
UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA FACULDADE DE TEOLOGIA MESTRADO INTEGRADO EM TEOLOGIA (1.º grau canónico) ANDRÉ FILIPE GOMES BEATO nº114112006 A Igreja Católica e o Movimento Ecuménico: da Conferência de Edimburgo ao II Concílio do Vaticano (1910-1965) Dissertação Final sob orientação de: Prof. Doutor Paulo Fontes Lisboa 2018 «Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo, e por eles totalmente me entrego, para que também eles fiquem a ser teus inteiramente, por meio da Verdade. Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me destes, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim». (Jo 17, 18-23) 2 Resumo O aparecimento do Movimento Ecuménico em 1910, em meio protestante, é fruto do desejo de unidade entre cristãos de várias Confissões, nos finais do século XIX e princípios do século XX. A divisão dos cristãos, escândalo para o mundo que compromete a credibilidade da mensagem evangélica, despertou neles a urgência do diálogo para derrubarem as barreiras da divisão, de modo a concentrarem-se no anúncio do único e mesmo Senhor Jesus Cristo. A Igreja católica apresentou algumas dificuldades em reconhecer o Movimento Ecuménico Moderno e, por isso, inicialmente teve uma atitude oficial de resistência. Paulatinamente, foi percorrendo um caminho de abertura, ainda que lentamente, ao longo dos vários pontificados. Porém, surgiram no seio da Igreja católica algumas personalidades que foram pioneiras na causa ecuménica, que perceberam a urgência do ecumenismo e, neste sentido, desenvolveram iniciativas particulares que contribuíram para a construção e consolidação das bases ecuménicas dentro do catolicismo. Só a partir do II Concílio do Vaticano, nomeadamente com o Decreto Unitatis Redintegratio, é que a Igreja católica mostrou uma nova atitude perante o Movimento Ecuménico Moderno e procurou, num espírito de renovação, uma nova fundamentação relativamente à práctica do ecumenismo. PALAVRAS-CHAVE: Movimento Ecuménico; Ecumenismo; Igreja católica; Atitude católica; Posições do Magistério; II Concílio do Vaticano; Decreto do Ecumenismo; Unitatis Redintegratio; Igrejas e Comunidades eclesiais. Abstract The arising of the Ecumenical Movement in 1910 in the midst of protestant Christianity is the fruit of a desire of unity between Christians from different denominations, which rose in the end of the XIXth and beginning of XXth century. The division of Christianity, seen as a scandal to the world for compromising the credibility of the message of the Gospel, awoke the urgency of dialogue as a way to overturn the barriers that caused division, so as Christians would focus on proclaiming one and the same Lord Jesus Christ. The Catholic Church initially resisted in recognizing the Modern Ecumenical Movement due to some issues it apparently presented. Nevertheless, progressively she slowly walked towards an acceptance of it, throughout the succeeding pontificates, having pioneer figures in the cause that understood the urgency of the matter. Some initiatives contributed to the building and consolidation of this ecumenical basis within Catholicism. It was only with the Second Vatican Council, specifically with the decree Unitatis Redintegratio that the Catholic Church officially showed a new attitude towards the Modern Ecumenical Movement and sought new grounds for ecumenical practices. KEYWORDS: Ecumenical Movement; Ecumenism, Catholic Church, Catholic Attitude, Magisterial stands, Catholic Pioneers, Second Vatican Council, Decree on Ecumenism, Unitatis Redintegratio, Churches and Ecclesial Communities. 3 Siglas CEI - Conselho Ecuménico das Igrejas UR - Decreto sobre o ecumenismo Unitatis Redintegratio, do II Concílio do Vaticano. 4 Introdução A presente dissertação insere-se no âmbito da conclusão do Mestrado Integrado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, no campo da Teologia histórica. O que nos levou a escolher este tema foi o gosto pela temática ecuménica, não só pelo facto de ser uma das questões que mais marcou a vida da Igreja no século XX, mas também porque o ecumenismo, apesar da sua complexidade se mantém tarefa atual nos dias de hoje. A história do Cristianismo está marcada por cismas, que ao longo dos séculos dividiram os cristãos em inúmeras Confissões. As divergentes hermenêuticas doutrinais, as querelas políticas e as diferentes tradições religiosas contribuíram para a divisão da Cristandade. Essas cisões causadas acentuaram ainda mais as diferenças entre elas, originando em muitos momentos da história as chamadas guerras de religião, que deixaram marcas profundas, quer a nível material quer a nível psicológico. Marcas que incentivaram a construção de preconceitos, que levantaram barreiras de ódio e muros de incompreensões, dificultando assim, cada vez mais, o encontro e o diálogo entre os cristãos, que passaram a viver lado a lado e de costas voltadas. O Movimento Ecuménico Moderno1, que nasce em meio protestante, foi consequência do caminho percorrido por muitos cristãos em ordem à reconstrução da unidade perdida, principalmente nos finais do século XIX, princípios do século XX. Não que antes os cristãos não tivessem trabalhado pela unidade, mas porque neste tempo moderno, marcado pela crescente secularização, pelo confronto com a situação de diversidade religiosa em contexto missionário e pela necessidade de um aprofundamento doutrinal, a divisão entre as grandes tradições e Confissões cristãs tornou-se numa questão teológica e eclesial, levando algumas personalidades a tomaram consciência do escândalo da situação em que se encontravam. Afinal não estavam a ser fiéis à mensagem de Jesus, que antes de se entregar à morte, tinha rezado ao Pai pela unidade dos seus discípulos. Sabemos que a Igreja católica teve algumas resistências em entrar no Movimento Ecuménico. A atitude que adotou nem sempre foi a mesma, mostrando-se inicialmente numa atitude de reserva e recusa. Porém, não deixou de percorrer um caminho, ainda que longo, de abertura e entrada no ecumenismo, concretizado plenamente só com o II Concílio do Vaticano. Aqui, quando falamos em «atitude» perante a tarefa ecuménica teremos que ter em conta dois planos: a atitude por parte da autoridade magisterial, a atitude dita oficial, e a atitude por parte de algumas personalidades e setores específicos, que a título pessoal, ou seja, 1 Quando aqui referimos Movimento Ecuménico «Moderno», queremos assinalar as iniciativas plurais levadas a cabo por muitas personalidades nos finais do século XIX e princípios do século XX. No corpo do trabalho utilizaremos apenas «Movimento Ecuménico». 5 não oficial, entraram desde o início na causa ecuménica e contribuíram para a construção e consolidação das bases ecuménicas no seio do próprio catolicismo. Com este trabalho, o nosso objetivo não é explorar a história do Movimento Ecuménico. O que pretendemos apresentar é a atitude da Igreja católica, ou seja olhar para o caminho que a Igreja católica foi fazendo em ordem à sua participação e entrada oficial no dito movimento. Porém, será necessário apresentar alguns elementos históricos do Movimento Ecuménico, como simples contextualização. Neste sentido, optamos por delimitar o trabalho no período temporal entre 1910 e 1965, isto é, desde a Conferência de Edimburgo, que é considerada o marco oficial do Movimento Ecuménico moderno até ao termo do II Concílio do Vaticano. Optámos por dividir o trabalho em três partes. Na primeira parte, procura-se apresentar a génese e desenvolvimento deste Movimento Ecuménico, dividido em três capítulos: desde as suas origens, aos fatores determinantes para a sua consolidação como movimento e o caminho percorrido até à constituição do Conselho Ecuménico das Igrejas. Não desenvolvemos muito esta parte, pois não é este o nosso foco essencial. Contudo, é indispensável expormos, ainda que brevemente, alguns dados, que nos ajudarão depois a perceber quais foram os dinamismos do ecumenismo moderno e entrar na segunda parte. Na segunda parte, como núcleo de todo o trabalho, pretendemos olhar para as atitudes e posicionamentos da Igreja católica em face do Movimento Ecuménico. Esta parte está dividida em três capítulos: um primeiro sobre as iniciativas católicas que a nível particular foram surgindo, bem como algumas instituições e centros ecuménicos mais relevantes; um segundo capítulo onde são apresentados algumas das personalidades católicas que se destacam pela sua paixão ecuménica e um terceiro capítulo onde é exposto a posição adotada por parte dos Papas, que exerciam então no catolicismo a autoridade doutrinal suprema entre Concílios. Na terceira parte, procuramos expor precisamente o significado do II Concilio do Vaticano para a atitude ecuménica da Igreja católica: concentrar-nos-emos no Decreto sobre o Ecumenismo - Unitatis Redintegratio - analisando em síntese a mudança doutrinal fundamental adotada pelo texto conciliar, bem como alguns pontos a ter em conta da prática católica no ecumenismo. 6 PARTE I Génese e desenvolvimento do Movimento Ecuménico Apresentado o objetivo da presente dissertação, não podemos observar nem refletir sobre a posição da Igreja católica perante o Movimento Ecuménico, sem previamente olharmos para os antecedentes que levaram à sua génese. Assim,
Details
-
File Typepdf
-
Upload Time-
-
Content LanguagesEnglish
-
Upload UserAnonymous/Not logged-in
-
File Pages129 Page
-
File Size-