Death Deveríamos falar também do “roteiro”, mas Wish de 1974, o Death Wish 2, de 1982, já é como? Não há nada, minimamente, que se uma cópia declarada e ruim do filme original, possa chamar de roteiro. imaginem o filme de Alonso Gonçalves, cópia UMA ANTROPO-SOCIOLOGIA DE FILMES "NÃO RECOMENDÁVEIS"- PARTE II 31 Cronos: Revista da Pós-Grad. em Ciências Sociais, UFRN, Natal, v. 19, n. 2, jul./dez. 2018, ISSN 1982-5560 TRÊS FORMAS DE TRABALHAR A IRRESPONSABILIDADE Ficha técnica sobre uma história original de... Bill Cosby! Confronto Final, 2005. Brasil. Direção: O que dizer de um filme que o próprio Bill Alonso Gonçalves; Roteiro: Alonso Gonçalves; Cosby, decepcionado com o resultado obtido, Produção: Andréa Reis Gonçalves e Jorge “aconselhava” publicamente em jornais, Moreno; Direção de Fotografia, Markão; entrevistas e em seu próprio programa de Direção de Arte, Ana Gusmão; Figurino, TV – Bill Cosby Show – a não desperdiçarem Simone Almeida; Maquiagem, Elizinha tempo e dinheiro indo assistir ao filme! Silva; Montagem, Alonso Gonçalves; Som O filme foi lançado em dezembro de direto, Vandder Lima; Edição sonora, 1987 recebendo já de saída críticas extrema- Alonso Gonçalves; Trilha sonora, Vandder mente negativas dos jornais The Los Angeles Lima; Mixagem, Alonso Gonçalves; Elenco: Time (THOMAS, 1987; WILLMAN, 1988) e The Jackson Antunes (Marcos Ferrante), Patrícia New York Times (JAMES, 1987). Novaes (Carolina Ferrante), Ilvio Amaral Se havia a pretensão de que essa comé- (Delegado Alvarenga), Geraldo Carrato, dia de espionagem (ou de ficção científica?) Bárbara Salomão (Luiza Ferrante), Adilson se tornasse uma franquia, como se diz hoje – Maghá (Policial Ferreira), Rodrigo Signoretti daí o título do filme começando na Parte 6 -, (Detetive Glayson). Ação, 98 minutos, cor. morreu aí mesmo, no nascedouro. A inferên- cia de que o filme era o sexto de uma série de filmes com as aventuras de Leonardo Parker, teve até uma tentativa (ou estratégia) de 2. UMA COMÉDIA NON-SENSE UM publicidade às avessas, ao dizer que as outras TANTO IRRESPONSÁVEL partes – as de 1 a 5 – haviam sido sequestra- das por precaução no interesse da segurança Leonardo, Um Agente Muito Trapalhão mundial... Quanta pretensão e falta de jeito (Leonard Part 6), 1987, Paul Weiland, EUA mesmo! Até essa estratégia de marketing, Leonard Parker (Bill Cosby) é um ex-espião criando “expectativas” inexistentes, foi uma da CIA. Parker é re-recrutado por seus ex-emprega- grande bobagem. dores para salvar o mundo de uma vegetariana do Na época o jornal Los Angeles Time mal chamada Medusa Johnson que através de uma não deixou por menos: “... Leonard Part 6 é nova tecnologia aplicada nos animais, estes são presunçoso, um exercício tedioso de autoin- controlados para matarem as pessoas. Leonard tolerância... [...] ... Não há praticamente nada se infiltra na base vegetariana, cortando os para rir neste filme...”. O New York Times foi vegetarianos através de uma magia feita com igualmente rigoroso na sua crítica: “... Sr. carne, mágica esta que ele recebeu de uma cigana. Cosby e o diretor Paul Weiland estavam Leonard libera os animais do cativeiro, inunda supostamente em desacordo (pelo que se a base com anti-ácido efervescente (tipo “Alka- disse à época, e mais ainda depois, destaque Seltzer”, ou “Sal de Fruta”) e escapa montado em meu) durante as filmagens de Leonard Part um avestruz que estava no telhado do prédio. 6... [...] ... mas não há muita culpa para eles Leonardo, Um Agente Muito Trapalhão para compartilhar. A Direção do Sr. Weiland , é um filme americano de 1987, produzido e a história do Sr. Cosby e o roteiro de Jonathan dirigido por Bill Cosby, protagonizado por ele Reynolds parecem igualmente banal...”. mesmo, num roteiro de Jonathan Reynolds UMA ANTROPO-SOCIOLOGIA DE FILMES "NÃO RECOMENDÁVEIS"- PARTE II 32 Cronos: Revista da Pós-Grad. em Ciências Sociais, UFRN, Natal, v. 19, n. 2, jul./dez. 2018, ISSN 1982-5560 TRÊS FORMAS DE TRABALHAR A IRRESPONSABILIDADE Alguns anos depois, em 1994, o diretor gostam do seu tipo de humor. Muitos o consi- Paul Weiland, numa entrevista, até certo deram estar no pior papel dele no cinema. ponto amarga, afirmou: Joe Don Baker, sempre atuando como coad- “..
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