República E Patrimonialismo

República E Patrimonialismo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA REPÚBLICA E PATRIMONIALISMO a publicização do privado e a privatização do público no Brasil Rozenval de Almeida e Sousa 1 Rozenval de Almeida e Sousa REPÚBLICA E PATRIMONIALISMO a publicização do privado e a privatização do público no Brasil Tese de Doutoramento apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação do prof. dr. Paulo Henrique Martins. RECIFE – PERNAMBUCO 2005 2 S725r Sousa, Rozenval de Almeida e República e patrimonialismo: a publicização do privado e a privatização do público no Brasil / Rozenval de Almeida e Sousa. – Recife: O Autor, 2005. 212 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), 2005. Inclui bibliografia. 1. Sociologia. 2. Patrimonialismo. 3. Corrupção. 4. Cultura Política. I. Título. 301 CDD (22.ed.) UFPE/BCTG/2007-003 3 BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Paulo Henrique Martins - UFPE - ORIENTADOR Prof. Dr. Josimar Jorge Ventura de Morais - UFPE - Profª. Drª Eliane Veras Soares - UFPE - Prof. Dr. Michel Zaidan - UFPE - Prof. Dr. Marcio de Matos Caniello - UFCG - 4 5 6 Para Susana, Mariana e Paula AGRADECIMENTOS A todas as pessoas aqui citadas a minha infinda gratidão por seus gestos imensuráveis para o feitio desta Tese: - José Rodorval Ramalho - Jonas de Vasconcelos Aguiar - Maria Assunção de Vasconcelos Aguiar - Peter Malcom Keays - Gilvano Vasconcelos Neves Pereira - Ivancy Raimundo da Silva - Paulo Roberto de Brito Rocha - Josias de Castro Galvão 7 RESUMO O tema deste trabalho é a tradicional lógica privatista presente no Estado brasileiro desde a sua fundação e que se reproduz ao longo do período republicano, acomodando-se às diferentes fases da modernização nacional. Neste estudo, desenvolveremos uma compreensão sociológica de uma das facetas desta lógica, aquela conhecida na usança do senso comum como corrupção, isto é, malversação do Erário, tráfico de influências e trocas de favores políticos na arena pública. Trata-se, portanto, de um estudo que toma como referencial empírico casos de redes de corrupção na esfera do Poder Executivo Federal que vieram ao conhecimento público na recente história política do Brasil, período que compreende os anos relativos à campanha e ao mandato do presidente Fernando Collor de Mello (1989 – 1992). A predileção pelo Governo Collor deve-se ao fato de que os acontecimentos desse interstício da nossa história política permitirem um entendimento sobre a força do patrimonialismo e de sua capacidade de se atualizar ao longo dos tempos e no momento presente de vida política brasileira. O nosso intento nesta investigação é compreender a forma e a razão da circulação de corrupções na administração pública. Assim, para desvendar o processo pelo qual a corrupção se dá dentro das iniciativas das agências do Estado faz-se necessário lançar-se a uma aventura sociológica que permita compreender a cultura e os valores da sociedade brasileira, e, a partir disso, explicar o sentido da apropriação da “coisa” pública pelos interesses privados. Destarte, a questão central de nossa investigação gira em torno do padrão ético que regula a cultura política brasileira, tanto ao longo da história da nossa formação social como mais especificamente no contexto desse recente período da vida social brasileira. Procuraremos, assim, analisar o seguinte problema: como explicar a constatação de que o Estado brasileiro controla a “coisa” pública por meio de uma lógica privada, ou seja, a lógica privada impera sobre o interesse público devido a sua capacidade de tornar público o seu interesse privado? A questão de fundo de nossa investigação é saber qual é o lugar da tradição e qual é o lugar da modernidade na cultura política brasileira. E para que possamos compreender sociologicamente o dilema da relação entre público e privado no Estado, é necessário, também, responder a estas questões: existe, de fato, um código ético predominante na cultura política brasileira, ou este código varia de padrão de acordo com a conjuntura histórica? As éticas pessoalizante e individualizante convivem na sociedade brasileira através de complementaridades, contrastes, ou oposições? A troca e a reciprocidade são traços institucionalizados no modo de vida político do Brasil? Que papel tem desempenhado o código ético da racionalidade individualista que regula as condutas liberais e democráticas na cultura política brasileira? O código ético baseado no indivíduo é totalizado pelo código ético pautado na pessoa? PALAVRAS-CHAVE: PATRIMONIALISMO, CORRUPÇÃO, CULTURA POLÍTICA. 8 ABSTRACT This work is about the traditional private sphere logic, which is part and parcel of the Brazilian State since its foundation, reproduced throughout the republican period, and embedding itself in different phases of the nation’s modernization. In this study, we will develop a sociological approach for one aspect of this logic, namely, corruption. What we mean by “corruption” is the misuse of the treasury, spread of corrupt influence, and the trading of political favors in the public field. Furthermore, this is a study that takes as an empirical reference cases of corruption networks in the Federal Executive branch of government which came into the public eye in the recent political history of Brazil, a period which includes the years of President Fernando Collor de Mello’s campaign and mandate (1989-1992). The choices made by the Collor Government are owed to the fact that the events of this period of our history permit an understanding of the force of patrimonialismo (“patrimonialism”), and the ability this has to renew itself along time, and the present moment of Brazilian political life. Our intention in this investigation is to understand the forms and reasons for corruption circles in our public administration. As such, in order to discover the process by which corruption has its part within initiatives made by state agencies, it becomes necessary to begin a sociological adventure, which permits an understanding of culture and Brazilian social values, and, moreover, giving us a sense of the appropriation of the public “thing” (coisa) by private interests. Thus, the central question of our investigation revolves around the ethical model regulating Brazilian political culture, along the history of our social formation, and more specifically in the context of the recent period of Brazilian social life. Hence we will look at analyzing the following problem: how does one explain the evidence produced by the Brazilian State´s control of the public “thing” by means of a private logic; or in other words, how does private logic reign over public interests, in view of its capacity to turn public its private interests? As a matter of fact, the background question of our investigation is to know what place tradition and modernity have in Brazilian sociability. The analysis is directed towards reciprocity between actors and exchange systems, amongst themselves and their institutions. And because we want to understand sociologically the dilemma of the relationship between public and private in the State, it also becomes necessary to respond to the following questions: does there exist, in fact, a predominant ethical code in Brazilian political culture, or does this vary its model according to the historical context? Personalizing and individualizing ethics live together in Brazilian society through complementarities, contrasts, or oppositions? Are exchange and reciprocity institutionalized traits of the political way of life in Brazil? What role has the ethical code, regulating liberal and democratic conduct of individualist rationality, developed in Brazilian political culture? Does the ethical code based on the citizen find its totality in the ethical code formed by the person? KE-WORDS: PATRIMONIALISM, CORRUPTION, POLITICAL CULTURE. 9 ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ Moinhos de versos movidos a vento em noites de boemia Vai vir um dia em que tudo eu diga seja poesia - PAULO LEMINSKI - ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ 10 ÍNDICE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 01 Tema ........................................................................................................................................ 01 Corrupção como tema de interesse sociológico ...................................................................... 05 Questão sociológica: a força da tradição privatista ................................................................. 09 Referências teóricas do debate ............................................................................................... 12 Aspectos metodológicos ......................................................................................................... 27 Estrutura da tese ..................................................................................................................... 29 CAPÍTLO I – Patrimonialismo: questões sociológicas e históricas .................................... 31 1.1 – Patrimonialismo em Max Weber .................................................................................... 32 1.2 – Patrimonialismo no pensamento brasileiro .................................................................... 39 1.2.1 – Visão do patrimonialismo como tradição atualizada ..................................................

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