![Cultura, Vol. 23 | 2006, « Ideia(S) De Tempo(S) » [Online], Posto Online No Dia 05 Maio 2013, Consultado a 22 Setembro 2020](https://data.docslib.org/img/3a60ab92a6e30910dab9bd827208bcff-1.webp)
Cultura Revista de História e Teoria das Ideias Vol. 23 | 2006 Ideia(s) de Tempo(s) Tempo e temporalidades: concepções e calendários Edição electrónica URL: http://journals.openedition.org/cultura/1269 DOI: 10.4000/cultura.1269 ISSN: 2183-2021 Editora Centro de História da Cultura Edição impressa Data de publição: 1 janeiro 2006 ISSN: 0870-4546 Refêrencia eletrónica Cultura, Vol. 23 | 2006, « Ideia(s) de Tempo(s) » [Online], posto online no dia 05 maio 2013, consultado a 22 setembro 2020. URL : http://journals.openedition.org/cultura/1269 ; DOI : https://doi.org/ 10.4000/cultura.1269 Este documento foi criado de forma automática no dia 22 setembro 2020. © CHAM — Centro de Humanidades / Centre for the Humanities 1 SUMÁRIO Abertura A espuma do tempo Adriano Moreira Tempo e temporalidades Concepções e calendários Concepções e calendários Tempo e temporalidades concepções e calendários Francisco Caramelo e Maria Leonor Santa Bárbara Concepção e percepção de tempo e de temporalidade no Egipto Antigo José das Candeias Sales O calendário egípcio Origem, estrutura e sobrevivências Telo Ferreira Canhão A historiografia e o tempo na Mesopotâmia António Ramos dos Santos Os calendários mesopotâmicos, o culto e as hemerologias Francisco Caramelo Os poemas homéricos Uma concepção literária do tempo Maria Leonor Santa Bárbara Calendários e cronologias na Grécia Antiga Lá para as calendas gregas! Adriana Freire Nogueira Time in Augustan poetry O tempo na poesia augustana Luís Cerqueira Os contornos do tempo Calendários na Roma Antiga Maria do Rosário Laureano Santos De kāla a kṣaṇa ou da recorrência à instantaneidade Nota sobre a temporalidade no pensamento hindu Carlos H. do Carmo Silva O cômputo do tempo na civilização indiana Luís Filipe F. R. Thomaz A (não) questão do tempo na tradição chinesa Maria Trigoso Os ciclos de tempo no México Antigo Miguel Conde Cultura, Vol. 23 | 2006 2 O espaço do tempo, segundo o judaísmo José Augusto Martins Ramos A qualificação messiânica do tempo O caso de uma fórmula temporal no primeiro evangelho do cânone cristão José Tolentino Mendonça O leão e o borracho ou a história contemporânea entre a memória e o Taqlīd Em torno do Al-Mann bil- Imāma de Ibn Ṣāḥib al-Salāt Hermenegildo Fernandes Histórias do tempo O tempo e as réplicas Formas de recrutamento dos diplomatas: os concursos de acesso à “carreira” Armando Marques Guedes e Nuno Canas Mendes O “olho do tempo” Uma abordagem a Teses Sobre a Filosofia da História, de Walter Benjamin Paulo Barcelos O Direito do Trabalho do “Estado Novo” José João Abrantes Cultura, Vol. 23 | 2006 3 Abertura Cultura, Vol. 23 | 2006 4 A espuma do tempo Time Foam Adriano Moreira 1 Quando a Europa atingiu a estabilidade suficiente que pode ser chamada de vida habitual, com cidades capitais a dispensar as Cortes de serem itinerantes, salvo uns intervalos frequentes das guerras internas e internacionais, o estatuto dos Embaixadores enriqueceu-se de prestígio social, com expressão na residência que honrasse o país de origem, circulando íntimos pelas elites políticas, militares, e culturais, observando, pensando, e transmitindo as conclusões, as prevenções, e os conselhos aos respectivos governos. 2 A tradicional centralização da direcção da política externa, acoplando a responsabilidade militar, fazia dos embaixadores os olhos do Rei, e muitos deixaram textos de presença indispensável no estudo e meditação da evolução da conjuntura internacional, das variações do conceito estratégico nacional ao longo dos tempos, dos pontos fortes e fracos do desempenho do Estado perante a incerta tabela dos acidentes e desafios da política. 3 A complexidade crescente da rede mundial de dependências, e o tempo acelerado da mudança, ultrapassaram as capacidades, as rotinas, e a criatividade dessas estruturas, que se tinham arquitectado em tempo demorado, os Estados perderam de regra a eficácia do modelo da centralidade da direcção, e, sem grande diferença qualitativa entre poderosos e pequenos, multiplicam, por todas as áreas das competências que guardam, os centros de intervenção que se articulam em redes internacionais, sem que isso tenha necessária réplica em redes internas que mantenham a corrente da informação entre todos. 4 Na defesa, nas finanças, na economia, na cultura, na ciência, na educação, nas instituições financeiras do Estado, as responsabilidades, que exigem percepção e prospectiva, multiplicam as linhas de acção, as quais se cruzam com homólogas emergências vindas da sociedade civil, também esta a multiplicar as redes privativas que traçam os modelos transfronteiriços da vida contratualizada, redes que se enlaçam em centros de diálogo, de exigência, e de acomodação, tendo por interlocutor o Cultura, Vol. 23 | 2006 5 surpreendido Estado, por vezes o reverente Estado, algumas vezes o inferiorizado Estado. 5 Por tudo, não apenas o aparelho diplomático secular tem dificuldades sérias em assegurar métodos e capacidades de controlo global, com embaraços que nascem, entre mais causas, da deficiência de modelações jurídicas, de práticas que criam uma espécie de soft low que embaraça a racionalidade, da concorrência de uma variedade de interventores políticos com reverências hierarquizadas, tudo dando por vezes a impressão de que a multiplicação e velocidade das intervenções se transforma numa espuma dos tempos que a natureza das coisas vai pontuando de emergências, que sugerem a responsabilidade de um Deus desconhecido. 6 Os perigos do holocausto nuclear foram reconhecidos de longe, os tratados de salvaguarda multiplicaram-se, as diplomacias afadigaram-se, os serviços de informação foram sofisticados, as instâncias internacionais reuniram colectivos vigiados pelos meios de comunicação mundial, e subitamente as novas potências nucleares desvendam-se, as movimentações diplomáticas ganham novo ímpeto, a espuma dos tempos avoluma-se, e a natureza das coisas faz saber a dimensão da perigosa realidade que se foi estruturando. Entretanto, os Chefes das diplomacias, incluindo os dos Estados mais poderosos, vão de capital em capital, de conferência em conferência, de declaração em declaração, circulando pelo globalismo cujas debilidades não os responsabilizam apenas porque as não previram, a correr e a pensar, por esta criticável ordem, de acordo com a leitura imposta pela corrente ininterrupta de desmentidos, de correcções, de aditamentos. Martin Luther King sintetizou: "A cobardia pergunta – é seguro? O oportunismo pergunta – é político? A vaidade pergunta – é popular? Mas a consciência pergunta – está certo?" (in Madeleine Albright, Os poderosos e o Todo- Poderoso, Lisboa, pág. 63). 7 Pregadores da urgência da verdade no exercício da política como foi Ana Arendt, e da importância do diálogo como sustentam todos, dificilmente podem conciliar-se com o panorama desta época que se pretende que seja da informação e do saber, longe também da sabedoria que invocaram. 8 Inverter o ritmo, isto é, regressar ao modelo de pensar antes de correr, exige uma profunda remodelação dos aparelhos diplomáticos, de modo que a coordenação volte a ser um valor reconhecido, não apenas pela filosofia de governo de cada Estado, também pela dos grandes espaços em que os Estados se articulam. 9 No caso de ser possível, sem agravo, usar um exemplo, com modéstia académica, talvez exija exame e meditação o exercício de diplomacia internacional de que é agente o responsável pela política externa e de segurança da União Europeia, franciscanamente sorridente em todas as circunstâncias, em nome de uma realidade virtual, agitando a espuma do tempo, enquanto a natureza das coisas, que há séculos bateu à porta de Bizâncio, que há menos séculos bateu à porta de Viena, bate agora a todas as portas do Ocidente. 10 Nesta circunstância, evidenciou-se outra novidade desafiante do método diplomático. Trata-se de a comunicação social antecipar a formação da opinião pública antes que os governos recebam a informação diplomática necessária e possam intervir, evitando recorrer ao método da teatrologia, ao exagero da mentira real, pondo em causa a credibilidade diplomática. Cultura, Vol. 23 | 2006 6 11 Em 1977, o professor Schwartzemberg publicou, obtendo grande êxito, um livro intitulado L'État Spectacle no qual advertia que o discurso político tendia para ser substituído pelo que chamou a teatrologia, recorrendo a conceitos importados dessa arte para dar consistência à demonstração. A observação da natureza virtual das lideranças que surpreendia alicerçadas nessa mediatização, parece ter sido o que o encaminhou para, duas décadas mais tarde (1998), de parceria com Roger Gérard, publicar La politique Mensonge. 12 Alguns factos da conjuntura desta entrada do milénio interpelam no sentido de ter presente a advertência que aquelas indagações apoiaram, e avaliar as consequências de a teatrologia política ter violado severamente a tolerância possível para a mentira real que os analistas dificilmente consideram ser evitável na luta pelo poder político e seu exercício, fazendo em todo o caso apelo à prudência. Um facto agravado pela circunstância de a opinião pública se encontrar por vezes alienada a sistemas de comunicação vinculados a interesses dominantes. 13 É possível que o exercício da primeira Guerra do Golfo tenha mostrado alguma realidade do que se passava no terreno, mas a audiência foi subordinada à teatrologia adoptada. A segunda Guerra do Golfo cada vez mais se desvenda como apoiada num exercício retórico que tratou com descaso a recomendada prudência dos pragmáticos de não exceder a mentira razoável, um excesso neste caso denunciado
Details
-
File Typepdf
-
Upload Time-
-
Content LanguagesEnglish
-
Upload UserAnonymous/Not logged-in
-
File Pages297 Page
-
File Size-